Thaís Gulin

 

Por: Solange Castro

Ela está chegando com a corda toda – Thaís lança seu primeiro disco pela Rob Digital,
com um repertório de responsabilidade e com profissionalismo impecável.
Em entrevista exclusiva concedida ao Alô Mùsica, ela nos conta sua história
e sua visão sobre a música brasileira…
Bem vinda, Thaís!

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Thaís – um imenso prazer tê-la conosco…
Você está lançando um disco muito interessante, com vários prismas da nossa música… De onde vem seu interesse pela música?

Thaís Gulin – Oi Solange, olá freqüentadores do Alô Música.
O meu interesse pela música vem desde bem pequena, embora a possibilidade de ser cantora, ou artista, fosse uma fantasia bastante afastada da minha realidade na época. Cantava muito em casa. Tenho umas gravações de quando tinha dois anos, depois seis, e por aí vai… Quando tinha sete anos, ganhei um gravador e passava horas por ali, com ele. A minha mãe ouvia muita música e eu cantava muito com ela. Me lembro bem da gente cantando “O PATO” – que o João Gilberto gravou- quando eu era criança, e ela tocando numa craviola que ela tinha.
E até eu começar a estudar música, com 17 anos, era isso: Ficava lá meio sozinha cantando.
Ah, tinha um órgão na minha casa que eu ficava tirando umas músicas de comercial de televisão e percebi quando comecei a estudar que eu tirava a melodia e inventava umas harmonias também, sem saber que era isso que eu estava fazendo. Então, com 17 anos eu vi uma vizinha chegando no meu prédio com um violão nas costas – acho que foi quando pensei que eu também poderia fazer aquilo – e fui pedir informações a ela. Então me matriculei nessa escola – o nome era Sonata – para estudar violão… e o professor gostou da minha voz e disse para eu estudar canto também. Aí fui. Nessa época acabei gostando mais de violão instrumental do que tocar para me acompanhar. Virei fã do Toquinho, e passei uma ano amando radicalmente a Bossa Nova. Tipo aquelas chatas que renegam as músicas de 3 acordes… rs Mas passou.
Depois dessa escola, fui para o Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba e depois ainda outra escola. Sempre detestei ler partitura. Hoje faço Bacharelado em MPB na Uni-Rio e o sentimento por elas permanece. ?

Solange Castro – Bom, vamos por partes – antes do “detestar partituras”, vem uma outra história…
Você começou a estudar música aos 17 anos – isso é meados para final dos anos 90, quando o movimento MPB vindo desde o início da Bossa Nova, foi assolado pelo “modismo” do Rock – por favor, não estou diminuindo, em momento algum, qualquer ritmo, mas os “modismos” impostos pelas majors começaram afastar a real música brasileira dos brasileiros…
Você nasceu justo quando o massacre das majors começou – depois de “O pato” (patati pataqualá… rs…), quem você ouvia, em casa e pela vida, nos anos 80 e 90?

Thaís Gulin – Olha, nos 80 eu ouvia Balão Mágico!!! (risos) Ouvia bossa nova com a minha mãe e gostava, ouvia Chico com a minha mãe e na época, não gostava (a não ser as que eram para criança)… Eu tinha uns quatro ou cinco anos. Aquelas músicas do Toquinho e Vinícius, Arca de Noé, Aquarela, Caderno…. Enfim, lembro das duas primeiras fitas de música internacional que ganhei aos 7 anos: A-ha e Erasure… (!)

Solange Castro –Sim, era o rock em pauta nas rádios…
Por exemplo, nos anos 80, as músicas para crianças vinham com um formato fantástico – além dessas citadas por você, o “Sítio do pica-pau amarelo”, do Gil, uma maravilha… Mas, já nos finais dos 80, chegaram coisas, digamos, “questionáveis”, do tipo “ilarirarié ô ô ô”…

Thaís Gulin – No início dos 90, ouvi mto Hip Hop e Rap – adorava Gabriel o Pensador, Jazzy Jeff, Sir Mix a Lot, Warren G, etc… Ouvia muito reggae também – Bob Marley, Peter Tosh, the Wailers, Maxi Priest, Steel Pulse. Fui a todos esses shows em Curitiba (claro, fora do B.Marley). Também tive a minha fase sertaneja – Pena Branca e Xavantinho, etc. Ah, é o Sítio do Pica-pau, eu amava! Cheguei a fazer o Saci Pererê no teatro.

Solange Castro – Você fala em rock, pop, reggae, sertanejo… E vem com um disco super eclético, mas, por outro lado, extremamente personalizado… Vamos falar sobre ele já, já – agora me conte: como foi seu início na “profissão” Música?

Thaís Gulin – Como eu disse, comecei a estudar com 17 anos, nessa época fazia faculdade de Administração de Empresas em Curitiba, e também estudava teatro. Com 19 tranquei a faculdade e fui morar um ano na Europa (estava desde os 15 fazendo economia para conhecer o leste europeu e morar na França). Bom, isso para dizer que eu acho que foi a distância de casa que me fez perceber e decidir o que eu realmente queria para minha vida.
Voltei no final de 98, e comecei a cantar na noite (antes eu dava canja com os amigos) e me profissionalizei como atriz. Ainda terminei a faculdade, continuei estudando música e fiquei em Curitiba até março de 2001.
Vim para o Rio, continuei estudando música, trabalhei no teatro, e no início de 2002 comecei a gravar o demo.

Solange Castro –Seu primeiro demo, certo? Qual era o repertório?

Thaís Gulin – É, foi o único demo q gravei. Tinha três músicas, duas dela estão no CD: “A Vida da Outra (Dela) ou Eu” (parceria minha com Rogério Guimarães, minha primeira composição) e “Hino de Duran” (com outro arranjo).

Solange Castro –Isso foi em 2002 – até chegar nesse teu primeiro Disco, pela Rob Digital, como foi a trilha?

Thaís Gulin – O demo foi um processo de um ano. Gravei uma música, parei, gravei outra…. Ainda estava descobrindo o que queria em relação ao repertório, arranjos, instrumentação, timbre, etc. Foi lento. Comecei a fazer shows esporádicos em 2002. Terminei o demo em 2003, fiz uns shows num projeto do Teatro Café Pequeno – então, a banda era baixo acústico, percussão, violão/guitarra, samplers. No ano seguinte, fiz vários shows por aqui, ainda com a mesma formação até o meu último show – março de 2005 no Sérgio Porto. Depois desse show, parei e pensei que estava na hora de gravar o disco – já tinha claro na minha cabeça o que eu não queria para ele. Então apresentei o projeto para Rob e começamos a pré produção no segundo semestre de 2005.

Solange Castro – Existem vários artistas despontando, buscando espaços em Selos pelo Brasil – como foi esse seu contato com a Rob Digital?

Thaís Gulin – Eu conhecia o trabalho da Rob através de músicos e conjuntos instrumentais e achava muito bom. Um amigo produtor deixou meu projeto lá na Rob, o Roberto tinha ouvido falar do trabalho, ouviu e se interessou em gravar.

Solange Castro –Roberto tem “faro” – rs…
Então nos conte – como foi a composição do Disco?

Thaís Gulin – A maior parte do repertório é de músicas que já fazíamos nos shows. “Garoto de Aluguel”, “Piano”, “Lua Cheia” (vem da época em que comecei a tocar violão, da época Toquinho) “Bloco da Solidão”, “Hino de Duran”, “História de Fogo”, “A Vida da Outra (Dela) ou Eu” e “De Boteco em Boteco”, que comecei a cantar quando chamei o Seu Nelson para fazer uma participação num show. Nessa época, cantava uma outra música dele, mas quando cantamos juntos o “Boteco”, ficou tão divertido que acabei tirando a outra e incluindo essa.
Tínhamos essas oito músicas, faltavam quatro. Fui procurar os paranaenses. Conheci o Arrigo, o que resultou na nossa parceria, e ele me falou do Careqa. Encontrei o Careqa aqui no Rio e devo ter escutado umas 200 músicas dele. Ouvi muita música nessa época. Tenho um amigo que vinha com um caminhão de músicas que queria me mostrar e foi nessa que ouvi “Cedotardar”, do Moacyr Albuquerque e do Tom Zé. “78 Rotações”, foi a última a entrar. O Ronaldo Diamante, baixista, tinha falado do “Movimento dos Barcos”, do Macalé e Capinam, e então pedi a música para um amigo. Eis que veio a música com o título “Movimento…”, mas a gravação era 78 rotações. Aconteceu que 78 rotações fechava perfeitamente o conceito do disco. Não poderia ser outra.

Solange Castro – Perfeito!

Thaís Gulin – Nos arranjos, demos continuidade ao que já vinha no demo. O acompanhamento harmônico como interferência, sem muitas levadas, mais recortado. Procuramos mais tempos de silêncio. A base das músicas passou a ser com piano (que não tinha antes), bateria ( no lugar de percussão), samplers, violão/guitarra e baixo acústico. E em algumas faixas, participações como o quarteto Bessler, o Roberto Marques no trombone e outros músicos que puxa vida!

Solange Castro –Thaís, o disco está pronto, belíssimo, saindo pela Rob Digital, Selo reconhecido pela qualidade mundo afora… Agora vamos falar do lançamento e divulgação – em primeiro, como está o projeto da turnê de lançamento?

Thaís Gulin – O disco foi lançado no Teatro Guaíra (Guairinha), em Curitiba, com o apoio da Secretaria da Cultura do Paraná e da Editora Positivo – Sistemas de Ensino (empresa ligada ao colégio que estudei quando morava em Curitiba). Em janeiro, fizemos duas semanas aqui no Rio, no Centro Cultural Carioca. Ainda pretendo ficar uns dois meses numa casa fixa aqui no Rio (estamos confirmando o lugar) e no dia 26 de fevereiro, fizemos a Modern Sound. Faremos também no dia 12 de março, Letras e Expressões em Ipanema. Ainda em abril ou maio, pretendemos lançar em São Paulo.
Fora isso, existem os pockets em outras lojas de disco, que estou fazendo com apenas um dos músico.
De qualquer maneira, quero fazer muito mais shows. Estamos trabalhando p/ isso.
No mais, o disco está indo bem de crítica. A gente sempre acha que um dia vai poder se preocupar – ou se relaxar – só em fazer música, mas vejo que a realidade é estar sempre por ali, cuidando de perto. Bom… também, não deixa de ser arte a maneira com que você procura conduzir a carreira, não é!?

Solange Castro –Enfim, “ralando” – parabéns, é um belo exemplo… Não basta ter um disco, tem que soltá-lo no mercado…
Você está com 27 anos, começando – o que você acha da sua geração de “músicos”?

Thaís Gulin – Acho que muita coisa mudou. Primeiro todo mundo ficou assustado com toda essa crise na indústria. Depois, acho que isso gerou um movimento, uma atitude quase que braçal…. Ou braçal mesmo, o que é interessante porque a seleção natural de artistas passa a mudar também. O mundo está mais solitário e isso interfere no processo de cada trabalho, que também fica mais solitário. Você faz o seu produto. Você chama o seu produtor, apresenta o projeto para o selo/gravadora, pensa no conceito,… Acho que temos mais os pés no chão do que tínhamos (nós mesmos) há uns anos – se a gente não chacoalhar isso aí, ninguém vai chacoalhar para gente.

Solange Castro –Sim, mas é comum (quase imperativo) os Selos e Gravadoras, principalmente as majors, sem contar com alguns Selos maiores (mais comerciais) do Brasil impor repertório, arranjos e tudo mais. Você teve sorte de estar na Rob, mas isso não é comum para a maioria. Quais as maiores dificuldades que você vê no mercado para os que estão iniciando a trilha?

Thaís Gulin – É uma escolha. Acho ilusão achar que gravadora pequena não tenta te impor condições. Já ouvi falar de algumas pequenas que impõe, assim como já ouvi falar de grandes que deram espaço para o artista. O principal é ter muito claro o que se quer de um disco ou da carreira e é isso que vai definir a concessão de cada artista. A gente tem muito o que aprender também, então tem que ter uma medida, saber ouvir, saber dizer que sim e que não.

Solange Castro –Na leva dos novos, quem desponta para você?

Thaís Gulin – Eu adoro o trabalho do Nicolas Krassik.Gosto dos Barbatuques, da cantora/compositora francesa Camille. Me interessa muito quando eu olho para o trabalho, olho para pessoa e eles são a mesma coisa. Para mim, o exemplo máximo disso é a Bjork e a Cássia Eller.

Solange Castro – Thaís, o que você acha do panorama da música brasileira hoje em geral?

Thaís Gulin – Acho fora do controle. Fora de rótulos. Que música estamos fazendo? Não sei, mas me parece uma bem diferente da outra…

Solange Castro –Qual outra?

Thaís Gulin – Uma música bem diferente da outra (música). Um artista diferente do outro…

Solange Castro – Do que você fala exatamente? Temos centenas de variedades de ritmos – é sobre essa diversidade que você fala?

Thaís Gulin – Não. Falo do resultado. Do disco, do show, da cara de cada artista. Não dá para separar em gavetas, em gêneros. Tá todo mundo ali, a música é brasileira e cada um está fazendo a sua.

Solange Castro – Enfim, você fala sobre o que te chega pela mídia, é isso?

Thaís Gulin – Não necessariamente. Falo do que eu ouço. De um momento sem classificação de gêneros, falo que não precisamos entender a bula do que vamos ouvir. É só ouvir.

Solange Castro – E o que e quem você tem ouvido da nossa música nos últimos tempos? Vem pela mídia ou através de conhecidos?

Thaís Gulin – Olha, eu vou fuçando. Ouço muita coisa que já estava aí. Tem tanta…. O último disco que comprei foi o do Tom Zé – “Danç-Êh-Sá”, mas tenho ouvido muito mais o “Estudando o Pagode”. Tenho ouvido muito os discos do Rumo e adoro ouvir em casa o “Ouro Negro” do Moacir Santos.

Solange Castro –Grande Moacir…
Quais os projetos para 2007?

Thaís Gulin – Fazer show!

Solange Castro – Então faça muitos! O Brasil merece conhecer teu trabalho…
Thaís, foi um imenso prazer conversar contigo. Parabéns pelo teu trabalho.
Obrigada…

Thaís Gulin – Daqui também foi ótimo. Obrigada!