Kléber Albuquerque

 

Por: Eliane Verbena

Nascido em Santo André, SP, Kléber Albuquerque lança o terceiro CD solo, O Centro Está em Todas as Partes, com distribuição da Tratore. O trabalho chega com sonoridade leve e rarefeita e expõe sua forma sincera e verdadeira de fazer música. Conheci Kléber pela extinta Rádio Musical FM e, recentemente, tive o prazer de trabalhar com ele e entrar em contato com o ser humano especial que é. Artista sensível e verdadeiro, certamente ainda tem muita coisa para nos mostrar. Seu trabalho poderia ser chamado de vanguarda no sentido em que caminha na busca pelo inusitado, pelo pouco óbvio, pela música brasileira assinada por seu próprio punho. Além dos dois primeiros álbuns – 17.777.700 e Para a Inveja dos Tristes (Dabliú Discos) – gravou com Élio Camalle, Luiz Gayotto e Madan o álbum UmdoUmdoUm, o primeiro do milênio, e lançou um trabalho artesanal com capa de pano, Faça Virar Música. Sua composição Xi, de Pirituba a Santo André, foi finalista do Festival da Música Brasileira, da Rede Globo. Ou seja: ele não pára.

Eliane Verbena

 

 

Eliane Verbena – Sempre bem humorado e meigo, depois de uma hora de atraso, Kléber chegou ao nosso encontro. Ou melhor, chegou ao computador, através do qual vamos conversar.

Kléber Albuquerque – Olá, Eliane. Cheguei!!! Desculpe-me pelo atraso…

Eliane Verbena – Tudo bem. A gente sempre espera pelo artista mesmo… Falar com você requer inspiração. Só pra estimular a conversa, o Alô Música quer saber como foi que a música entrou na sua vida.

Kléber Albuquerque – A música apareceu na minha vida, primeiramente, através dos discos de música caipira que meus tios ouviam. Coisas como Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e Zé Rico etc. Era o tipo de música que tocava lá em casa, no toca discos, na rádio do Zé Bétio. Assim começou meu contato com a música.

Eliane Verbena – Eu também ouvia todos eles. Você se lembra qual foi o primeiro disco que comprou? Que você próprio tenha escolhido?

Kléber Albuquerque – Lembro-me. O primeiro disco foi um LP do Raul Seixas, que comprei com o dinheiro do meu primeiro salário. Era o Krig Ha Bandolo.

Eliane Verbena – O que ele, Raul, representa hoje pra você?

Kléber Albuquerque – Acho que, de certo modo, representa essa minha iniciação na magia da música…

Eliane Verbena – Que discos você compra hoje em dia?

Kléber Albuquerque – Não tenho comprado muitos discos ultimamente, o que não significa que eu não esteja atento à música de hoje… Posso, no entanto, dar exemplos de discos que chegaram até mim: compraria (se não o tivesse ganhado) o disco da Ceumar, da Consuelo de Paula, Los Hermanos, Vitor Ramil, Nando Reis, Zeca Baleiro etc.

Eliane Verbena – A “nova” geração, a boa geração da nossa música. E quanto ao que a música representa na sua vida? A música permeia toda a nossa vida, a começar pelas canções de ninar. O quanto ela preenche a sua existência? Você dividiria a sua arte com que outro ofício?

Kléber Albuquerque – Não consigo imaginar minha vida sem a música. Ela é uma linguagem que possibilita a comunicação em um outro nível de profundidade. No entanto eu gosto principalmente da possibilidade que a música tem de se misturar com outras artes… a palavra, a dança, a imagem. Tenho, no entanto, outros interesses artísticos que também preenchem minha existência: a poesia, o teatro.

Eliane Verbena – Suas composições são muito assim, na minha opinião. Vejo cenas como em um filme, em alguns casos. Em outros, uma profundidade na alma do ser humano. Estou certa?

Kléber Albuquerque – Creio que minhas composições tenham um pouco esse desejo de ir além da música…

Eliane Verbena – Eu ouvi do crítico de música Mauro Dias que você é um dos mais incríveis compositores dos últimos anos. Você se acha um grande compositor?

Kléber Albuquerque – Acredito que eu seja um compositor sincero. E sincero no sentido de buscar um modo pessoal de dizer as coisas. As coisas que digo em minhas músicas são justamente as coisas que eu não consigo não dizer normalmente. Não sei se há grandeza nisso…

Eliane Verbena – Claro que há. Cada um tem sua própria grandeza em algum lugar. O que quer dizer quando afirma que “o tratamento dado às letras das músicas e a sonoridade dos arranjos seguem na busca por uma humanidade contida na imperfeição”? São palavras suas sobre seu novo trabalho.

Kléber Albuquerque – A minha busca estética não é pela perfeição, pelo bom acabamento. Interessa-me, justamente, a rachadura por onde pode escapar o novo ou de onde se pode espiar o imprevisto… Acredito que vivemos hoje muito mais preocupados com a casca das coisas do que com o conteúdo…

Eliane Verbena – Seu novo CD – O Centro Está em Todas a Partes – saiu como queria? Informo ao internautas que o álbum tem direção artística de Tata Fernandes e produção de Marcelo Richtmann e do próprio Kleber.

Kléber Albuquerque – Sim. Eu queria fazer um disco no qual eu conseguisse me reconhecer no momento em que estou vivendo… Demorei, praticamente, um ano para gravá-lo, pois queria que ele tivesse a justa imperfeição que persigo.

Eliane Verbena – Neste caso você se arrisca muito. O disco é lindo, poético… Você tem receio de errar a mão?

Kléber Albuquerque – Obrigado pelo elogio, Eliane. E tenho medo de errar a mão, sim. Tive medo desse excesso de sinceridade que este disco traz.

Eliane Verbena – Acertou em cheio… rs…. Você se despiu bastante na composição e na interpretação. Isso emociona e conquista. Mudando de assunto, como está sua relação com a Dabliú Discos, que é o selo de seu disco anterior? Por que o atual é lançamento independente?

Kléber Albuquerque – Tenho uma relação bastante amistosa com o J. C. Costa Netto, diretor da Dabliú. Agora, fiz este disco de modo independente porque as condições de trabalho em um selo pequeno não diferem muito da total independência…

Eliane Verbena – O Kléber Albuquerque já pagou “jabá” pra sua música tocar no rádio?

Kléber Albuquerque – Não. E não pagaria…

Eliane Verbena – Nossa! Demorou tanto… Achei que vinha um “sim” e uma enorme justificativa… Você acha que a política das rádios vai mudar ou temos que continuar batalhando na paralela?

Kléber Albuquerque – Esta história do “jabá” deveria ser tratada como o crime que é: um crime contra a música.

Eliane Verbena – Contra a música e contra o apreciador.

Kléber Albuquerque – Temos que batalhar para mudar a situação, mas acredito que o negócio é abrir outros caminhos, novas frentes, batalhar na paralela, como disse…

Eliane Verbena – Acha que o governo – leia Ministério da Cultura, leia Gilberto Gil – tem a intenção de mudar isso?

Kléber Albuquerque – Acredito que toda a indústria fonográfica está passando por um momento de grande transformação em razão das novas tecnologias, da pirataria e do próprio envelhecimento intelectual das pessoas que comandam a história…

Eliane Verbena – Aí entraria a democratização através da Internet, que o veículo que tem pelo menos tentado ser coerente com as produções culturais?…

Kléber Albuquerque – A internet é uma coisa interessante. Nos propicia algumas armas pra lutar contra isso, mas antes teríamos que democratizar os computadores nesse país sem caderno e sem lápis… Respondendo à sua pergunta sobre o ministro Gilberto Gil, ainda não perdi a fé no governo Lula, embora esteja um pouco desencantado com a velocidade das coisas. Acredito que haja no governo muita gente pensando com profundidade nesses assuntos…

Eliane Verbena – Então há esperança?

Kléber Albuquerque – Claro. Agora, estas coisas mexem sempre com muitos interesses.

Eliane Verbena – Sem dúvida. O caminho é não parar na encruzilhada, é fazer como você e muitos outros: seguir com a música e ser verdadeiro no que faz.

Kléber Albuquerque – Isso mesmo.

Eliane Verbena – Entrando novamente no seu novo trabalho, quem está no disco com você?

Kléber Albuquerque – Voltando ao trabalho… Este disco tem a participação de muita gente bacana: Chico Saraiva, Ceumar, Paulo Padilha, Vasco Faé, Rubi e vários outros amigos. O interessante nessas participações é que ninguém sabia, antecipadamente, o que iria fazer no estúdio. Ninguém conhecia as músicas, pois eu queria captar justamente essa aproximação da música com o artista… Eu queria captar a estranheza, esse momento do “tomar conhecimento”, do “desestranhar”…

Eliane Verbena – Foram sessões de improviso?

Kléber Albuquerque – Não chegou a ser propriamente improviso, pois íamos gravando várias tomadas, captando a relação do músico com a canção. Eu procurava um meio caminho entre o improviso e a forma convencional. Estava procurando captar o momento da magia, procurando captar o processo.

Eliane Verbena – Acho que conseguiu quebrar a formalidade, por isso há tanta emoção no álbum todo. Internautas, vocês precisam escutar o Kléber Albuquerque! Voltando lá atrás, você falou do primeiro salário. Qual foi seu primeiro trabalho? O que fez além de cantar e compor?

Kléber Albuquerque – Comecei a trabalhar muito cedo pra ajudar no orçamento familiar. Meu primeiro emprego registrado (aquele cujo salário gastei em disco) foi como empacotador de remédios, na Drogasil.

Eliane Verbena – Sei. Cuidando do corpo, agora da alma…

Kléber Albuquerque – E da mente…

Eliane Verbena – Sei que você quer levar seu show para o Rio de Janeiro. Tem idéia de quando será? Vamos deixar os cariocas antenados, desde já.

Kléber Albuquerque – Fiz uma participação no show da Ceumar, no Rio, no dia 24 de maio, na Modern Sound. Além da minha canja, claro, o público pôde conhecer a voz maravilhosa dessa cantora mineira. Os internautas terão notícias em breve sobre apresentações minhas no Rio.

Eliane Verbena – Quem já gravou suas músicas?

Kléber Albuquerque – Eliana Printes gravou, recentemente, duas canções minhas, entre elas, uma chamada Os Presentes, que vem sendo tocada nas rádios de todo Brasil, em especial no Rio de Janeiro. A Ceumar também gravou músicas minhas… Thaís Pina, Roseli Martins, Rubi… Outros jovens artistas também gravaram: o ótimo violonista e compositor andreense Fernando Cavalieri e Vasco Fae.

Eliane Verbena – O fato de ficar entre os finalistas no Festival da Música Brasileira, da Rede Globo, com Xi, De Pirituba a Santo André (parceria com Rafael Altério) ajudou a promover sua carreira ou foi só um destaque para aquele momento?

Kléber Albuquerque – Participar do Festival da Globo foi uma experiência muito interessante para que eu – um compositor jovem – tivesse uma compreensão mais profunda dos mecanismos da indústria cultural. Acho que ajudou a promover a carreira porque as pessoas, de modo geral, se impressionam muito com essa coisa de tevê…

Eliane Verbena – Você recebe uma boa grana de direito autoral?

Kléber Albuquerque – Tenho recebido um pouco por causa dessa música que a Eliana Printes gravou. Na época do festival eu não recebi nada…

Eliane Verbena – Nada recebia?! O chato é que não nos surpreendemos com isso. O que você gostaria de dizer para quem ainda não escutou sua música?

Kléber Albuquerque – O que eu diria pra quem ainda não escutou minha música? Escute!

Eliane Verbena – Então eu também repito: escutem! Conheçam um pouco mais dele pelo site www.kleberalbuquerque.com.br.

Kléber Albuquerque – Foi uma grande alegria conversar contigo, minha querida.

Eliane Verbena – Kléber, estou feliz em poder colocar um pouquinho mais de você na vida das pessoas através deste papo delicioso. Espero que tenha sorte, o sucesso que merece e muito amor para inspira-lo cada vez mais.

Kléber Albuquerque – Obrigado. Paz & Amor.

Eliane Verbena é poetisa e jornalista.