A pandemia, a sociedade & a cena artística

Longamente explorado por filmes de Holywood entre os filmes de catástrofes, eis que, finalmente, neste século somos confrontados com um vírus que atingiu o mundo inteiro. Coincidência ou não, nasceu” na China, de um morcego – tal qual é mostrado em filme de grande sucesso – com poder letal aumentado por sua grande capacidade de mutação. Ainda não se sabe, cientificamente, sobre como age ou como vai alcançando suas mutações. Mas, a partir do primeiro, já se anuncia vacinas, por estudos que reuniram a comunidade científica.

Correndo ao redor dos conhecimentos científicos, vão os diversos informes incertos e de pânico promovendo pânico sobre como seria a prevenção, já que a sociedade brasileira já soube da existência do vírus quando o mundo inteiro já estava com inúmeros casos de mortes pela pandemia. O nível de informação correta que se passa é razoavelmente pequeno, o que faz com que pessoas e grupos não acreditem no que acontece e repassem informações confusas, o que, para uma situação de alto risco como esta, faz gerar-se enormes confusões. Estamos já há mais de cinco meses em isolamento, fala-se em relaxar, os eventos voltam, fecha-se os estabelecimentos não essenciais, e o suspense entre abrir o livre caminho e as atividades econômicas continua sendo uma incógnita.

Neste quadro em que a maioria dos estabelecimentos estão fechados, ocorre, óbvio, que as casas e bares de música estão entre os serviços não essenciais, sendo que a cadeia produtiva da arte e cultura é imensa, e todos os envolvidos passam dificuldades. Alguns encontram a ideia de fazer lives pela internet, alguns com patrocínio, outros cobrando cachês virtuais, sendo que a grande maioria não consegue oportunizar-se nestas ações por falta de equipamentos, ou por serem artistas sem grande visibilidade, continuam à margem, com sérios problemas de subsistência. Todos estão com dificuldades.

No entanto, sem que o que será dito seja um desdém aos que não conseguirão realizar ou sobreviver de suas lives, que acontecem todos os dias, alguns artistas conseguiram uma estrutura para colocar seu ofício no formato visível por um grande público, construindo um novo acervo e maneira de recuperar o grande da música brasileira, tanto de novos compositores e artistas, como um trabalho magnífico de expor ao brasileiro que tem possibilidade de ter um computador, ou se interessa a ponto de buscar um amigo que tenha, as grandes pérolas do cancioneiro brasileiro, como de trabalhos instrumentais.

Artistas como a Mônica Salmaso, Zé Renato, Rosa Passos, Ná Ozzetti, Cida Moreira e tantos outros, encabeçam a produção das lives. Neste meio, gostaria de enfatizar a importância do trabalho feito por Mônica Salmaso, que em formações diferenciadas, todos os dias publica duetos com músicos e outros artistas que, às vezes inusitados, o mais importante, é que trazem ao público o acervo que não se tem mais disponível, por estarmos em tempos de plataformas de streamings em que o cd não está mais tão disponível ou é uma ausência total. Temos o acervo da música brasileira, talvez, em boa parte nestes streamings, mas o que ocorre realmente é que o acervo maior da música brasileira passou a ser uma virtualidade ou somente memória. Aí está a enorme importância do que a cantora Mônica Salmaso vem trazendo para o público, dizendo que a música brasileira está viva e merece, sim, ser ouvida e, por que não?, reconhecida pelo público mais jovem.

O reconhecimento do trabalho da cantora é também o reconhecimento de todos os artistas que se esforçam, com ou sem patrocínio, para colocar um alento e um alerta para que se veja que a música brasileira não morreu porque, ainda que, talvez temporariamente, não temos mais acesso aos cds. Talvez este seja um chamado de todos os amantes da música para se moverem e reformularem o mercado da música, dando chance às novas gerações que não conhecem a maioria do que é mostrado por estes artistas para que a dita “demanda não existente para o cd”, agora direcionada pela indústria para a volta do LP, pode formar a vontade de possuir materializado pelo cd ou por uma outra mídia, aqueles afetos que a música proporciona, quando se sabe que esta, a música, promove saúde emocional e física, reconhecida cientificamente.

Devo falar que artistas como Caetano Veloso, Milton Nascimento (e em breve teremos Gal Costa), fizeram shows de grande repercussão em mídias maiores, com a devida repercussão. Assim como cito que artistas menos conhecidos vêm se apresentando com poucos recursos em verdadeiras surpresas para o público que não os conhece. O mundo da música concentrou-se nos últimos anos em polaridades e as oportunidades dos novos artistas, com uma indústria não atuante e pouco interessada em produzir e lançar aquelas revelações que se tinha antigamente, que vão achando seu lugar através da internet e se fazem presentes na forma e condições que lhes é possível. A própria Mônica Salmaso disse que faz parte de uma geração em que a indústria não se interessava mais em produzir e lançar os artistas, e que tiveram de achar seus meios de chegar onde estão. No entanto, a sobrevivência destes artistas menores hoje é imensamente mais difícil que a própria Mônica Salmaso, que obteve seu público há apenas vinte anos, quando já era outra a forma de produção. Sabe-se lá o que acontecerá com estes artistas que começam sua vida agora e alguns que já possuem alguns anos de estrada mas não tiveram a chance de ter suas carreiras alavancadas por algum selo ou gravadora.

Talvez o resto da história seja conhecida, por isto vou terminando, deixando uma pergunta: até quando estaremos sendo direcionados pela indústria – que dita o que será consumível -, agora com a ajuda de tecnologia e como esta tecnologia virá para efetivamente acrescentar à sociedade e não retirar da música brasileira seu enorme acervo? A reprodutibilidade na arte é questionada desde Walter Benjamin e Theodor Adorno, no entanto, ela ganhou uma importância indiscutível para a sociedade. Não se pode retirar assim todo um acervo, uma história da música, deixando o público sem parte de sua história, sem o mínimo acesso. E isto acontece em toda a nova forma de economia! Como adaptar-se tão subitamente a uma nova realidade e sobreviver?

Diz-se que o acervo de música brasileira hoje pertence ao Japão! Que grande ironia!

 

Érico Baymma – 08.09.2020