Ruy Godinho

 

Por: Solange Castro

 

A primeira entrevista que fiz com Ruy Godinho foi há cinco anos – de lá para cá, tenho acompanhado suas produções, programas e, recentemente, recebi “Então, foi assim…”, livro que, de forma leve, inteligente e integralmente fiel, relata as histórias de algumas das mais belas músicas brasileiras. Claro que não poderia deixar de pedir essa segunda, que, da mesma forma que a primeira, foi extremamente prazerosa – afinal, ele é um “gênio”, além de uma das mais claras almas que conheço…

Solange Castro

 

Solange Castro – Alô, Ruy, que bom você novamente aqui no Alô… Obrigada por sua atenção e disponibilidade.
Nos fale, como foram esses últimos cinco anos? Quais as novidades? Produções, programas de rádio… Conte-nos tudo…

Ruy Godinho – Nesses três últimos anos eu continuei a minha missão de teimar em realizar algo com os índios, o projeto “Awapá – Nosso Canto”, que finalmente estará saindo em um mês mais ou menos. Não do jeito que sonhamos todos, com vídeo documentário, mas sairá o livro songbook e um CD encartado.

Solange Castro – Sim, você estava iniciando esse trabalho quando fizemos a última entrevista.

Ruy Godinho – Isso. E somente agora, depois de umas ocorrências brabas com os índios, é que conseguimos concluí-lo. Muita teimosia.No decorrer do nosso projeto, os índios tiveram nove das dezesseis casas queimadas, a ameaça de construção de uma hidrelétrica nas terras deles. Tudo isso desviou a atenção do projeto e fomos adiando, adiando. O time deles é diferente do nosso. Queremos chegar e realizar. Eles não, dependem de uma série de fatores. Tem que estar tudo ok, senão eles param.

Solange Castro – O que, convenhamos, faz sentido – eles cuidam da “sociedade” como um todo, estou certa?

Ruy Godinho – Isso. Certíssimo. Tivemos de nos adequar ao modo de vida deles. Mas conseguimos e o resultado é mais maduro, seguro, agradável a todos.

Solange Castro – Que bom, Ruy..

Ruy Godinho – Vou separar um exemplar pra você.

Solange Castro – OBA!!!

Ruy Godinho – O projeto Awapá criou a primeira escola de ensino regular de música indígena, na aldeia Yawalapíti, Alto Xingu. Foi um projeto modelar, que depois foi implantado em outras aldeias. O registro em CD e em livro vai servir para resgatar a música tradicional e ao mesmo tempo iniciar o processo de sistematização do idioma Yawalapiti. Eles ainda não têm cartilha, gramática. Temos uma lingüista fazendo isso. Em breve eles terão isso sistematizado.
E os produtos serão para consumo interno, principalmente para os jovens índios, para eles também ouvirem a música deles no CD player, que antes só tocava música tecno, pagode, sertanejo, axé.
Foi um desafio, mas conseguimos, com o apoio da FUNAI e Eletronorte e patrocínio da Petrobras.
Tivemos nesse período também o amadurecimento do livro “Então, Foi Assim?”, A Origem de 80 sucessos da Música Brasileira, que eu já pesquisava desde 1997.

Solange Castro – Que é belíssimo, parabéns… Como veio a idéia de escrever esse livro?

Ruy Godinho – Em 1997, eu e Adriane Lorenzon produzíamos um programa de rádio, para a Cultura FM, de Brasília. Era um programa de duas horas semanais e para preenchê-lo, inventamos um monte de quadros. Um deles era o “A Origem da Música”, em que revelávamos a forma como as músicas tinham sido criadas. Fazíamos entrevistas com os artistas que passavam por Brasília e divulgávamos no programa. Logo senti que com o tempo eu teria um belo acervo.
Cantei a bola para a Adriane, na época, e decidimos desenvolver o projeto juntos. O programa saiu do ar com a mudança de diretrizes da rádio (mudança de governo), mas a pesquisa continuou.
Em dezembro de 2005, resolvi transformar em livro e convidei a Dri para fazermos juntos. Só que ela estava ocupada com outros projetos e me liberou. De janeiro de 2006 a dezembro de 2007 o redigi e lancei-o em abril de 2008, em um show no Teatro da Caixa, que patrocinou a primeira edição. O livro teve um sucesso surpreendente. Em 45 dias consegui distribuir a primeira edição.

Solange Castro – Pois não vejo nada de tão “surpreendente”, o livro é excelente!

Ruy Godinho – Mandei publicar uma segunda edição para o segundo show, que ocorreu no Clube do Choro de Brasília. No show, acompanhado por uma banda maravilhosa, conto as histórias e os cantorese cantoras interpretam as músicas, para ilustrar. Para cada música um intérprete diferente. Esse show está no YouTube (Então, Foi Assim?) Basta acessar e procurar com esse nome. Escolhi uma linguagem leve, saborosa e bastante humorada. Embora o livro tenha histórias comoventes e tristes.

Solange Castro – Ruy, o livro é lindo, fácil de ler, leve, super bem escrito, e as histórias “tristes” fazem parte – de qualquer forma, são colocadas de forma que realmente emociona… Parabéns.
Você tem intenção de levar o show para fora de Brasília?

Ruy Godinho – Tenho a intenção de sair pelo menos para o Rio, São Paulo e Belém. Mas depois, com artistas locais, pretendo ir para Fortaleza, Recife, onde tenho amigos. Mas, o livro está disponível na Livraria Cultura.

Solange Castro – Quais foram os critérios para pesquisa?

Ruy Godinho – Tenho pesquisa desde 1896, Yara, de Anacleto de Medeiros, até Anna Júlia, do Marcelo Camelo e Malandragem, de Cazuza e Frejat. Passo por Cartola, Lupicinio, Sérgio Ricardo, Vinícius, Toquinho e outros. O principal critério é que a música tenha tido um relativo sucesso, para que os leitores possam ter uma referência. Então, eu fui pesquisando e selecionando.
Eu esperava fazer um livro com duzentas histórias, mas a Masé Sant’Anna, que é editora e cantora, me aconselhou a fazê-lo com apenas setenta ou cem histórias para não ficar um livro muito grande, anti-econômico. Escolhi oitenta por causa da numerologia, e realmente ficou mais palatável e econômico. Restaram muitas histórias e ainda continuei a entrevistar artistas.

Solange Castro – Imagino a loucura que foi peneirar isso – rs… O Brasil é um manancial de sucessos… Como você conseguiu fazer essa seleção?

Ruy Godinho – A seleção foi de forma emocional, das histórias que me chegaram mais fáceis, no sentido da redação. Imagina que eu tenho duzentas pesquisas, preciso saber recontar essas histórias de forma leve, saborosa, surpreendente. Então eu ouvia as entrevistas, re-ouvia e, de repente, a forma de contar uma delas aparecia, e eu a desenvolvia. Isso porque eu não poderia começar todas com “era uma vez…” e terminar com “e foram felizes para sempre”. Então, essas oitenta histórias do Volume I foram as que me chegaram primeiro.
Algumas músicas as pessoas não lembram, mas nem por isso não foram sucessos em sua época. No livro incluí músicas de compositores do Nordeste, do Sul, do Norte, Centro-Oeste e Sudeste. Mas, claro, ainda falta muita estrada. Afinal, música bonita é o que não falta nesse país. Eu peço paciência aos leitores que me cobram alguns títulos, porque os outros volumes estão a caminho.
O livro está funcionando como um passaporte, está facilitando a abertura de portas. O acesso a compositores está se tornando mais fácil. Agora, mando o livro e quando ligo o compositor já leu o livro e fica entusiasmado para contar as suas histórias. É o caso do Tunai, que inclusive se propôs a passar os contatos do Hyldon, do Dalto e de outros amigos dele. Creio que vou ao extremo de vinte volumes fácil, fácil. Uma hora vou me dedicar mais e vou produzir com mais tranqüilidade. No momento eu continuo o produtor multimídia, produzindo CDs, DVDs, vídeos e o Roda de Choro, programa de radio semanal, que é transmitido pela Rádio Câmara de Brasília, pela Roquette-Pinto, do Rio e, a partir de agosto, Rádio Aperipê FM, de Aracaju e Rádio Universidade, de Londrina-PR. Creio que a literatura vai me exigir mais tempo, logo, logo.

Solange Castro – Ai, Ruy, se te conheço, tenho certeza que isso acontecerá – e vou ter imenso prazer em devorá-los TODOS…
Bem, não sei por qual segmento torço mais, espero que você seja “clonado” para nos oferecer tanta coisa legal..

Ruy Godinho – Outra coisa importantíssima, por causa da credibilidade, que é meu patrimônio, é a questão do respeito absoluto pelas histórias que os artistas me contam. Eu não invento nada em cima. Apenas contextualizo a época em que o autor viveu, quais os seus principais sucessos, principais parceiros… Mas, sou fiel à história de cada música, embora romanceie na hora de recontá-las.

Solange Castro – Mas isso transpassa de forma bastante clara em cada palavra escrita no livro, fique certo…

Ruy Godinho – Recebi um elogio que usei, inclusive no release do show e vou, com a permissão da autora, usar no prefácio do Volume II.
É da Luhli. Segue:
Querido Ruy,
Seu livro é uma delícia.
Parece conversa ao pé do fogão de lenha em noite fria e estrelada.
Tem esse tempo comprido, de uma roça por dentro, esse livro.
Tempo pra acarinhar o causo, desenrolar ele, saborear, deixar a estória madurar e dar o desfecho displicentemente,
sabendo que todo mundo vai querer mais.
Sendo assim tão íntimo e relaxado, a gente até esquece o tanto de estudo, de pesquisa, que tem por trás de cada palavra. Não há um tom doutoral, não traz aquele ranço elogioso que permeia biografias.
Se derrama elegante pelas páginas em boa prosa, num empenho absoluto em dar o depoimento verdadeiro, sem mudar uma palavra dos depoimentos recolhidos. Essa coisa genuína é outro encanto, no que se lê.
Um repórter que não torce nem altera nada, que rareza!
Além do pesquisador e do repórter há o cronista, que dando do banho de informação sabe divertir, emocionar, filosofar, com um consciência política sem chavões, sempre num enfoque muito pessoal.
Que bela ciranda essa, reunindo tudo quanto é compositor, de Pixinguinha a Frejat, quantos Brasis descortinados nesses flashes das múltiplas faces.
Parabéns, Ruy.
Você conseguiu…
Abraços felizes,

LUHLI
Luhli, sacou tudo. Fez um raio X do meu momento criativo.

Solange Castro – Com certeza, a Luhli é GENIAL!!!

Ruy Godinho – Outra coisa grandiosa é a amizade com os músicos, essa coisa respeitosa construída ao longo dos anos. Dificilmente um se recusa a me conceder uma entrevista.

Solange Castro – Gente, isso eu concordo com você – esse nosso universo de entrevista é fantástico…

Ruy Godinho – Pois, é. Quando mais credibilidade você tem, mais fácil fica, e isso não se aprende nos cursos de jornalismo.

Solange Castro – Com certeza. E você tem algo em comum comigo – além de gostar muito de fazer as entrevistas, deixas os entrevistados super à vontade, sem suspense… É tão gostoso…

Ruy Godinho – Isso. Para o Volume II teremos novas e emocionantes histórias: Guilherme Arantes vai arrasar. As pessoas vão ficar de queixo caído com as histórias dele. Outro é o Dalmo Castello, parceiro de Cartola em “Corra e Olha o Céu” e “Disfarça e Chora”.
E o Sérgio Natureza como Tunai em As Aparências Enganam e Frisson.

Solange Castro – Gente, isso é OURO PURO… Já tem data para sair o segundo volume?

Ruy Godinho – Abril de 2009. Quero refazer a trajetória do Volume I, lançá-lo em abril e passar o ano reforçando a divulgação e distribuindo

Solange Castro – Pois pode contar com o Alô, Ruy…

Ruy Godinho – Ok, obrigado por tudo. Você é sempre muito atenciosa e carinhosa.

Solange Castro – Imagina, é um prazer… E um compromisso com nossa cultura musical…

Ruy Godinho – Minha primeira entrevista teve uma grande repercussão, tive diversos contatos de pessoas que depois de lerem me procuraram. Estou negociando um lançamento na Livraria Travessa, do Rio, com o Pedro Montagna. Vou querer você na primeira fila

Solange Castro – Vixi – de bandeirinha e apito – rs… CLARO!!!
Bem, Ruy, agora me diga – o que você está achando da cultura musical brasileira nesse momento?

Ruy Godinho – Eu sou suspeito para falar. Quando desminto as pessoas que falam que não tem mais produção musical, por exemplo. É que, nos nosso caso, que temos acesso a grandes compositores – sem mídia – falamos de cadeira. A produção cultural brasileira está bastante rica e diversificada.

Solange Castro – Com certeza – pena que nosso povo não tenha acesso..

Ruy Godinho – A visibilidade que muitas manifestações culturais estão tendo, a partir de patrocínios responsáveis, é surpreendente. Mês passado, mesmo, gravamos o primeiro CD da Comunidade Quilombola de São Félix, da região do Grande Sertão Veredas. Hoje recebi a master. Foram 16 músicas tradicionais, ladainhas e cânticos, que eu nunca tinha ouvido. O lançamento vai ser no dia 9 de agosto, mas no dia 15 de julho estaremos entregando o CD para a comunidade.
O Choro também, com a chegada de novos e virtuoses instrumentistas no cenário está cada vez mais vivo.

Solange Castro – Isso vai ser show de bola – vai ser comercializado?

Ruy Godinho – O CD vai ser entregue para a comunidade que vai comercializá-lo. Teremos uma cota. E depois eu posso mandar junto com o CD do Awapá para você.

Solange Castro – Sim, claro, por favor – mas acho legal você nos informar onde poderá ser encontrado para passar para nosso público, tenho certeza que será muito procurado…

Ruy Godinho – Isso. Vou assuntar com os nossos artistas.

Solange Castro – Bem, então vamos fazer assim: em 45 dias volto a te entrevistar – rs…

Ruy Godinho – Na comunidade moram oitenta pessoas, quase todos de uma mesma família, não tem comunicação fácil. A energia elétrica chegou em maio de 2007, mas mão há um computador na região.
Telefone, só um celular, com antena especial, para que eles possam falar com o povo de fora. O palavreado é todo especial, coisas que só eles falam. As afinações dos instrumentos é singular, só vi lá. Violão, viola caipira… O único instrumento que tem afinação tradicional são os dois acordeons, que foram incluídos no projeto. Os coros são lindos, tanto nas cantorias quanto nas ladainhas, nas rezas…

Solange Castro – Bem, com essa distância do nosso público, espero que se tenha uma opção para que possam ter acesso à essa riqueza toda…

Ruy Godinho – Isso. Vou ver se a Agência de Desenvolvimento do Vale do Urucuia vai intermediar essa venda, mas, para pesquisadores, vai ser um prato cheio.

Solange Castro – Sem dúvida. Você se comprometeria em nos ceder outra entrevista em meados de agosto?

Ruy Godinho – Claro, com o maior prazer…

Solange Castro – Ok, Ruy – muito obrigada por sua atenção e, mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho – o POVO BRASILEIRO AGRADECE!

Ruy Godinho – Obrigadíssimo pela oportunidade e pelo carinho. E vamos adiante!!