Sergio Santos

 

Por: Solange Castro

Solange Castro – Alô, Sérgio… como foi que a música entrou na tua vida?

Sérgio Santos – Olha, eu me interesso por música desde pequeno mesmo. Nasci em Varginha, sul de Minas. Quando criança ouvi muita coisa em rádio. Era a época em que ainda se podia fazer isso, as rádios tocavam de tudo um pouco. Além disso, tive contato com a música das ruas, os congados, folia de reis. Meu pai é alagoano e nas férias por lá, ouvia o xaxado, o coco, o baião, o forró. Por outro lado minha mãe é carioca e a família dela vive em Padre Miguel. De lá eu ouvi o samba. Então, são esses os meus primeiros contatos com a música, ela me interessou desde menino.

Solange Castro – Você estudou música ou é autodidata?

Sérgio Santos – As duas coisas. Sou autodidata, mas estudei e estudo música. Comecei a me interessar pelo violão pela observação dos outros tocando. Meu irmão mais velho já tocava. Eu, pirralhinho, nem conseguia ainda segurar o violão, mas já prestava atenção no lugar onde deveria colocar os dedos. E assim fui indo, vendo e aprendendo, sem professor. Depois, com o tempo e já sabendo tocar, é que fui me interessar pela teoria musical, que também aprendi sozinho. Aprendi buscando nos livros aquilo que mais me interessava, e sempre por conta própria. Acho que música é um aprendizado constante. A gente nunca sabe o suficiente, e eu espero estudar e aprender até quando conseguir.
Mas não acho que ser autodidata seja nenhum tipo de mérito pra ninguém. Meu caminho foi esse pelas dificuldades em estudar aquilo que realmente me interessava, falta de escolas, etc. Hoje em dia, com tantas boas escolas de música, acho interessante que as pessoas estudem formalmente, com professor. Não que isso seja essencial, mas conhecer música é abrir as portas de um universo fascinante.

Solange Castro – Enquanto você estudava sozinho, quais eram suas “referências”? Quais os músicos e compositores que você ouvia?

Sérgio Santos – Eu tive a sorte de ser de uma geração que ainda podia ouvir um pouco de tudo nas rádios, como já disse. Quando era menino, estavam surgindo todos os grandes compositores que vieram dos festivais. As rádios tocavam muito Chico, Caetano, Milton, Gil, Gal, Edu Lobo, Elis, além da bossa nova. Quase toda essa música era baseada no violão, então para mim o grande desafio era aprender a tocar essas músicas. O que não era nada fácil para se fazer sozinho. Então, quando não conseguia que ninguém me ensinasse, dava um jeito de arrumar uma forma minha mesmo de tocar. E isso me ajudou muito a me desenvolver, principalmente o ouvido musical.
Essa foi uma época fundamental pra mim. Com uns 14 anos já morava em BH e aqui pude ter mais acesso à música, e havia no país toda essa efervescência artística. Era muito instigante tentar compreender a música que faziam tantos compositores magníficos, perceber as suas diferenças, suas linguagens, seus estilos. Tudo isso foi muito rico.

Solange Castro – Bons tempos… Não nego que foi uma época riquíssima para a música brasileira (em qualidade e criatividade), mas o problema é que hoje não podemos afirmar que tenha “acabado”, já que as maiores relíquias que estão sendo compostas e executadas nos últimos anos não chegam ao nosso povo (verdadeiros “donos” da nossa cultura).
O que você acha do ‘jabá’?

Sérgio Santos – Bom, acho que isso é uma longa discussão. Vou tentar responder em poucas palavras. O jabá é a principal forma de sustentação de um modelo de produção que a indústria fonográfica optou por seguir, não apenas no Brasil. Esse modelo se baseia em diminuir cada vez mais o número de títulos e de artistas, diminuindo os custos de produção e vendendo um número astronômico de cópias em um curto período de tempo.
Querem poucos vendendo muito. O problema é que isso exige pesados investimentos em marketing o tempo todo, porque as altas vendagens são sempre momentâneas. Só que o marketing a partir de um certo momento se tornou o suborno que virou o jabá. Suborno que vem inicialmente do dinheiro da isenção de impostos do qual as gravadoras se beneficiaram, e que deveria ser investido em lançamentos de novos talentos. Esse dinheiro foi canalizado para se pagar as execuções em rádio, até se tornar o verdadeiro absurdo de hoje, quando a produção das majors significa numericamente cada vez menos, e as suas execuções em rádio cada vez mais. Acho que o jabá exclui dos meios de comunicação a maior parte da produção musical do Brasil, e impede que se conheça um acervo novo e riquíssimo. De certa maneira isso pode ser entendido como uma forma de censura, sustentada pelo poder econômico das gravadoras. Há que se começar a discutir formas de se brecar esse tipo de ação, de se conscientizar inclusive o público da existência desse mecanismo, porque isso já foi longe demais e já deturpou de forma arrasadora e por muito tempo não a nossa produção musical, que continua rica como sempre, mas o acesso do público a ela.

Solange Castro – Certamente, Sergio… Aqui no Alô recebemos obras belíssimas que nunca chegam ao povo brasileiro, o que é lastimável… Você acha que o Gil poderia fazer alguma coisa? Dizem que o jabá não é um problema da Cultura, mas sim da Justiça e das Comunicações, mas se ele não se colocar em defesa da cultura nacional e exigir dos outros Ministérios uma postura, que vai fazer?

Sérgio Santos – O MINC tem obrigação de se posicionar em relação a todas as questões que envolvem a cultura do país. Num caso como esse, que é determinante para o desenvolvimento de um mercado sem vícios, é fugir da responsabilidade se não o fizer. O jabá e as suas consequências interferem em um dos principais pilares da cultura brasileira, que é a música. Que se somem as ações da Justiça e das Comunicações às da Cultura para se coibir o jabá. Não se trata de uma questão de definição de que áreas devem se mover para acabar com o jabá, mas de se entender que se mantendo a inércia, se sufoca cada vez mais a produção de música no Brasil.

Solange Castro – Perfeito!
Bom, seguindo… Como foi optar pela “música” profissionalmente?

Sérgio Santos – Eu era um estudante de arquitetura, outra das minhas paixões. Ficava dividido entre a música e a faculdade. Não tinha muita coragem de abandonar a escola, e por isso não me dedicava inteiramente à música. Um belo dia recebi um convite para participar da Missa dos Quilombos, um espetáculo do Milton Nascimento, do D. Pedro Casaldáliga e do poeta Pedro Tierra. Esse foi meu primeiro cachê. A partir daí me senti incentivado a me dedicar exclusivamente à música e a construir uma carreira de compositor, abandonando de vez a arquitetura.
Quando contaram isso a um professor da faculdade, a resposta dele foi a seguinte: que ótimo que o Sérgio se decidiu! Isso vai ser muito bom pra música… E pra arquitetura também!!!

Solange Castro – Isso com quantos anos?

Sérgio Santos – Nessa época eu devia ter uns 25 anos.

Solange Castro – Você já compunha nessa época?

Sérgio Santos – Sim. Minha relação com a música sempre tem como motivação a composição. Eu sempre toquei, cantei e me dediquei a escrever arranjos, em função da composição.

Solange Castro – Você começou a compor com que idade?

Sérgio Santos – Não saberia te responder. Acho que desde dos primeiros momentos que peguei no violão, minha intenção já foi fazer uma musiquinha. Mas alguma coisa mais estruturada mesmo, talvez com uns 16, 17 anos.

Solange Castro – Sérgio, quantas músicas você tem compostas?

Sérgio Santos – Não saberia te dizer um número exato. Com o Paulinho Pinheiro, que é o meu parceiro mais constante, tenho mais de 180. Como temos muitas músicas compostas, tivemos a curiosidade de contar. Com outros parceiros eu nunca contei.

Solange Castro – E gravadas, mais ou menos quantas?

Sérgio Santos – Bom, devem ser mais ou menos umas 70, se contar com as minhas próprias gravações nos meus quatro discos. Não sou muito gravado. Acho que estar fora do eixo Rio-SP me prejudica um pouco nesse sentido.

Solange Castro – E como é “viver de música” fora do eixo Rio-São Paulo, mesmo sendo um compositor conhecido e respeitado no nosso universo como você?

Sérgio Santos – Bom, a música é uma profissão como qualquer outra. Claro que tem as suas peculiaridades, mas em geral não tem muita diferença das outras. Você tem que se dedicar ao máximo se quiser se projetar. As pessoas se acostumaram a medir a trajetória profissional dos músicos segundo um parâmetro chamado sucesso. O problema é que os padrões desse parâmetro são completamente irreais, a tal ponto que se você não estiver na televisão, e não em qualquer televisão – na Globo – você não faz sucesso, e portanto você não tem uma carreira. Trata-se, na verdade, de quais parâmetros você quer usar para avaliar a sua trajetória. Eu acho que desenvolver um trabalho criativo e conseguir sobreviver dele, sem fazer concessões que te desviem do que lhe é fundamental, é o maior sucesso que qualquer profissional pode almejar, em qualquer profissão.
Muitas vezes as pessoas pensam que o sucesso é algo para o futuro, que algum dia há de vir alguém a descobri-las para o sucesso, e fecham os olhos ao sucesso real do seu caminho já percorrido, não percebem o que já foram capazes de fazer, e ficam a espera de um sucesso fictício, ilusório. E muitos se perdem nisso.
Eu, pessoalmente, vivendo por pura opção em uma cidade que amo, e conseguindo me manter e à minha família das maravilhas que a música proporciona à minha vida, me considero uma pessoa muitíssimo bem sucedida, mais do que isso, um privilegiado.

Solange Castro – Isso é ótimo – e raro… O comum é vermos músicos almejando os plins-plins, sem se importarem muito com “o principal” – rs… Sérgio, de onde vem as inspirações?

Sérgio Santos – Engraçado como essa é uma questão recorrente: volta e meia as pessoas me perguntam de onde vem a inspiração. Outro dia parei pra pensar sobre isso. Eu tinha acabado de compor uma música e me detive no fato de que aquilo que acabara de fazer não existia há uma hora atrás. Então, de onde isso havia saído? Eu acho que o processo mesmo de compor, para mim pessoalmente, é algo que envolve o surgimento de idéias. Idéias musicais que eu desenvolvo por um lado com o conhecimento e com a prática, e por outro com a intuição. Uma boa parte desse processo é racional, é a técnica que te dita. Mas se eu estou falando de ter idéias e de desenvolvê-las, não é sempre que se tem boas idéias. E quando você as tem, elas quase sempre partem de um caminho não racional. É algo que me pega pelo outro lado, o da intuição.
Não saberia precisar de onde isso vem. Só sei que a minha ligação com esse caminho meio misterioso é sempre o violão. Ele é o meu elo com a criação.
E de tudo que para mim envolve a música, a criação é sempre o melhor momento.

Solange Castro – Imagino… E levando em consideração as maravilhas que saem desse “elo”, imagino que sejam momentos fantásticos…
Você é mineiro e sambista – um sambista mineiro. Tens um trabalho com uma ginga toda própria, cheia de charme e harmonia… Isso é herança da Bossa nova?

Sérgio Santos – Não tive tanta ligação assim com a bossa nova. Ela me influenciou bem menos que o samba, apesar de serem um derivado do outro. É claro que a maneira de harmonizar e a mão direita de todo violonista brasileiro sempre vão estar, em maior ou menor grau, de alguma forma influenciada pela bossa nova, mais especificamente por João Gilberto. Não sou exceção. Mas acho, mesmo sem me considerar um sambista, que o samba fala mais alto em mim que a bossa nova. Acho que, sendo mineiro, tenho as características próprias daqui, principalmente na maneira de harmonizar. Se eu tocar meu violão junto com o Maurício Carrilho, um violonista carioca típico e que adoro, me fica muito evidente que somos de escolas diferentes. E isso é o grande barato: as nossas diferenças; é ver que o Brasil tem muitas faces, e que é essa a nossa grande riqueza.

Solange Castro – Nos fale agora sobre teu último disco – está tão bonito…

Sérgio Santos – Bom, esse trabalho me deu muito prazer em realizar. Queria fazer um disco com sambas, e que também tivesse uma certa ligação com a estética do choro na maneira de compor. Quando estou realizando um trabalho, a fase mais difícil é essa, a da concepção. Você pode juntar 13 belíssimas músicas em um disco, e não fazer um belíssimo disco. É necessário que haja uma ligação, um motivo, uma justificativa para que exatamente aquelas músicas estejam ali, umas do lado das outras. E tecer esse fio é complicado e delicado. Fui escolhendo o repertório e ao mesmo tempo pensando na necessidade de uma sonoridade única para percorrer o trabalho todo. Foi aí que pensei na escolha dos músicos que pudessem criar comigo essa sonoridade, e vi que aqueles que tinham trabalhado comigo no Áfrico, meu disco anterior (Rodolfo Stroeter no baixo, André Mehmari no piano e Tutty Moreno na bateria) seria a escolha mais acertada. Eles têm uma forma livre de tocar que me interessa sempre, uma característica comum ao jazz e ao choro. E fomos para o estúdio e gravamos todos juntos, quase como se estivéssemos ao vivo. O resultado é como o de uma fotografia: a captura de um momento único, irrepetível, em cada faixa. Fizemos três takes para cada música e escolhemos, com algum sofrimento é claro, qual seria o melhor. E o disco se construiu assim. O resultado é bastante espontâneo, gosto dessa vivacidade. Fiquei também encantado com as participações do Francis Hime, meu parceiro na faixa em que ele canta comigo, e da Leila Pinheiro, uma das cantoras de que mais gosto na vida.

Solange Castro – O disco está realmente uma pérola – parabéns… E como está o lançamento? Vocês estão fazendo turnê?

Solange Castro – O disco está realmente uma pérola – parabéns… E como está o lançamento? Vocês estão fazendo turnê?

Solange Castro – Você tem discos lançados no exterior – como é a aceitação da tua obra fora do Brasil?

Sérgio Santos – Bom, a música brasileira é um verdadeiro cartão de visitas para o nosso país. As vezes que me apresentei fora do Brasil me deixaram impressionado com a aceitação que a música brasileira tem. Mesmo com a barreira da língua portuguesa, a gente sente que as pessoas amam o que se faz aqui. Não posso dizer que tenha uma carreira estruturada fora daqui, mas sempre que saio, fico muito feliz com a aceitação.

Solange Castro – Qual sugestão você daria para que nosso povo venha a conhecer melhor nossa música, já que ela não chega nas Rádios e TVs?

Sérgio Santos – Eu acho que o momento que vivemos hoje é muito rico. Por um lado temos um modelo equivocado que as grandes gravadoras traçaram e que está fazendo água. Por outro temos uma produção enorme ganhando espaços através de um mercado que se fortaleceu paralelamente. O momento é de se buscar aparelhar essa produção para ampliar o espaço desse mercado. E como fazê-lo? Primeiramente procurando diversificá-la ao máximo para que ela seja verdadeiramente a expressão de nossa riqueza musical. Além disso, construindo um espaço de veiculação próprio para essa música. As possibilidades que se colocam hoje, como internet e TVs a cabo, por exemplo, são caminhos a serem explorados nesse sentido.

Solange Castro – Você acha que a Internet contribui com esse processo?

Sérgio Santos – É fundamental. A Internet facilita a interação entre grupos com o mesmo interesse. A divulgação na internet é uma ferramenta muito mais democrática que em outras mídias. Conceitualmente a Internet é uma arma para a diversidade de gostos, de interesses, de idéias. E seguramente ela será o caminho principal para o consumo de música em pouco tempo, o que colocará uma mudança de hábitos que irá modificar completamente o mercado, como, aliás, já vem ocorrendo. Quem quiser estar de pé daqui a alguns anos deverá desde já pensar em como lidar com a Internet.

Solange Castro – E os Festivais do Brasil?

Sérgio Santos – Acho que os festivais são hoje uma grande reunião de pessoas que buscam uma forma de ampliar o nível de conhecimento dos seus trabalhos. E nesse sentido eles são fundamentais: neles se conhecem gente com os mesmos interesses e se trocam experiências que não seriam trocadas de outra forma. Acho importantíssimos espaços como os de Avaré e Tatuí, por exemplo. Para mim Avaré foi um festival fundamental, desde 86, quando ganhei a primeira vez em que estive lá. E vou lá até hoje, não mais pra competir, mas pra saber o que as pessoas andam fazendo.

Solange Castro – Faz parte dos jurados?

Sérgio Santos – Já fiz em alguns festivais. Não que goste, julgar pra mim é algo tenso, mas sempre que convocado pra algum festival eu vou. Gosto de dar minha opinião.

Solange Castro – Sérgio, quem você “ouve” hoje? Quem faz as músicas que te encantam e quem as interpreta?

Sérgio Santos – Ouço hoje muita coisa que ouvia há 20 anos atrás. Agora mesmo estou pendurado em um disco do Claus Ogerman, chamado “Two Concerts”. É maravilhoso. Os compositores brasileiros que mais me encantam são os que me fizeram a cabeça desde sempre: Tom Jobim (o maior), Francis Hime (compositor personalíssimo, que acaba de lançar um disco lindo), Dori Caymmi (meu grande ídolo), Edu Lobo (imbatível), Chico Buarque (a perfeição), Milton (único), Ivan Lins (um melodista ímpar), e haja adjetivos, hehehe. Gosto muitíssimo do trabalho do Guinga. Adoro a Mônica Salmaso, uma cantora extremamente sensível. E há uma leva de novos instrumentistas assustadora: adoro o Quarteto Maogani, sou fã incondicional do André Mehmari, um pianista de tirar o fôlego, um fenômeno. E ouço também jazz e música erudita, em especial os impressionistas, que são a minha eterna fixação. Além disso, há o samba, o eterno samba, de Caymmi, Ary, Geraldo Pereira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ataulfo, e por aí vai…

Solange Castro – Sérgio, muito obrigada pela entrevista – foi muito bom conversar contigo…
Parabéns pelo teu disco e nos avise sempre do teus shows para divulgarmos aqui no Alô…

Sérgio Santos – Eu é que agradeço, Sô. É sempre bom bater papo assim, falando de coisas interessantes, podendo estar nesse seu espaço maravilhoso. Obrigadão.