Nosly Marinho

Por: Tânia Gabrielli-Pohlmann (c)

No Programa “Revista Viva”, transmitido ao vivo no dia 31 de outubro de 2007, Tânia Gabrielli-Pohlmann
entrevista Nosly Marinho 
sob atmosfera descontraída.
Confira a entrevista aqui:

 

 

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Hoje encerrei as dicas meteorológicas com o Maranhão, porque hoje tenho um convidado um convidado muito especial. Um músico, compositor e cantor brasileiro que vem do Maranhão. Hoje em Revista Viva Nosly Marinho. Boa noite, Nosly, e muito obrigada por dedicar parte de seu tempo ao nosso programa.

Nosly Marinho – Boa noite, Tânia.Eu gostaria de dizer que é um prazer muito grande estar podendo falar com todos os seus ouvintes e participar de seu programa.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Ainda no Maranhão, onde você nasceu, você iniciou sua carreira em festivais, não é?

Nosly Marinho – Sim, eu comecei em festivais estudantis; depois participei de festivais nacionais, mas nunca fui muito fã de festival. Participei de alguns escolhidos, assim por dizer, mas minha carreira começa já no palco, no ano de 1984, assim que terminei meus estudos secundários. Aí foi que começou minha carreira e, a partir desse instante, comecei a compor com mais freqüência. Eu era só um jovem, ainda, e tinha muita coisa pela frente…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Aí aconteceu seu encontro musical com Zeca Baleiro…

Nosly Marinho – Bem, ao contrário do que muita gente acha, na verdade eu e Zeca somos amigos de infância. A gente se conhece desde os sete anos de idade. Ele vindo de Arari e eu de Caxias, dois municípios do Maranhão. E a gente morava na mesma rua. Mas quando eu comecei a tocar o Zeca não tocava, ainda; ele ainda não tinha subido no palco. A primeira vez que ele subiu no palco foi no meu show, no Teatro Arthur Azevedo, no ano de 1985. Então, na verdade, ele vem depois de mim…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Ah, então ele começou com você…

Nosly Marinho – É, ele fala isto também, quando ele fala dele, ele sempre reconhece isto que, na verdade, eu fui o cara que puxei ele para o palco, porque ele era muito tímido… Depois eu fui para Belo Horizonte e o convidei para fazer uma reprise do show que fizemos no Maranhão, juntos. Então ele foi ao meu encontro em Belo Horizonte, no ano de 1986. E a nossa amizade continua até hoje, a gente tem aproximadamente 70 canções escritas.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Olhe só, eu tive de me mudar para a Alemanha para saber desta história! (Risos). Interessante como as pessoas se encontram…

Nosly Marinho – É mesmo. E, no meu caso, em especial, com relação ao Zeca… Depois fiquei em Belo Horizonte estudando música, no Palácio das Artes, e ele foi para São Paulo. E eu sempre ía visitá-lo em São Paulo. Foi na casa dele que eu conheci o Chico César e nos tornamos parceiros, também. Inclusive, escrevi uma música lá no apartamento do Zeca, com o Chico César, por exemplo. Então, nossa amizade sempre foi pautada com muito carinho, com muito amor; nossas famílias se freqüentam. No Brasil, sempre vou à casa dele, em São Luís, quando estou fazendo show por lá, enfim… a gente tem uma amizade bonita que, embora a gente viva em extremos opostos, a gente está sempre em sintonia no astral, que é o que vale a pena…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Eu recebi seu CD “Nave dos Sonhos” que realmente é um trabalho muito bonito. Eu trouxe o CD aqui, para o programa e nós vamos ouvir algumas faixas deste CD. Vamos começar comentando um pouco a faixa título?

Nosly Marinho – Primeiro gostaria de falar do parceiro, Nonato Buzar, que já está com 74 anos, um dos melhores compositores que o Brasil tem ainda. Para quem não sabe, ele tem músicas gravadas por Carlos Santanna, Jimmy Cliff, Paul Anka, Elis Regina e todos os grandes intérpretes brasileiros já gravaram a música do Nonato. E somos amigos e parceiros. Nossa parceria é muito bonita porque, embora a gente tenha feito só umas dez ou quinze canções juntos, todas são de qualidade extrema. Eu tenho muito orgulho por ter escrito essas canções com ele. E “Nave dos Sonhos” foi um desafio, porque ele me mandou a letra pelo correio, e eu li a letra e não me senti num compromisso imediato de escrever a canção, mas eu sabia que uma hora isso viria a acontecer. E, pensando no repertório do disco, embora eu tenha quase 400 músicas escritas, sempre é muito difícil escolher um repertório, quando vou gravar, porque eu não gravo muito, este é meu segundo CD, ainda. E, o Nonato… eu achei que era hora dessa letra, então resolvi escrever uma música em compasso composto, que também foi um desafio para mim, já que eu nunca tinha experimentado fazer uma música em compasso 5 e depois 6, enfim, misturando as duas coisas, o ritmo composto, o que deu numa música muito interessante… Eu acho que calhou bem no repertório que eu queria para este disco.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Durante a execução desta canção, conversei em off com Nosly, e nós rimos muito, porque ele acabou contando uma curiosidade a respeito desta música: Nosly, você compôs esta canção no banheiro? E por que no banheiro?

Nosly Marinho – É, eu sempre tive sorte com banheiros, em todas as casas nas quais morei, porque eles sempre foram o cômodo com a melhor acústica. Além disto, sempre tenho muito boas idéias no banheiro, não sei por quê, mas há muito tempo acontece isso… E quando me vem alguma idéia, me vem o pensamento: vá para o banheiro, que lá rola, que lá vai sair alguma coisa… (Risos). É impressionante, mas isto sempre acontece. Eu sou o tipo de compositor que sempre espera a “hora boa”, a hora da inspiração. Eu não sou aquele cara que vive naquela autopunição. Às vezes passo dois, três meses sem compor, e não fico preocupado, porque eu acho que a inspiração é uma coisa divina, então na hora certa ela acontece e você faz uma grande música. O que mais vale a pena, na hora da inspiração, é você ter aquela luz e colocar seu espírito, sua alma, disposta a receber alguma coisa muito bonita. E eu dou sorte – e o banheiro faz parte dessa história (risos)…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Este CD “Nave dos Sonhos” está sendo lançado agora, aqui na Alemanha, inclusive ele foi produzido aqui na Alemanha. Como foi a concepção deste CD, como foi o critério de seleção deste CD?

Nosly Marinho – No começo de 2006, eu me dispus realmente a gravar, de travar toda essa luta para gravar um CD, já que não é nada fácil… Mas, eu acredito no meu potencial; eu saí do Brasil para ser reconhecido pelo que já criei, pelo que posso criar, então a única maneira de as pessoas terem um contato maior com minha música, era gravando um CD. E, como tenho um parceiro que já conheço há doze anos, desde a primeira vez que vim à Europa, que é o André de Cayres, baixista que toca comigo no CD, e que mais do que ninguém me impulsionou a fazer, e a gente foi concebendo, aos poucos… Eu, mostrando a música, mais ou menos o caminho que eu queria, e assim fiz. Aí, faltava uma música para compor, que foi essa “Nave dos Sonhos”, porque, embora eu tivesse outras tantas prontas, eu queria fazer um disco com a cara do mundo, com uma cara das coisas que eu estou vivendo na Europa. E eu consegui, pois o repertório tem uma unidade nas canções que eu queria, e depois eu parti para a gravação. Aí foi o planejamento… Eu já tenho os músicos, como o Christophe de Oliveira, o baterista, que a gente já conhece há muitos anos, desde a época em que conheci o André, ou seja, eu tinha a base pronta. Daí, eu tinha de pensar nos arranjos. Como custaria muito caro contratar um arranjador, e no final eu teria de partilhar as idéias, eu preferi, já que estudei para isso também, na época colocar em prática tudo o que aprendi. E o que vale para um bom arranjo, é uma boa idéia… Às vezes você tem o domínio técnico para escrever a música, mas não é o bastante, se você não tem as boas idéias para que ela seja escrita. E eu sempre fui uma pessoa muito abençoada com boas idéias, e daí os arranjos bacanas do CD. Eu acho que consegui um resultado bastante homogêneo, e estou muito feliz com o que conseguimos gravar, porque é uma gravação ao vivo, no estúdio: a gente tocando, um olhando o outro, sentindo a música, como já foi feito nos tempos passados. Então, foi uma oportunidade de mostrar não só a composição, como a performance em si, como é a gente tocando a música viva, ela acontecendo, toda dinâmica, tudo o que ela consegue passar quando ela é executada, ali, no momento. Estou muito feliz com o resultado.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – É, na verdade, Nosly, esse clima, todo o preparo, esse cuidado especial de os músicos estarem todos juntos no estúdio, na verdade, irradia no CD. A gente realmente pode sentir essa atmosfera carinhosa, essa harmonia no ar, ao ouvir o CD.

Nosly Marinho – É, e também porque nós somos como uma família, eu tenho basicamente um quarteto, os somos como um quarteto: eu, o Christophe, André e o Sebastian (Motz), que é o pianista, alemão. A gente se gosta muito, a gente tem muito carinho um pelo outro. A gente está quase todo dia em contato, seja via internet, ou por telefone e, como cada um tem as suas gigs, quando a gente tem a chance de estar juntos e tocar, sempre é muito bom. E eles estão indo para o Brasil comigo, para minha turné no Brasil, que foi uma iniciativa deles, o que achei muito mais legal, porque eles sabem que o custo disto é muito alto. Eu não sou contratado de uma big company, eu tenho um selo que lançou meu CD, e que está muito entusiasmado e… eu acredito que tudo na vida é passo-a-passo… Eu sou uma pessoa paciente, então, “os caras certos, na hora certa”… Então, quando a gente está junto, é sempre um carinho, uma energia muito boa e a gente conseguiu isso tocando. Porque uma coisa é o treino, a outra coisa é o “jogo”, entende? Na música acontece muito isto. Às vezes você ensaia muito e, na hora do “vamos ver”, não acontece. Então, eu sempre busquei, todos os músicos que tocaram comigo, que atuam comigo, sempre busco saber como eles são como pessoas. Depois é que vem a música. Então eu dou sorte de encontrar as pessoas que se afinam com o que sou, que valorizam a pessoa, acima de qualquer outra coisa, porque sem essa energia do ser humano, não existe música, não existe nada.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – É… é a essência, o fundamento de tudo, né, Nosly… A próxima faixa que nós vamos ouvir é uma parceria com ChicoAnysio?

Nosly Marinho – Pois é… Uma parceria com Chico Anysio?

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Sabe que eu ouço esta música e passo fome? (Risos) Dá muita saudade da nossa comida… (Mais risos)

Nosly Marinho – É, imagino… Sabe que é uma coisa muito interessante, porque os compositores da minha geração, eu tenho quarenta anos, eu tenho uma sorte incrível… São coisas do astral… Por exemplo, eu compus com Nonato (Buzar), com o Chico Anysio, com Tibério Gaspar, o João Nogueira – esses quatro da geração dos 70, grandes. Depois vêm Sérgio Natureza, Fausto Nilo, Luís Carlos Borges; depois vêm Chico César e Zeca Baleiro e os outros, quer dizer, abrindo minhas mãos, tenho dez parceiros de peso, então fico me perguntando como não posso me sentir feliz de estar com essas pessoas, porque, como eu te disse, se para tocar você tem que colocar pessoa em frente à música, imagine para você compor; para sentar e trocar uma idéia, e sair, nascer uma coisa, se tornar parceiro, muito mais que amigo. E compor com Chico (Anysio) foi uma coisa incrível. Nós temos 25 canções e, sempre que eu vou ao Rio, onde ele mora, a gente sempre se encontra, e sempre é muito bom. Ele inclusive já me escreveu, me parabenizando pelo CD, e ele fica muito surpreso quando eu digo que essa música nossa (“Se me der eu como”) é uma das músicas que os alemães mais curtem, embora não entendam o texto. Imagine se entendessem… É uma letra muito engraçada…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – É, mas você conseguiu passar esse humor através do ritmo, da música. E os alemães gostam…

Nosly Marinho – É verdade… E o trombonista é alemão, e… engraçado… a gente só falou com ele como era mais ou menos o som de gafieira do trombone, aquela malandragem do trombone e foi só uma simples conversa, junto com o lance do astral, aquela coisa do astral, que eu falei, ele captou o sentido que os queríamos e, no primeiro solo já saiu essa maravilha. Não foi nem preciso a gente dizer: “Pô, grava a boa!”; o primeiro já foi “a boa”.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Nosly, antes de nos aproximarmos do final de nossa entrevista, gostaria que você passasse sua agenda…

Nosly Marinho – Há vários shows pela Alemanha, como em Köln, München, que podem ser acessados na minha página: www.myspace.com/noslymarinho Lá tem todas as informações…

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Infelizmente o tempo passa muito rápido… Mesmo assim, quero encerrar esta entrevista com a pergunta que faço a todos os meus entrevistados, tanto aqui na Rádio, como no Boletim “A Casa dos Taurinos”… Na sua opinião, qual é o papel social do artista, especialmente do artista brasileiro?

Nosly Marinho – Olha, eu penso que, o artista que não pensa em ajudar, que não encara de frente o papel que ele representa para a sociedade, enquanto artista, tem que procurar uma outra profissão. É… Eu, em particular, falando da minha pessoa, sempre encarei minha vida como a única maneira de ajudar. Se eu conseguir chegar aonde eu gostaria, aonde eu quero, aonde eu desejo, aonde eu objetivo, eu não vejo outra maneira, porque isto está dentro de mim há muito tempo, uma vontade imensa de ajudar, principalmente as pessoas lá da terra de onde eu venho, lá de Caxias, no Maranhão, que é um município que passa as coisas mais difíceis… É difícil você imaginar que num país como o Brasil existam 35 milhões de pessoas que não sabem ler, crianças que ainda passam fome, que ainda são desnutridas… E eu tenho uma idéia clara, eu tenho dois projetos na minha cabeça. Um é um lar da terceira idade, que é um lar para as pessoas da terceira idade terem uma vida, um final de vida mais feliz, porque tem muita gente da terceira idade, lá, que não tem nada, que morre à míngua. E o país esquece essas pessoas que plantaram esta árvore que é o Brasil hoje, que já foi semente um dia. E uma outra coisa que eu gostaria muito, é uma escola de música na minha cidade. Eu até já tenho até o nome: Escola de Música Livre. Mas, é claro, tudo isso é um sonho que eu tenho. Quisera eu poder realizar esse sonho. Mas eu não vejo minha vida com outro sentido que não seja partilhar, não só todo o conhecimento musical que eu adquiri nesses quarenta anos de vida, mas poder deixar alguma coisa que vá servir para outras gerações, sabe, senão não tem sentido a minha vida.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Puxa, torçamos para que você possa realizar seus sonhos! Muito obrigada pelo carinho, pela belíssima entrevista e que, espero, tenha uma segunda edição…

Nosly Marinho – Eu só tenho algo mais a falar, que é minha preocupação com o meio-ambiente, e com a preservação a natureza. Eu tenho já alguns temas escritos a respeito da importância de todo ser humano se preocupar com o futuro do Planeta. Eu sou mais uma voz a favor da Terra. Salvemos nossa natureza, nossa Terra.

Tânia Gabrielli-Pohlmann – Mais uma vez, muito obrigada!

Nosly Marinho – Muitíssimo obrigada aos ouvintes. Deixo a todos um beijo muito grande com muito amor e paz.