Maria Dapaz

 

Por: Solange Castro

 

Compositora e intérprete afinadíssima, Maria Dapaz é artista de “tirar o fôlego”. Pernambucana, leva pro palco toda malícia da ginga brasileira, com beleza em cada movimento, em cada tom… Vale a pena conhecer mais essa preciosidade nordestina…

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Maria Dapaz – imenso prazer te-la aqui conosco – obrigada pela atenção…
Conte para nós – você é nordestina e criada no meio dos mais deliciosos ritmos do Brasil – como foi optar pela música?

Maria Dapaz – Nasci já com a música no sangue. Nem precisei optar, ela me escolheu e estamos juntas a muito tempo… Eu me criei no Vale do Pajéu, no sertão Pernambucano, onde se ouve de tudo: cantorias, serenatas, repentes, emboladas e além de tudo em minha casa todos gostavam de cantar um pouquinho. Eu fui pegando um pouco de tudo, misturei e deu no que deu. Comecei cantando nos programas de calouros e depois vieram os grupos de bailes onde eu aprendi o be-a-bá da profissão. Mais ou menos assim…

Solange Castro – Programas de calouros – nessa época tinhas quantos anos?

Maria Dapaz – A primeira vez que me apresentei tinha nove anos, num programa chamado “A Mais Bela Voz do Nordeste”! Tirei o segundo lugar. Havia muitos profissionais e eu no meio… Mandei bala e ai não parei mais…

Solange Castro – Nossa, nove anos é muito “tiquinho de gente” – isso é coisa de sangue nas veias mesmo…
Bem, já dá para se imaginar como foi partir para bailes, etc. Aqui no “Sul Maravilha” os novos talentos partem para Festivais e coisas do gênero – como foi no Nordeste? Como você ingressou na carreira profissional?

Maria Dapaz – Gravei meu primeiro disco em São Paulo em 1981 (Pássaro Carente). Foi por aqui que me tornei profissional do disco. Em Pernambuco tive a chance de tocar com grandes músicos que me ensinaram muito. Quando cheguei em São Paulo já tinha uma boa bagagem. Também participei de Festivais dentro e fora do Brasil .

Solange Castro – Ai, peraí – foi um pulo muito grande, tem coisa no meio do caminho…
Por partes: como você saiu de Pernambuco e foi para São Paulo? Já como cantora?

Maria Dapaz – Eu nunca fiz outra coisa na vida. Bom né? Mas vamos lá: eu saí do interior e fiquei um ano e meio tocando na noite de Recife. Mas eu queria conhecer o mundo. Sampa era o meu maior sonho então um dia peguei um Itapemirim e cheguei aqui onde passei a tocar na noite paulistana. Um ano depois, já gravava meu primeiro disco “Pássaro Carente”. Nos anos 80 havia uma leva de músicos e artistas maravilhosos tocando na noite. A gente tocava e cantava o melhor da MPB, na minha opinião a fase mais rica da Música Brasileira, em tudo.

Solange Castro – Ai, que maravilha – e como foi essa escalada? Afinal, eis reconhecida por grandes nomes da Música Brasileira hoje…

Maria Dapaz – Em 1980 conheci Lincoln Vieira (irmão do Luis Vieira), que me apresentou na gravadora Copacabana, onde gravei dois LPs. Depois recebi um convite de Jocelyne Aymon para fazer shows na Suiça e outros países da Europa. Por lá fiquei seis anos e gravei dois CDs: “Minha Terra” e “Clareia”. Quando voltei ao Brasil, em 1990, comecei a mostrar minhas composições e gravei com grandes artistas em diferentes gêneros. Martinho da Vila, Sandy e Jr, Chitãozinho e Xororó, até Ray Connif gravou música minha. Interessante.

Solange Castro – Maria Dapaz, isso é uma carreira meteórica – rs… Como foram esses seis anos na Suiça?

Maria Dapaz – Ah, ah! Meteórica? Na Suiça vivi seis anos maravilhosos. Cantei na Alemanha e França, em grandes Festivais, como Printemps de Bourges, na França, Bremenale na Alemanha, Velha ópera de Frankfurt, Festival da Canção em Berlim Oriental (antes da queda do muro) enfim, tudo de bom mesmo! Encontrei músicos brasileiros que estavam muito bem profissionalmente, outros que morriam de saudades e só pensavam em voltar. Músico é músico em qualquer lugar do mundo. Tem as mesmas ansiedades, frustrações e alegrias. Faz parte da natureza.

Solange Castro – Com certeza… Conheço muitos músicos, grandes talentos, que moram mundo afora – o Alô Música me permite isso…
Mas me diga: em termos de “profissionalismo”, como você vê a produção musical na Europa e no Brasil – são dois prismas totalmente distintos, certo?

Maria Dapaz – É, temos algumas diferenças. Acho que lá fora o pessoal é mais bem organizado. O horário é sagrado, o cachê também.

Solange Castro – Por lá você usava repertório brasileiro?

Maria Dapaz – Sim, cantava músicas de minha autoria e de compositores como Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, João do Vale… Eles ainda não conheciam o xote, o baião… Eu adorava ouvir o pessoal cantar comigo o refrão de Sebastiana (Jackson do Pandeiro) … E gritava: A – E – I – O – U – Y conheces?

Solange Castro – Rs.. Sim! Mas levar xote pra suíço deve ser um tanto estimulante… Imagino eles tentando se entender com tanto remelexo – rs…

Maria Dapaz – Era engraçado mesmo. Mas de tanto tentar acabavam aprendendo.

Solange Castro – Acho interessante você falar em composições suas – sim, eis compositora, mas levar obras inéditas para um público tão distinto não é nada fácil – como você os conquistou? Como foi ingressar no espaço musical europeu?

Maria Dapaz – No meu caso, se a música era inédita ou não dava no mesmo, pois eles não conheciam esse repertório. E o público ficava curioso e conhecer mais sobre a nossa música. O que se conhecia de música brasileira era a bossa nova e samba. Assim eu fiz meu caminho e deixei minha marca. É muito gratificante. Gravei dois discos pela Seeds Records que foram muito bem distribuidos na Europa, Japão e Estados Unidos. Fazia muitos shows e não podia deixar de cantar Clareia, composição minha que fez sucesso.

Solange Castro – Sim, então era um misto da MPB conhecida internacionalmente com a sua… Agora, ainda nos anos 90, quais obras dos “novos” da época chegavam até lá? Sabemos que Tom Jobim, Chico, Caetano e outros “Mestres” da nossa música já eram conhecidos nessa época, mas já nos anos 90 a “falência” da música brasileira já existia e era evidente para nós, profissionais do segmento, mesmo tal falência não ser percebida pelo público consumidor… E na Europa, isso já era detectado? Já chegava lá Moska, música instrumental brasileira, e tantos outros talentos aqui colocados nas prateleiras?

Maria Dapaz – Olha, eu tive a oportunidade de ver shows de artistas brasileiros sempre com sala lotada. A música brasileira é muito apreciada. Mas quem é conhecido lá de verdade são os mesmos de sempre. Música instrumental: Ermeto Pascoal, Egberto, etc.
Solange Castro – E “Mestres” como Peranzzetta, Marcelo Martins, Carlos Malta, “roubaNdo para nós” Victor Biglione e tantos outros FERAS, ainda desconhecidos?

Solange Castro – E olha que muitos desses talentos estão sempre em Festivais pelo mundo afora, mais do que aqui…

Maria Dapaz – Pois é… Durante o tempo que passei por lá eram apenas esses que citei… Os músicos brasileiros estão espalhados pelo mundo todo…

Solange Castro – Vixi – bem, nos anos 90, com já havia dito, a música brasileira já estava em plena falência por incompetência das grandes gravadoras, isso é certo – olha a perda…

Maria Dapaz – Atualmente a música brasileira está forte em vários paises. O Japão, por exemplo, é um destino certo. Mas é claro que existe um pouco de lixo nisso tudo. Fazer o que?

Solange Castro – Façamos nós – rs…

Maria Dapaz – Claro!

Solange Castro – Maria, quantos discos gravados?

Maria Dapaz – São doze no Brasil e dois lá fora… Quanto chão… É complicado falar de todos os discos, mas uma coisa importante é o fato que cada um foi um registro do que eu vivia naquele momento. Cada disco tem uma cara diferente.

Solange Castro – Com certeza… Maria, são anos de carreira – quais os mais ricos momentos, o que de mais especial para ti?

Maria Dapaz – Quando cantei em Berlin Oriental representando o Brasil, quando cantei na velha Ópera de Frankfurt, quando abri meu selo e produtora “JOMA Produções” e gravei meu primeiro disco independente Meu Lugar : um divisor de águas em minha vida.

Solange Castro – Bem, é uma bela estrada…

Maria Dapaz – Quando, em1991, estourou minha música “Brincar de Ser Feliz” no Brasil inteiro nas vozes de Chitão e Xororó, também foi um grande momento. Depois veio “O Bailão de Peão e Loira Gelada” em 1995, “Na Aba do Chapéu” em 1998 e “Meu café da Manhã” em 2001.

Solange Castro – Gente, que barato…

Maria Dapaz – Pois é, uma sensação fantástica.

Solange Castro – Mas agora vamos falar do momento… Recebi o vídeo de “Da Cor Morena”, um luxo só – é lançamento? Fale sobre esse trabalho…

Maria Dapaz – Este disco foi lançado em 2006… E o vídeo entrou como bonus no CD. O pessoal gostou…
O disco mais novo é o “Ô Abre Alas” que é de marchinhas de carnaval.

Solange Castro – Esse é bárbaro… Amei!

Maria Dapaz – Acho que ele será sempre novo por que as marchinhas são inesquecíveis e todo mundo gosta.

Solange Castro – Além das músicas, verdadeiras pérolas do repertório da folia carioca, está super bem gravado, e não posso deixar de parabeniza-la pela interpretação…

Maria Dapaz – Obrigada. Este disco foi na verdade uma sugestão de um fã que achava que eu ficaria bem cantando as marchinhas. Daí comecei a ouvir as músicas e montar o projeto. A gravadora Atração topou e produziu o CD. Os arranjos, foram atualizados, ganharam novos instrumentos e interpretações, ficou um disco feliz, jovem. Uma prova de que música não envelhece mesmo, é só dar uma tinta nova e pronto!

Solange Castro – A idéia caiu como uma pluma – sua capacidade de interpretação, ginga, voz, tudo perfeito em uma ótima idéia…
E como está o lançamento? Temos turnê à vista?

Maria Dapaz – Faço todos os anos a segunda-feira de carnaval no Garimpo na cidade de Embú das Artes. Já é uma tradição. Faço apresentações em bailes de carnaval nos clubes de São Paulo…

Solange Castro – Isso já é um evento e tanto… Mas alguma proposta de circular pelo Brasil e exterior? Como funciona? É um trabalho específico, deve ser super divertido..

Maria Dapaz – “Ô Abre Alas” é de fato o disco que faltava no mercado. Não tem disco neste imenso Brasil que reúna grande parte das marchinhas dos carnavais de salão, aquelas que todo mundo canta. Esso foi a proposta. Sou acompanhada pela banda do Gibba Gouveia, o arranjador e produtor do disco.
Viajamos, sim com a banda. É só entrar em contato com JOMA Produções jomaprodat@uol.com.br.

Solange Castro – Maria, foi um imenso prazer conhece-la. Muito sucesso e nos deixe sempre informados sobre seu trabalho.
Um grande beijo..

Janeiro de 2009