Olivia Hime

Por: Solange Castro

Ela é compositora, cantora, empresária, esposa, mãe, mulher. Convive com todas essas facetas com muito talento, energia e bom-humor… Está lançando “Coração transparente”, obra que ‘toca’ a emoção de quem ouve
– é belíssimo…
Em entrevista exclusiva ao Alô Música,
Olívia Hime conta um pouco da sua história…

Solange Castro

 

 

Solange Castro – Olívia, como a música entrou na sua vida?

Olivia Hime – Eu acho é que eu é quem entrei na música, foi ao contrário… Não havia ninguém na família que fosse músico, eu é quem fui atrás da música. A primeira referência que eu tenho, ainda pequena, aos quatro/cinco anos, que meu pai foi à Rádio Nacional e eu fui com ele, e tinha Luiz Gonzaga lá, e eu fiquei fascinada com aquele homem… Em seguida eu conheci o Dorival Caymmi num hall de hotel, lá pelos meus seis/sete anos, e foram duas pessoas que marcaram imensamente a minha vida…
Desde pequenininha estudei música – piano, depois passei para o acordeon por causa do Gonzaga, lógico… Eu era um “titoco” de gente e o acordeon era dois de mim… Depois eu fui para o violão e fiquei com ele até meus 18 anos – coisa de adolescente… Enfim, era uma coisa minha dentro da minha família, era uma coisa que me fazia ter meu espaço próprio, diferente de todo mundo… Eu era caçulíssima, então na minha cabeça ninguém dava muita importância àquele pitoco de gente, mas a música me acompanhou desde muito cedo…

Solange Castro – E quais foram suas maiores influências?

Olivia Hime – Luiz Gonzaga, Dorival, e eu ouvia muito aqueles sambas de gafieira, porque eu tinha um motorista que adorava música, que me ensinava aqueles sambas engraçados… Eu ouvia muita música italiana, musicais americanos, que minhas irmãs adoravam, ouvia muita ópera, porque mamãe era louca por ópera, eu ouvia muita música… Depois lá no começo da adolescência, dez/onze anos, começa a surgir a Bossa nova e aí eu fiquei radical, só queria saber de Bossa nova. E para onde eu ia carregava meus discos de João Gilberto, de Tom, discos da Elenco – era assim meu kit segurança…

Solange Castro – E como foi que você optou pela “profissão” música?

Olivia Hime – Muito lentamente – era o que eu sempre quis fazer, mas eu não tinha idéia de como ia me colocar nisso… Primeiro o que eu fazia era tocar, quando eu era mais moça, até meus dezoito anos – o que mais eu fazia era tocar, mas não havia essa pretensão de ser cantora… Mas aí meus amigos eram esses – Joyce, Vanda, Edu, Dori, Marcos Valle…

Solange Castro – Bom, então você vem desse “contexto”…

Olivia Hime – Sim, esses eram meus amigos – Nelsinho Mota, Francis, que eu vim a conhecer aí, enfim, minha geração é essa… Agora, eu conhecia músicos antes – a geração que eu comecei foi anterior à Bossa nova porque meu cunhado, que já faleceu, era muito amigo de todos eles, então lá em casa era assim: Oscar Castro Neves, Menescal, Ronaldo Boscoli, Aloizio de Oliveira, Carlinhos Lyra…

Solange Castro – Então a música vem de dentro da sua casa…

Olivia Hime – Sim, meu cunhado não era músico, mas gostava de música – ele tocava direitinho e conhecia todo mundo e então o meu mundo era esse – ninguém em casa era músico, mas todo mundo gostava muito de música… Eu tocava, mas eu nunca pensei que um dia eu fosse me profissionalizar em música… Eu cheguei a fazer o Conservatório Nacional de Teatro, fiz vestibular para sociologia e psicologia, larguei para fazer teatro… Aí conheço o Francis, namoro e caso com o Francis, a vida continua para mim com a música, mas eu não tinha idéia de me profissionalizar – eu tinha a vontade, mas eu não sabia se eu ia conseguir, eu achava que talvez eu não conseguisse fazer uma carreira como artista, ou como letrista, não percebia… E foi quando eu estava namorando o Francis e nos encontramos num palco onde ele fazia a direção musical e eu tocava violão que ele disse: – “Não, você vai cantar, não vai só tocar o violão…” e eu disse que não ia cantar de jeito nenhum – eu tinha lá meus 19/20 anos e foi a primeira vez que eu cantei num palco de escola, no Santa Úrsula, e foi a primeira vez que eu cantei em público.
Eu era muito tímida, e ainda sou, embora eu não demonstre isso, porque a gente vai crescendo e vai encontrando formas de se adaptar ao seu temperamento, e eu tinha vergonha de cantar em público também, cantava em casa com os amigos… É muito difícil, você tem o desejo, mas alguma coisa te impede, por timidez ou por insegurança… E aí fui indo, tive as minhas filhas, eu acompanhando todo mundo se encaminhando para se profissionalizar e eu pensando, eu sou meio calminha mesmo… E aí tive os filhos, criei os filhos, voltei ao teatro, fiz algumas peças infantis e algumas de adulto, e aí comecei a fazer uma produção do Francis – eu cantava num disco dele ou outro, cantava no coro do Chico, cantei no show de Vinícius, Miúcha, Tom e Toquinho, naquele show do Canecão que durou três meses… Até que Francis fez o show “Passaredo” e me convidou para cantar com ele e aí eu topei fazer – aquele show era muito lindo…

Solange Castro – Era mesmo…

Olivia Hime – E eu morria de medo – o medo que eu tinha de subir naquele palco… Me vinha aquela sensação: “meu Deus, o que é que eu estou fazendo aqui…”
Aí foi indo, fui fazer o primeiro disco, em 1981 – em 79 foi um compacto que eu lancei, o LP primeiro foi em 1981, e aí já veio com cinco letras minhas…

Solange Castro – E quando você começou a compor?

Olivia Hime – Eu também sempre gostei muito de poesia, de escrever… Uma coisa que sempre me chamou muito a atenção foi a “palavra” em cima da música… A poesia fora da música tem um sentido, mas o quebra-cabeça de uma palavra em cima de uma música sempre me fascinou. A poesia é uma coisa completamente separada para mim… Eu adoro – li na minha adolescência, muito influenciada por uma amiga, Marta Arruda, que me aplicou a poesia na veia – estudávamos em um colégio religioso e íamos para uns retiros espirituais chatíssimos, e nós levávamos livros de poesia, aqueles que adolescente começa a ler: Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira, Drumond, e algumas incursões em Ferreira Goulart… Então fazer letra teria esse desafio que eu acho fascinante, quando uma letra é bem feita eu fico fascinada, quando o ou a letrista encontra a palavra certa para a música… E eu, por exercício, pegava algumas músicas de outras pessoas e escrevia letras, escrevia em músicas que já tinham letras, me divertia muito fazendo isso… E fazia muito letras para as músicas de Francis – não mostrava, não achava boas, era mais um exercício, uma brincadeira, uma palavra cruzada para mim… E um belo dia Francis perguntou o que eu estava escrevendo e eu disse: “Estou escrevendo uma letra para uma música tua…” E aí ele viu, gostou, “Meu melhor amigo” que chama, mas nem é uma letra que eu goste muito, é uma letra legal… Eu gosto, mas ele tirou a letra a fósseps de mim, porque ele achou que eu não ia deixar ele gravar, então ele pegou e eu me lembro que ainda ia trabalhar algumas palavras, eu às vezes demoro um mês trabalhando uma letra… E foi aí que começou – e eu tomei gosto, fiz mais cinco para esse disco, fiz o “Parintintins”, fiz o “Três Marias”, etc., e foi assim que eu comecei…

Solange Castro – E esse é o nono disco?

Olivia Hime –É o nono e o DVD…

Solange Castro – E como veio a Biscoito Fino?

Olivia Hime – Veio de um desejo antigo meu de ter um Selo onde eu poderia colocar as minhas coisas e as de Francis… Há muito tempo eu vinha pensando em estruturar um Selo – eu sempre fui muito amiga do Carlão da Visom e eu vinha nos últimos 10 anos pensando em montar isso, se eu ia acoplar à uma distribuidora… Coincidentemente, Katy, minha sócia atual, me chama para programar o Passo Imperial nessa época, e eu adorei a idéia e fui programar aquele “Compasso Samba e Choro”, com uma programação que ficou três anos e com muito sucesso… No terceiro mês, tamanho era o sucesso que nós compramos uma mesa – eu falei para a Katy que ia comprar uma mesinha e vou gravar, e ela disse: “não, vamos as duas juntas e comprar uma já para gravar legal” – e eu disse: “então tá…” Quando a gente gravou me veio a idéia de montar um Selo e distribuir esse “Compasso Samba e Choro”. De repente nós estávamos com os meus discos que eu já tinha direito, com os de Francis, com os “Compasso Samba e Choro” e aí montamos uma salinha aqui, Katy eu e uma secretária, pedi ao Carlão para distribuir os nossos discos temporariamente e aí eu chamei o Sergio Santos, que é um artista que eu sou louca por ele… E o Francis já tinha um projeto engatilhado que é o “Meus caros pianistas” que ele tinha patrocínio e a gente gravou na Sala Cecília Meireles. No meio do caminho eu disse: “olha, eu só entendo uma gravadora com estúdio, senão não é uma gravadora…” – já tínhamos o estúdio lá do Paço e montamos esse aqui… E a coisa foi indo – chamamos o Oswaldo Cruz para fazer um disco de música erudita porque tinha um pianão aí…
Você sabe que quando eu olho para trás eu não sei o momento que a Biscoito nasceu…

Solange Castro – Foi por volta de 2000, não foi isso?

Olivia Hime – Foi, foi 2000…

Solange Castro – Eu me lembro que na época eu achei você extremamente audaz…

Olivia Hime –É, se eu for olhar lá para frente eu vou achar que não vai dar…

Solange Castro – E hoje vocês estão com quantas obras?

Olivia Hime – Já passamos de cem… Aí está incluído um Projeto que fizemos logo no início da Biscoito Fino com patrocínio da Petrobrás, que nós fizemos a restauração de todas as músicas gravadas entre 1902 e 1950 – compramos o acervo do Franceschi, doamos o acervo para o Instituto Moreira Salles (www.ims.com.br), que o abriga lá lindamente, montamos uma unidade de trabalho aqui com a Visom, fizemos um restauro disso tudo e fizemos discos também – então, nesses cento e poucos, estão os da Petrobrás. Fizemos uma segunda série, que eu convidei Maurício Carrilho para fazer que chama-se “Princípios do Choro”, também sob o patrocínio da Petrobrás… Então são cento e muitos…

Solange Castro – E quais são os lançamentos agora?

Olivia Hime – Nesse momento temos Sérgio Santos, eu, a Bibi Ferreira e o Francis…

Solange Castro – Acabou de sair o Legrand…

Olivia Hime – Legrand já foi em Junho… Da segunda semana de Julho vieram esses quatro e o próximo é o
“Brasileirinho” (de Maria Bethânea) em DVD.

Solange Castro – O disco está lindo…

Olivia Hime – Lindo! O DVD está mais bonito… Está uma coisa…

Solange Castro – O que te levou fazer esse disco nesse momento?

Olivia Hime – Eu venho de um disco muito orquestral que é o “Mar de algodão”, que é um disco com três suítes onde a cantora aparece para servir ao trabalho dos orquestradores e à música de Caymmi, porque foi assim que eu o idealizei, eu queria um disco orquestral… Eu não queria cantar Caymmi porque eu acho que ele já contou melhor do que qualquer cantora, então eu não tinha como acrescentar nada… E eu pensei em fazer um disco completamente orquestral e eu estou ali no “Mar de algodão” como qualquer outra cantora poderia estar, porque eu não o imaginei como um disco meu, como cantora – o que eu fiz nesse disco foi pensar no formato dele, e dizer: “Olha, eu quero dividir entre manhã, tarde e noite, eu quero funcionar assim, eu quero as músicas entremeadas, eu quero uma orquestração aqui de sopro, aqui eu quero uma formação de cordas médias… Eu acho que o grande talento que eu coloquei foi ‘bolar’ o disco.
Por que eu cheguei nesse disco agora? Eu queria fazer um disco com uma formação, uma sonoridade, muito simples e muito rica – a primeira idéia foi essa: fazer um disco com sonoridade íntima e muito rica, e eu falava isso para o Francis…

Solange Castro – É, o disco parece um “oceano de sons”…

Olivia Hime –É, e se você for olhar a ficha técnica, você vai ver que não tem uma faixa com a mesma formação… Não são mais que seis músicos em média em cada faixa – às vezes tem três, às vezes oito, mas enfim, não é um disco “orquestral”…

Solange Castro – Mas com uma sonoridade ímpar… Os arranjos são lindíssimos e a tua interpretação é belíssima – realmente foi um disco que me comoveu, me fez chorar com prazer de tamanha beleza… E não é comum, tem que ser muito “Chico Buarque” pra me botar pra chorar assim…

Olivia Hime – Então o disco partiu mais da idéia dessa ‘sonoridade’ tranquila, transparente… Eu já havia começado a fazer um disco de músicas de Francis com letras minhas e foi Joyce quem disse: “- Olívia, compõe com outras pessoas…” E aí me deu um samba que acabou não ficando pronto, e aí eu fiz com Maurício Carrilho, fiz com Sérgio Santos, fiz aquela versão e acabei não terminando a com a Joyce, que foi quem me botou pilha para fazer com outras pessoas… E aí eu fui em torno dessa idéia dessa sonoridade muito singela, formando repertório dentro das coisas que eu tinha, eu devo ter umas cinquenta letras e selecionei essas quatorze e fui construindo ali em volta. Tanto é que tem algumas músicas que eu já gravei e que eu quis regravar. Porquê? Porque faziam parte desse universo, dessa obra… Eu não tenho problema de regravar, tem três regravações nesse disco. Porque eu acho que um disco é um organismo, você tem que servir ao disco e não ele servir a você, ele tem que servir ao conceito que você criou…

Solange Castro – E você conseguiu isso com muita sutileza…

Olivia Hime – Eu fiquei muito feliz com esse disco… Hoje eu estava dando uma entrevista para o “Diário do Nordeste” e o rapaz que já havia me entrevistado há dois anos atrás por conta do “Mar de algodão”, ele disse para mim: “Depois desse disco a sensação que eu tenho é que eu te conheço, parece que você se desvenda…” Não sei se eu me desvendo, mas é bom passar isso para as pessoas…

Solange Castro – Eu não sei se você se desvenda, mas com certeza você me toca… Você encostou em mim, eu fiquei rigorosamente emocionada…

Olivia Hime – Rs… Que bom, que bom, que bom…

Solange Castro – E olha que eu trabalho com muita música – eu ouço música o dia inteiro…

Olivia Hime – E é engraçado e eu não sei porque as pessoas se afastaram um pouco – não estou fazendo uma crítica, estou observando – de falar através do sentimento… As coisas ficaram muito diretas, você fala sobre a natureza, sobre a sexualidade, sobre trabalho, sobre a música, sobre o corpo, sobre fruta – tem vários temas, mas o engraçado é que eu percebo que raramente se fala através do sentimento… Não que não tenha, tem milhões de músicas maravilhosas, compositores como Paulinho Vieira, Geraldo Carneiro, Cacazo, Chico, Joyce que é uma delícia, maravilhosa… Suley Costa, Abel Silva…

Solange Castro – O que você está achando do trabalho do Gil como Ministro da Cultura?

Olivia Hime – Olha, um pepino, viu? É complicado… É um papel muito difícil… Eu acho o Gil muito hábil, muito talentoso, mas eu não posso fazer uma observação sobre o trabalho do Gil porque ele não trabalha sozinho, ele trabalha dentro do PT… Eu sou petista, não estou criticando, mas está confuso… Está muito difícil…

Solange Castro – Olha, eu estou para levantar uma questão – eu acho que estamos precisando de uma “política específica para a nossa música”.

Olivia Hime – Olha, o pessoal está reclamando que não tem uma política para o teatro…

Solange Castro – Nossa música é uma das maiores divisas desse País… Nós somos responsáveis por isso, tem que haver uma política, tem que haver seriedade…

Olivia Hime –É, sem dúvida… Agora, eu acho que o Gil é uma pessoa extremamente bem informada e inteligente, mas eu não sei com que força ele está… É como se fosse um cabo de guerra – um puxa de cá, outro puxa de lá e as coisas não andam…

Solange Castro – É, está muito complicado… E quanto ao jabá, o que você acha?

Olivia Hime – O Jabá matou a música brasileira, porque o que acabou determinando o que as pessoas ouvem é quem tem mais dinheiro…

Solange Castro – Exato… E hoje em dia não adianta você ter dinheiro, porque mesmo você tendo muito dinheiro quando você chega as majors já compraram o espaço e não te deixam entrar…

Olivia Hime – É um horror… Sabe como é que eu estou tentando contornar para o meu disco? Fazendo entrevistas ao vivo, ocupando a mídia…

Solange Castro – Olívia, muito obrigada pela sua entrevista e parabéns pelos teus trabalhos – você se destaca como produtora, empresária, compositora, diretora e artista… Show!
Fique certa que estaremos fazendo a cobertura do lançamento e divulgando toda essa trajetória aqui no Alô Música.