Entrevista com Érico Baymma

Érico Baymma é um artista diferenciado, tanto pela forma que sente e percebe a beleza quanto no que faz, pois suas obras são belíssimas..

Nos conhecemos há anos, foi colaborador do saudoso AlôMúsica.com, e chegou a ser entrevistado na época, e agora está nos dando a honra de revê-lo e relê-lo, pois aceitou nosso convite e agora faz parte da Equipe Toada.

Bem, quem o conhece terá o prazer de estar com ele novamente.  Quem não o conhecia, terá o prazer de ler o transbordar de emoções de um Ser tão gentil, inteligente e que suspira “Música”.

Bem vindo, Érico!

Solange Castro

 

Solange Castro – Érico, que bom você por perto, é uma honra conversar contigo…
Você tem uma sensibilidade para a “Música” – quando isso começou a se manifestar?  É nato?

Érico Baymma – Solange, primeiro diria que não é só para a “Música”, mas como tenho contato íntimo desde criança, seja tocando ou cantando melodia, as melodias da harmonia, instrumentos que complementam a canção (popular) ou música (instrumental), acredito que também no nível racional me ajudou na construção da interlocução entre diversos elementos, que se estendeu a outras “disciplinas”. E acho que, por este motivo, creio que a música seja essencial ser incentivada nas escolas pois “sensorialmente” ela ajuda a fazer a interlocução entre conhecimentos, que acabam indo no modo sensorial e racional. A nossa vida, as experiências são vividas sensorialmente e se tornam conhecimentos que a gente racionaliza. Eis que a sensibilidade que me atribui é algo que vivenciei e entrou no “modo automático” de conectar conteúdos e, assim, talvez se reflita essencialmente para as pessoas do jeito “sensibilidade”. Mas sei que isto se aplica nas outras coisas da vida, embora seja mais visível no que “de meu” vai sendo mais conhecido pelas pessoas.

Solange Castro – Trajetória sólida, sem dúvidas. Creio que além dos ensinos escolares, necessitamos de canais que abram, de forma contundente, a música para toda população, o que no Brasil, infelizmente, não acontece..
Quais seus primeiros ícones na música, brasileira, internacional, instrumental??  Enfim, quais seus primeiros “perceberes” sobre essa Arte tão precisa?

Érico Baymma – Falo primeiro a partir da palavra utilizada em sua pergunta, sobre a Arte ser “precisa”. Claro que entendo que o sentido utilizado é o quanto nos é necessária, a Arte. Mas, aproveitando, a Arte não é precisa, no sentido de não ter precisão, e é onde ela ganha maior grandeza pela complexidade e diversidade de expressões que chegam a ser Arte. (Não poderia deixar de fazer este comentário, pelo belo impreciso da arte… rsrs).
Quanto a meus primeiros “perceberes”, iniciou com música clássica, como mais ouvida assertivamente, em discos e nos estudos iniciais de piano. Mas, no sentido do cotidiano posso dizer que tive diversas introduções aos universos musicais, de tantos artistas, que ainda hoje me sinto sendo iniciado à grandeza musical de tantos artistas que, por um motivo ou outro, se fazem essenciais para minha trajetória – conforme minha relação afetiva, ou mesmo racional, adota esta importância.
Posso dizer que pelos anos 60, através da televisão, observar Elis Regina era sempre um deleite e tornou-se importante pra minha vida inteira. Ela ainda ecoa ainda hoje, até em sonhos que tenho com ela… rsrs. Os festivais trouxeram uma gama de artistas que se tornaram bem mais importantes a partir da minha juventude. Tom, Caetano, Milton, Gil, Nara Leão…. Ainda criança, assisti a todos os filmes dos Beatles, onde eram colocados como palhaços, que relaciono ao que foi pras crianças dos anos 70 Os Trapalhões, com a diferença que os Beatles faziam música, e foram bem mais compreendidos pela música na adolescência. (Aliás, como criança, não sabia inglês, só vim a entende-los quando maior e não entendo esta estética de coloca-los como atrapalhados, acho que distorce o significado de muito do que fizeram) Neste novo período: Paul McCartney, John Lennon, Pink Floyd, Genesis, Elton John, Keith Jarret e uma apreensão mais verdadeira e profunda sobre a grande música de Milton Nascimento (Clube da Esquina nº2) e João Gilberto (Amoroso). Claro que já tinha todo os álbuns da Elis, como obrigação pessoal! Poderia citar outros, mas a lista ficará grande, pois sempre amei música e tinha o apoio de meus pais. Posso afirmar que estes foram essenciais à motivação de pesquisa de música e a sua percepção nos diversos artistas de todos os estilos, no que incluo o Philip Glass e Peter Gabriel (carreira solo). Daí, para cada instrumento há um ídolo, para estilos tantos outros e em performance e composição tantos outros mais, que não me estendo, pois a entrevista seria somente de nomes. Mas gostaria de incluir Ná Ozzetti, Mônica Salmaso, Patrícia Bastos, Ceumar, Sérgio Santos e André Mehmari, que invariavelmente habitam meu cotidiano. Mas gostaria de reforçar que, pela força instigante para a criação, considero o André Mehmari e a Mônica Salmaso como dois exemplos prioritários da música contemporânea. Não estou esquecendo Rosa Passos, que é uma linda e faz minha cabeça totalmente. Estou pensando neles como pessoas que surgiram para o público na virada do século e que se fazem desde o início de século XXI um dos maiores influenciadores na estética musical, bem como o comportamento na criação/produção de música, quando são outros os arranjos para se produzir música e não há indústria, como se tinha no século passado. Claro que os citados são fragmentos de uma música que conseguiu ultrapassar a linha do independente, produzem coisas de qualidade intensamente – do tipo que se compra seus álbuns (quando são lançados, pois alguns já encaram a música digital como algo monopolizador – o que é uma pena, enquanto no exterior tem-se até novos formatos de lançamentos com sons em qualidade superior, devido às novas tecnologias). Então, acrescento que não entendo como pode-se extinguir o cd, alavancar o LP, com custo tão algo, como fetiche.
Somente acrescento um comentário relacionado à concretude de minha trajetória que é algo que se deu de modo comum, calhou de ser o meu universo, o que praticava, ouvia e minha vivências – no que quero dizer que, se for oportunizado, qualquer criança pode ter esta vivência, ou mais rica ainda.

Solange Castro – Tens razão, me expressei erradamente.  Deveria ter escrito “necessária”, não “precisa” – rs…
Universo bem rico, somos de uma época que tínhamos a Música nas mídias, podíamos ouvi-la.  Hoje podemos entrar no YouTube, por exemplo, e ouvir músicas do mundo inteiro, mas não é fácil saber por onde começar..
Quando e como você começou a escrever sobre o que te toca?  Eu, por exemplo, coloquei os dedos no teclado após assistir um show da Ná Ozzetti, e sei que podes entender…

Érico Baymma – Pois é, posso dizer que hoje tenho imensa dificuldade de saber o que se anda fazendo na música, se algum amigo não fizer o favor de me indicar. Os serviços de streaming continuam com o mesmo e famoso jabá, a gente entra nos serviços e lá estão o que há de pior em música, normalmente – se bem que à medida em que vamos ouvindo, vão sendo indicados “similares”, mas ainda é muito pobre, pelo jabá. Sem falar que os streamings não estão pagando corretamente aos artistas e não sei o que acontecerá em breve com a produção musical.
Quanto a escrever sobre música, não sei direito quando foi, acho que foi nos anos 90 em que, conhecendo amigos jornalistas, começaram a me pedir artigos sobre lançamentos, pois conheciam a qualidade do meu trabalho musical e minha proximidade com artistas – tanto pessoalmente como com seus trabalhos. Não tenho certeza se já fazia blogs, acho que sim, e publiquei muito no site NELSONS, do jornalista Nelson Augusto, com quem trabalhei entrevistando artistas no programa “Disco da Semana”, lançando discos e tendo contato com artistas. Fiz entrevistas memoráveis com gente do calibre de Vitor Ramil, Miúcha, Simone Guimarães e aí por diante – foram 7 anos, um programa aos sábados (imagina que ótimo poder conversar com meus ídolos, gente que realmente respeito seus trabalhos musicais, todos os sábados? Eu delirava, e os artistas se mostravam sempre felizes em estar falando para um público que gostava de suas músicas).
Acredito que este período de entrevistas enriqueceu demais minha visão sobre a música, a indústria e o universo independente, podendo falar mais das variantes, das dificuldades e facilidades, e do fazer em si, que é um trabalho árduo – não é qualquer brincadeira como alguns pensam. E tive o prazer de ouvir do Vitor Ramil que foi o melhor programa de entrevista que fez, pois entramos em seu fazer poético e musical, quer dizer, éramos verdadeiros investigadores, estávamos armados de amor para conhecer mais os diversos universos artístico-musicais.

Já que estamos falando de escrever sobre música e, por citar a Ná Ozzetti – que é uma criatura linda, que tive o prazer de criar uma amizade gostosa – quando ela estava lançando o disco “Meu Quintal”, eu escrevi sobre o disco para o jornal O Povo. Encantado que sou com ela, conhecendo por imagens onde ela mora, o cd chamava-se “Meu Quintal”, havia assistido o EPK, na edição especial para divulgação e, não sei o que me deu, ou seja, quem escreveu foi “o meu universo especial de encantamento”, que acaba por renomear as coisas, referi-me ao disco no artigo todo como “Meu Jardim”, pois a casa da Ná é tão encantada que “colou” na minha cabeça que era um jardim infinito, mágico. O editor do Caderno de Cultura ligou pra mim, injuriado: “Érico, tu estás doido, o nome do disco é “Meu Quintal”! Vou ter que consertar tudo!!” (ahahha). – Claro, éramos amigos, o jornalista e eu, e vez em quando eu tenho estas distrações…. rsrsrs… Ri demais desta situação, e a Ná também riu demais, pois contei pra ela!
Assim, preocupa-me especialmente divulgar as coisas do universo musical, pois ele está na base de nossa cultura, o ritmo é o berço e, pela experiência que tivemos na ditadura, muito foi conquistado pela força da música quando, nos anos 70, tivemos um universo lítero-musical e musical dos mais férteis, fazendo cabeças, conscientizando, mesmo através das fabulosas metáforas colocadas pelos compositores para driblar a censura. Entendo que a ditadura, ao contrário de reprimir, fortaleceu nosso universo poético, não somente na música, mas como ela é mais popular, as músicas chegavam ao coração do povo e muita coisa se despertou, formando um ciclo de necessidade de aprimorar linguagem, na produção, como também melhorar o nível de entendimento metafórico, o que foi, de certa forma, uma experiência “literária” também. Tenho certeza que um público enorme cresceu pessoalmente pelo contato direto que tínhamos com o que se fazia de música. E tivemos o melhor período da música que reverbera como necessidade de busca pelo aprimoramento da canção brasileira.
Acrescento sobre o escrever sobre música o que entendo sobre este fazer: esta escrita, se é que não dá um aval – por parecer crítica (mas não escrevo sobre o que não gosto) aos que venham a ler – ela traz ao conhecimento das pessoas uma das formas mais naturais de agregar pessoas, além dos sentidos, entre ritmos, melodia, voz (e vibração do timbre), arranjos e instrumentistas, uma série de conhecimentos sensíveis que habitarão e transformarão a sociedade. E esta é a razão pela qual tenho um verdadeiro incômodo pelo jabá e pela péssima música que instigam à população a gostar. Acredito que elas restrinjam o desenvolvimento intelectual e comportamental – isto é conhecido em todas as gerações – de forma a que, por exemplo, as pessoas parem de pensar, de desenvolver suas habilidades, sem falar nas questões espirituais contidas na música que, podemos ver, ao largo da música boa (conceito tão abstrato, mas realmente sensível), se vê uma alienação sobre a própria vida a ponto de deixar-se de ter cuidado pela própria vida, deixar de ter discernimento, consciência e sensibilidade, além de, obviamente, a empatia, pois a música traz a afetividade, é por causa da relação afetiva que temos com a música que a elegemos “melhor ou pior”, além de outros critérios mais racionais. Mas é claríssimo que o que há de indústria musical hoje é um empobrecimento para a sociedade, mesmo! Não pelo valor monetário gasto na produção ou na aquisição de música, mas pela facilidade que o pensamento está sendo destruído por banalização dos valores musicais, pela indução da distração e da alienação através da música supostamente grátis que é distruída quando se abre um serviço de streaming, por exemplo! Acho que dá pra entender bem o quanto é importante, mais que simplesmente “ouvir a música”, ver todas as correlações contidas, mesmo porque temos uma história completamente vinculada à música…

Solange Castro – Gente, o “Nelsons” acabou?  Era um site ótimo…  E você esqueceu de dizer que foi um maravilhoso colaborador do Alô Música, lembro bem – rs..
Bem, os canais de streaming realmente estão deixando muito a desejar, concordo, mas no YouTube quem tem direção encontra muita coisa.  Tenho recebido quase que diariamente de uma amiga de infância clássicos do Jazz americano de alucinar.  Está virando rotina tomar café da manhã ouvindo maravilhas como Wynton Marsalis, Mark Winkler e outras feras.  O maior problema é que os músicos e compositores recebem pouco demais, a arte é muito desvalorizada no Brasil, é vergonhoso…
Você é compositor?

Érico Baymma – Sim, você não tem meus discos? (desde os tempos do Alô…??) Faço melodias, letras e músicas instrumentais. Das canções, gravei apenas cinco, infelizmente – pois adoro cantar e estar no estúdio para mim é um verdadeiro delírio (a gente ouve tudo, até a voz da gente, direito… rsrs). Minha tendência, mesmo, seria fazer shows em teatros e “assinar” que tenho a chatice de João Gilberto, quero silêncio para que a música que faço seja a melhor, pois é incrível o som que sai no silêncio, mesmo que o microfone não seja lá estas coisas todas – em shows, a gente ainda tem que lidar com o descaso do povo do som, sem falar no irritante ruído que o público de bar (que é onde mais facilmente se consegue fazer show aqui). Lembro-me de um show magnífico da Olivya Byngton com João Carlos Assis Brasil, em que a divulgação teve que fazer o aviso que se houvesse qualquer barulho, o show seria interrompido. Eu acho um absurdo que se tenha que falar paras pessoas que se trata de música, que é para ser ouvida e que para se ouvir há de ficar calado. Não é impressionante?
O último show que tentei fazer foi num bar onde sempre cantava, que havia se mudado para outro local cuja estrutura reverberava mais o barulho da plateia. Quando notei que a primeira mesa próxima ao palco fazia um barulho irritante e vi quem estava sentado, desisti de fazer shows aqui. “Por acaso”, eram pessoas que pertenciam à Secretaria de Cultura na época, e eu conhecia todos, um por um, muito bem. Se eles que pertenciam a um órgão responsável pelo incentivo estadual da arte e cultura não eram capazes de ser minimamente sensíveis ao tipo de som que eu faço – um tanto bossa nova e rock’n’roll… rsrs – como poderia exigir que o restante do público calasse e o próprio dono do bar fizesse uma estrutura mais apropriada para a música? Sem falar no desrespeito ao que eu estava fazendo. (Tive vários eventos que desmotivaram um tanto para fazer shows, apresentar-me ao vivo. Mas devo dizer que fui muito bem recebido nos 5 estados que cantei em 1994 – nossa, já faz tempo… rsrs – todos ouviam e adoravam, via-se a empolgação nos aplausos, e eu era ouvido. Fantástico, eu era ouvido! Rsrs…. No mesmo ano participei de um festival que não houve ensaio geral (aff….), e nos colocaram lá, soltos “den’da multidão”. Antes de mim, um cantador apresentou-se, e como é típico do cantador, soltou o vozeirão que quase arrebentou as caixas – eu vi as pessoas tapando o ouvido como o mundo se acabasse. Os controladores do som baixaram todo o som, inclusive o retorno. Aí, chegou minha vez de cantar, não ouvi minha voz durante metade da música, semitonando total, até que regularam por entender que tipo de voz era a minha, e eu consegui terminar afinado… ahaha… A minha pior e melhor experiência – melhor por participar de um festival…. E não sou de desafinar, mas sem se ouvir, como poderia?
Quanto à composição, ainda faço canções aqui e acolá, com letras de compositores amigos, ou me jogo a sentar e buscar melodias ou letras (escrevo mais do que busco melodias, por sentir que a melodia me vem mais fácil). Os CDs instrumentais foram uma experiência de aventura, gravando dois CDs com vários sons em somente dois canais – foi o primeiro CD feito em casa, mas o jornal A Folha de São Paulo noticiou um outro. O primeiro, tinha composto a maioria das melodias. Com ele concorri ao Prêmio Sharp da Música, categoria instrumental. No segundo, cada timbre usado para harmonia ou para a melodia principal foi gravado de “prima”. Eu me surpreendi com os resultados obtidos. Obviamente não é o som comum da música instrumental, que se baseia no jazz e nos ritmos brasileiros como estilos dos discos. Minha música, a instrumental, é meio experimental-psicodélica, que tem como referência a música de Brian Eno, Philip Glass, um pouco de Jean Michael Jarre (no contexto de ser feita com sons eletrônicos) e algumas outras referências.
Algumas de minhas músicas podem ser ouvidas em minha página do facebook www.facebook.com/EricoBaymmaMusica, no menu “Músicas no Reverbnation”. Eu poderia dar o link do aplicativo que conecta o facebook ao ReverbNation, mas todos reclamam que não abre a página com o link. Prefiro dar as instruções.
Mas, mesmo não fazendo tanto, compor é um ato de autodescoberta, de retirar de dentro a melodia, o ritmo, a harmonia, o que requerer como, às vezes, um pouco de loucura. A fala da alma! Falo isso pois passo o dia andando no apartamento, fazendo vocalizes, jogando letras, brincando com sons e palavras que muitas vezes terminam em poema, uma letra, ou uma canção completa.
Se você me perguntasse quantas músicas eu tenho, não diria que tenho mais de 500, como é normal ler alguns dizendo isso, mesmo que possa ter ultrapassado o número em tantas canções que tenho na cabeça, as minhas – fora as que escuto…rsrs. Quando eu gravar, direi que tenho mais as tantas composições. Enquanto número de composições, tê-las feito e não produzido ainda é algo muito abstrato para mim. Quando jogar a minha voz no estúdio para as produções, com certeza, terei o prazer de dizer que elas existem. Isto não é ironia aos colegas, embora pareça; mas é meu jeito de ver a coisa. De que adianta falar números se elas não existem concretamente finalizadas, como eu quero?
Em relação à forma de distribuição desta música, via Youtube ou outros streamings, você vê que somente uma conexão mais larga com pessoas é que nos proporciona hoje o que é bom. E as camadas menos providas de poder aquisitivo, ou mesmo pessoas que não tenham estas ótimas conexões, estão bem distante daquele sonho de elevação (espiritual) do ser humano. Só conheceremos mesmo se alguém nos disser. E há outro “senão” sério, por conta de ser uma nova forma de distribuição, vários artistas já deixaram de lançar seus discos nos streamings – pelo que é proposto como pagamento – e só fazem shows. Já possuem seus nomes marcados para o público, que não é pequeno (digo na música global, Brasil inclusive), e a discografia brasileira está desaparecendo. Por incrível que pareça, a discografia brasileira está “completa”, lançada no Japão – eles são donos das nossas músicas hoje em dia. Quer perda histórica tão significante como esta? E tem uma coisa, lá eles permanecem com todos os formatos convivendo harmonicamente, incluindo os lançamentos nas novas tecnologias. O que me incomoda nisto é que o Brasil em vários sentidos está muito atrasado e forçosamente preso aos números calculados pelas indústrias fonográficas/musicais – que não se sabe mais se pode ser falado em fonografia… rs -. Somente os artistas que podem se autofinanciar é que lançam os formatos físicos e podem deixar uma memória mais larga para a população. Mas estamos completamente fragilizados em termos culturais, e não é por falta de demanda, é por assertividade no jeito da distribuição, cujos reflexos eles sabem muito bem o que estão fazendo!

Solange Castro – Agora te peguei:  não tenho, você nunca mandou pra mim nenhum disco seu.  Pronto!, fiz bico – rs..
Então, meu doce, chegou a hora de divulgar esse seu trabalho – onde podemos encontrar suas obras?

Érico Baymma – Bom, querida, eu não tenho mais nada em mídia física. Estou batalhando para colocar nos streamings da vida.
E resolvi que hoje, dia 28.04.2020, estou liberando por uma semana, até 03.05, os meus dois álbuns como duplo. A promoção está na minha página.
Claro que você vai receber em formato digital…. rsrs… Perdoe a falha!
É uma pena que os incentivos e o interesse das pessoa pela mídia física esteja tão fora de moda assim. Enquanto vemos que no mundo inteiro as mídias convivem completamente harmônica, existindo inclusive várias tecnologias de aprimoramento do som, como no Japão (e exportadas para todo o mundo) os formatos shm-cd, blue-spec cd2 (que é o formato da Sony), e agora, lançada pelo serviço de streaming TIDAL, há, em cd, o mesmo cd mas no formato MQA, que traz o som tal e qual foi feito no estúdio, altíssima resolução e qualidade impecáveis (os três formatos são impressionantes no diferencial da qualidade sonora), fica todo mundo apegado em mp3 que estraga completamente o som, apagando todo o apuro sonoro dos músicos e artistas, achatando o som de forma irritante.
Mas, de certa forma, eu sabia que o incentivo ao mp3, como consequência da música que se poderia baixar no antigo Napster, foi uma ideia pegue pela indústria como maneira  de vir a relançar o vinil – que somente com os aparelhos de som que se possuía antigamente se pode ouvir com a qualidade que ele tem, e somente um toca-discos muito bom para preservar o vinil sem ferir o disco (pois a agulha não sendo devidamente simétrica, causa rasgos no disco), para que, espero que enfim, venha a se popularizar aqui no Brasil estes formatos de altíssima qualidade.
O Brasil é alvo certo para a indústria. Basta uma propagandazinha chula para incentivar um consumo sem discernimento, que é aviltante, mas chamam de audiófilo (como se criam classes disso ou daquilo) para que este tipo de ouvinte mais exigente queira ouvir o som pelo qual pagou. Não há audiófilo, senão os ricos que podem ter aparelhagens de som que chegam a custar mais de cem mil dólares (isto faz parte do limite que pra mim já é extravagante). Mas é possível ao consumidor comum, como eu, ter o bom gosto de querer ouvir o som como é numa aparelhagem razoável. Claro que, mesmo que queira, está longe de poder possuir uma aparelhagem assim, top do top, mas é completa ilusão até desejar… rsrs…
Daí, a gente vai tirando proveito com o que tem, modestamente, e ouvindo a grande presença sonora contida num arquivo de alta resolução que já é super comum no mundo inteiro. Claro que a maioria das pessoas estão envolvidas no mp3 e não conhecem as siglas, porque eu pesquisei por gostar e não me conformar com o som do mp3.
Acrescento sobre os que se assumem saudosistas por gostar de vinil que a indústria brasileira nunca produziu o LP como ele é pra ser, ou seja, ele tem que ter 180g, é mais pesado para aguentar a prensagem mais perfeita que é o que o produto requer. Aqui sempre se consumiu vinil que parecia uma folha de papel. Daí, estas pessoas vêm me dizer que são saudosistas do vinil que se produzia no Brasil?
Não me surpreendo que o Brasil seja o mercado ou cultura mais propícia a aceitar fake News. Engole-se qualquer notícia como verdade absoluta, quando nem verdade absoluta existe mais!

Solange Castro – Érico, se deixar escrevemos um livro de mil páginas, como é gostoso conversar contigo.  Não tenho palavras para te agradecer nos ter cedido entrevista tão gostosa, e aproveito para avisar aos nossos leitores que estás na Equipe Toada.  Sim, pessoal, nosso Poeta dos sons e das letras vai nos ceder sua opinião sobre o que lhe chega de música.
Bem vindo, Érico – se solte, a casa é sua..

Érico Baymma – Solange, assim como é um prazer “soltar o verbo” por aqui com você, neste ping-pong sem término… rs… será maravilhoso ser novamente parceiro neste seu novo projeto da TOADA, cujo título diz tanto sobre nós e sobre os amantes da música. Espero vir a trazer conteúdos interessantes para as pessoas num período em que os incentivos à arte e cultura são tão pobres, em que a própria música de mercado é uma pobreza – pelo que a indústria quer impor aos ouvintes (nós que vivemos tanto da música brasileira, já dissemos e ouvimos tanta reclamação da pobreza que a música estava ficando e agora temos que suportar esta conjunção de não incentivo e músicas de tão baixo nível – para que não fique dúvidas, Mônica Salmaso e Milton Nascimento falaram que a música está pobre e foram muito mal entendidos. O que há é uma música de mercado monotemática e sem dimensão, no que falam. Infelizmente, os que fazem esta música boa, agora, estão nos recantos da independência e está difícil alguma gravadora coloca-la para as pessoas ouvirem) – e as mídias físicas se reduzem a fetiche como vinil, que é ótimo ter capa, mas tornou-se inviável comprar LPs tão caros. Enfim, sei que estamos remando a favor da maré, pois onde tem música, a maré está a favor. O que não está certo é o sistema que a música é difundida que reverberará numa luta meio cruel para produzi-la, se não for um patrocínio muito bom. Mas tudo isto será discutido adiante, estarei de olho nas formas com que surgem soluções no mundo e o que poderemos fazer de criativo para viabilizar nossa querida música brasileira. Assim, espero dar o melhor de mim no que vier a produzir textualmente, com conteúdo bom, que venha a interessar, instigar e motivar os tantos ótimos artistas que estão escondidos aí por todo o Brasil. E vamos em frente. Que a TOADA, tão linda música, encante os leitores com informação e que gere conhecimento. Bora lá?
Muito agradecido ao TOADA por me abrigar, esperando que os contextos abordados sejam de interesse do público. E vamos criar! Grato, de coração!

Solange Castro – Nós é quem agradecemos, Érico.  Bem-vindo!, a casa é sua..

Leia a entrevista com Érico Baymma para o AlôMúsica.com

 

Abril / maio de 2020