um mundo em nós

A partir de 14/9/2021, estará em todas as plataformas digitais (e em breve em CD físico) o disco Um mundo em nós, inteiramente dedicado à obra deste escriba. Esteja você lendo este texto antes ou depois dessa data, não deixe de clicar aqui (https://linktr.ee/UmMundoEmNos), pois neste link não há só o pré-save, mas também muitas outras informações sobre o projeto. Abaixo, texto que escrevi acerca da feitura do disco.

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Vez em quando, noto um abalo nas estruturas de minha autoestima; não porque ponha em xeque a qualidade do que faço, mas porque me sinto impotente ante o que esperam de mim alguns parceiros. Não sou famoso, e isso é como se fosse uma espécie de lepra pra alguns. Uma das coisas que mais me desestabilizam emocionalmente é ver algum parceiro dar entrevista e, quando lhe perguntam quem são seus parceiros mais importantes, responder que Y e Z — com quem não fez um décimo das canções que fez comigo, mas, de acordo com seus critérios de avaliação, são mais reconhecidos e, portanto, citá-los pode alavancar sua carreira. E me dói mais porque a recíproca não é verdadeira: sempre que dou entrevistas falo com carinho e admiração sobre eles. “Coisas do mundo, minha nega”, paciência. Ou, como diria minha mãe, “meu filho, nem os dedos das mãos são iguais”; portanto, como eu posso querer que outros ajam como eu?

E, já que estamos numa sessão de terapia, acrescento que outra coisa que me deixa pra lá de triste é quando tenho dezenas de canções em parceria com alguém e esse alguém, na hora de gravar um disco, ignora essas dezenas de canções. Claro, entendo perfeitamente que o cantor de um disco tem todo o direito de escolher as canções que quer gravar e esse é um direito que se deve respeitar. Entretanto, se meus maiores parceiros não falam de mim e não me gravam, é como se eu não existisse, musicalmente falando; é um carimbo de qualidade ao contrário. Daí eu sentir as estruturas de minha autoestima abaladas. Sim, sei que há muitos/as outros/as que me admiram e me gravam, mas nesse caso sou meio como o pastor da parábola de Jesus que, quando perde uma ovelha, larga todas as outras pra procurá-la.

Os dois parágrafos acima (que me mostram como um sujeito com sérios problemas emocionais — um simples humano?) explicam perfeitamente minha emoção tão imensa, como um dique que se rompe e permite que as represadas águas jorrem em abundância pelo território além dos olhos, que foi a que senti quando soube que os queridos Augusto Teixeira e Leo Costa resolveram levar adiante um projeto de disco inteiramente dedicado a parcerias minhas. Afinal, não sou um Aldir, um PC Pinheiro, um Cacaso, um Brant, um Vitor Martins, um ______________ (preencham com o nome de sua preferência)… Não passo de um semianônimo letrista meio ao léu e que, apesar de não ser muito folgado, mora longe pra dedéu.

O projeto, tal como foi concebido, era pra ser muito mais simples e estar finalizado em cerca de três meses. Daí, entrou em campo a generosidade de muitas pessoas, algumas das quais eu nem conhecia, e tal generosidade ainda se acentuou mais com o advento da pandemia, que atrasou tudo, mas deu tempo pra que o disco fosse trabalhado com paciência e meticulosidade e mais pessoas fossem chegando, o que resultou numa produção que contou com um número incrível de envolvidos, desde compositores parceiros, músicos, artistas convidados, até outros profissionais que trabalham nos bastidores de uma produção musical, mas que são imprescindíveis no acabamento final de quaisquer trabalhos, e ainda mais num como este, que atingiu um tamanho com o qual nunca sonháramos. Por isso, faltam-me palavras pra demonstrar o quão agradecido estou a todas essas pessoas, com quem morrerei em dívida.

Aproveitando que já estou aqui nessa terapêutica sessão, gostaria de falar um pouco sobre o processo de seleção do repertório. Tenho milhares de canções em meu baú, então, quando Augusto e o xará Leo me pediram que lhes enviasse um punhado delas, foi-me extremamente difícil escolher umas poucas entre tantas. A primeira coisa que tive em mente foi que as que já haviam sido gravadas estariam naturalmente vetadas, pra dar oportunidade às inéditas. A partir daí, procurei escolher tanto canções com meus parceiros mais recorrentes quanto aquelas de que gosto muitíssimo, mas que, por um motivo ou outro, jaziam esquecidas nalguma nuvem. Atendendo a esses critérios, cheguei a aproximadamente umas 50, que lhes enviei. Depois de exaustiva audição dos dois produtores, tivemos um encontro virtual no qual escolhemos democraticamente as 13 finalistas. Ou seja: aquelas que obtiveram dois votos entrariam automaticamente; sobre as demais, cada votante tentaria “vender seu peixe” e convencer os demais. No final dessa longa conversa, um cedendo daqui, outro de acolá, chegamos ao repertório que agora vocês ouvirão.

É verdade que muitos parceiros ficaram chateados e se sentindo preteridos. E eu, que já passei por isso tantas vezes, sei bem como é esse sentimento; entretanto, num disco de 13 canções não dá pra encaixar centenas de parceiros, né? Àqueles que não tiveram canções no disco, peço desculpas. Tentei agrupar o máximo que pude, e tanto que várias canções são “tricerias”, ou seja, têm três autores. No mais, se com alguns parceiros tenho duas ou três canções e com outros tenho dúzias, nada mais justo que privilegie minha obra com estes e não com aqueles. Lembrando que todos os demais sempre puderam gravá-las e, por sua vez, optaram por não o fazer. Cada um sabe de suas prioridades. E, em defesa própria, finalizo o assunto dizendo que em quase metade das canções que escolhi fui voto vencido. Assim funcionam as democracias. Há que acatar a decisão da maioria.

Paro por aqui, caso contrário não pararei nunca, pois sempre me lembro de algo também importante e merecedor de nota. Tampouco vou citar nomes, pra não ferir egos. Acrescento apenas que essas 13 canções estão divididas entre 18 parceiros (fora eu, que sou coautor de todas) e 17 intérpretes (fora Augusto, que canta em todas), além dos músicos e de outros intérpretes que participaram no coro. Com uma seleção invejável como essa, o resultado só poderia ser o que foi, independentemente da questionável qualidade deste que lhes escreve. E isso não é exercício de humildade, visto que se não gostasse do que faço não estaria nessa estrada há tantos anos (“sou um artista brasileiro”), é a simples constatação de que, por mais que nos esforcemos, nunca agradaremos a todo mundo. A quem não gosta, o que não faltam são opções. E, pra vocês que chegaram até aqui comigo, mais uma vez deixo registrado meu sincero (e sentido) agradecimento.

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PS: Se você passou por aqui antes do dia 14, peço que volte novamente depois desse dia, pois então já teremos disponibilizado o disco pra audição neste espacinho também.

Cuidem-se, e até já!

レオ