Jards Macalé

 

 

Por: Felipe Eugênio


O outror “maldito” Jards Macalé, dos tempos dos festivais, de ousadias e pirações nos palcos que estarreciam os “caretas”, agora mostra sua face de menino. Não tanto pelo vigor de moleque que demostra esse veterano compositor no palco, mas sim pelo motivo de sua apresentação no CCBB. Durante a série “O Samba Agradece”, ele é o “menino” do velho Morengueira. Citado pelo ilustre malandro como seu sucessor. É esse o Jards que aqui se esbalda ao falar de si no cinema, omitir aqui e acolá de glórias pessoais como músico (pois a história desse homem na MPB é invejável), e de quebra brincar com o conceito sobre o qual nadou seu mestre Moreira da Silva; a malandragem. Eis o “Príncipe do Gatilho”,

Jards Macalé.

Alô Música – Antes de 76, quando você fez com o Moreira o “Projeto Seis e Meia”, você já tinha contato com ele? E como fora esse contato?

Jards Macalé – Antes do “Seis e Meia” eu era fã do Moreira, sempre fui. Eu o conheci pessoalmente no “Seis e Meia”. Para o projeto mesmo . Foi Hermínio Bello de Carvalho e o Albino Pinheiro que bolaram essa coisa das duplas de música brasileira. Aproveitando esse horário de seis e meia que é morto para o teatro…

Alô Música – Com o pessoal saindo do trabalho…

Jards Macalé – Sim, e o pessoal saindo do trabalho.. Então deu para fazer um lance. E formaram as duplas. Perguntaram para mim: “Pô, Macalé, cê topa fazer uma dupla com o Moreira.?”. Claro, respondi. E aí nos conhecemos – inclusive o Moreira pensou que eu fosse outra pessoa. Naquela época ele me conhecia de televisão, de Gothan City, de Festival comendo rosas. E ele pensava que eu fosse outra pessoa quando falaram de mim.

Alô Música – O “maldito”, não é?…

Jards Macalé – É… e eu já estava em outra. Tinha já cabelo cortado; estava fazendo outras coisas (como sempre fiz na realidade). E nos tornamos grandes amigos.

Alô Música – Pegando gancho no que você falou, em tua trajetória, você começa com um trio no fim dos anos sessenta, depois passa pelo jazz, pela Bossa Nova, pelo Opinião, pelo Tropicalismo – chegou a viajar com eles -, como você reflete essa passagem tua por tantos movimentos e estilos musicais variados (fora quando, inúmeras vezes são colocados polemicamente como antagônicos) ?

Jards Macalé – Porque você sendo músico – e eu amo a música -, para mim acho que toda forma de música é um material para ser trabalhado. Posso trabalhar com material de rock, posso trabalhar com material de samba (como Moreira), como posso trabalhar música eletrônica, ou mesmo voz e instrumental. Enfim, música é música, não tem fronteira não.

Alô Música – Interessante… após 67, quando você se aprofunda no estudo mais acadêmico da música, com o maestro Guerra-Peixe inclusive, você não deveria ter se tornado um tanto mais erudito no fazer música?

Jards Macalé – Eu acho que, por exemplo, coisa mais erudita que o folclore não há. E eu trabalhei com o maestro Guerra-Peixe, que além de ser um grande compositor erudito, ele é um grande folclorista nesse sentido… E a música popular, na minha concepção, é uma música erudita. Os grandes músicos de jazz, grandes cantores, todos atentos ao que chamavam de Bossa Nova. E na realidade Bossa Nova é um samba! É samba. Samba dentro de uma síntese, mas é samba. Pelo menos João Gilberto diz isso…

Alô Música – Samba-gago, segundo Tinhorão?..(risos)

Jards Macalé – Samba mesmo, de verdade, segundo João Gilberto…(risos)
E enfim, música para mim é um material que além de me fazer ganhar a vida (ganho a vida duas vezes: a primeira é ganhar através da música, eu ganho muito com isso, minha alma, meu espírito ganham muito. E faturo através dela também.)

Alô Música – Sobre o “Choro Chorado”, foi uma música de encomenda para a Joyce, ou em homenagem a ela?

Jards Macalé – Foi uma música que eu tinha feito, que foi classificada para o Festival Internacional da Canção. E convidei a Joyce para interpretar.

Alô Música – Por que a Joyce?

Jards Macalé – Porque além dela cantar muito bem, na época nós – que não éramos um grupo – andávamos todos muito juntos..

Alô Música – Você, Tuti Moreno…

Jards Macalé – Sim, Tuti Moreno.. mas ele não era nem casado com a Joyce nesse momento. A Joyce é anterior do momento em que conheci Tuti. Ela vem de 1959, 1960 se não me engano, era menina. Éramos garotos…

Alô Música – Imagino, apaixonante, não?..

Jards Macalé – Sim, rapaz.. linda! uma morena linda!… e então, a conheci através de um amigo meu. E aquela coisa toda de música nos aproximou. Então, quando fui classificado a convidei para interpretar a música.

Alô Música – Foi uma troca boa ter saído da Tijuca para Ipanema naquele momento da tua vida, não é? Terminou por ser adolescente no lugar certo, na hora certa! Vide como pôde realizar parcerias tanto com o pessoal da “antiga” como com os talentos que estavam despontando na cultura brasileira! Vinícius de Moraes, Waly Salomão, Capinam, Torquato Neto, Gláuber Rocha, Abel Silva…

Jards Macalé – Duda!..

Alô Música – Ou seja, você acabou vivendo tudo dentro de relevante no cenário musical do Brasil desde a década de 50. Chegaste a consumir a explosão da Bossa, nos Anos de Chumbo você foi bem ativo, foi com o Caetano para o exterior, festivais, instrumentista nos anos 60, samba no Opinião e com Moreira… Como é a ponte que você faz dos anos tão efervescentes na cultura brasileira para tempos mornos de arte como hoje em dia? Como isso pesa em teu pensamento?

Jards Macalé – Isso tudo só me enriqueceu. E agora eu posso transitar em todas as formas de música com muito mais tranquilidade. Antes a gente tinha aquela coisa de fazer, ficar preocupado com isso, corrige daqui, censuram por lá, a gente queria entender acolá, e tal.. e agora está entendido.

Alô Música – Interessante que nessa história você até citou que, no exterior , na Inglaterra, vocês conseguiam essa liberdade que o momento político do Brasil não permitia. Não tinham a máquina opressora do Estado contra vocês. Podiam enfim se deleitar de música, tão somente!

Jards Macalé – Foi o que a gente fez! O resultado foi o disco, o “Transa”. E o negócio foi carnaval mesmo..

Alô Música – Fizeram carnaval na Inglaterra? Chegaram a fazer show?..

Jards Macalé – Um disquinho de carnaval. Chegamos a fazer show em cima de um caminhão na rua!!! Lá não sei aonde, em Londres… Mas fizemos também Suíça, Holanda, França; fizemos uns concertos lá fora nessa época… Dava um agito porque as pessoas ainda nos desconheciam um pouco e houve um interesse pessoal. Ao mesmo tempo tinha aquela coisa de “brasileiros exóticos”, “são engraçados”…

Alô Música – Tua relação com o cinema, com o Gláuber, Nelson Pereira – no caso você protagonizou um filme dele, “Tenda dos Milagres” …. Falando uma vez sobre cinema, reparei que você punha muita poesia no seu argumento da mescla cinema e música. Poderia comentar essa mágica que você tanto ressalta ?

Jards Macalé – Sim, é repleta de magia essa mescla (música e cinema). O primeiro filme que eu participei, foi um convite para musicar dois poemas do Mário de Andrade para o filme “Macunaíma”. E eu os musiquei. Saíram duas peças de folclore, inclusive – engraçado que já comentamos sobre isso com Guerra-Peixe, né? – com Mário de Andrade ficou tudo certo! Depois , Ana Carolina me convidou para fazer trilha sonora para documentrário, longa-metragem, sobre Getúlio Vargas. Nesse fiz toda a trilha. Isso lá por 69… Após isso, em 72, o Nelson Pereira dos Santos me convidou para fazer trilha sonora do ” Amuleto de Ogum”. Eu aceitei e, de repente, ele me colocou como ator.

Alô Música – Já tinha visto um show teu? Te pôs como ator após um show como esse que você faz aqui?

Jards Macalé – Não. Antes de tudo mesmo, sem muito motivo. Ele entrou “numa”!… E mais tarde, em 77, ele me convida para fazer o “Tenda dos Milagres”, também como ator e a trilha sonora. Mas antes disso o Gláuber me chamou para fazer uma transcrição, transposição da música de Marlos Nobre, e a fiz do piano para viola. E também uma música do Gláuber – que ninguém se lembra mais – chamada “Será que o Sol quebra a Vidraça?”. Fiz harmonia, ajeitei a música, mas ela ficou perdida; entraria no “Dragão da Maldade”, mas não entrou no filme não sei porque. Mais tarde a mãe do Gláuber me deu um poema, do próprio, chamado “Rio de Janeiro”, que eu musiquei e gravei. E também “Imagem do Consciente”…

Alô Música – Você foi para a cama com a música e o cinema, não é? Terminou até pouco tempo com a linda participação da tua música em “Terra Estrangeira”, a “Vapor Barato”… Falando de malandragem… Como você definiria o malandro, fora até mesmo da figura do Moreira?

Jards Macalé – Bom, aí não posso fugir…. Porque segundo o Moreira, como me explicou, “malandro que é malandro, não é malandro.”. Porque ele mesmo, desde os oito anos de idade, trabalhou até os 98 anos. Foram 90 anos de trabalho! Eu trabalho desde os quinze. E até hoje sem parar.

Alô Música – No caso você está deixando o malandro com a parte pejorativa do vagabundo?

Jards Macalé – O malandro é para os outros assim : “malandro que é malandro, é malandro! Não faz nada!.. olha lá ele com o violão debaixo o braço! Só pode ser malandro!..” . Mal sabem que isso dá um trabalho desgraçado! E muito mais do que trabalhar num escritório, com horário fixo. Pois trabalhamos 24, 48 horas…

Alô Música – Nesse sentido não seria, como numa música do Chico Buarque inclusive, o malandro um Barão da Ralé? Ou seja, ele não é o malandro porque é um vagabundo, e sim porque sobrevive e…

Jards Macalé – Malandramente metendo a mão nas tetas todas!…(risos)

Alô Música – Não, nem digo nesse sentido, mas sim na sobrevivência, como por exemplo, o carioca…

Jards Macalé – O carioca é basicamente um “malandrinho”!..

Alô Música – “malandrinho”..?… (risos)

Jards Macalé – Com carinho! Porque o malandro, o daquela época, não tanto desse como diz o Chico, pois hoje malandrear é roubar o dinheiro público. Agora, o malandro que é malandro, é uma forma de viver. Uma ginga. Um status de viver maravilhoso! Malandro é aquele que aprecia a vida mesmo!

Alô Música – E trabalha também!..

Jards Macalé – Malandro trabalha muito. Para viver da malandragem tem que trabalhar para caralho!

Alô Música – Há de trabalhar também o gogó, né? (risos)

Jards Macalé – Claro!!!(risos)

Alô Música – Qual foi a principal influência que te causou a convivência com Moreira? O Jards após o Moreira…

Jards Macalé – Aprendi a ser um carioca de verdade. Profundamente carioca. E aprendi a viver nessa cidade do Rio de Janeiro e do Brasil, como se estivesse na minha própria casa. Era só andar na rua com o Moreira para se ver as pessoas cumprimentando -o tranqüilamente, docemente, com admiração e respeito.

Alô Música – Gritando: “cuidado Moreira!…”

Jards Macalé – (risos) às vezes gritavam… mas aí ele brincava junto.
Você passava pelas ruas do Brasil todo e era gostoso…
Agora estou em Itatiaia, e tem-se o belo hábito do interior – ainda – de se falar “boa tarde”, “noite”, “bom dia”…
É a maior aula de gentileza do mundo, ainda mais nesses tempos em que fala-se “oi” e já te lançam uma bomba na cabeça!

Alô Música – Então o “bon vivan”, o malandro é esse, que trabalha até os noventa e oito e morar no interior.

Jards Macalé – No mínimo isso! E morrer tranqüilo, sem dever nada a ninguém.

Alô Música – E ser homenageado na MPB.

Jards Macalé – Que seguirá infinitamente!