Kim Ribeiro

 

Por: Solange Castro

Reconhecido no meio musical como um dos maiores instrumentistas do Brasil, mas, como sempre, pouco conhecido pelo público em geral, Kim Ribeiro é, além de puro talento, uma pessoa maravilhosa. Nessa generosa entrevista exclusiva concedida ao Alô Música, Kim conta sua história, suas aventuras, suas realizações e seus sonhos, num papo leve e descontraído…
Com vocês Kim Ribeiro – vocês verão que chamá-lo de
“genial” não é exagero…

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Kim. Em primeiro lugar, um imenso prazer estar contigo…

Kim Ribeiro – Igualmente. O canal é ótimo…

Solange Castro – Obrigada… Mas nos fale um pouco de você e de tua vida musical – como a música entrou na tua vida? Esse teu talento é congênito?

Kim Ribeiro –Meu pai era flautista amador. Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos comecei a tocar flautim, que ele me deu, mas era um instrumento com menos chaves (recursos) que a flauta dele. Comecei a usar a dele quando me chamaram pra acompanhar shows de bossa na cidade (Juiz de Fora/MG). Os discos do “Tamba Trio” tinham flauta, Tom sempre adorou (e tocava) flauta… A flauta fazia parte da bossa-nova e fui levado a tocar pra suprir uma falta (“flauta”?) na cidade.

Solange Castro – Você estudava música desde menino ou começou como autodidata?

Kim Ribeiro –Meu pai me ajudou, mas fui autodidata até os 18, quando me mudei pro Rio pensando em estudar música, mas dizendo que ia fazer Engenharia Química (um curso que não existia aqui e me obrigava a sair)…

Solange Castro – Engenharia Química? Normalmente os músicos tentam fazer Arquitetura – rs…

Kim Ribeiro –Entrei pra faculdade (a química da Federal tinha acabado de se mudar pro Fundão) e pra Pro Arte – meu pai gostava de química também, tínhamos um laboratório em casa e gosto de experiências. No primeiro ano de faculdade conheci o Franklin da Flauta, que também estava perdido no Fundão… Fui abandonando as idas praqueles cafundós e… Quando vi, estava só na música. Meus pais cortaram a mesada e o apoio, quando souberam.

Solange Castro – E o que você fazia musicalmente nessa época?

Kim Ribeiro – Estudava, só. Tinha um quinteto de sopros – “Quinteto Juvenes”, mas não ganhava dinheiro nele, só experiência. Aí resolvi tentar concurso na Banda do Corpo de Bombeiros (na época, do Estado da Guanabara) – onze candidatos, só conseguimos entrar um harpista (a Banda era sinfônica) e eu.
Casei-me, assim que me vi mais seguro financeiramente – a namorada era antiga de JF, e em dezembro de 68, com 20 anos, casei-me com a Rita. Continuava estudando na Pro Arte – história musical, teoria e análise com Esther Scliar; contraponto, harmonia e arranjo com Guerra Peixe; música de câmara com Homero de Magalhães; flauta com Lenir Siqueira, e depois Odette E. Dias. Comecei então a tocar em teatro e acompanhando cantores – Sérgio Ricardo, Alaíde Costa, Johny Alf. Isso em 69 – 71. Teatro – “Arena Conta Tiradentes”… Aí tenho que olhar as anotações pra lembrar tudo o que rolou, mas nessa época formei com Mauro Senise, Raul Mascarenhas e Ronaldo Albernaz o “Quarteto Pixinguinha”. Descobri também que o Pixinguinha costumava ficar “às moscas” no centro da cidade, na Whiskeria Gouveia, na travessa do Ouvidor (acho) e comecei a procurá-lo… Com a amizade criou-se a curiosidade e um dia fui com o Quarteto lá pra lhe mostrar o trabalho – Odette também foi – foi uma bela tarde!

Solange Castro – Imagino…

Kim Ribeiro –Nessa época (71-72) dei aula de flauta na Pro Arte, no MIS e no Conservatório Brasileiro. Queria sair da Banda e tinha que me garantir – comprei uma flauta em sol em 72 e como fui um dos primeiros a tocar o instrumento, passei a ser chamado pra gravações – o filão. Saí da Banda em 72. Toquei também com Baden Powell, Nelson Cavaquinho, Altamiro Carrilho (num show no Teatro Casa Grande que tinha Carlos Vereza também, que na época era meu aluno de flauta). No final de 72 parei – pirei – rss… Saí do Rio e fui morar no interior do Amazonas com meu novo amor, uma gaúcha, ha três dias de barco de Manaus – durou pouco… Peguei malária e na ida à capital para comprar o material pra casa que ia construir descobri que havia sido comido por carrapatos minúsculos… Cheguei a Manaus mal, com infecção e mal podendo andar – gastei a grana da casa em passagens de avião e de repente estava com a Rosa (a gaúcha que acabou sendo a mãe de meus três filhos) em Belo Horizonte, atendido numa clínica boa… Pouco depois se anunciou sua gravidez – Iuri nasceu em agosto de 1975 e virei pai aqui na Floresta, bairro afastado de JF. Dava aulas no Conservatório Estadual de Música e fiz bicos pra me manter…
Voltei a tocar em 78, com o “Lando Magog”, grupo formado por Estevão Teixeira e eu nas flautas, Bilinho Teixeira no violão, Márcio Hallack no piano, Big Charles na bateria, Xico Teixeira percussão e o baixista que não me lembro mais, pois não era profissional (ou melhor – não se tornou) e não tive mais contato. Nesse mesmo ano nasceu a Elisa (em junho) e virei pai de novo – a mulher era arquiteta e muitas vezes a gente invertia – eu cuidava dos pequenos pra ela trabalhar…
Em 80 fui pra Porto Alegre tentar a sorte, pois a gaúcha achava que lá seria melhor – e é, de certo modo: tem grana, estúdios bons, trabalho… Mas o frio me deixava sempre doente no inverno e sofria com o calor no verão… Mas agüentei cinco anos e produzi muito lá – é de 81 meu primeiro LP. Já tinha gravado metade no Rio, completei lá e vim ao “centro” pra lançar…
O segundo foi em 82, aproveitando também material gravado com Raimundo e completamos em casa do Raimundo Nicioli, que além de pianista, violonista e compositor era ótimo técnico de som e tinha um estúdio de quatro canais em casa.

Solange Castro – Esse disco com Raimundo foi feito ainda em Porto Alegre?

Kim Ribeiro –Eu morava em Porto Alegre, mas passei um tempo aqui com ele pra completar (no Rio). Voltei pro Sul e participei de outros LPs – morei em Porto Alegre até 1985.

Solange Castro – E depois, voltou para Juiz de Fora?

Kim Ribeiro –Voltei, mas ligado no Rio e dando aulas no Conservatório de JF. Em 87 nasceu a filha mais moderna – Ana Paula e em 88 surgiu o “Choro & Cia”, meu grupo de choro, com Cazé (bandolim), Cezar Ferreira (violão de 7), Ronaldo Gomes (cavaquinho) e Márcio Gomes (pandeiro) – ganhávamos uns troquinhos em JF e arredores.

Solange Castro – Seu lado compositor – quando você começou a compor?

Kim Ribeiro –Nesse tempo todo compus bastante – alguma coisa eu apresentava, mas tem muita coisa engavetada até hoje. Melhorou muito quando comecei a compor no computador, mas isso foi só a partir de 95, mais ou menos…

Solange Castro – Quantas músicas você tem gravadas?

Kim Ribeiro –Meu primeiro LP é autoral, com exceção de um compositor gaúcho (Jessé Silva) e dois poetas (Vinícius e Mário Quintana), que quis homenagear, mas mesmo assim o “Soneto do Quintana” foi gravado com música minha..

Solange Castro – de Morais? “Valsa para Eurídice” é composição de vocês, certo??

Kim Ribeiro –Sim – “Valsa de Eurídice” é letra do Vinicius de Moraes, está no LP com voz e flauta em sol, só.

Solange Castro – Quantos discos você tem?

Kim Ribeiro –LPs “Kim Ribeiro” (o 1°); “Kim Ribeiro & Raimundo Nicioli” (o 2°); “Porto Alegre 83”, coletivo, onde toco com Geraldo Flach, Hique Gomes, Giba, Fernando do Ó, Toneco, Cao Trein, Raiz de Pedra, etc (o 3°); e fiz uma faixa no LP Unimúsica, da UFRGS “Majestic”, em 84. Os CDs começaram a partir de 98, quando lancei “Kim.mid” – um CD de computador (só toco flauta na última), só com músicas minhas… Depois, quando completei 50 anos, em 99, o “Jubileu”. Aí teve o CD do “Quinteto Pixinguinha”, e ano passado lancei o “Majestic”, CD gravado no Sul com músicos de lá – Toneco da Costa (violão), Fernando do Ó (percussão) e Adolfo Almeida Jr. (fagote)…

Solange Castro – O “Magestic” ainda está sendo trabalhado, certo?

Kim Ribeiro –Está, mas a gente sempre olha pra frente… Esse ano entrei com projeto em Lei Municipal pra lançar uma coletânea e outro projeto pra Petrobrás, de duo c/ Raimundo, só composições nossas. A coletânea seria o “Quarentinha”, em homenagem aos 40 anos de profissão comemorados ano passado, com músicas escolhidas entre minha produção nesses anos.

Solange Castro – Maravilha – fico na fila de espera…
Mas antes de falarmos do futuro, tenho umas curiosidades – você é um artista corajoso, talentoso, um verdadeiro “herói” sobrevivendo de música instrumental nesse País… Você já fez parte de projetos inusitados como o “Música na feira” aqui no Rio de Janeiro – como você vê a “música instrumental” no nosso País em termos de mídia, espaço, etc..

Kim Ribeiro –A música instrumental costuma ser mal vista mesmo entre músicos que fazem a mais comercial… Espaço na mídia é uma piada – acaba que fico sendo conhecido como chorão, pois o choro ainda desperta interesse. Agora comecei a ganhar dinheiro com informática… Sou um curioso, e aprendi a programar em Delphi.
Infelizmente participei do “Choro na Feira” só informalmente, dando canja: o chefe lá é o Franklin, ao lado do Marcelo Bernardes, Bilinho, aqueles feras…

Solange Castro – Ainda por agora, que foi “re-descoberta” pelos jovens com “algo” no cérebro..

Kim Ribeiro –Ainda bem que os jovens ligados estão ligados – rss… Existe muita coisa bonita rolando, mas fora dos canais de massa… Mas a gente vive um tempo bom, nesse sentido – é muito mais fácil chegar no que se gosta, depende muito do interessado procurar, porque realmente instrumental não pinta na mídia comum, mas tem muitos simpatizantes e Internet nesse sentido é um novo tempo: tenho vendido CDs pela rede, tenho mandado músicas…

Solange Castro – Com certeza – aqui no Alô sempre apoiamos a música instrumental e isso permite que muitos procurem informações… Aliás, sobre “Música Brasileira” em geral, já que não podemos negar o fabuloso talento do brasileiro para harmonias, melodias, poesias, interpretações… O Brasil tem, definitivamente, a música mais bonita do Planeta…

Kim Ribeiro –Pena o próprio povo não se dar conta…

Solange Castro – O povo não pode se dar conta, pois temos o famoso “jabá” e uma história muito depreciativa quanto à divulgação e difusão da nossa arte maior…

Kim Ribeiro –O público jovem confunde música com as canções que ouve, e em geral procura pelo o que dizem as “músicas”…

Solange Castro – E perdem o melhor da nossa CULTURA…

Kim Ribeiro –O cantor é confundido com o autor.

Solange Castro – Com certeza – qual o percentual do nosso povo que conhece os “Paulinhos” Pinheiro, Feital, Tapajós… Dentre outras feras, claro…

Kim Ribeiro –Dentre várias – lembra Sidney Miller? Os esquecidos?
Essa educação TINHA que vir na mídia, mas… mercado é mercado, e é difícil controlar artista de verdade..

Solange Castro – Grande Sidney… Não lembram sequer dos que estão vivos e na ativa…

Kim Ribeiro –Não lembram, não conhecem…

Solange Castro – Sim, mas se apresentarmos, certamente o povo vai gostar… Isso eu tenho certeza por experiência no Projeto “Música Viva”…
Você acha que Gil poderia fazer alguma coisa pela divulgação da Música Brasileira?

Kim Ribeiro –Gil é bom, mas tem se projetado mais pessoalmente e com seus cupinchas, né não?

Solange Castro – É sim – rs… Sei que é difícil mudar o “sistema”, mas se ele Ministro o não faz, quem vai fazer???

Kim Ribeiro –Esse negócio de colocar o Midani pra dirigir “Ano de Brasil na França” mostra sua ligação constante com as gravadoras – a experiência dele foi (e é) essa, bem de mercado. O MinC podia se preocupar com a mídia.

Solange Castro – Mas se houver uma “política cultural” que olhe para o povo e “ouça” o povo, isso muda – aí acho que é uma questão de “querer”, pois “competência” eu acredito que ele tenha…

Kim Ribeiro –Esse QUERER seria fundamental.

Solange Castro – Lidar com os “Artistas” é complicado, a classe musical é muito desunida – mas a responsabilidade é dele…

Kim Ribeiro –Mas ele teria que lidar com os Artistas, mas prefere lidar com a parte organizada e que sabe trabalhar e que tem grana pra isso (leia-se gravadoras). Quando se investe em cultura tentando educar o retorno é pífio, não aparece – só depois de muito tempo é que aparece, e pra quem quer aparecer não dá…

Solange Castro – Sim, mas o que deve ser observado é que, dito por eles mesmos, as “grandes gravadoras” (majors) estão falidas – se faliram foi por falta de competência, pois o mercado está aí… Se não se adaptaram às mudanças vindas com a tecnologia, continua sendo incompetência – então vamos mudar o padrão, certo?

Kim Ribeiro –O veículo da música (entrando pra Internet) já muda muito o padrão, a independência ficaria mais possível, o contato mais direto… Mas… e o impacto? E a imagem de astro? Esse padrão também vai mudar, acho – quem gosta de música de verdade procura o músico onde ele toca, quem gosta de dançar ou de espetáculos vai com a mídia e a grande maioria procura na música a poesia (que está na letra)…

Solange Castro – Será, Kim? Quem gosta de “música” também vai a Espetáculos…

Kim Ribeiro –“Alguns” espetáculos, poucos… E vai por comodidade… Porque podia procurar, ser original, mas isso é pra poucos – ser massa é quase necessário ao jovem… E aí ele vicia – rss.
A linguagem musical é fácil, mas foi abolida das escolas…

Solange Castro – Sim, aí você chegou no ponto… Eu te entendo, mas preciso “defender” o lado do povo…
Você está certo pelo lado “mais fácil”, mas se houver uma educação e a simples oportunidade de se “ouvir”, nossa, é um absurdo a aceitação e adoração…

Kim Ribeiro –Concordo que o que é disseminado é fraco, fácil, e as palavras e as graças dos interpretes são fundamentais nessa “música”.

Solange Castro – Um exemplo: outro dia assisti os “Escravos da Mauá”, que tocam “Sambas” – são fantásticos, com um repertório impecável, e vi todos cantando, dançando, sorrindo, chorando (de emoção) com músicas que não ouvimos em qualquer rádio, mas que estão no nosso “sangue” – Pixinguinha, Noel, Ari, Monarco, Cartola, Paulinhos, etc… Foi bárbaro… E TODOS sabiam as letras e cantaram tudo – quer dizer, o povo “aprova”…

Kim Ribeiro –Como explicar que música mesmo é algo que está atrás?

Solange Castro – Como assim?

Kim Ribeiro –Música é som…
Esse seu povo… Quem dera fosse 30% do gera!…

Solange Castro – Hummmm… Nesse “povo” era formado por pessoas de várias classes, culturas e idades…

Kim Ribeiro –Esse povo dos “Escravos…” já está viciado no que é bom – não vale e é Rio – não é à toa que tenho de ir sempre aí…

Solange Castro – Mas viciar no “que é bom” é fácil – rs… Foi uma apresentação na rua…
Mas sim, entendo… Mas se não chegar “coisa boa” nos quatro cantos do Brasil, como esse povo vai ter “identidade”?

Kim Ribeiro –Isso é que é triste, pois se o bom estivesse à disposição das massas, o gosto geral ia mudar e complicar pro mercado… Estamos de acordo na perplexidade: porque o que é bom não tem espaço?

Solange Castro – Isso! Chegamos lá – rs…
É justo isso – se ao invés de se investir em projetos babilônicos nas Praças e Praias do Rio, por exemplo, se colocassem grandes instrumentais e shows com o melhor da música independente que tem acontecido no Brasil, a história seria outra – aí entra a “política cultural”…

Kim Ribeiro –Pois é…

Solange Castro – Pode parecer utopia, mas é o JUSTO! Afinal, quem financia esses “projetos babilônicos” são os impostos do povo através das Leis de Incentivo…

Kim Ribeiro –Voltando à teoria da música também – um pouco de cultura musical não faria mal a ninguém… Temos uma historia universal da música riquíssima, porque não aparece? Se nem a nossa aparece, tô querendo muito, né?

Solange Castro – Muito pelo contrário – conhecer e re-conhecer nossos ritmos e formas só faria levantar nossa auto-estima coletiva…
Está querendo muito não, é o justo…

Kim Ribeiro –Então, à luta! Infinda luta…

Solange Castro – Entrando (ou tentando entrar) nas “sugestões” – o que você propõe?

Kim Ribeiro –Como já foi dito, os responsáveis deviam ser mais radicais e assim – mais responsáveis – educar. E nós, artistas, devemos continuar nosso trabalho, aparecendo onde dá… Não adianta ficar chorando, pois sempre foi assim – acho que a arte tem algo de marginal, sim… O músico bom não está preocupado com o sucesso, mas com a expressão e a sobrevivência – seria função do músico mudar o cenário?
Nosso tempo é de individualismo, comodidade, conforto – neguinho tende a ficar dentro de casa, o que lhe chega é a pobre mídia (no Rio ainda existe uma Rádio MEC e outros canais…) e existe o universo da Internet, que vai mudando nossa realidade… Na minha juventude era muito diferente – a graça era sair, fazer um som com amigos, participar de um sarau, ouvir LPs escolhidos… E o que rolava no geral era Nara Leão, Tamba, Baden, Rosinha de Valença, Elizeth Cardoso, Edu lobo, Carlos Lira, todos na mídia… Depois os novos: Chico, Sidney, Paulinho da Viola, Gil, Caetano, sangue novo de alta qualidade fazendo som brasileiro… Todos na mídia… Agora é que eles sumiram… Faço a parte que me cabe sem sofrer muito porque a parte que cabe a outros está down, afeta meu trabalho, dificulta… Mas só fazendo som bonito é que posso mostrar que isso existe, e faço, e espero que as pessoas saquem… Tento divulgar, faço o que posso, mas me atenho ao que é função minha (e acho que é por isso que tive que descambar pra um trabalho em informática). Mas esse trabalho com a técnica de computação tem me aberto muitos horizontes, e mesmo novas visões musicais. Entender a máquina e fazer um som mais eletrônico faz parte da atualidade – estudar um Finale, usar bem seus recursos muda muito o jeito de trabalhar e o próprio resultado final do som… E depois a gente manda o arranjo aqui da Floresta…

Solange Castro – Sim, as possibilidades são inúmeras para quem vai fundo e se dedica de verdade – sem contar com as possibilidades de divulgação e comercialização via Internet…

Kim Ribeiro –Muita coisa ficou mais fácil… Então acho que tem uma história de entrar pra valer nesse tempo (que isola a gente, por outro lado) e ver no que dá. Mas como instrumentista a história não muda (graças a Deus!).

Solange Castro – Tenho acompanhado bem de perto o universo musical brasileiro e percebo dois pontos opostos – de um lado os “eternos reclamantes”, que dizem que tudo está impossível, querendo sempre ajuda, sem ter como investir nas divulgações de seus próprios trabalhos, etc… Por outro, os que investem, tocam em frente, estão sempre com pouco tempo (de verdade) porque têm trabalhado muito, etc… Nesse segundo bloco entra você – rs… Haja ALTO ASTRAL – rs…

Kim Ribeiro –Que estão embasados em realidades como casas de música fechando uma a uma…

Solange Castro – Sim, fecham, mas qual era a perspectiva de cada “casa”? Será que não tinham a idéia de ter um hiper faturamento em seus respectivos bares? Será que os empresários também não esperam muito quando investem esperando que “a música” dê um retorno??? Temos que pensar nisso e analisar com total ausência de perspectivas…

Kim Ribeiro –Você me coloca no segundo bloco com razão, mas eu podia estar produzindo muito mais (e melhor) se fosse diferente…
A música vai indo pra Lapa, meio pra turista, meio pra saudosista…

Solange Castro – Sim, Kim, mas temos que viver a realidade – não podemos sonhar com LPs sendo tocados em equipamentos antigos, não podemos sonhar com a “Era do Rádio”, estamos em outro momento e a cada instante o momento muda – temos que nos adaptar…

Kim Ribeiro –São muitas músicas, muitos estilos… E ainda mudando…

Solange Castro – A Lapa, por exemplo, está cheia de jovens buscando sua identidade, conhecendo gente de todos os bairros do Rio de Janeiro, etc… Isso é super positivo, principalmente porque lá o que rola é Música Brasileira, “independente” por sinal…

Kim Ribeiro – Concordo…

Solange Castro – É colocar um pouco na mídia, acreditar nos “movimentos” do próprio povo… Como foi dito acima – se “dermos oportunidade, o povo devora”…

Kim Ribeiro –E a coisa vai indo, porque o que é bom não evapora como os produtos comerciais – acaba sendo redescoberto…

Solange Castro – E simplesmente “descobertos”…

Kim Ribeiro –Minha batalha é só pra não ter que ser redescoberto DEPOIS de me ir… Gênio não é pra posteridade (nem eu sou gênio).

Solange Castro – Meu doce, pelo menos no nosso meio musical, você é bastante conhecido, re-conhecido, respeitado e admirado…

Kim Ribeiro –Que bom que você diz isso…
Pois é: nesse meio eu sobrevivo sem maiores ambições…

Solange Castro – Não sou eu quem diz, é o que acontece – e acho teu trabalho “genial” sim… Você e 99% dos grandes instrumentistas brasileiros…

Kim Ribeiro –Ainda bem que tô acompanhado…

Solange Castro – O simples fato de você “sobreviver” nesse nosso “modelo” imposto pela mídia já o faz GENIAL – rs…

Kim Ribeiro –Mas o bom era essa cambada estar nas paradas… Só que isso não existe – existirá?
É: a grande arte é a da vida (e da sobrevivência).

Solange Castro – Kim, nós aqui no Alô estamos fazendo a nossa parte – o simples fato de você nos conceder essa entrevista, como outros GÊNIOS da música instrumental brasileira também estarem se propondo, já nos dá um novo horizonte…

Kim Ribeiro –Que bom – conte comigo…

Solange Castro – Estou contando…
Agora vamos aos novos acontecimentos… O que Kim Ribeiro está “ouvindo” ultimamente?

Kim Ribeiro –“Concerto pra piano” do Chick Corea, “Quarteto Maogani”..

Solange Castro – Isso é ótimo..

Kim Ribeiro –Ulisses Rocha, Mauro Senise em seus novos trabalhos – Peranzetta incluso…

Solange Castro – Eita – só ponta de linha – rs… Ulisses é disco de cabeceira aqui…
Quinteto Pixinguinha também – rs…

Kim Ribeiro – Camerata Brasileira, Luiz Eça e Victor Assis Brasil em duo no MAM…
Pois é – o Quinteto anda sem trabalho: pode?

Solange Castro – Não pode – rs..

Kim Ribeiro –Ouro Negro do Moacir Santos sempre re-ouvido…

Solange Castro – E dos novos artistas, os que estão chegando, quem você destaca?

Kim Ribeiro –Leandro Braga tocando D. Ivone…
(Clique aqui e leia a entrevista com Leandro Braga)

Solange Castro – Eita – esse também vira-mexe está aqui – rs…

Kim Ribeiro –Ventos do Norte do Claudio Daulsberg. Toninho Carrasqueira tocando “Patapio e Pixinga” com orquestra…

Solange Castro – Esse não conheço – saiu por qual Selo?

Kim Ribeiro –Thelonious Monk, Bill Evans, Miles Davis, Eric Dolphy : de cabeceira

Solange Castro – Os grandes Mestres…

Kim Ribeiro –O Toninho é projeto de Sampa (Eldorado?) – providenciei uma cópia; que vergonha…

Solange Castro – Sem vergonha – “copiamos” discos desde que a Sonny inventou o “três em um” – e não foi isso que fez a “Music” ir à falência…

Kim Ribeiro –E os universais Faurrée, Mozart, Haendel… Aí não tem conta… Nem tempo pra ouvir tudo…
É: não tenho vergonha de ser músico duro…

Solange Castro – Que loucura isso – não temos tempo para ouvir tudo, e é tanta coisa maravilhosa – como a Música vive em nós..
Não é por ser “duro” – não vejo grandes problemas em pedir um livro emprestado, por exemplo… Isso sempre existiu… O que acho “vergonha” é pirataria, vender – fora isso, sem problemas…

Kim Ribeiro –Muito doido a gente não ter tempo pra dar conta do que é bom e a massa… (Deixa pra lá).
Pra vender pirataria tem que ser sucesso, e aí é outra história…

Solange Castro – Sou totalmente a favor dos direitos autorais, mas sem exageros – emprestar um livro não faz um autor ir à falência – muito pelo contrário, o divulga, pois se gostamos compramos para nossos herdeiros… Sempre que possível, claro…

Kim Ribeiro –Eu não acharia ruim ser pirateado… Mas cadê meu sucesso de massa? A obra original sempre tem um valor real e a mais… Ser o original já diz… Tocar numa partitura original é um prazer e quase um luxo, pois sempre é uma grana… Acaba a gente lendo xerox, mas é melhor do que não ler.

Solange Castro – Concordo plenamente… Deve ser um prazer inigualável..
Agora me conte – fale um pouco mais do teu trabalho na informática… Fiquei curiosa…

Kim Ribeiro –Há cinco anos comecei a colocar trabalhos na roda – um discador, uma agenda eletrônica (que meu irmão profissional da área concebeu e desenvolveu – só participei do processo), e hoje trabalho sob encomenda pra uma firma específica, o que paga muito melhor do que a música…

Solange Castro – Qual o trabalho exatamente?

Kim Ribeiro –O trabalho que está na roda é um levantamento pro INCRA – cadastro e criação de banco de dados pros cursos realizados em assentamentos, etc., e agora voz sobre IP pra arquidiocese do Rio – este ainda embrionário, e me forçando estudar programação para WEB… Mas voz sobre IP é um ótimo filão, pois traz economia a quem compra.

Solange Castro – Você usa algum tipo de software ou está desenvolvendo?

Kim Ribeiro –Uso o Delphi, que usa uma linguagem de programação muito poderosa (o Pascal) de uma maneira prática

Solange Castro – Interessante…

Kim Ribeiro – Programação pra Web inclui voz sobre IP e muito mais…

Solange Castro – E musicalmente, como está o teu momento?

Kim Ribeiro –Acabei de entregar o arranjo de “Desprezado” (Pixinguinha) pros Flautistas da Pro Arte e quero explorar – como disse – as possibilidades (enormes) do Finale, criando música eletrônica de novo… O Jubileu foi gravado profissionalmente em vídeo – tenho o material em fita, em Betamax, e pretendo passar pra DVD rapidinho…

Solange Castro – Alguma perspectiva de Selo para fazer o lançamento?

Kim Ribeiro –Nada – tudo pra arquivo… Pelo menos é histórico, pois tem muito músico bom metido lá…

Solange Castro – Ulalá – mas isso deve estar um luxo..

Kim Ribeiro –Ofereci pra TVE uma época, eles analisaram, mas devolveram sem usar…

Solange Castro – rs… Pode? Que absurdo…
Mas há de chegar ao público… Teu trabalho é imperdível para os grandes amantes da música…

Kim Ribeiro –Gosto de ver que me tens em alta estima…

Solange Castro – Oh! Kim – que isso? – sem comentários – te admiro pacas.. Sem exagero..

Kim Ribeiro –Shows agora, não – só o bar “Chega de Saudade” sábado sim, sábado não, com Raimundo Nicioli, e no outro sábado toco aqui em JF com o choro…
Sobre esse som no Chega – tem um piano e toco sem amplificar a flauta, com a falação mal se ouve, mas quem quer ouvir fica perto, e quem fica perto ouve coisas que só rolam ali… Raimundo está muito bom – idade traz refinamento, e isso pra quem já era exigente…

Solange Castro – Eita – isso é um desafio – piano e flauta??? Vou estar presente dia 25 – quer ouvir isso bem de perto…
E o “Santa Cecília”?

Kim Ribeiro –O Santa Cecília ataca dia 18 em Tiradentes – tem trabalhos esporádicos… E toco sempre que posso no Clube do Choro (de graça).

Solange Castro – Que é outro LUXO… Um trabalho maravilhoso para a Cidade…

Kim Ribeiro –Mas santo de casa…

Solange Castro – Sim, mas seria, de verdade, o caso de haver um patrocinador para esse trabalho – é muito importante para JF… Uma colaboração de R$10.000,00/mês, com sistema cooperativado de investidores, não tira pedaço – e vocês podem contar pelo menos com o Alô para divulgar BEM!
Mas agora me conte o “segredo da Floresta”…

Kim Ribeiro –Ah, sim: o sitio aqui, onde moro, está virando “Mosteiro do Som”. Construí uma casa de dois andares, muita madeira, acústica ótima – moro em cima, privacidade total menos a cozinha, que uso lá em baixo, a qual (parte de baixo) aluguei, mas que no fim do ano libera e aí vira “Mosteiro do Som”. Rolará muito som, poderei alugar quarto barato pra músico escolhido, poderei hospedar músicos de fora e fazer as apresentações aqui mesmo, pra um público que será quase um clube, pois não cabem mais do que 60 pessoas, e, com isso, espero tirar o que ganharia de aluguel, só que fazendo música e promovendo-a. Os músicos terão vida de monge pra fazer som e eu – naturalmente – sou o Abade, cargo vitalício. Tem até um papo de Caminho Real passar por aqui, trazer turistas… Mas isso é projeto oficial, com grandes verbas… Não levo jeito…

Solange Castro – E quando o “Mosteiro” estará disponível?

Kim Ribeiro –Fim do ano (2005) quero começar as atividades, mas já estou começando a preparar a Organização.

Solange Castro – Tem espaço no Mosteiro para “produtores”? Alugo meu espaço agora – rs…

Kim Ribeiro –Produtores só vinculados a algum monge…

Solange Castro – Prá lá de justo – rs…
Tive oportunidade de conhecer teu ninho – realmente é o “Reino dos Elementais” – um lugar muito especial e tua casa é linda… De um bom gosto ímpar e um astral MARAVILHOSO – um verdadeiro “Mosteiro dos Sons”…

Kim Ribeiro –Também acho, e daí essa vontade de abrir o espaço…

Solange Castro – Kim, você é “o espaço”… Muito obrigada pela entrevista e sempre nos informe onde vais tocar, sobre teus projetos e sobre o “Mosteiro do Som”… Foi ótimo estar contigo…

Junho de 2005.