Leandro Braga

 

 

Por: Solange Castro

 

Dona Ivone Lara, nos abençoa!
Com teu canto, que alivia a alma e afugenta a dor e a mediocridade, nos abençoa!
Com tua música, que faz crer no profundo do espírito humano e traz alento ao Rio de Janeiro e ao Brasil, nos abençoa!
Com teu olhar, sábio dos amores e penas que vivemos, nos abençoa!
Abençoa nossa gente, tão prescisada de um orgulho, como o que temos em ti!
Abençoa a teimosia de ainda crermos que os abençoados, como tu és, nascem de nós!
E abençoa meu piano em seu pretencioso desejo de louvar a quem já é tão abençoado e cheio de luz!
Dona Ivone Lara, nos abençoa!

Leandro Braga

Leandro Braga é compositor, pianista e arranjador. Um dos nomes mais requisitados no meio musical, tem sua veia poética e diz “Quando a gente faz uma declaração de amor, a poesia é inevitável!” Assim se percebe que Leandro declara amor em cada canção, pois sua música é pura poesia…

Alô Música – Alô, Leandro… Conte um pouquinho da sua história – quando você começou a estudar música?Leandro – Aos 4 anos. Sob as ordens da mãe, lógico. Era, às vezes, um porre! Só começou a ficar bom quando já conseguia tocar alguma coisa…

Alô Música – Desde criança, qual o estilo de música que mais lhe chamava atenção?

Leandro
– No início eram muitos exercícios, a maioria uma chatice. Métodos como Francisco Russo, Hanon, Pozzolli, etc.. De início vem a fase do fascinio. Depois, a chatice infinita, até que você começa a tocar algo.
Eu gostava de ouvir muita coisa, mas me atraía muito a Jovem Guarda e a Música egra Norte-americana.

Alô Música – Jazz e Blues?

Leandro
– Principalmente só grupos como The Platters e similares. Aretha Franklin. Tive acesso ao Jazz após ler reportagens a respeito.

Alô Música – E você fez medicina… como foi a opção pela música, já que chegou a se formar?

Leandro – Na faculdade em que estudei (PUC-SP) havia muitas atividades culturais ao longo do ano, inclusive um Show-Med, onde logo me tornei diretor musical. Como não havia bons músicos na escola, tínhamos que apelar para profissionais da cidade. Ali comecei a lidar com a música profissional. Assim, ao me formar, foi automático eu aposentar o diploma e entrar nos bailes. Depois, tive uma breve recaída, quando montei um consultório, com muitos pacientes. Mas a infelicidade me fez voltar à música. Foi uma opção razoavelmente fácil!

Alô Música – E qual era tua especialidade médica?

Leandro
– Eu era Homeopata.

Alô Música – Quando você veio para o Rio?

Leandro
– Morei em São Paulo por 10 anos!! Estou no Rio, graças a Deus, desde 1988, ou seja, praticamente 15 anos.

Alô Música – E em São Paulo, como foi tua trajetória musical?

Leandro
– Ali eu fiz a escola da barra mais pesada: muitos bailes (onde aprendi muito) e também noite. Eu trabalhava um bocado, mas chegou uma hora em que os trabalhos haviam se tornado apenas meio de vida. Eu precisava algo mais desafiador, mais gratificante. Aprendi muito, mas, como toda escola, exige uma formatura, mais cedo ou mais tarde.
Aí, vim ao Rio. Aqui era o lugar que me fascinava há muito tempo. Não apenas pelo óbvio das belezas naturais, uma vida mais relaxada, mas pela qualidade e maneira de se enfocar a Música. Com fluidez, respeito, relaxamento e leveza. Sem ter de se mostrar uma novidade a cada hora, sem ter de ser vanguardista a toda hora!

Alô Música – E aqui tivestes grandes mestres – Amilson Godoy, Nelson Ayres, Luiz Eça,,,
Gostaria de falar sobre esse teu aprendizado?

Leandro
– Sem dúvida! Eu me lembro que um dia o Osmar Milito, grande músico, me pediu para substituí-lo em duas casas. O Country Club em Ipanema (com toda a empáfia e arrogância que moram lá) e o Calígula, na praça General Ozório.
O Country foi uma chatice imensa. Mas na outra casa estava acontecendo um jantar com vários cantores, atores, etc. Vários deram canja, como a Beth Carvalho, Emílio Santiago, Suzana Vieira, e outros. O empresário da Beth logo me pediu o telefone e , na semana seguinte, aí já estava trabalhando com ela. Ali foi um grande aprendizado prá mim. E Deus é grande, pois foi me colocando cada vez mais perto da música que amo e sei fazer, a Música Brasileira.
Mestres, vários. Amilson Gogoy, Hilton Valente (em SP), mas o maior de todos, a quem devo muito foi o Luisinho Eça, aqui. Eu, antes, vinha de Sampa de ônibus, ia da rodoviária à casa dele e, dali, de volta à rodoviária. E o cansaço? Nenhum! A excitação me mantinha ligado o tempo todo. Era uma vida nova, e um mundo novo começando prá mim.

Alô Música – Realmente deve ter sido fascinante… E como foi você começar a acompanhar os grandes nomes da nossa música?

Leandro
– A Beth Carvalho foi a primeira. Depois, após já ter me tornado mais visível, conheci e toquei com outros, como a Elba, Emílio, Ivan, Zeca, etc.. Até que comecei a trabalhar como arranjador e diretor musical do Ney Matogrosso, com quem trabalhei por 6 anos, mais ou menos. Foi um período muito produtivo e importante prá mim!

Alô Música – Você é um excelente arranjador – super elogiado e bem-vindo por todos…

Leandro
– Muito obrigado.

Alô Música – Qual o tipo de música que mais gostas hoje em dia?

Leandro
– Hoje gosto muito de ouvir os Impressionistas e os autores russos, como Prokofieff, Stravinsky, Rimsky-Korsakoff. AMO de paixão os bons sambistas, como o João Nogueira, Doba Ivone, Zeca, Nei Lopes, Elton Medeiros. E estou curtindo bastante o hip-hop.

Alô Música – Bastante eclético… Rs…

Leandro
– Mas é verdade! A qualidade não é concentrada! Ela se espalha por todos os lados.

Alô Música – Me fale dos teus discos – você tem seis discos teus, certo?

Leandro
– Sim, tenho 6 CDs. O 1º, “E porque não? (And why not?)”, foi gravado nos EUA em 1991, com músicos de lá, por uma gravadora de lá, a Arabesque Recs. Fiu acompanhado por Bob Mintzer, David Finck, Romero Lubambo, Giovanni Hidalgo, etc., inaugurando o selo de Jazz de uma gravadora antes devotada apenas à música clássica. Mas eu nunca morei lá, nem quero. No ano anterior fui lá arranjar um CD da Ana Caram, cantora paulista. Levei minhas demos e fui chamado para a Arabesque! Estranho, né? Nunca quis tocar música americana, nunca quis morar lá, e meu 1º CD vem de lá. Aliás, nem vem, pois não saiu aqui!
O 2º, “Noel Rosa – Letra & Música”, foi em parceria com Johnny Alf, cantando Noel Rosa, pela Lumiar. Foi uma maravilha, pois a liberdade criativa era muito grande. Lembro-me de uma faixa onde eu resolvi usar um DJ (a poesia permitia)e o Johnny deu a maior força, para desespero do Chediak, que temia as críticas negativas que, ainda bem, não vieram.
O 3º foi o “Pé na Cozinha”, autoral, pela MP,B , que me proporcionou 3 prêmios Sharp (Melhor Solista, Revelação – depois de velho – e melhor música, por “Um Ariel de Saudades”). Foi na última edição do prêmio, justamente aquela onde não teve festa nem chequinho…
O 4º foi “A Música de Chiquinha Gonzaga”, encomendado pela CID, a reboque do sucesso da mini-série da Globo. Era um trio, com Zero (percussão) e Adriano Giffoni (baixo), com a participação da Leila Pinheiro numa faixa. Ali também, pude criar à vontade.
O 5º, “Claudette Soares e Leandro Braga”, foi um duo de Voz e piano com a Claudette Soares, baixinha maravilhosa, que permite que eu toque à vontade, proponha desafios, aceite outros, e nunca sai dos trilhos. É muito estimulante! Infelizmente, após um ano de lançamento, apenas um show, há mais ou menos um mês, no Mistura.
Depois vem este 6º, “Leandro Braga – A música de Dona Ivone Lara”!!!

Alô Música – Que é uma maravilha…

Leandro
– Obrigado.

Alô Música – Como veio a idéia de gravar Dona Ivone?

Leandro
– Eu, como qualquer criatura que tenha uma cabeça sobre os ombros, sempre admirei muito Dona Ivone. Sua musicalidade é imensa. Sua elegância no cantar, compor, sambar, é imensa! Muito antes de pensar em gravá-la, eu já me peguei, durante um improviso de piano, buscar inspiração ao pensar: “Como Dona Ivone cantaria isso, como ela faria suas variações aqui?” Daí, até concretizar a idéia , foi uma passo.
O que acontece é que o samba, embora seja um ritmo maravilhoso, trás em seu bojo uma riqueza melódica e uma possibilidade harmônica enormes, como qualquer boa música. Basta só afastar os preconceitos e ver…
Aliás, falando sobre ritmos, gostaria só de comentar uma coisa:eu sempre lembro a meus alunos que o nosso instrumento, o piano, é um grande imitador de outros. Nenhum ritmo foi elaborado nele, só adaptado para ele ( e muitas vezes mal). Assim, devemos ouvir, copiar, imitar e depois recriar, adaptando os ritmos às características nossas e de nosso instrumento. Copiar o surdo do Gordinho, o repique do Marcelinho, o baixo do Bororó e transformá-los em uma condução rítmica ao piano; só assim vamos enriquecer e constatemente recriar o piano brasileiro.

Alô Música – Perfeitamente compreensível… O disco está um luxo… Você está prevendo turnê com esse trabalho?

Leandro
– Sim, estamos nas batalhas do lançamento pelo Brasil. É imprescindível para minha saúde psíquica que este trabalho seja bem lançado e bem divulgado.

Alô Música – Aqui no Alô anunciaremos todos os teus shows, claro – será uma honra…
Mas, Leandro, é muito difícil espaços para apresentações, pelo menos aqui no Rio de Janeiro – como você vê o momento da boa música brasileira hoje?

Leandro
– Uma situação enlouquecedora! Fazemos, principalmente aqui no Rio, uma das melhores músicas do mundo. Sempre que ela alcança a oportunidade de ser exibida, aqui mesmo, é um sucesso enorme. O chamado “povão” sente, e muito profundamente, a boa música! Ou seja, existe o produtor, existe o consumidor, mas não se deixa um ter acesso ao outro. E os espaços vão minguando em nossa terra, a ponto de, até para os “Mega” eventos se requisitar artistas(?) de fora do Rio. Olha, na ONG que presido (“Toca o Bonde”) eu vejo o fascínio e a carência que eles também tem disso, desse saber, dessas oportunidades.

Alô Música – Sem contar a dificuldade de entrar na mídia – o jabá precisa ter um fim – ou, pelo menos, alguma moralização…

Leandro
– Eu acho que qualquer música, inclusive as que eu detesto, merecem ser divulgadas. Daí há os espaços próprios para os diferentes gêneros. Mas como está, temos uma Censura econômica sobre um bem público, que é nossa Cultura. Isto, que eu saiba, é crime! O jabá é outro crime, pois as rádios e tvs são concessões de serviço público.

Alô Música – Concordo… Espero que nosso novo Ministro da Cultura veja isso com muita atenção… Aliás, o que você achou do convite a Gilberto Gil para nosso Ministro da Cultura?

Leandro
– Os senões apontados por ele foram tão precoces, sua posterior aceitação foi tão rápida, que eu me pergunto que reflexões ele teve tempo de fazer!
Mas, de qualquer modo, acho que as discussões sobre o nome do Ministro da Cultura mereciam o tempo de discussão que teve a escolha do nome para a Fazenda! A princípio, nada contra o Gil, mas não senti amadurecimento na escolha de seu nome!

Alô Música – Fale sobre essa ONG…Leandro – Temos quase 2 anos de atividades. Ensinamos música para moradores de comunidades carentes da área de Santa Teresa, onde moro. Temos alunos das comunidades da Falete, Fogueteiro, Prazeres, Coroa, Ocidental, Beco, Mineira, etc.. Ensinamos piano, violão, cavaquinho, canto, percussão, trompete, musicalização, etc…
Temos atendido aos alunos no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, da Prefeitura, após sua diretora, a Ruça Caniné, ter-nos aberto suas portas.
Mas enfrentamos as dificuldades de ainda não termos nossa sede, não termos patrocínio, e contarmos ainda só com o trabalho voluntário! É um trabalho fascinante, gratificante. Mas podíamos estar bem mais à frente se tivéssemos o apoio que precisamos e merecemos!

Alô Música – Certamente… Que trabalho fantástico, Leandro… Eles são famintos de nossa cultura…
Leandro, li você escrevendo sobre Dona Ivone – eis poeta também… Você não letra tuas músicas?

Leandro
– Quando a gente faz uma declaração de amor, a poesia é inevitável!
Não, não letro minhas músicas. Aliás, nunca tentei!
Tenho duas em parceria com o Paulinho Pinheiro, umas quatro ou cinco com a Elisa Lucinda, e estou devendo duas para letras da Sandra Louzada… Nenhuma delas foi gravada. Aliás, uma, em parceria com o Sérgio Natureza, foi gravada pela Kátia Rocha!

Alô Música – Isso deve ser ótimo… Infelizmente não conheço… Vou procurar (rs..)…
Gostarias de deixar um recado para nossos usuários?

Leandro
– Bem, aí vai o recado: “Se a gente quiser inovar, fazer algo novo e bem feito, basta sermos verdadeiros. É inevitável! O que vemos a todo instante é que exigências econômicas, sociais ou egocêntricas deturpam a verdade de nosso trabalho. Mas, se pudermos ser verdadeiros, é inevitável que seremos originais!

Alô Música – Maravilha, Leandro… Onde encontramos teus discos?

Leandro
– Ainda não sei sobre a distribuição. Sei da Livraria da Travessa, mas deve estar em outros lugares.
Qualquer coisa, é só acionar a Rob Digital, responsável pela distribuição.
Ah, a minha gravadora é a Carioca Discos.

Alô Música – Obrigada, Leandro – foi um prazer conversar contigo… Tudo de bom para você e uma ótima turnê em 2003…

Leandro
– Bem , obrigadão pela força e muito sucesso nas suas batalhas!
Um beijão.