Moska

 

 

Por: Felipe Eugênio

“…E a minha obra se chama diferença!”
Moska

Moska ao lado de Zé Renato estréia 2002 homenageando Bide e Marçal, no CCBB, durante a primeira semana de janeiro. Essas apresentações fazem parte da projeto “O Samba Agradece”, que acolhe homenagens a cinco grandes bambas da antiga, através de talentos contemporâneos do samba. Moska se sente bastante a vontade ao falar de samba que, para surpresa geral, não é algo novo em sua carreira musical. Ao contrário, Moska desabafa sobre mídia, música e malandragem dentro de um bate papo, nos camarins, pouco antes de sua pseudo-estréia no mundo do samba.

Alô Música – É o primeiro trabalho que você faz com o Samba?

Moska – Não!.. Não… Não.

Alô Música – Com Show?

Moska – Não!..(risos) Engraçado isso né, cara?

Alô Música – Os discos no caso..

Moska – Bem, é o seguinte: a minha carreira de cd autoral é uma coisa. As canções que faço eu não trabalho com o samba. Eu não componho samba. Embora já tenha composto uns sambas, como “Paixão e Medo”, “Admiração”. São sambas-canção, né. E já fiz um tributo à Elivelton Martins, lá em São Paulo.

Alô Música – Tem algum registro disso? Algum material fonográfico?

Moska – Não tem registro, não.

Alô Música – É que o Zé (Renato) em trabalhos chegou a fazer CDs de alguns shows dele. No caso, de tributos.

Moska – É que esses Shows que o Zé (Renato) fez, na verdade eram gravação de CD. Depois que viraram shows e tal. Eu nunca quis gravar… bem, na verdade sempre quis: tudo que a gente faz, gostaria que fosse gravado. Mas é sempre um pouco caro. O engraçado nessa história, é que foi a primeira vez que um crítico de um jornal grande veio ao meu show na história da minha vida!

Alô Música – Ah?

Moska – É. Estou falando sério para você. As pessoas não acreditam, mas eu falo isso para todo mundo.

Alô Música – Mas você é um cara que tem acesso até à grande mídia – no caso, até um mostrengo como a Globo – com participações até em seriados. Você não é um músico anônimo; aquele tipo alternativo cult demais, que chega a ser segregado ao grupinho “vanguardista”. Soube de apresentações suas em colégios por conta do Móbile. Ou seja, é um artista de acesso às pessoas.

Moska – É! Mas é incrível, né? Acho que é assim, o crítico de jornal de MPB, acha que sou meio Pop-Rock. Entendeu? Não me considera MPB. E o crítico de Pop-Rock, me considera meio MPB… (Risos) Mas eu gosto. Meu último disco chama-se “Eu Falso da Minha vida o que eu Quiser”. Acho que minha carreira vai ser sempre atravessada por esse muro, sabe, esse “em cima do muro”- que para mim é interessante, porque o que estou fazendo realmente é uma MPB-Pop. E isso não existe; a maior prova disso é que não existe um crítico para isso. Então o que acontece, os caras nunca foram. Mas estou dizendo nunca, é nunca mesmo! Porque quando a gente faz um show e convida, a gente sabe que vai. Eles confirmam e não vão. Se você for fazer uma busca na imprensa, na história de dez anos para cá você não vai encontrar uma crítica de show meu. Aí eu te pergunto, quando sai assim “O melhor show do Ano”, por que eu nunca fiz o melhor show do ano? Porque eles nunca viram. Por que de repente vem um crítico, finalmente, à um show – que é um projeto de samba – e fica surpreso porque estou cantando com muita emoção os sambas. Se esse crítico, ou qualquer outro tivesse ido nos meus shows, teriam visto que canto com essa emoção há muito tempo.

Alô Música – Você se tornou inédito depois de dez anos!..(risos)

Moska – É… como você falou, um cara conhecido, não há mais nenhuma novidade… mas é incrível, né? Aí um crítico vem e diz: “nossa, está cantando muito bem! Bem vindo ao Samba!” . E acha que só estou cantando bem porque estou cantando samba. Mas o que acontece é que ninguém nunca me viu cantar!

Alô Música – Até voltando para o samba… Não é o primeiro trabalho que você faz no samba, certo?

Moska – Certo. Já fiz um tributo ao Cartola e outro ao Elivelton Martins. Só que os críticos não foram ver. Então minha estréia no samba é aqui.

Alô Música – Você está debutando aqui…

Moska – (risos) Até para o crítico, o mundo só começa quando ele vê. E o público que está ali lendo o jornal, acha que todos os shows são assistidos pelos críticos. E se não falaram de mim até hoje é porque eu não estava pronto ou qualquer coisa. Então é uma realidade muito diferente da que aparece no jornal. Então esse show está lotado porque saiu uma matéria no jornal. Com todo respeito; foi uma matéria linda que o João Pimentel fez no Globo. O meu comentário é: “Ufa!.. finalmente! “. Finalmente um crítico veio para ver uma coisa que estou fazendo já há muito tempo. Não samba, exatamente. Mas eu, sinceramente, não vejo nada de diferente nesse show. Diferente digo de emoção, interpretação. Ele a elogiou bastante. E quem foi aos meus shows sabe que já canto desse jeito há muito tempo.

Alô Música – Me diga então qual é o efeito principal que você percebe após dar um mergulho assim no samba? Pois você leva uma carreira na qual você faz esses eventuais mergulhos; quando você sai de uma dessas, quais são os efeitos que você consegue captar para a tua música, teu trabalho?

Moska – Olha, cara, para isso a gente vai precisar voltar um pouco no tempo. Porque a grande homenagem que eu fiz foi ao Elivelton Martins. Eu ouvi uma canção dele que eu adorava, que ouvi na voz do Caetano Veloso, que era “Cabelos Brancos’. E aí cantei num programa de rádio, depois gravei num programa de rádio da JB FM, uma canção do Cartola com o Elivelton Martins que se chama “Peito Vazio”.

Alô Música – Não me lembro bem…

Moska – (cantarola..) “procuro afogar no álcool a sua lembrança/ nada consigo fazer quando a saudade aperta/ foge-me a inspiração, sinto a alma deserta/ um vazio se faz em meu peito/ e de fato eu sinto em meu peito um vazio..” . Chama-se “Peito Vazio”. Eu gravei isso há uns cinco anos atrás na JB FM, só de violão e voz. Tocou bastante. Então comecei a ver a obra do Cartola. Fiquei apaixonado pela obra dele, comprei discos. Mais pela parte da composição mesmo. Assim, curtindo Lupicínio, Elivelton… ganhei da filha dele uns discos e livro sobre ele. Comprei alguma coisas também. Enfim, eu já venho me envolvendo com os compositores do samba, esses compositores dos anos quarenta, faz tempo. Até que o SESC Pompéia me chamou para um projeto que era um tributo ao Elivelton Martins; com quarteto de cordas, com músicos excelentes – do nível dos que estão aqui -, com Proveta no clarinete, o Carrasqueira na flauta, projeto do Benjamin que é um pianista excelente, arranjos maravilhosos. Uma rapaziada de ponta! Fizemos três dias lá no Sesc, foi muito bom: eu, Naozete, Elton Medeiros…. Enfim, esse show eu nenhum crítico foi assistir também, né, o público que viu e disse no “meus camarins”..(risos)

Alô Música – É uma “crítica de camarim” que você tem, né…

Moska – É uma crítica de camarim. Um povo que vem e diz, “puxa, eu não sabia que você cantava blues bem, ou rock, ou samba, etc.” . É engraçado, acontece assim, “Tributo a Tom Jobim” e vou cantar “Eu sei que vou te Amar”, sai no jornal: tributo foi ótimo, olha, Moska com uma interpretação bem visceral. E assim com tributos afora…. um leão a cada show. Mas eu gosto de música! Gosto de cantar! A Cássia (Eller) por exemplo, cantava bem qualquer música, de qualquer estilo, tal como Caetano, Ed Motta, então que quando você canta e canta bem – o que é cantar bem? Para mim duas coisas são importantes. Primeiro é ser afinado!(risos..) Porque é muito triste, tem hora que você vê aquela pessoa num programa ao vivo, aquelas voz, né,… o cara não consegue fazer nada, só consegue fazer o seu próprio trabalho. E além de ser afinado, é você realmente se entregar para aquilo, sabe.

Alô Música – A alma, não é?

Moska – É. Cantar com a alma. Que como a gente chama mesmo. Seja lá o que isso signifique. Eu acho que canto com a alma, venho descobrindo isso há muito tempo, cada vez mais, é claro. …Mas você perguntou sobre meu evoluir no samba. O que me aconteceu depois do envolvimento com Cartola? Eu compus “Admiração”. O que aconteceu do meu envolvimento com Elivelton Martins? Eu compus “Paixão e Medo”. Não que sejam inspiradas, mas mexem! Mexe com você no sentido de que acaba por comer aquilo muito, e depois vomita aquilo também. Se alimenta daquilo e acaba colocando também para fora uma canção, desse tipo de melodia. Então eu estou aqui também aprendendo as canções do Bide e Marçal. Mas não sou um debutante, não estou estreiando – estreio sim, para o crítico. Ontem um monte de gente aqui dizendo “bem vindo à comunidade do samba”. Muito obrigado. Não é porque um crítico disse que estou estreiando, que agora eu me sinta em estréia. Volto a dizer, agradeço muito que ele tenha vindo e gostado. Agradeço muito à crítica. Achei realmente muito positiva, me sinto honrado de ter tido essa crítica mas, a gente não pode ir nessa onda. O samba não entrou na semana passada, com os ensaios para Bide e Marçal. Sou carioca.

Alô Música – Engraçado, porque essa é a impressão que se tem. Os que liam teu nome no programa em meio a outros já conhecidos com samba, como o Zé (Renato), Carol Saboya, Jards, o mestre Nelson Sargento, a pergunta era: Paulinho Moska? O que será que ele vai aprontar por aqui? Porque você é uma figura na música que navega bastante. Depois de “A Seta e o Alvo”, vindo o “Móbile” – com toda aquela mudança, inclusive estética – espera-se, e se confirma, a cada CD você metamorfoseando-se. Aí pensa-se logo, “agora o Moska vai encarnar o sambista!”… (risos..)

Moska – Pode ser que a gente grave um disco daqui… Uma coisa que eu venho falando há muito tempo, a maneira de voc6e ir na contramão de banalização da música popular. Na qual um artista tem que ser ele mesmo para o resto da vida; ninguém aceita que os artistas mudem! Roberto Carlos tem que ser Roberto Carlos até o fim da vida. Se ele amanhã inventar a tocar uma música diferente do que ele faz, ninguém compra. Aí ele não pode fazer porque não tem mais patrocínio… é tudo muito assim. Você não pode dar um “pum” fora do pinico. E a minha obra se chama diferença! A minha obra se chama diferença. Sou um homem apaixonado por diferenças.(…)

Alô Música – Percebi que você encarna no palco o personagem do sambista, me explica como você vê o personagem do malandro. É o “rapaz folgado” ou o “barão da ralé”, numa alusão aos idos de Noel e Chico. Até nos dias de hoje mesmo, com você vê esse tipo? Ainda tem a mítica da década de 20 e 30?

Moska – Eu não conheci os malandros da década de 20…(risos) Acho que tem uma coisa assim: a forma e o conteúdo. Tem a forma do malandro, acho que é o que eu encarno; uns trejeitos, um chapéu. Tem um pouco de teatro – na maneira mais formal da palavra – pois você está se apresentando num teatro, e você vai entreter as pessoas com alguns personagens, com alguns signos que dão essa conotação. E tem o conteúdo, que a gente aprende só vivendo aqui nessa cidade louca. Que é essa malandragem carioca mesmo. Isso de ser esse cara simpático, usar essa simpatia como bengala…

Alô Música – …Diplomacia.

Moska – É. Uma diplomacia através da alegria. Bar. Um povo sofrido mas tem o carnaval que é o melhor que tem. Favelas. Polícia. A polícia que é bandida. O bandido que é polícia. Um protege o outro mata, papéis que se invertem constantemente. (…) A malandragem, ela se torna um paradoxo porque ela pode Ter um olhar positivo e também negativo. “Caraca, nessa vida louca, a gente tem é que ser malandro, né?!”. E o carioca nesse sentido vai jogando dali, jogando daqui, e vai ficando feliz; chega no carnaval e “há há há há!” passa na televisão, olha para o Brasil e diz, “puta que pariu, nos somos felizes!”. Isso é uma malandragem. “puxa, mas lá tem assalto para caramba, bandido a beça, desigualdade social..”. No carnaval a gente olha para o Brasil, para o mundo, e “há há há há!!… nos temos a maior festa do mundo. Malandragem… (…) a opção de ser artista é uma opção de “automarginália”. Você falar ; vou ficar na margem! Mas não pode ficar muito na margem, senão cai do prato. Então tem que ficar ali, numa malandragem tipo juntando tudo, amarrando ali, assopra daqui. Essa é a grande malandragem. Coisa que Chico Buarque teve a vida inteira; um puta artista, nunca deixou de ser uma celebridade… mas e aí, abriu as pernas? O Chico abriu as pernas? Não, né?! Então!