Daysi Cordeiro

Por: Solange Castro

 

Voz tecnicamente perfeita e cheia de emoção… Repertório garimpado entre a nata de nossos compositores… Interpretação impecável!
Assim é Daisy Cordeiro, que já está preparando seu segundo álbum e graciosamente nos concedeu entrevista exclusiva…

Solange Castro.

Solange Castro – Daisy, como a música ‘entrou’ na tua vida?

Daisy Cordeiro – Querida Solange, primeiro gostaria de agradecer seu carinho e parabenizá-la pelo trabalho bacanésimo que você faz. Bom, minha mãe (Daisy Guastini) foi cantora por 35 anos. Ela começou em Belo Horizonte, onde eu nasci, como apresentadora da TV Itacolomi e locutora da Rádio Inconfidência, lá ganhou muitos prêmios como cantora juntamente com meu pai, o guitarrista Nazário Cordeiro. Desde muito cedo eu a acompanhava e cantava às vezes com ela. Um dia, resolvi cantar, e na época ela era crooner da Banda de baile do Ed Costa. O baixista dele, o falecido João Barão, resolveu montar a Banda Reveillon que existe até hoje e aí comecei a cantar nos intervalos dos shows da banda. Levei isso por 2 anos, mas você sabe, para cantar em banda de baile tem de ser meio “cover” e não tenho personalidade pra isso, aí resolvi sair e cantar em bares. Dei uma sorte incrível, pois na época estava inaugurando o Bar Blend no “Itaim Bibi” e alguns músicos me indicaram. Lá pude conhecer e aprender muito com músicos maravilhosos como Silvia Góes, Arismar do Espírito Santo, Chú Viana, Menezes, o falecido Azeitona, Zé Ró Santos, Benjamin Taubkin, Sabá, Mutinho, Toninho Pinheiro e tanta gente boa.. Fiquei neste bar por 7 anos, lá conheci o Rudy Arnaut (guitarrista) que me acompanha até hoje e ele me incentivou a fazer um trabalho meu. Nessa época também, cantei num bar muito conhecido até internacionalmente, o Boca da Noite. Lá conheci o Filó Machado, que foi meu guru musical. Na época, em 1992, tive a encomenda de montar um espetáculo em razão dos dez anos sem ELIS “Regina” para rodar o circuito do Projeto Escola Aberta da extinta FDE (Fundação de Desenvolvimento de Ensino). Levei 3 meses de muita pesquisa e montei “A voz de um tempo – Elis Regina”, um espetáculo que é apresentado até hoje, quando há oportunidade. Logo depois, montei um projeto chamado “Cantando Poesias” que saiu numa inspiração baseada na composição de Caetano Veloso “Outro Retrato”, onde ele diz: “Minha música, vem da música da poesia….minha poesia, vem da poesia da música”. Fiz um show no extinto Inverno e Verão (espaço importante de música na época) e gravei-o ao vivo. Foi uma maratona, pois foi bem às vésperas de minha primeira viagem internacional “Japão”. E foi por aí, Japão, Itália, Argentina…logo depois, o Keco Brandão me perguntou se eu defenderia uma música dele no importante Festival de Avaré (FAMPOP) e eu disse sim…Aí ele compôs especialmente pra mim a música “Cedo ou Tarde” com letra da Rita Alterio. Ficamos em terceiro lugar e eu ganhei naquele ano o meu primeiro prêmio de melhor intérprete. Os doze premiados como de costume gravaram o Cd ao vivo e numa entrevista do Juca Novaes para a apresentadora Miriam Ramos(maravilhosa, minha amiga, que há tempos não vejo) na extinta Musical FM, a música foi tocada e colocada na programação. A partir daí começou a maratona de conseguir grana para gravar. Um dia, no Villagio Café, estava fazendo uma participação no show do Moacyr Luz e estava lá o Paulo Amorim. Nesse dia ele disse: “não dá mais pra ver você sem Cd, vamos fazer”. Era véspera do meu aniversário. Foi o maior presente que já ganhei em toda minha vida. Aí saiu o “Paladar”, com o apoio irrestrito da Dabliú Discos e da então iniciante Lua Discos, com 16 compositores novos, 48 músicos, 7 arranjadores. Um disco de amor e amigos. Eu sou uma garota de sorte….

Solange Castro – E como esse disco foi trabalhado?

Daisy Cordeiro – O lançamento foi uma loucura. Como era um Cd “grande” quis fazer um lançamento à altura e optei pelo Tom Brasil. Quando percebi, tinha umas 100 pessoas, todas trabalhando para a realização do evento… Meu irmão e diretor de arte Octávio Guastini como sempre, foi o maior incentivador. O Tito Teijido que é o meu diretor de cena e faz os roteiros dos meus shows, me ajudou muito na gravação de um video-clip, a faixa “Mandingueiro” Moacyr Luz e Aldir Blanc. Um clip de 16mm dirigido pela Ligia Barbosa. Um dia antes estávamos eu e meu irmão com um rolo pintando o cenário para a gravação. Como o Tom Brasil tem 1.200 lugares, resolvemos imprimir os convites antecipadamente porque precisávamos garantir a venda que era o dinheiro para o pagamento da locação. Dividimos em cotas e eu e meu amigos saímos vendendo. Toda noite eu ia de bar em bar dando canjas e vendendo. Bom o esforço valeu, pois a casa “lotou” e o máximo é que era dia do Jogo do Brasil. Algo inacreditável.
Consegui as participações do Rafael Altério, Thomaz Roth, Moacyr Luz, Elio Camalle, Fernando Forni, o grupo vocal “A Três”, minha mãe Daisy Guastini, numa participação mais que especial… tinha até bailarino. O cenário foi feito pelo José Munhoz. Algo de se orgulhar. Esse feito motivou muitos artistas amigos a tentarem sonhos mais ousados. Fico feliz por ter motivado tanta gente. O Juca Novaes disse que quando escrever um livro vai dedicar um capítulo especial rsrsrrs…

Solange Castro – Sem dúvidas – parabéns… Isso é “produção”…
E como seguiu a turnê?

Daisy Cordeiro – Aí vem… Vender show de artista famoso já não é muito fácil. De alguém que está começando, muito menos, mas fiz muuuuiiita coisa. Sescs, Supremo, eventos ligados à Rádios de MPB pelo interior, muita coisa mesmo. Fiquei muito feliz com os frutos do “Paladar”. Várias músicas tocadas em FMs. Não posso me queixar. Até hoje sigo com shows. Semana passada a Rozana Lima do Villaggio Café disse que eu estou na pauta de um projeto que está acontecendo em São Sebastião. Achei incrível, mas ela disse que tenho muitos fãs lá. Fruto do CD “Paladar”.

Solange Castro – O Disco realmente é lindo, Daisy – compreensível o sucesso…

Daisy Cordeiro – É um Cd atemporal, muito clássico. com muita qualidade tanto instrumentalmente, como poeticamente falando

Solange Castro – Sim, assim é a MPB… Genuína MPB…
Quais as Rádios que tocam músicas do Disco?

Daisy Cordeiro – Eu às vezes ouço na USP, na Eldorado…
Não ouço todas as rádios que deveria. Mas eu sei que toca ainda na Litoral FM, Rádio Educativa de Presidente Prudente…

Solange Castro – Como você encara o “desafeto jabá” em nossa sociedade?

Daisy Cordeiro – O Jabá é sabido, comentado, mas infelizmente tem feito parte do processo da indústria fonográfica. Bom, como lidar com isso? Achando novos caminhos. Por isso tantos selos estão invadindo o mercado com propostas maravilhosas. Tantas rádios de internet. O caminho é sair um pouco dessa panela…
Não adianta ficar emburrado num canto dizendo que não toca porque não tem como pagar jabá. O negócio é ir à luta e fazer todos os dias.

Solange Castro – Sim… Creio que o melhor caminho, já que é irremediável o problema, é “declarar publicamente” o preço de cada obra apresentada… Seria mais justo saber “quanto custa” na tabela para uma música ser executada, tanto para os artistas e produtores quanto para os usuários – esses, principalmente, têm o direito de saber “quanto estão pagando” para ouvir essa ou aquela obra…

Daisy Cordeiro – So, essa coisa de quanto custa cada obra é relativo. Depende da proposta de cada CD. O meu primeiro saiu bem caro.
Você entra em outra história que é direito autoral. No Brasil é sabido que esse órgão também não funciona muito. Já foi alvo de vários escândalos.
Agora entendi o que você quis dizer. Tem que depender de tabela – uso de tempo comercial em rádios e tvs é limitado… Por Lei.

Solange Castro – São problemas diferentes, mas com a mesma seriedade…
Seria justo, então, os artistas que querem divulgar suas obras “pagarem” aos autores, já que estão pagando às divulgadoras…
Isso é um problema que nosso Ministro conhece bem – se não toma providências é porque não quer…
Mas que é CRIME, sem dúvidas…

Daisy Cordeiro – Com certeza… Mas numa divulgação, Rádios e TVs pagam direitos autorais e conexos. Eu recebo…

Solange Castro – Olha, se direitos autorais fossem pagos com justiça por execução o Brasil, conheço vários compositores que estariam “ricos” e ainda moram de alugue…

Daisy Cordeiro – Eu também conheço um montão…
O problema, é que o músico também não se une muito… Já foram feitas “n” tentativas de organização sem sucesso. Hoje em dia, eu vejo que o “artista” vem se profissionalizando…participo de uma “Rede de Agentes Culturais”, ano passado pude participar do “Mercado Cultural” em Salvador, o que é um claro sinal de que as coisas estão mudando. Quem se organiza, se dá bem…
Solange Castro – Os músicos não se unirem não justifica os “olhos fechados” dos Ministros da Cultura, Comunicações e Justiça…
Tomara que estejas certa – vamos apostar nos novos tempos… E que venha justiça para nossa arte maior…

Daisy Cordeiro – Não justifica, mas se eles não sentirem alguma pressão, não vão dar a importância que se deve…

Solange Castro – Tens razão…
Vamos falar do seu próximo disco – como está o planejamento?

Daisy Cordeiro – O planejamento já dura um ano e meio. Queria fazer um CD que tivesse a cara do meu dia a dia, falando de coisas que acredito, com arranjos que fossem concebidos sob a minha supervisão. Algo que eu dissesse “isso é meu”. Depois que comecei a mexer mais com as minhas composições, senti essa necessidade. O meu primeiro CD tem muita “balada” linda, com muitas letras falando de amores que não deram certo…
Não sei, eu queria falar um pouco de como se transforma tudo quando se quer, gostaria de ter mais elementos rítmicos. O Cd tem muito afoxé, maracatu, samba, baião, misturado à harmonias jazzísticas e um eletrônico bem brasileiro. Algo com um pouco da minha alegria…
Cheguei a um resultado que gosto muito. Elegi três compositores que além de serem muito amigos meus, me identifico muito com a obra deles. São: Daniel Gonzaga, Rafael Altério e Élio Camalle

Solange Castro – Bravo! São ótimos…

Daisy Cordeiro – Todos eles têm parcerias em comum, também. Estou colocando duas ou três canções minhas. Todos os arranjos são coletivos com a minha banda. Michel Freiderson (piano), Rudy Arnaut (violão e guitarra acústica), Marcos Paiva (contrabaixo) e Ramon Montanhaur (bateria e percussão). O elemento eletrônico estará muito presente. Serão desenvolvidos por Fernando Forni e Michel Freiderson.
Já tenho 4 faixas gravadas – a partir desse ponto começo a maratona de procurar um patrocinador.

Solange Castro – BOA SORTE!

Daisy Cordeiro – O nome do Cd é “Absoluto”, a faixa título é de composição de Rafael Altério e Kaká e tem uma frase que diz: “Acatar, marcar a presença, ter a crença… Ser você mesmo”. É por aí…

Solange Castro – E quando achas que o fonograma estará pronto?

Daisy Cordeiro – Essas quatro faixas ficarão prontas té o final do mês. Ainda estou aguardando exatamente o “Absoluto” que está sendo feito pelos “Barbatuques”

Solange Castro – Quantas faixas terão o Disco?

Daisy Cordeiro – Doze faixas.

Solange Castro – Quem faz a produção executiva?

Daisy Cordeiro – Adivinha?

Solange Castro – Ok… Rs..

Daisy Cordeiro – Na realidade, a produção ficará dentro da minha produtora a Arte Focco Produções e Eventos que existe funcionalmente há dois meses.

Solange Castro – Qual tua escola na música?

Daisy Cordeiro – Minha escola de música inicial foi a “barriga da mamãe”…
Minha mãe foi cantora e professora de música por 35 anos. Ela teve uma escola na Zona Norte. Formou alguns músicos lá. Eu já nasci um pouco cantando. Fiz um pouco de técnica com a Marcia (aquela do Eu e a Brisa), mas sempre gostei mesmo de cursos que lidavam com expressão corporal e interpretação. Esse é o meu forte. Fiz Expressão do Movimento com Denise Namura, cursei o Teatro Escola Macunaíma, fiz o curso da Miriam Muniz e mais recentemente, um curso de verão de interpretação cênica na FAAP.

Solange Castro – Como você se sente no palco, Daisy?

Daisy Cordeiro – Gosto de deixar com que meu corpo seja um instrumento do compositor. Como já disse a letra pra mim é fundamental. No palco me sinto em casa. Lá eu posso tudo que quero
É engraçado, mas muitas vezes saio do palco sem ter a sensação que estive nele. É como se outra pessoa estivesse lá, não eu

Solange Castro – Atriz, esse é o nome…

Daisy Cordeiro – Talvez, mas não sou uma atriz… Sou uma cantora com a responsabilidade da palavra cantada.

Solange Castro – Como é teu contato com o público…

Daisy Cordeiro – Perfeito. Temos muita sintonia. O último show que fiz, abri com uma música à capella, inédita do Daniel Gonzaga. Ali o público pode comungar comigo desde o início…

Solange Castro – Isso é fundamental – não basta ser “artista”, é obrigação nossa levar a “Arte” a nosso povo…

Daisy Cordeiro – Levo muito a sério o que faço…

Solange Castro – Percebo isso… Quando achas que sai o próximo Disco?

Daisy Cordeiro – Se Deus quiser ainda este ano. Quero voltar a fazer uma série de shows

Solange Castro – Qual turnê vislumbras?

Daisy Cordeiro – No cronograma de lançamento, coloquei São Paulo e Rio. Nunca fiz nada no Rio de Janeiro… Depois vem a venda voluntária. Vai depender de como o CD será aceito… O problema de se sair de São Paulo é o custo de passagens, músicos, hotel…

Solange Castro – Sai pela Dabliú?

Daisy Cordeiro – Se sair por um selo, eu gostaria que fosse a Dabliú. Tenho uma admiração profunda pelo trabalho do Costa Netto.

Solange Castro – Sim, é um Selo muito bom…
E em São Paulo, qual a expectativa?

Daisy Cordeiro – Em São Paulo tenho muitos canais legais. Muita gente tem me ligado para shows, mas gostaria de guardar um pouco essas oportunidades para o lançamento.
No ano passado fiz um hiato na minha carreira para produzir os Trovadores Urbanos. Conheci muita gente legal…

Solange Castro – E tua Produtora, Daisy – fale-nos sobre ela…

Daisy Cordeiro – A Arte Focco foi criada porque eu sempre mexi com produção. Não consigo ficar parada e a carreira de artista traz muita ansiedade. Você tem que se ocupar de alguma maneira. Meu sócio, Edsel Aguiar, também foi produtor de muita coisa boa, como por exemplo os shows que aconteciam no extinto “Vou Vivendo”. Resolvemos juntar forças.
Na realidade, ela não agencia artistas. O objetivo dela é a prestação de serviços para empresas. Lançamentos de produtos… coisas desse tipo. Eu, pessoalmente trato dos projetos especiais. Formatação e enquadramento nas Leis de Incentivo.
Agora, lógico, temos um catálogo de profissionais da música. As vezes pinta um evento e se temos o trabalho desses artistas arquivado, colocamos em algum projeto.
Como só temos 2 meses, comecei pelos meus. Tenho um projeto maravilhoso, chamado “Cantando Poesias” que deve virar um produto de brinde para uma empresa este ano. Estou formatando também o “A voz de um Tempo”, pois em 2005, a Elis estaria completando 60 anos de idade e o “Arrastão”, 40 anos. Tem o projeto do meu CD. Estamos formatando também um Circuito Cultural fora do circuito. Eu, pessoalmente, tenho o sonho de abrir novos espaços de cultura. Devo estar pegando agora para formatar o novo CD do Rafael Altério. Alguns projetos também com o Keco Brandão.

Solange Castro – Time de primeira…
Daisy, parabéns pelo teu trabalho..

Daisy Cordeiro – Obrigada So, valeu demais!!! Adorei o papo…

Solange Castro – Quer deixar algum recado para nossos usuários?

Daisy Cordeiro – Bom, o recado é que tem muita gente boa fazendo música por aí, e felizmente, não sei no Rio, mas em São Paulo existem muitos espaços gratuitos. Gostaria que os amantes de música prestigiassem esses artistas. As vezes a gente lê roteiros e não vai aos shows porque, nunca ouvimos falar de “tal” artista. Mesmo que não conheça, vá….vocês poderão ter agradáveis surpresas.

Solange Castro – Sim… Se esses espaços quiserem divulgar esses eventos no Alô será uma honra…

Daisy Cordeiro – É muito importante… Cada trabalho novo tem muita inspiração e transpiração também e a maior gratificação, acima da fama, é poder apresentá-lo ao maior número de pessoas possível.

Solange Castro – Bem vindos!

Daisy Cordeiro – Ok, minha linda!

Solange Castro – Daisy, muito obrigada pelo delicioso bate-papo… Na época do lançamento do próximo CD, espero poder entrevista-la novamente… Boa sorte e parabéns pelo teu trabalho!