Vania Abreu

 

Por: Eliane Verbena

Uma mulher inteligente e de forte personalidade. Quando fala, fala para o mundo. Tem visão ampla das coisas e sabe cantar, o que é ainda melhor para quem a escuta. Muito mais do que uma voz suave e linda, uma voz que o Brasil precisa ouvir. Lançou, em 2004, seu quarto CD solo – Eu Sou a Multidão – pela Páginas do Mar e distribuição da BMG. Desde que veio para São Paulo, em 1995, mergulhou seu talento e capacidade de trabalho em uma carreira sólida que segue em linha reta, rumo à arte brasileira. Em entrevista exclusiva ao Alô Música, a baiana Vânia Abreu fala de mercado e produção cultural, da política de Gilberto Gil e da vida pessoal. Conheça um pouco mais desta incrível artista.

Eliane Verbena

 

Eliane Verbena: Oi Vania. Obrigada por aceitar o convite.

Vania Abreu: Imagine… Eu agradeço a oportunidade.

Eliane Verbena: Gostaria de saber como foi e de que forma a música entrou na sua vida. Esta questão é importante para o Alô Música.

Vania Abreu: Não sei ao certo precisar quando e de que forma. Antes de descobrir que podia cantar, fazia dança em uma escola chamada Forma e Movimento e teatro no colégio; a música era a minha inspiração. Devo a duas professoras o convívio com a arte: Ângela e Fernanda. A primeira tocava acordeon e nossas aulas eram regadas de canções. A outra, Fernanda, nos ensinava a produzir, criar com materiais etc. Nas apresentações de trabalhos na escola, podia até ser de matemática, inventava uma forma de colocar música e algo artístico. Sentia, desde pequena, necessidade de utilizar a arte para falar. A música era o ponto de partida.

Eliane Verbena: Você se lembra das músicas que escutava nesta época? O que gostava de cantar?

Vania Abreu: Não tive uma ambiência em casa que propiciasse um convívio muito grande com a música, principalmente música brasileira. Meu pai sempre foi um grande ouvinte, mas escutava ópera, música clássica e cantores como Nat King Cole, Frank Sinatra… Nesta época, cantava junto aos discos de amigos, que tomava emprestado, como Milton Nascimento, Gal Costa e Boca Livre. Gostava de cantar o que tinha acesso.

Eliane Verbena: Falando de carreira, o que foi difícil pra você na Bahia e o que é difícil fora da Bahia?

Vânia Abreu: Na Bahia, o mais difícil era pensar em repertório. Existe uma formação de público muito sutil, preparada para ser chamada à atenção, que gosta muito da alegria e isto dificultava imaginar a escolha de um repertório sem liberdade. Tudo poderia parecer muito intelectual ou muito popular, uma MPB quase de barzinho, com músicas já conhecidas. Era difícil imaginar o que eu poderia experimentar. Sentia-me presa por saber que existem conceitos pré-formados pelo público e pela classe empresarial que poderiam tachar, sem ao menos me dar oportunidade de tentar, em algo sem futuro, sem sucesso, sem chance. Lá só existe espaço para o mercado.

Eliane Verbena: Curioso… E São Paulo?

Vânia Abreu: Aqui em São Paulo a dificuldade é oposta. Você pode ser o que quiser que há público para te entender, gostar do que canta, mas sua carreira pode ficar estacionada no chamado circuito cultural, sem chances mercadológicas, como algo que só uma cidade como São Paulo pode compreender.

Eliane Verbena: Você acha, então, que é difícil realizar (não impossível, veja bem…) um trabalho de caráter artístico mais universal, na Bahia? Ou, talvez, uma música brasileira sem rótulos…? Refiro-me a estas dificuldades em realizar um trabalho sem a liberdade de repertório que citou.

Vânia Abreu: Acho que uma cidade como Salvador, melhor dizendo, tem uma força inventiva enorme, que supera qualquer previsão. Mas, entendo que a cidade, por ter tanta força em suas coisas, por ter ainda tão forte, inclusive em tempos de globalização, suas características mais primitivas, torna-se fechada a outros tons. Ao mesmo tempo guarda o paradoxo da super valorização do que vem de fora. É dúbio.

Eliane Verbena: Interessante isto. Achei que houvesse uma certa resistência lá ao que vem de fora….

Vânia Abreu: Até hoje gasto muitas horas do meu tempo com meus amigos baianos, tentando entender o que Salvador deseja, como entende as coisas. Sinto, por exemplo, que sou muito querida em Salvador, mas ao mesmo tempo tenho certeza que não poderia ter começado a desenhar o que sou, lá!

Eliane Verbena: Sua música é brasileira, mas é a música de Vania Abreu. Ninguém canta como você as músicas que interpreta. Não dá pra rotular… MPB, pop, bossa, balada. Tudo é muito sutil, é Vania do Brasil, não é? Você conseguiu ser o que pretendia quando saiu de Salvador?

Vânia Abreu: Sim. Principalmente porque consegui fazer uma história para mim, desenhar um estilo, formar repertório etc. Eu vim sozinha e estou sozinha, sem movimentos, grupos a pertencer… Sem geração. Consegui ser o centro da minha própria história.

Eliane Verbena: Que bom que se sente assim. Então me diga qual é a maior dificuldade que vê no Brasil para se mostrar um trabalho de qualidade ao grande público? Gostaria de saber o que pensa a respeito disto.

Vânia Abreu: São muitas.

Eliane Verbena: Pode ir só nas principais…rs.

Vânia Abreu: Em primeiro lugar, faço uma análise da realidade social. O Brasil tem muitos abismos, desigualdades. Muitas cidades não têm teatro, biblioteca, escola. Quando falamos de cultura, falamos de convívio. É preciso fazer com que as pessoas se habituem a ouvir muitas e diferentes músicas, a ler livros, a alargar a alma. É preciso que existam condições para realização de shows e isso só acontece em poucas cidades, visto o tamanho do nosso país. Só aí já temos uma redução drástica para fazer a cultura girar, circular, com a mesma qualidade.

Eliane Verbena: Sem a menor sombra de dúvida

Vânia Abreu: Quanto ao nosso mercado, aquele que fica por trás do público, é preciso profissionalizar tudo e todos. As gravadoras fazem uma grande ciranda de executivos, os produtores são os mesmos há décadas e os artistas ainda acreditam que podem ser loucos e irresponsáveis. Portanto, o Brasil precisa como um todo amadurecer para respeitar sua cultura. Vou fazer um adendo. Acho também que nem toda música que está fora do mercado, necessariamente, o está por ser de boa qualidade. Este discurso de quê o que é bom não toca, é mentiroso. Parece que quem está fora é injustiçado e precisa de um herói. MPB não é sinônimo de qualidade. Venho dizendo isto há muito tempo.

Eliane Verbena: Concordo com você. Isto é discurso usado para justificar, muitas vezes, o fracasso e a falta de resposta do trabalho.

Vânia Abreu: Temos que ser responsáveis pelo que fazemos, pelo que criamos, sem desculpas e sem culpas a terceiros. Os artistas precisam entender de mercado, sim. Compreender se sua música interessa. A quem? Por quê?… Qualquer produção artística deve interessar aos outros e não somente a si mesmo, senão vira discurso egoísta, só falar de si próprio… Esta é forma de entender como o mercado funciona.

Eliane Verbena: Acho que cada um tem que fazer sua história, com gravadora, sem gravadora, com produtor, sem produtor. Porque quem fica esperando não vai a lugar nenhum…

Vânia Abreu: Pois é. Este é o desafio do nosso tempo.

Eliane Verbena: Acha que o Gilberto Gil vai ficar na história político-cultural do Brasil de que forma?

Vânia Abreu: Gilberto Gil já está em nossa história política porque sempre falou das desigualdades, das injustiças; sempre usou, de forma criativa e competente, suas canções para nos fazer pensar sobre a nossa realidade. Sua música não precisa de uma pessoa como eu para falar de sua beleza. Quanto à sua passagem pelo Ministério, só reitera seu desejo e empenho por mudanças. Acredito que tenha sido uma decisão difícil, pois o povo brasileiro, apesar de caloroso e alegre, é duro com os seus e pode rasurar, para alguns, sua imagem como artista por causa de seu engajamento político. Para mim, Gil será sempre um exemplo, alguém a servir como referência musical por todo o sempre.

Eliane Verbena: Alguém que construiu uma história musical como Gil, que tem a musicalidade e o talento que conhecemos não pode ser apagado por um ministério, por uma fração do que é a política.

Vania Abreu: O brasileiro é estranho, neste sentido. Destrói (por muito pouco) pessoas que jamais poderiam ser esquecidas ou subestimadas.

Eliane Verbena: Esta pergunta foi importante para que as pessoas saibam o que Vania Abreu pensa. Porque eu, nas poucas vezes em que estive com você, pude perceber a clareza de pensamento e a visão que tem da nossa cultura.

Vania Abreu: É que como eu costumo dizer: nem sempre me fazem as perguntas certas… Aquelas em que eu possa mostrar o que sou.

Eliane Verbena: Bom, você está com um CD novinho, Eu Sou a Multidão. É Lindo e estou ouvindo-o agora. Como faz a seleção de repertório? O que gosta de cantar?

Vania Abreu: Bom, quanto à seleção de repertório, como quase tudo na vida, oportunidade e escolha. Tenho acesso há alguns compositores (digo alguns porque não são muitos) e desses recebo e, como digo, reservo canções que me tocam em melodia e letra. Tento dar a elas um sentido dentro de um disco, buscar um cenário, um pano de fundo para que se encontrem em uma cena. Seleciono depois de experimentar cada canção, sentir o sabor dela em minha boca, se posso cantá-la, se faz sentido, pensando no que fica comigo de cada uma.

Eliane Verbena: Eu tentava entender uma sensação que seu disco me causou e não sabia o quê. Acho que é isto: a cena, o cenário, o sentido..

Vania Abreu: Bom, o que gosto de cantar? O que sinto que posso dizer a alguém.

Eliane Verbena: Tem preferência por algum ritmo ou estilo ou a canção pode vir de qualquer fonte?

Vania Abreu: Não. Pode vir de qualquer fonte. Volto a dizer: tenho alguns amigos compositores que confiam a mim suas canções. Esta confiança é também muito para uma interprete. Conheci grandes canções inéditas que não pude gravar, por terem sido dadas, posteriormente, a interpretes mais maduras, conhecidas. Gostaria de gravar Chico Buarque, Caetano Veloso, mas gostaria de gravar canções inéditas deles (olha a minha arrogância!) e belas, feitas para mim de preferência, já pensou que maravilha?

Eliane Verbena: Não é arrogância…….

Vania Abreu: Gosto de inéditas, de construir repertório próprio.

Eliane Verbena: E como é uma cantora cheia de personalidade e força (embora de longe pareça frágil… rs…) ser casada com um compositor e também cantor? Ele (Marcelo Quintanilha) também cheio de personalidade, sem falar no talento de ambos, porque isto não é problema, não é mesmo?

Vania Abreu: Às vezes é… rs… é muita personalidade. Eu tenho um jeito de fazer as coisas e ele outro, o fato de sermos marido e mulher na mesma profissão nos leva a conversar demasiadamente sobre todas as coisas. E gera interferências… Mas, na hora H nos respeitamos e deixamos a discussão. O resto do convívio é maravilhoso e intenso, exatamente por eu ter alguém que sabe tão bem o que sinto e vice-versa.

Eliane Verbena: Fora o Chico Buarque e o Caetano Veloso, citados na conversa, que outros compositores lhe preenchem como cantora, fazem a música que quer cantar?

Vania Abreu: Poxa, isso é muito relativo, porque às vezes o compositor produz menos, tem grande oscilação de composição e, dentro desta oscilação, também existe a minha imperfeição, que nem sempre sei perceber todas as canções que escuto ou não estão na mesma sintonia da minha busca. Mas, para falar dos que gosto, gosto daqueles que gostam de mim como interprete. Que têm confiança em mim.

Eliane Verbena: Vamos falar do CD?

Vania Abreu: Vamos.

Eliane Verbena: Ele (Eu Sou a Multidão) tem o resultado que buscou? Como é a parceria com o Paulo Dáfilin?

Vania Abreu: Talvez a mais bela e longa parceria artística que já tive. Paulinho é sensível, competente e preparado musicalmente. Tem sido meu parceiro. Ele apóia minhas idéias. Pensamos de forma parecida e isto ajuda a escolher caminhos. Quanto à direção, ele pensa em mim, na forma como canto. Vou pontuando o quero fazer e escolhemos tom, andamento e arranjo… tudo fazemos juntos. Ele me respeita como criadora e cantora. Não pensa nele.

Eliane Verbena: Talvez por isso os seus discos tenham um resultado tão bonito…

Vania Abreu: Certamente. E a banda é a mesma, há sete anos. Todos se conhecem há muito tempo e são amigos de infância. Isso colabora para uma convivência cheia de prazer e alegria. Somos um bando, não uma banda.

Eliane Verbena: Vania, você uma cantora de reconhecido talento com uma das vozes mais lindas da nossa música… Aonde você quer chegar com o seu canto? Qual é a maior expectativa ou não é nada tão complicado assim…?

Vania Abreu: Acho que não é nada tão complicado assim. Mas confesso que a ambição de querer mais é saudável. E quero mais mesmo, quero cantar melhor, fazer shows… e muitos… e sempre com um bom som (isto já é pedir muito, né? rs…). Quero construir uma carreira que me dê a certeza de que possa viver de música até o final da minha vida. O meu canto deve estar a serviço deste sonho de ajudar o mundo a ser melhor.

Eliane Verbena: Não é pedir muito não… O seu canto já faz melhor o mundo que você encanta…rs… É sincero. Um dia o Pena Branca me disse algo mais ou menos assim (sobre um CD lindo que tinha lançado com Xavantinho): “o mais difícil agora vai ser fazer outro disco melhor do que este, porque temos que fazer sempre algo melhor do que já fizemos”. Não é bonito e verdadeiro?

Vania Abreu: É lindo! Aliás, sempre tenho medo de não conseguir fazer outro disco. E acho bom ter medo, porque medo no lugar certo nos obriga a nos prepararmos para o desafio próximo. É preciso dedicação, horas de trabalho para fazer alguma coisa.

Eliane Verbena: Isto deve justificar o fato de que a arte se faz com muito trabalho e seriedade, não é só talento. Dos discos que gravou, qual deles te representa mais ou é o mais importante na sua vida?

Vania Abreu: Acho que cada um marcou de um jeito. Mas diria que (como uma boa geminiana) foram o Seio da Bahia e EU Sou a Multidão, certamente. Ambos se completam, fecham um ciclo.

Eliane Verbena: Explica o ciclo …

Vania Abreu: Ciclo de sair e estar. Um fala de memória do que remete a si mesmo, de como você aprendeu a ver o mundo, como sonhou. O outro fala da realidade, de estar num tempo e o desafio dele, de enfrentar a realidade, de olhar para ela e desfazer sonhos para reconstruí-los.

Eliane Verbena: Virando o disco, você é uma pessoa muito urbana? Como é a Vania Abreu fora do palco e dos estúdios?

Vania Abreu: Muito difícil responder… rs…

Eliane Verbena: Conta um pouquinho. Você organiza reuniões, que eu sei, saraus… O quê a diverte mais?

Vania Abreu: Tenho muitos papéis. Faço questão de separá-los. Adoro ser dona-de-casa, cuidar da organização, do cardápio, da decoração. Gosto de cuidar do jardim, de cuidar das filhas: levar na escola, dar banho, conversar com a mais velha… Adoro minha vida com meu marido. Vivo para minha família e para minha carreira. Tento cumprir estes papéis com naturalidade, sem perder a noção do que devo ser em cada lugar. Melhor dizendo, do que gosto de ser. E gosto de cumprir meus papéis com capricho. Adoro meus amigos, de estar com eles. Bom, vou ficar falando um monte…

Eliane Verbena: Você canta, informalmente, enquanto realiza tarefas cotidianas?

Vania Abreu: Não. Só gosto de cantar no microfone. Adoro o palco, as luzes; me sinto em casa nele. Gosto de escutar, de tirar as músicas (aprender), mas gosto de cantar com som.

Eliane Verbena: Faz sentido.

Vania Abreu: Me sinto protegida para me emocionar, acredita nisso?

Eliane Verbena: Piamente. Juro que entendo… rs.. E para terminar a entrevista, o quê você gostaria de dizer que não abordamos?

Vania Abreu: O quê gostaria de dizer? Esta pergunta, eu poderia usar pra muitas coisas… Mas diria a você que o que eu gostaria de dizer, necessariamente, queria que fosse dito, não pela minha boca… rs.

Eliane Verbena: Isto pode ser muita coisa… Fica para a imaginação dos internautas. E eu posso dizer que você é uma pessoa muito especial, que a sua arte, certamente, vai se espalhar por aí e contribuir para um mundo melhor ou, pelo menos, para momentos melhores na vida de muita gente.

Vania Abreu: Obrigada, querida. Vamos deixar que os internautas pensem.

Eliane Verbena: Obrigada, Vania, pela entrevista, pelo tempo que me dispensou. Tenho certeza que o Alô Música terá imensa honra em apresentar um pouco mais de você para o público. Convido a todos a acessarem seu site www.vaniabareu.com.br.

Vania Abreu: Eu é que agradeço pela ótima entrevista, e pelo carinho.

Agosto 2004

Eliane Verbena é poetisa e assessora de comunicação