Zé Luiz Mazziotti

Por: Solange Castro

José Luiz Mazziotti é músico conhecido no universo dos músicos brasileiros. Voz adorável e diretor musical respeitado, realiza um antigo sonho – gravar um disco com músicas de Chico Buarque de Hollanda. E o resultado não poderia ter sido melhor – o disco “Zé Luiz Mazziotti canta Chico Buarque” é uma obra imperdível.
Em entrevista exclusiva para o Alô Música, Mazziotti conta um pouco de sua vida e carreira, num momento de total descontração e simpatia.

Solange Castro.

Solange Castro – Alô, Mazziotti, tudo bem?
Fale-nos um pouquinho de você – quando você descobriu a música na tua vida?

Zé Luiz Mazziotti – Olá… É um grande prazer para eu poder ter este espaço pra poder contar um pouco da minha vida, meus sonhos…
Acho que descobri muito cedo… no colo da minha mãe…..É uma história divertida, pois quando ela cantava pra eu dormir, eu chorava sem parar… Até que uma hora ela percebeu que a música era muito triste… e mudou a música e eu nunca mais chorei…
Depois eu vi minha irmã estudando piano… Ficava horas sentado num banquinho ao lado dela, ela era uma grande pianista, e até hoje sei decor os concertos que a ouvia ensaiar, isso com a idade de 3…4 anos.
Bem, aí era ouvir rádio começar a descobrir as coisas que me agradavam… Mudei pra SP com sete anos de idade e com 14 já estava procurando professor de violão e babando com a MPB… Até que entrou Vera Brasil na minha vida. Ela era compositora, e professora de violão e foi quem realmente me abriu o mundo da música… Harmonia… Melodias…
Com a idade de 16 anos, já frequentava a casa dos “Godoy”, que tinham o Zimbo Trio, participavam do “Fino da Bossa”. Lá conheci Elis e quase todos os artistas que cantavam no “Fino”. Isso foi muito importante para mim, pois ouvia música o dia todo e já com o violão “debaixo do braço”…
Conheci a “Divina” na casa deles, que se tornou minha grande amiga em 80, quando fiz ao seu lado o Projeto Pixinguinha.
Comecei a cantar no “Boulevard”, que era uma casa linda na Praça Roosevelt aqui em SP. Tinha na época uma dupla com Elodi, que é uma cantora-violonista, descobridora de talentos como Célia e Simone. E grande compositora também. Revezávamos com Jonnhy Alf… e nosso público era Bethânia, Marilia Gabriela, e tantas outras pessoas que curtiam a boa mpb. Nesta época eu já estava afastado do “Canto4”, que foi um quarteto delicioso que participei a convite do Eduardo Gudin, e que acabou vencendo o Festival da Record junto com Tonzé, com a música “São Paulo, meu amor”.
Mas minha carreira-solo mesmo começou no “Jogral”. E daí cantei durante 10 anos na noite paulista, trabalhando muito e sempre em lugares com ótima qualidade de música.
Em 1973 fiz minha primeira gravação. Até quem sabe, para a novela Os Inocentes, da extinta TV Tupi. Arranjo do Cesar Camargo Mariano… Nem acreditava, pois era meu sonho trabalhar com ele.
Gravamos também, para o outro lado do “compacto simples”, a musica “Adeus Violeiro”, do Gilson de Souza, mas que nunca acabou saindo no tal CS, mas sim em um disco de compilações da Phillips, junto com “Cadeira Vazia”, da Elis
Fui ao Rio em 75, convidado pelo Ivan Lins para gravar a musica “Dona Benta”, do Sìtio do Picapau Amarelo, e acabei sendo contratado pela “Zurana”, que foi uma das melhores produtoras de jingles do Brasil. Trabalhavam comigo Regininha, Marcio Lotti, Flavio Faria, Lucinha Lins, Jane Duboc, Luna Messina, e outras feras do côro do Rio. E finalmente acabei me mudando pro Rio aonde fiquei até 1985.
Em 1979 veio o primeiro convite para fazer um disco-solo. Fui para o estúdio, com o Dori Caymmi e Gilson Peranzzetta como arranjadores, Luizão no baixo, Helio Delmiro e Toninho Horta nas guitarras, Paulinho Braga na bateria e Peranzzetta no piano e dois arranjos.
Gravei um dos discos mais bonitos da minha carreira, com a participação da Nana Caymmi em uma das faixas.
Bem…aí comecei a participar de shows, Projeto Pixinguinha que fiz por 3 anos seguidos, com Elizeth Cardoso, Silvio César, Miltinho, Angela Maria, Jamelão e Zezé Gonzaga, querida amiga e uma das maiores cantoras que conheço.

Solange Castro – Certamente…

Zé Luiz Mazziotti – Em 1981 veio o segundo “LP”, “Sinais” patrocinado por um amigo querido, e que como o primeiro sem nenhuma divulgação. E o universo da MPB começava a escurecer…
Durante todo esse tempo eu trabalhei com côro em gravadoras – gravei com Elis, Milton, Chico, Djavan, Teixeirinha, Luiz Ayrão, Simone, George Duke, Chet Baker, e vários outros artistas que já nem me lembro.
Em 1984 fiz um show no TBC aqui em SP com a Nana Caymmi, e desse show acabou saindo um disco produzido pela própria Nana, para a gravadora Pointer. (Mais uma batata-quente na mão dos vendedores da gravadora….não sabiam nem aonde oferecer o disco…)

Solange Castro – Por que “batata quente”?

Zé Luiz Mazziotti – Porque esse tipo de música sempre foi uma coisa muito complicada para “vender”.

Solange Castro – é uma pena…

Zé Luiz Mazziotti – Bem,.então resolvi dar um pulo na Europa, aonde estava sendo lançada uma faixa minha para uma novela na Itália. Acabei voltando pro Brasil 6 meses depois, e em 3 meses eu estava de volta mas desta vez em Paris… Para morar!
Acabei ficando dez anos por lá. Fiz muitas coisas boas… Conheci realmente o “mundo”, como eu queria. aprendi línguas, conheci pessoas maravilhosas, convivi num meio musical excelente… E a maior descoberta pra mim foi ver o quanto o Brasil é um país maravilhoso, com gente maravilhosa, com uma liberdade que não se encontra em nenhum lugar do mundo.
Pena que tenhamos tanta corrupção impune neste país lindo. Mas também, não podíamos ter tudo, não é???? rs..

Solange Castro – A humanidade tem suas duas faces – aqui também é assim…

Zé Luiz Mazziotti – E também descobri o prazer que é poder cantar na minha língua, para as pessoas que entendem tudo e conseguem captar o que tento transmitir. Acho que minha missão é cantar mesmo… às vezes penso em diversificar um pouco minha vida profissional, mas não dá, não dá mesmo… A música me escolheu… e tendo ganho esse presente tão especial, jamais poderia dividir minha vida com outra coisa.

Solange Castro – Você faz produção fonográfica também, certo?

Zé Luiz Mazziotti – Sim,.fiz algumas coisas que me deram muito prazer.
Em 1985 eu produzi um disco em Roma, Irio de Paula e Cidinho Teixeira…. Grandes músicos (guitarra e piano), e no mesmo ano produzi Pedro Paulo Castro Neves e Michel Legrand.
Tive a honra de produzir dois discos em homenagem à Sueli Costa, “Intimo”, do Eduardo Conde, querido amigo que já está no céu. e “Canção Brasileira”, com Lucinha Lins
Produzi também “Cauby canta Sinatra”, em 1996.

Solange Castro – O “Canção Brasileira” ficou lindíssimo – parabéns…

Zé Luiz Mazziotti – Obrigado… é um disco que eu gosto muito… Sueli é uma luz na minha vida…

Solange Castro – Mas agora me fale desse teu disco que estou ouvindo e é maravilhoso…
Quando veio a idéia?

Zé Luiz Mazziotti – Foi mais ou menos em 1986, quando ja estava na Europa há dois anos, quando o Coré, um querido amigo meu me enviou cinco K7s com quase toda a obra do Chico e eu comecei a babar…

Solange Castro – É uma obra e tanto…

Zé Luiz Mazziotti – Aí comecei a estudar as letras, e a entender todas as sutilezas das letras, ler de cima pra baixo e de um lado pro outro… Quase todas as músicas que gravei, já as paquerava há muitos anos…

Solange Castro – E de baixo para cima dá um susto… ele é um gênio…

Zé Luiz Mazziotti – Pois é… O Chico me assusta até hoje…
Não sabia o que fazer quando ele chegou no estúdio para gravar a participação dele no meu cd… Mas ao menos… “Eu te amo”, eu disse… e agradeci… pelo tanto que ele nos ensinou e ensina e por tanta emoção que nos dá… E adorei a cara que ele fez quando eu mostrei quatro faixas prontas… Ele perguntou pelos músicos… Acho que gostou mesmo.

Solange Castro – Em cada firula de sua vida… É um maestro – e poeta – e intérprete… É um presente que Deus nos deu…

Zé Luiz Mazziotti – Pois é… que bom ter um Chico conosco nesta encarnação… não é?

Solange Castro – E a escolha do repertório é outro primor – qual foi o critério utilizado para a seleção?

Zé Luiz Mazziotti – Escolher repertorio entre tudo que o Chico fez é realmente uma tarefa difícil, quase impossível.
Procurei coisas que eu já cantava, que combinassem com minha voz e minha alma… Falei com o Marcus Teixeira, meu produtor musical, e trocamos umas duas músicas somente das que eu tinha escolhido.

Solange Castro – E quem são os músicos?

Zé Luiz Mazziotti – Bem, os músicos são meus queridos, trabalhamos juntos há algum tempo… Gente da melhor qualidade, principalmente humana… Todos talentosos, disponíveis. amigos…
Vamos aos nomes: (TODOS FIZERAM ARRANJOS)
Piano – FABIO TORRES
Baixo – PAULO PAULELLI
Bateria – CELSO DE ALMEIDA
Guitarra e direção musical – MARCUS TEIXEIRA
Teclados: KEKO BRANDÃO

Este é o quinteto que é o sonho realizado da minha vida (e o da Rosa Passos também).

Solange Castro – E que time… Parabéns… O disco está realmente belíssimo…

Zé Luiz Mazziotti – Isso só foi possível graças a um amigão meu, Geraldo Julião, que correu atrás dos patrocínios.
Esse disco foi brinde do fim do ano passado da Sabesp e da Prefeitura de São Sebastião, mas o fonograma ficou meu.

Solange Castro – Onde foi gravado?

Zé Luiz Mazziotti – Gravamos o disco no Mosh, que entrou quase com parceria mesmo, com o mesmo amor que estávamos fazendo todo esse trabalho. E atualmente estou lançando “caseiramente” mesmo… como te disse, este tipo de música é um produto muito difícil de vender… e todas as gravadoras que eu procurei puseram dificuldades.
Isso foi uma coisa muito triste para mim, mas não pelo “meu disco”, mas sim pela situação da MPB hoje, aqui….no Brasil.
Então umas me disseram que não poderiam me dar a atenção que eu merecia, outras queriam que eu desse o disco pronto e que poderiam me “fazer o favor” de distribuir… E isso tudo eu estou falando não por mágoa, mas sim como um “alerta” para nós todos que gostamos e lutamos pela verdadeira MPB…
Acho que temos que dar um jeito nisso tudo… nossa música é a melhor música do mundo. mas isso dito pelos maiores músicos do mundo…

Solange Castro – Sem dúvidas… Colocar dificuldades para uma obra belíssima como a obra do Chico Buarque chega a ser humilhante… E com impecável trabalho de estúdio…
Mas me diga, vais fazer turnê com show, certo?

Zé Luiz Mazziotti – Atualmente estou em contato com uma produtora ótima daqui de São Paulo, e vamos começar a organizar a tournée.

Solange Castro – Algum show já marcado?

Zé Luiz Mazziotti – Tenho o BNDS do Rio no dia 23, com a cantora Célia, onde vamos mostrar pela primeira vez no Rio o o repertório de “Pra fugir da Saudade”, disco gravado em 2000 homenageando Paulinho da Viola, e nos dias 25 e 26 faço o show “O Rouxinol e a Rosa”, com Fátima Guedes no Teatro Paiol de Curitiba.

Solange Castro – E teu disco? Além de estar no Shopping Independente Alô onde mais pode ser encontrado?

Zé Luiz Mazziotti – Por enquanto podem enviar email para mim (zeluizmazziotti@terra.com.br), e dentro de uns 15 dias podem procurar no meu site. (www.zeluizmazziotti.com.br)

Solange Castro – Mazziotti, quero te agradecer ter nos cedido esta entrevista – não imaginas a honra que tenho de estar contigo… E mais uma vez, parabéns pelo teu disco – é lindo demais…
Gostarias de deixar algum recado para nossos usuários?

Zé Luiz Mazziotti – Obrigado a você Solange e à essa delicia de site que é o Alô Musica, e gostaria de dizer o quanto eu estou feliz em poder cantar o que gosto, pelo carinho que as pessoas me dão como retorno do meu trabalho, e dizer que continuem apostando na nossa verdadeira MPB… Recusem imitações. Beijos carinhosos…