Carlos Careqa

 

Por: Eliane Verbena

O curitibano Carlos Careqa é um artista de múltiplos talentos e de personalidade inconfundível. Compositor criativo e inventivo tem músicas gravadas por vários artistas. Como ator, estampa as telas da TV e do cinema, onde atuou em Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, e As Avassaladoras, de Mara Mourão, entre outros. Lançou o terceiro CD, Não Sou Filho de Ninguém, em 2004, com participação de Chico César, Zeca Baleiro, Vânia Abreu, Jards Macalé, André Abujamra e Edson Cordeiro. Com um raro senso de humor ele quebra protocolos, enriquece sua própria arte e conquista platéias, mas também nos emociona com suas canções. Vamos conhecê-lo um pouco mais.

Eliane Verbena

 

Eliane: Carlos Careqa, o Alô Musica gostaria de saber o que música representa na sua vida, diante do fato de você ser também ator…

Carlos Careqa: Eu comecei com a musica cantando em programas de calouros. O Careqa ator veio logo depois. Não sou daqueles que dizem que não vivem sem musica, aliás, gosto muito do silencio também, mas gosto do que musica provoca em mim e nas outras pessoas. Nesse ano comecei a estudar musica novamente, pois estava me sentindo vazio e precisando aprender de vez algumas coisas que só sei na intuição. Então estou tendo aulas de harmonia e percepção com o Ricardo Breim no Espaço Musical, na Vila Madalena.

Eliane: Duas coisas: Como foi participar de programa de calouros? Rendeu alguma coisa? E a sensação de estudar, depois de 20 anos de carreira, é boa?

Carlos Careqa: Em um programa, ganhei um prêmio, uma coleção de mini dicionários, com a musica “Amada Amante”, do RC. E a sensação de estudar agora é ótima. Como falei, estou me sentindo esgotado, pois a intuição é limitada. Em um dado momento você precisa encher novamente o imaginário e agora estou fazendo isso de forma técnica. Posso misturar percepção e intuição numa coisa só, além de conviver com pessoas diferentes de minha classe, pessoas mais jovens e com conhecimentos diferenciados também.

Eliane: Bom, o dicionário deve ter ajudado na hora de escrever…. E você falou sobre gostar do que a música provoca em você e no ouvinte. Eu ia perguntar mesmo sobre isso. O quê você quer provocar no ouvinte?

Carlos Careqa: O mesmo que provoca em mim quando eu escrevo. Se eu estou com uma duvida, uma angustia, uma alegria ou qualquer outra sensação, quero que o ouvinte também sinta isso. É uma troca. Às vezes me ‘anteno’ de um assunto e quero dividi-lo com as pessoas, então uso a musica para isso. Também há outras formas de pensamentos como a própria beleza da musica ou a estranheza da musica… São vários os fatores. Mas como a gente está falando de canção, acho que a primeira parte é a melhor justificativa.

Eliane: Suas composições têm um poder muito forte (na minha opinião) de comunicação, seja ou não através do humor e das letras…. Você sente isto?

Carlos Careqa: Sinto e até procuro isto. Gosto de provocar risos ou a sensação de riso. Aquele riso por dentro é o melhor! Mas isso é natural em mim, não fico buscando isso o tempo todo. Aprendi muito com um parceiro, o Adriano Sátiro, e também com os poetas de Curitiba.

Eliane: Me fala um pouquinho do que aprendeu com o Sátiro…

Carlos Careqa: O Sátiro me ensinou a fazer letra de musica. Ficávamos a madrugada toda compondo canções, muitas delas ainda inéditas, que eu pretendo gravar em breve. Ele é um mestre… A letra de “Eclipse em meia lua” (CD Música Para o Final de Século) é dele, assim como a letra de “Não sou filho de ninguém” (nome também do novo CD). Eu só passei o tema para ele, que desenvolveu.

Eliane: Agora, Careqa, seu senso humor na música tem a ver com o fato de ser ator ou é o contrário? Espero que não se importe em falarmos de humor, pois você se comunica muito bem através dele, o que é louvável…

Carlos Careqa: O humor está presente porque convivi com amigos muito irônicos e sarcásticos, em Curitiba, quanto tinha 20 anos… Aprendi tudo com eles. O ator é uma coisa nata em mim, não faço muita força. Gostaria de poder realizar mais trabalhos como ator, mas não tenho tempo…

Eliane: Você gosta mais de cantar suas músicas de ouvi-las com outros intérpretes?

Carlos Careqa: As duas coisas. Gosto muito de ouvi-las na voz de outros… É uma sensação muito boa. No começo é estranho, mas depois a gente gosta muito.

Eliane: Sei… Posso imaginar. Sobre o novo CD, “Não Sou Filho de Ninguém”, como foi a receptividade do trabalho? Chegou a algum lugar que esperava?

Carlos Careqa: Foi muito legal. Eu sei que é difícil para um independente chegar aonde cheguei. O jornal O Globo me deu cinco estrelas pelo disco, tive criticas no Estadão e na Folha de São Paulo… Isso sem nenhuma assessoria, somente com a minha própria força.

Eliane: Aonde você chegou?… rs.

Carlos Careqa: Chegar é uma palavra metafórica neste caso.

Eliane: Sei. É brincadeira…

Carlos Careqa: Para se ganhar muita grana ou ter um sucesso retumbante, você tem que ter um esquema mais forte.

Eliane: Sabemos disso. Só queria ver sua posição. O que te dá maior prazer: cantar, compor, produzir ou atuar?

Carlos Careqa: O que me da mais prazer é estar no palco cantando ou atuando, mas, principalmente, cantando minhas canções.

Eliane: Tem algum projeto novo rolando?

Carlos Careqa: Tem, mas não posso falar. Aprendi a ficar calado.

Eliane: Tudo bem. Seu humor na música, como já comentei, tem um forte propósito de comunicação, até mesmo de diversão na hora do show, principalmente, mas me parece que é mais do que isso. Você busca uma reflexão mais séria da atualidade?

Carlos Careqa: Então… Como eu já disse, gosto de provocar o riso interno, não a gargalhada. Às vezes perco a medida, mas é assim mesmo, a gente não tem uma formula de humor e vai experimentando. Busco sim o riso, porém não quero fazer apologia de nada, pois eu sou parte do sistema e também erro pra cacete e reflito como os meus erros. Não posso erguer bandeira nenhuma, pois eu vivo neste planeta, eu poluo, eu isso eu aquilo…

Eliane: Acho que é uma boa forma de contribuir para algo melhor, para sermos melhores…

Carlos Careqa: Pois é isso que penso. Eu quero ser equilibrado e inclusive nas canções, mas tem também os personagens que, às vezes, pintam para falar de um ou outro assunto, aí tá liberado.

Eliane: Como gostaria de ser definido ou visto pelas pessoas? Seria o que sua arte provoca?

Carlos Careqa: Como um compositor de canção brasileira, musical e bem humorado e o que ela (arte) provoca é bom de saber, mas muda de pessoa pra pessoa.

Eliane: Você tem alguma posição sobre a política cultural atual, mais diretamente sobre mercado musical?

Carlos Careqa: Sim. Tenho.

Eliane: Dá pra “falar sério” sobre isso?

Carlos Careqa: Acho a política cultural totalmente errada. Não gosto desse mecenato praticado pelo MINC. Acho que ele não tem que interferir tanto. Acho que cinema, teatro e musica tem que ter MERCADO e não patrocínio. Acho que patrocínio é legal, mas o artista não deve só viver dele e sim de sua arte. O MINC deveria se preocupar em ensinar musica nas escolas, teatro nas escolas e cinema nas escolas primárias do país. Daí viriam os futuros consumidores de cultura.

Eliane: Concordo. É comum vermos artistas ou produtores se ressentindo da falta de patrocínio para determinado projeto…

Carlos Careqa: O mercado musical é uma piada. Só ganha dinheiro com musica aquele que investe, vira um big business. Eu sempre busquei realizar sozinho os meus projetos. A primeira lei foi a Lei Sarney, uma porcaria… A gente tinha que ficar mendigando patrocínio. Hoje, temos que pagar 30% para a empresa patrocinadora… O MINC sabe disse e não faz nada. Eu não gosto de trabalhar assim… O CCBB, em São Paulo, faz um trabalho legal, mas eu sei que no futuro isso pode mudar.

Eliane: É pena que poucas instituições invistam em cultura, mesmo sabendo que isto envolve a busca de um retorno de marketing. Bom, esse assunto é sem fim, mas é sempre bom colocarmos uma pimentinha para que as pessoas pensem; pensar não é interesse de muitos.

Carlos Careqa: Claro. Concordo.

Eliane: Tem alguma coisa que não abordamos e que gostaria de falar?

Carlos Careqa: Acho que não… Gosto de saber que somos um país musical, mas isso não basta. Temos que ir além como foram os EUA e alguns paises da Europa…

Eliane: E viva o Brasil! Viva VOCÊ, Carlos Careqa! E aos internautas que ainda não conhecem esse incrível artista, eu apelo: procurem por ele… no www.carloscareqa.com.br. Ele também pode estar por aí numa canção, numa propaganda de TV, num longa-metragem ou atrás de uma produção qualquer…

Carlos Careqa: Hhahahha. Valeu, Eliane. Obrigado pela entrevista. Vou agora molhar as plantas da vila onde moro.

Eliane: Esse cara é o Carlos Careqa.

 

Maio de 2005