Hermeto Pascoal

Por: Felipe Eugênio

O Fórum Social Mundial tem em suas noites atrações musicais de grande porte. Durante o dia isso difere somente pela grandiosidade dos espetáculos. Pois foi na sexta-feira, dia primeiro, a cidade teve a presença ilustre do “Bruxo” da música, Hermeto Pascoal. O grande instrumentista brasileiro, que supera inclusive a limitação que há nos instrumentos; ele inventa novos instrumentos, ou tira música de objetos inanimados, de animais, de vozes. Para a música Hermeto pascoal não encontrou ainda limites. Ousa-se dizer é ele a própria música – pois um homem que não pára de criar, de sorver sons de tudo, transformando em obras de rara criatividade e apuro artístico, não pode ser tão mortal quanto os outros. Ele vive e sobrevive de sua essência, as melodias que correm por suas veias, a arte na qual há o universo dele.
Nosso albino músico, Hermeto Pascoal, que compõe para orquestras sinfônicas da Europa, não é capaz de largar seu Brasil e de traduzi-lo para seus instrumentos e criaturas musicais. Nessa noite, Hermeto Pascoal encantou aos cidadãos do mundo que estão por Porto Alegre. Junto a Renato Borghet, premiadíssimo instrumentista gaúcho – ou melhor, internacional – Hermeto mais uma vez criou sobre o palco as vibrações que captava no ar. Como resultado, um susto dos grandes para os que pela primeira vez estiveram diante de um palco, quase caldeirão, na qual bruxarias musicais nos envolviam.
Hermeto Pascoal, a simplicidade do homem, o quase endeusamento do artista. Um caro brasileiro.

Alô Música – Hermeto, qual é o seu ponto de vista em relação ao Fórum Social Mundial 2002?

Hermeto Pascoal – Bem, minha vista mesmo vê bem diferente de todo mundo… (risos)
Mas gosto de como o espaço que se tem para lutar pelas causas que nos são válidas, todos esses grupos diferentes no mesmo espaço, comungando juntos por uma realidade melhor. Isso é lindo. Nos aqui colocamos nossa mensagem, pela música. Quem tiver em outras áreas também, tem que aproveitar, né? Eu acho que é muito válido. Que é muito importante. Maravilhoso!

Alô Música
– Me fale sobre a música em relação aos processos de mudanças sócio-políticos como no Fórum. A função dela nesses eventos de cunho social.

Hermeto Pascoal – A música é importante em todos os contextos. Eu acho que num evento como esse, a música é primordial. Porque ela abrange a todas as áreas. Onde não tem música pára tudo. Então é muito importante novos grupos, várias tendências aí tocando – agora uma; eu e Borghetinho aqui vamos fazer um som… então não é brincadeira, não. Fazia um tempinho que eu e Renato Borghet não tocávamos juntos. Gravou duas minhas também, no disco dele. Esse encontro aqui, batendo papo, tocando, é muito, muito importante.

Alô Música – Intercâmbio é fantástico, né? É bom quando tem um evento desses que proporciona isso.

(Borghet participa)
Renato Borghet – Eu acho que é uma das filosofias do Fórum é exatamente isso, né? Integrar! Penso que isso é fundamental. E eu comentava uma coisa: que não é só apenas para falar. Claro que é importante a pessoa falar, reivindicar. Mas escutar também é importante, importantíssimo.

Alô Música
– Claro! A nossa cultura há de ser mais difundida. Essa deve ser uma das preocupações nesse momento nosso. Inclusive, Hermeto, segundo você o Brasil é a grande pulsão da música, correto? Entretanto no exterior você é muito mais homenageado, ovacionado mesmo. Qual é o tino dessa incoerência?

Hermeto Pascoal
– É por causa da mídia. Eu não vou lá fora e sou mais difundido, mais divulgado no meu trabalho do que aqui. E eu não vou lá. Você está entendendo? Quer dizer, quando chego lá me assusto. Os teatros com 15 dias antes já está tudo vendido…

Alô Música
– …é muito bom saber que é um brasileiro o causador disso.

Hermeto Pascoal
– É um prazer muito grande. Mas onde toco no Brasil, graças a Deus, eu não tenho o que reclamar porque meu trabalho é muito grande, de uma era. Eu já tenho um público grande em todo lugar do Brasil. Aqui mesmo em Porto Alegre eu tenho um público de muitos anos, de quantidade e qualidade. O público daqui é um dos maiores do mundo, Porto Alegre.

Alô Música
– Está profetizando o que vais encontrar lá fora logo mais!.. (risos)
(o lugar já estava abarrotado!)

Alô Música
– Hermeto, na década de 60 você tocou em quartetos e trios, e era um momento de ferveção política. Como você vê a sua música nessa momento atual, no qual há todo um processo de mudança nas políticas sociais, em relação ao seu trabalho em paralelo com teu trabalho no tempo passado que citei.

Hermeto Pascoal
– A política é o seguinte, eu tenho o maior respeito pelos políticos. Mas a minha política é a política da música! E eles me respeitam também. Estou aqui a fazer música. Cada um tem que defender a sua área. Eu na área política sou mais da política da música. E respeito todas as áreas.
Alô Música – Existe alguém que te surpreenda hoje no cenário da MPB?

Hermeto Pascoal
– Tem o Borghetinho que está aqui, que é muito surpreendente. Tem o Guinga, que é outro grande violonista, um grande músico. Tem o Itiberê que toca comigo, tem a orquestra dele, maravilhosa. Coisas seríssimas esse pessoal!… tem lá do Nordeste, de onde estava agora, tem um sanfoneiro lá de dezesseis anos que tu precisa ver o cara como toca! João Marculino, o nome dele. Dezesseis anos. O cara quebra tudo de música. É novo só na aparência; na alma dele é energia pura.

Alô Música
– Me explique sobre o “Som da Aura”.

Hermeto Pascoal
– O Som da Aura é o seguinte: na minha concepção eu penso que todo mundo canta. Aquilo que a gente chama de fala, nós estamos a cantar. Assim como os passarinhos. Eu tenho a percepção desde criança – minha mãe ficava conversando com as amigas dela, e eu ficava perto, dizia, “mãe, ela tá cantando!…” mãe dizia, “ não, estamos conversando meu filho, que é isso?!”. Aí quando você escuta meu disco… um que gravei, o “Festa dos Deuses”. Tem o Mário Lago, uma filha dele dando aula na piscina, tem discurso do Fernando Collor de Mello lá, quer dizer ali é o som da aura. Estão todos cantando, tá tudo lá, afinado. Eu toquei o que eu escutei. Tanto que é a música deles – a música tem o nome deles.

Alô Música
– É interessante que se pegarmos mesmo a mesma frase, colocá-la em vozes de lugares distintos do país – ultrapassando a especificidade de cada voz, teremos músicas diferentes. Visto a musicalidade de cada sotaque: o gaúcho, o baiano…

Hermeto Pascoal
– Pega… Exatamente. Aqui é inclusive mais fácil, porque o pessoal gaúcho é mais cantante. Bonito celebrar a pessoa, gente, não?…

Alô Música
– Como a homenagem que Guinga e Aldir Blanc fizeram para ti, “Chá de Panela”…

Hermeto Pascoal
– Linda a música! Eu conversei muito com o Guinga sobre essas palavras – eu uso muito essas palavras. Aí o Guinga foi, chamou o Aldir Blanc que fez uma letra baseada nas coisas que eu converso. Linda, linda, linda! A música é maravilhosa! Eles arrasam – acho dois parceiros muito bons, Guinga e Aldir. Unem perfeitamente letra e música. É um casamento maravilhoso!
Alô Música – Você com parceiros, ultimamente tem feito algumas composições?

Hermeto Pascoal
– Não, … até que não. Às vezes eles fazem mais eu nem sei. Depois me mostram quando está pronta a letra. Quando é preciso sentar para fazer uma música com letra, gosto de fazer eu mesmo a letra.

Alô Música
– E essa tua experiência de fazer cinema, no documentário sobre visão*, aquela tua participação que é engraçadíssima…

Hermeto Pascoal
– É isso aí foi uma idéia desse pessoal, Walter Carvalho, Jardim.. foi uma coisa bem solta, e está sendo elogiado por aí!.. para você perguntar é porque viu – privilégio, né menino!.. – (risos) e gostou. E não deu trabalho, a gente fez aquilo assim, gostosamente.

Alô Música
– …A criatividade é algo espontâneo, não é?

Hermeto Pascoal
– Sim, isso é coisa que dá para perceber. Nunca reproduzir, sempre criar! Realmente é muito bom, maravilhoso!
Valeu irmão!…
 *(trata-se do documentário “Janelas da alma”, no qual Hermeto é um dos que participa, um tratado acerca da visão – através dos que tem pouca ou nenhuma visão)

 

Felipe Eugênio dos Santos Silva.
Porto Alegre- Fórum Social Mundial

2002