Renato Motha e Patrícia Lobato

 

Por: Ruy Godinho

 

Ouvir “Rosas para João” foi uma surpresa – não que a obra de Renato Motha e Patrícia Lobato tenha menos qualidade em suas edições anteriores, mas o disco é de uma delicadeza estonteante… A calma e bem-estar que proporciona vai tomando um ar de excitação, uma sensação estranha, deliciosamente prazerosa, um misto de falta de ar e profundo suspiro… Para vocês entenderem, só ouvindo…
Aproveitei e chance e “convidei” Ruy Godinho para entrevistá-los, já que sabia que se conheciam e que Ruy aceitaria o desafio, já que estava sendo “delicadamente intimado” a fazer parte de nosso quadro de “colaboradores”, e ele, claro, gentilmente aceitou…
Obrigada, Patrícia e Renato, e parabéns pela magnífica obra e por ter nos cedido essa entrevista…
Obrigada, Ruy – bem vindo ao Alô Música.
A você, usuário, boa leitura…

Solange Castro

 

Ruy Godinho – Renato e Patrícia, Rosas Para João é um portal de acesso para a obra de Guimarães Rosa. Senti-me assim diante dele. Uma visita pelo universo roseano com direito a guia e tradutor. Parabéns pelo belíssimo trabalho.

Renato & Patrícia – Guimarães Rosa realmente nos abre através de sua obra, um portal maravilhoso para um mundo inexplorado pela maioria. Transcriar e compartilhar esse universo através da música, tem sido pra nós uma experiência única.

Ruy Godinho – Está tudo lá: os personagens, as relações, o sertão, as cores, as flores, os animais, a magia, a poesia de Guimarães Rosa.

Renato & Patrícia – Ao contrário da experiência lítero-musical anterior que tivemos com o álbum “Dois em Pessoa”, em que musicamos os poemas de Fernando Pessoa, desta vez pude trabalhar com maior liberdade, construindo roseanamente meus próprios versos, muitas vezes inspirados em passagens, frases, palavras e personagens do Grande Sertão: Veredas. Foi assim com Dejanira, em que a música nasceu quando li “as florzinhas dejaniras”, a expressão me soou tão bem, bonita, meio nostálgica, flor e mulher, nome já quase em extinção… Já em Rama-de-ouro, foi quando li a passagem em que Guimarães descreve o romance entre o jagunço Riobaldo e a rapariga Nhorinhá, pra mim um dos trechos mais poéticos do livro – com tamanha beleza e generosidade, que fez brotar em mim mais uma canção.

Ruy Godinho – Eu senti que vocês fizeram uma leitura da obra e traduziram com o sentimento. Para mim é a palavra chave do disco: sentimento.

Renato & Patrícia – Talvez, a vocação maior de uma obra de arte é o poder que ela traz em si de tocar o coração de quem a aprecia.

Ruy Godinho – Eu descobri também no disco a profunda delicadeza da obra de Guimarães Rosa. É delicadeza pura, que se reflete nos arranjos, no repertório, nas vozes, na arte do encarte.

Renato & Patrícia – Guimarães foi um grande mestre na arte da lapidação, transfigurando o conteúdo de sua linguagem numa forma profundamente sutil. Buscamos essa delicadeza em cada detalhe, e para isso, foi fundamental contar com o talento e a sensibilidade de todos os artistas e técnicos envolvidos. A arte da capa e do encarte ficou realmente linda com as ilustrações da artista plástica Leonora Weissmann e o projeto gráfico de Glória Campos e Clô Paoliello.

Ruy Godinho – Como foi que surgiu essa idéia de homenagear o centenário de Guimarães Rosa fundindo a música de vocês com a poética dele?

Renato & Patrícia – O primeiro contato com a poética roseana aconteceu quando gravei o “Amarelo”, meu segundo disco: a música título, Amarelo, baseada em Miguilim, Cafarnaum em Manuelzão, e Flor de Mim, a canção que fecha aquele álbum e hoje abre o “Rosas para João”, inspirada no Grande Sertão: Veredas. Outras músicas vieram nos anos seguintes, e com o advento das comemorações do aniversário de cinquenta anos do Grande Sertão em 2006, e ainda, culminando com o seu centenário de nascimento em 2008, a motivação foi enorme para realizarmos este projeto. A obra de Guimarães é um manancial tão rico que é capaz de suscitar incontáveis desdobramentos; creio que artistas de todas as áreas e gerações, sempre encontrarão ali uma fonte de inspiração universal e inesgotável.

Ruy Godinho – E as parcerias? As músicas foram feitas com uma intenção direcionada ou teve casos de músicas feitas anteriormente e que se encaixaram na linguagem do disco?

Renato & Patrícia – A maioria das letras escritas por mim, foram intencionalmente direcionadas ao projeto, bem como a parceria com Patricia em Brejais, mas nos outros casos, as músicas Lua Rosa com Vander Lee, Haicai Baião com Valter Braga (vencedora do prêmio de melhor letra do Festival da TV Cultura em 2005), Tinha de Ser com Fernando Brant, e Trem de Ferro com Vanderlei Timóteo (composta por mim aos quatorze anos), foram incorporadas ao repertório por se afinarem com a proposta do álbum.

Ruy Godinho – Eu gostaria de saber sobre os músicos escolhidos para tocar no disco. É claro o envolvimento de cada um nas execuções, como se tocassem para homenagear Guimarães Rosa.

Renato & Patrícia – Gravamos a maioria das bases de piano (Tiago Costa), baixo acústico (Sylvinho Mazzuca) e bateria (Nenén), ao vivo, tudo feito em duas tardes, os meninos estavam realmente entusiasmados com as músicas, e assim tudo foi acontecendo de maneira muito bonita e espontânea, depois acrescentei o violão e a percussão de Patricia e Serginho Silva. Foram gravadas também duas canções de piano e voz, com acompanhamento e arranjo de Felipe Moreira, e a faixa bônus Trem de Ferro, com o grupo Quebrapedra e Antônio Loureiro, jovens talentos que estão surgindo no cenário da música de Minas. Contamos ainda com Mauro Rodrigues (flautas) num belíssimo arranjo de Haicai Baião escrito por Tiago Costa, e Vinícius Augustus (sax tenor) em Mana.

Ruy Godinho – Renato Motha e Patrícia Lobato, um disco como Rosas para João, num país de mídia democrática, que refletisse a qualidade artística cultural das obras, era para estar estourado. Impressiona pela qualidade e pela dignidade. Como está a repercussão de seu lançamento?

Renato & Patrícia – A repercussão do disco aqui tem sido a melhor possível, e será em breve lançado também no Japão – nosso quinto álbum por lá – temos consciência do mercado ao qual estamos inseridos, e temos sentido uma receptividade crescente em relação ao nosso trabalho, acho que o Rosas vem demonstrar uma certa maturidade adquirida após nove álbuns lançados.
Em relação à mídia, constatamos cada vez mais o quanto é efêmero tudo que está à sua volta. Acreditamos que a conquista de um sucesso genuíno advém da realização de algo verdadeiro, que com o passar dos anos se mostra imperecível, como uma obra, um legado, o que na maioria das vezes demanda bastante tempo para se consolidar; são processos lentos, desenvolvidos passo a passo, com amor, talento, perseverança, além de um dedicado trabalho.

Ruy Godinho – Para quem acompanha o trabalho de vocês, não é nenhuma surpresa um disco com a qualidade, com a beleza e profundidade de Rosas Para João. E para os leitores do Alô Música que não os conhecem ainda, quem são Renato Motha e Patrícia Lobato?

Renato & Patrícia – Somos um casal parceiro na vida e na arte, vivendo nossa harmonia, o presente, construindo dia a dia nosso futuro. Queremos estar cada vez mais perto da natureza e da serenidade que ela nos traz, cuidando da nossa casa, da nossa saúde, da alma, pra que possamos sempre receber da vida aquilo que de melhor merecemos, mas também queremos dividir essas bênçãos com as pessoas e o mundo. Acreditamos que apesar das dificuldades inerentes à vida, nossa vocação maior seja a felicidade. No mais, Música…

Ruy Godinho – Eu tenho curiosidade para saber como está a conjuntura, em Minas Gerais, para o músico independente? As rádios locais prestigiam o trabalho desses músicos?

Renato & Patrícia – O segmento da música independente em Minas tem se tornado cada vez mais forte, articulado e profissional, principalmente por poder contar atualmente com um intenso apoio das leis de incentivo, tanto no âmbito Estadual, quanto no Municipal, o que tem refletido positivamente na disseminação da nossa música nacional e internacionalmente.

Ruy Godinho – Beleza, Renato e Patrícia! Para mim está sendo uma honra entrevistá-los para ao Alô Música. Gostaria que vocês apontassem os caminhos para os leitores interessados em encontrá-los. Obrigado!

Renato & Patrícia – Nós é que somos muito gratos a você, Ruy, por tão bem conduzir esta entrevista, ao Alô Música na pessoa da Solange, pela oportunidade de levar aos seus leitores estas informações sobre o nosso trabalho, e à nossa produtora Vilma Fernandes, quem fez a ponte entre nós; a honra é toda nossa!
Pra quem quiser conhecer a gente um pouco mais, sugiro o www.renatomotha.com.br, que tem além de material para leitura, fotos, músicas disponibilizadas em MP3, tem também owww.myspace.com/renatomothepatricialobato, além de muitos vídeos no www.youtube.com
Então é isso, mais uma vez obrigado por este belo espaço que nos foi tão gentilmente cedido, e um grande abraço à todos que estiveram conosco por aqui,

Renato & Patrícia