Zé Renato

Por: Felipe Eugênio

Cantando no limiar da alma

Ao lado de Moska, Zé Renato deu mais um show de interpretação com sua voz quase sobrenatural. O Ex-Boca Livre mostrou por mais uma vez que se encontrou profissionalmente no samba. Coisa que para o nosso sabor, Zé Renato não parece dar sinais de sair tão cedo. Nas apresentações em que cantou músicas de Bide e Marçal, compondo a série de shows que homenagea grandes sambistas, “O Samba Agradece”, pelo CCBB, Zé Renato passeia com sua voz pelos sambas e valsas da dupla como se jamais tivesse feito outra coisa, senão aquilo. Realmente emocionante aos que assistiram o show. Zé Renato inicia 2002 falando sobre samba e sua carreira em torno do ritmo maior do país.

Alô Música – Dentro das canções do Boca Livre, vocês nunca tinham essa melodia com o apelo rítmico do samba, não? Explique, por favor, dessa sua passagem para o samba – que já está no quarto cd com essa temática.

Zé Renato – O que acontece é o seguinte: o trabalho com o Boca Livre – é muito difícil até comparar com essas incursões que tenho feito pelo samba… -, pois são duas coisas muito diferentes. O Boca Livre tinha um repertório onde as músicas eram escolhidas procurando privilegiar as que tivessem possibilidade de se fazer arranjos vocais. Que a gente pudessem explorar mais como um grupo vocal. No trabalho solo é diferente. A escolha do repertório é muito mais ampla.

Alô Música – E essa opção sua pelo samba?

Zé Renato – O Samba, ele surgiu faz muito tempo na minha vida. Para o público foi há pouco tempo. Mas isso faz parte da minha criação, minha formação musical foi ouvindo essas músicas. Sambas, serestas, era o que eu ouvia na minha infância; coisas que quando eu comecei a aprender violão, foram as primeiras influências que tive, vieram daí. Só que depois de um certo tempo, como um profissional de música, é que isso veio a se incorporar na minha história. Isso já vem há muito tempo. Então para mim, na verdade, é como se eu estivesse meio que me preparado para cantar essas músicas. Acho que foi um processo de amadurecimento mesmo, uma maneira de amadurecer mais até como intérprete, como compositor, como músico. Principalmente como intérprete, que é onde tenho mais trabalhado na minha história. Então penso que isso veio no tempo que tinha quie ser mesmo. Acho que isso está acompanhando minha história e meu amadurecimento como cantor.

Alô Música – Em relação a essa retomada do samba que vem tão bonita no final dessa década de noventa. Você vê o samba como realmente uma base da música brasileira, algo que resiste e reside como base para tantos outros estilos musicais nossos, e que eventualmete emerge na história da música popular. Como quando surge com Bide e Marçal, uma desvinculação do maxixe; na pós-Bossa Nova, com o Opinião; depois no pós-tropicalismo e MPB de protesto, com a era Fundo de Quintal – mesmo com toda a deturpação comercial que houve com o termo “pagode” e “samba” na década de noventa. Há uma retomada que se vê, mesmo em guetos cult. Você acha que essa retomada serve para dar outro fôlego para a MPB, dar um impulso à ela, esse resgate dos valores do samba, por exemplo?

Zé Renato – Eu acho que ele vem, na verdade, o samba está sempre se desenvolvendo – apesar de épocas em que ele fica um pouquinho mais escondido – com Paulinho (da Viola), Zeca Pagodinho, Elton Medeiros, todos esses cantores e compositores, eles nunca pararam de trabalhar, produzir e de fazer coisas. Mas o que estava faltando, ao meu ver, está começando a acontecer agora. Aos poucos uma boa parcela da juventude está començando a se interessar por isso. Haja a vista aqui no Rio de Janeiro, que é o lugar onde as coisas quando começam a acontecer se espalham pelo Brasil. E eu espero que sim..(risos), que isso aconteça no caso. A gente pode observar aqui mesmo, na Lapa, onde isso tem acontecido já há muito tempo!… Agora teve uma matéria no jornal – maravilhosa – sobre a Teresa Cristina, uma cantora fantástica. E que vem há muito tempo já fazendo esse trabalho que ela faz, mas que agora começa a ser reconhecido por um público jovem. Não só ela como os outros meninos que tocam no Semente, no próprio Carioca da Gema, grupos que ficam se revezando pela noite da Lapa. Que é composto basicamente de jovens, que cantam e que assistem!

Alô Música – Então você acha que, tal como reclamam, de não existirem mais esses ninhos, celeiros de sambistas, como na época de Bide e Marçal (no Estácio de Sá), a Mangueira no seu tempo…. Isso a teu ver ainda resiste?

Zé Renato – Acho que há na maneira dos dias de hoje. Quer dizer, essas rodas de samba, essas casas noturnas, onde estão acontecendo essas apresentações do pessoal novo; garotos novos que cantam coisas até da década de trinta, quarenta, ou seja, pessoal informado. Penso que a partir daí, desse trabalho que eles fazem, meio que se informando, pesquisando e cantando essas músicas, vão surgir novos compositores, novos cantores e tal. E a base deles, penso que estão seguindo o caminho certo. Porque a base é essa.

Alô Música – Agora, há essa grande diferença do que estão cantando aqui, você a o Moska ; que era o popular realmente, com toda a propriedade do termo, na década de 20 e 30 ; e que agora é elitizado. Tanto que feito no CCBB, um público que difere assaz de, fosse o caso, esse show numa escola de samba ou comunidade semelhante a dos compositores que se homenageia hoje.

Zé Renato – Mas esse show pode perfeitamente seguir para outros lugares. Eu vejo assim: eu acho que a gente está aqui, tivemos uma oportunidade de fazer, graças a Deus, que pudemos fazer isso – foi a preços populares num lugar pequeno. Então acho que dá perfeitamente, e vejo com otimismo essa coisa de – não renascimento – , mas sim esse caminho que está tomando o samba. A gente vê que o público que tem vindo, frequentando a Lapa, e mesmo os que têm vindo aqui no CCBB para nos assistir, é um público muito variado. Ou seja encontramos aqui desde gente muito nova até outros que viveram épocas próximas desses clássicos. E essas músicas que são populares, que foram populares nas décadas de trinta e quarenta, hoje a gente consegue ter uma atuação paralela com a produção musical que é feita por exemplo, do Paulinho (da Viola), do Zeca Pagodinho (que é um cara que vende milhôes de discos. E está sempre no disco dele ou com a Velha Guarda da Portela, o Elton Medeiros, o Monarco). Então isso é um bom sinal. É claro que ainda não chegou no ponto que a gente gostaria. Mas é indício de que isso pode florescer, isso pode dar frutos. Principalmente o que me anima é esse interesse da juventude. O interesse dessa parcela da juventude. Porque eles não estão ali por “modinha”; quando vou ao Carioca da Gema, vejo aquela garotada ali cantando aquelas músicas, emocionados, e dançando. Por que o samba também é isso, é dançar. Não precisa Ter aquele comportamento de ficar inteiramente parado para ouvir – é claro que isso existe também – , mas quando vou ver o pessoal tocando choro ali no Semente acho bacana as pessoas dançando. Sem distanciamento, que embora também exista, não pode ser só isso.

Alô Música – Qual é o grande diferencial de você cantar Silvio Caldas e agora Bide e Marçal; após shows como esses, como isso depois influi na sua carreira como músico? Como e o quê isso muda dentro de você?

Zé Renato – Olha, isso vem mudando, provocando mudanças. Desde o disco que fiz com o Silvio Caldas, ou melhor, com o repertório dele, foram trabalhos que me provocam permanentes mudanças. São coisas que eu já tinha na minha vida mas que estou cada vez mais me aprofundando. Querendo conhecer mais esse baú da música brasileira . A minha relação com música sempre foi na base de intuição; eu nunca programei nada, nunca tive conhecimento teórico – tenho pouco conhecimento teórico de música -, então a minha relação com música é na base da emoção. É assim que eu me guio.

Alô Música – O Paulinho (Moska) comentou sobre “cantar com a alma”, um termo usual entre músicos…..

Zé Renato – Completamente. Acho que isso tem que ser o nosso guia! A gente tem que se guiar por aí, pelo coração; é a única maneira. Se eu tivesse escolhido outra profissão na minha vida, sei lá…. Quem trabalha com música, inclusive grandes maestros, o principal é a emoção. A gente tem está se emocionando sempre, porque essa é a maneira mais honesta de se relacionar com a música. Consequentemente com o público.

Alô Música – O grupo que você formou com o Guinga, Moacir Luz e Jards Macalé ( que inclusive estará por aqui), o Dobrando a Carioca, teremos outras apresentações dele? Inclusive tem uma temática bem forte do samba ali, com os quatro compositores/intérpretes.

Zé Renato – Ali eu acho mais difícil a gente voltar a se reunir. Porque aquilo ali foi um momento: quem viu, viu!.. Não dá para dizer nem que a gente não vai mais se encontrar, nem que vai. Porque foi um por acaso…

Alô Música – A gente imaginava que pudessem ocorrer outras apresentações, mesmo até com uma regularidade cíclica.

Zé Renato – Eu acho que não está livre disso não, mas a gente não pode afirmar nada. Cada um está aí com seus trabalhos, dando sequência a suas carreiras. Vamos ver. De repente quem sabe? Foram coisas bacanas, e coisas boas sempre têm espaço na vida da gente.

Alô Música – Tomara que volte então… Projetos seus dentro do samba, o que há de novo?

Zé Renato – Por enquanto nada programado no samba. O que tem agora é um disco que vou fazer sobre JK com o Wagner Tiso. O período JK, em que ele atuou como político.

Alô Música – Mesclar música com história, não?

Zé Renato – Mais ou menos. Foi um trabalho de encomenda mas que a gente acabou se entusiasmando pelo repertório.

Alô Música – Você anda compondo algo, vem mais samba por aí?

Zé Renato – Tenho feito coisas que estão guardadas ainda, não concluídas porque eu não sou letrista e dependo dos meus parceiros para finalizar as coisas. Mas estou caminhando; meu trabalho de composição é coisa que faz parte também da minha vida, que adoro fazer e não vou deixar nunca de fazer.