Etel Frota

 

 

Por: Solange Castro

 

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Thiago de Mello

Etel Frota é Paranaense, foi médica e hoje é poetiza…
Conheça um pouco de Etel em uma entrevista sincera e emocionada, onde a simplicidade da entrega e importância do “encarar a dor” são colocadas com a delicadeza poética dessa mulher que muito tem a nos ensinar…

Alô Música – Etel, fale de você…

Etel –
50 anos, nascida em Cornélio Procópio, norte do Paraná, perto de Londrina… uma cidade cheia de morros, venta pra caramba, e tem até um cristo redentor…

Alô Música –É bonita a Cidade?

Etel –
Não sei., quase não vou pra lá… a da minha memória é muito intensa, aparece em sonhos muito fortes… e eu não sei se é uma cidade bonita… tenho uma relação ambivalente com ela… Não é nenhuma Itabira…. Rs..

Alô Música –Você sonha muito?

Etel –
Tem épocas que sim – já me aconteceu de resolver altas dúvidas filosóficas sonhando…

Alô Música – Você escreve desde que idade?

Etel –
Escrevo desde anteontem… tinha mais de 40 anos quando me meti a poeta… Antes só escrevia laudos e receitas…

Alô Música – Mesmo? E como isso começou?

Etel –
Uma paixão, amiga…..

Alô Música – Você é médica – qual tua especialidade?

Etel –
Não sou mais. Parei há 5 anos. Era clínica geral. Trabalhei longos anos com dependência química, alcoolismo.
Trabalhei 12 anos no serviço médico do Banco do Brasil… me aposentei, por tempo de serviço, aos 41 anos – trabalhava desde os 16. Mantive consultório por mais uns anos e caí fora total. Não pago mais CRM, não tenho mais carimbo, receituário, essas coisas – é uma outra encarnação, hehehe…

Alô Música – Agora fazes um outro trabalho fantástico – conte como veio teu lado poético..

Etel –
Me apaixonei por um poeta e tudo terminou em versos e metáforas…

Alô Música – E onde ele anda?

Etel –
Segue destro na vida. Felizmente contrariando os prognósticos de que paixões arrebatadas sempre terminam em arrebatados rancores, continuamos amigos (rs..). Ainda não desisti de subverte-lo.

Alô Música – Grande amigo… despertou algo ótimo para todos nós..

Etel –
Quando essa história empatou, pensei que fosse enlouquecer – acho que enlouqueci mesmo… Foi uma dor que eu não conhecia… e me vi, da noite (insone) para o dia (de desespero) escrevendo poesia –
Uma loucura, um absurdo…

Alô Música – Maravilhosa tua loucura – escreves coisas lindas..

Etel –
Não mostrava pra ninguém… Um belo dia, conheci Maria Célia, uma escritora (contista) e começamos a falar de poesia, ficávamos conversando enquanto esperávamos nossas crianças no ensaio do coral… eu falava um pouco com ela, bordava um poema verde-água em ponto de cruz, e de vez em quando dava uma choradinha. Era o auge daquela dor…
Corte no filme. Dei o poema pro poeta, como um presente de fim de ilusão…
Desencontrei da Maria Célia, acho que foram férias escolares, a dor foi ficando menos crua, sobrevivi, a vida seguiu seu curso… Mas não dava mais pra parar de escrever, gozado… Quando reencontrei a Celinha, ela me disse que estava publicando o seu primeiro livro e que tinha escrito um conto, uma crônica pra mim, que se chamava……. “Verde água” – e acabamos passando um período muito ligadas, muito próximas, e foi a pessoa pra quem tive a coragem de mostrar meus escritos…
Ela praticamente me intimou a fazer daquilo um livro, pra inscrever num concurso de poesia…
Uma tarde me deparo com um amarelado poster na minha parede, que estava lá há séculos… que eu já tinha lido umas trocentas vezes dos “Estatutos do Homem”, onde o “Artigo Oitavo” falava que “Fica decretado / que a maior dor sempre foi / e será sempre / não poder dar amor a quem se ama / sabendo que é a água / que dá à planta / o milagre da flor”…
Foi um insight… essa era a epígrafe de tudo aquilo que eu tinha escrito, sabe? Isso dizia tudo, e ficou sendo o título do livro… Depois disto, muitas outras águas passaram por baixo da ponte, muitas outras dores, até mais pungentes do que aquela, mas aí eu já tinha aprendido como é que faz pra sobreviver…

Alô Música – E como faz para sobreviver???

Etel –
Se entrega pra poesia… É o cadinho, a alquimia. Na verdade, se entrega pra arte… Não pode fingir que não dói, tem que ir fundo, deixar a dor rolar, se entender com ela, fazer acordos, dançar tangos e minuetos, bater, apanhar, chorar, se rasgar…

Alô Música – Negociar com a dor é dose, Etel…

Etel –
Mas não tem outro jeito, bicho… O que a gente varre pra baixo do tapete, o que a gente edulcora, em nome da religião, da racionalidade, seja lá em nome do que for, acaba voltando em forma de doença, tristeza, desesperança. Você não pode tentar tapear a dor com o que quer que seja…. se você não der as tripas pra ela, ela volta e te cobra…. tem saída honrosa…
É isso… dor é dor, bicho. Morte é morte. Perda é perda.
É como tentar construir em cima de um terreno cheio de detritos, de despojos de uma demolição.. se você não limpar o solo, não tem como fazer uma fundação decente – o edifício vai ficar capenga, um dia a casa cai…

Alô Música –Tem razão…

Etel –
Esta nossa civilização Cristã, ocidental e pós-moderna nos quer assépticos diante da dor e da morte. Pode-se sofrer, desde que não se perca muito a compustura. Pretende distrair a tristeza da perda com entretenimento e consumo. Sou antiga. Não boto preto, mas acredito no luto, em beber a taça até o fim. Um belo dia, So, brota uma florzinha. Sabe aquele brotinho de musgo que brota no rachado da pedra?

Alô Música –Acho que você está certa, Etel – aprendendo a viver a dor fica-se mais livre para a vida…

Etel –
A vida prevalece. A vida é mais.

Alô Música – E faz de tudo para viver – a vida é linda…

Etel –
Foi assim que nasceu Artigo Oitavo. Foi assim que ele foi crescendo – eu nem tinha noção de quanto isto tudo ainda podia ser doloroso para quem me lesse – pra mim foi libertador, apaziguador…

Alô Música – E a parte musical, como chegou?

Etel –
Bem, estudei piano lá em Cornélio Procópio, dos 7 aos 14 anos. Desisti e fui ser médica. E a vida seguiu. Muitas décadas depois (rs..), quando me aposentei, fui fazer oficina de música. Coral. Foi quando conheci (deus seja louvado!!!! todos os dias!!!! aleleuia!!!) Marcos Leite…

Alô Música – Marcos Leite foi um grande maestro…

Etel –
Marcos Leite, meu amigo, meu mais-que-querido amigo… a saudade que me dói demais ainda … e começo a aguar só de lembrar dele. .. Essa é uma dor que às vezes ainda me dói cravada, So! Ainda não se completou essa alquimia… deixa eu parar de chorar…
Bem, fui cantar com o Marcos, no coral da Oficina de Música – eram os primórdios do
Conservatório de MPB aqui em Curitiba e nunca mais parei… Nos conhecemos, nos gostamos, nos acumpliciamos… Depois que o coral terminou. passamos a conviver pouco, mas tínhamos um afeto muito grande…
Meu disco é dedicado a ele… Foi a primeira pessoa que me disse assim: “- Cara, é ISTO que você tem que fazer na vida! “.

Alô Música – Etel, e o Thiago de Mello?

Etel –
Um belo dia, imprimi o artigo oitavo, passei uma espiralzinha, e mandei lá pra Barreirinha, no meio da Amazônia, pro Thiago de Mello…
Também num surto. Assim, em 5 minutos, liguei pra editora, peguei o endereço dele e mandei (antes que perdesse a coragem) . Era uma atitude muito abusada da minha parte (rs). Algum tempo depois ele me escreveu uma carta
Em que me dizia “fique sabendo, faço questão de lhe dizer, que você me fez sentir a felicidade que só a emoção poética pode dar…” Essa carta quase me matou de emoção…

Alô Música – Imagino…

Etel –
Lá no final da carta dizia “…vou agora copiar algumas anotações que fiz duarante a leitura dos seus poemas. São sugestões que lhe faço, em sinal de respeito pelos seus versos que tanto me comoveram…” e me mandava mais duas folhas comentando poema por poema, sugerindo inversões de palavras que beneficiavam o ritmo, sugerindo um corte, aqui ali. “…Drummond me disse e me mostrou, mais uma vez, como ele trabalhava convencido de que a poesia ganha sempre com a eliminação de palavras…” Uma coisa, por um lado, inacreditavelmente generosa. Por outro lado, me obrigava a me responsabilizar mais por tudo, sabe como é? O verdadeiro momento do “ou dá, ou desce…” (rs…).

Alô Música – Sim… Entendo – rs..

Etel –
Tinha que parar de ser uma senhora diletante de meia idade… levar minha produção um pouco a sério, ou então largar mão de uma vez e ir cuidar dos meus bordadinhos …

Alô Música –Fez a escolha certa – rs…

Etel –
Tenho certeza que sim…

Alô Música – Me diga, isso faz quanto tempo?..

Etel – Marcos Leite e o início do Conservatório, 1993/94 – Thiago de Mello, 1995/96, por aí… O projeto do livro + cd, começo de 1999…
O projeto ficou repousando nas gavetas da burocracia até metade de 2001 e eu, nesse meio tempo, fiquei fazendo letras de canções, roteiros, programa de rádio, produzindo… No meio desse tempo, deixei de ser médica. Fiz um bocado de coisas… Ajudei meus amigos/parceiros no lançamento dos trabalhos deles: Lydio Roberto (Estrela Guia), Iso Fischer (Câmera Pop).

Alô Música – Fazendo também produção?

Etel –
Também… Fiz três espetáculos, dentro de um projeto de literatura e música do meu amigo Flavio Stein: “Alphonsus de Guimaraens, o poeta da Lua”, junto com o Iso Fischer, “Alice Ruiz, um sol maior”, junto com a Alice e Rogéria Holtz, “De Ícaros e Dédalo”, junto com uma porção de compositores e intérpretes daqui. Um vídeo, “Origami”, que ganhou o segundo prêmio no Concurso Nacional de Clipoemas. Junto com a Suzie Franco, um programa de rádio, “Poemoda, a canção em verso e prosa”. Foi durante esse período que pude compreender essa minha “vocação” par juntar a poesia com a canção popular, com a imagem… Fomos indicados para alguns prêmios por esses trabalhos, enfim, uma época muito boa e produtiva…

Alô Música – Suas letras… Quem são seus parceiros? Conversamos com Érico Baymma outro dia e ele me disse que te tem em altíssima estima como companheira…

Etel –
Iso Fischer é “O Parceiro”. Na música e na vida. Meu irmão de alma… Temos muitas canções compostas em parceria e vários projetos em comum… Nosso “casamento” na canção tem sido prazeiroso e proveitoso. Tenho composto ainda com Lydio Roberto, Liane Guariente, Zé Gramani, Luiz Otávio Almeida, Cristina Lemos, Marcos Leite, Indioney Rodrigues
E agora, nos últimos tempos, os parceiros internautas da m-música, Felipe Cordeiro, Érico Baymma, Consuelo de Paula, Emerson Mardhine, dentre outros…

Alô Música –Quantas músicas mais ou menos tens compostas?

Etel –
50? 60? Por aí… Não, acho que um pouco menos – Umas 40…

Alô Música –Ótimo – alguma pretensão de gravar um disco com tuas composições?

Etel –
Talvez , gravar um disco chamado “Parceria”, das minhas canções em parceria com o Iso Fischer (meu parceiro mais frequente)…

Alô Música – E quais são teus próximo planos?

Etel –
Botar Artigo oitavo pra andar sozinho…

Alô Música – Mas ele já está muito bem divulgado…

Etel –
Por ser uma edição independente, não tenho NINGUÉM pra cuidar da distribuição, das consignações, pra manter a divulgação… Consegui montar um esquema para isto é minha primeira agora… E pensar em uma segunda edição. O livro acabou…

Alô Música – Nossa – vamos ter um 2003 bem movimentado…

Etel –
Tomara. Que não nos falte trabalho, alegria e saúde, né mesmo?
Esse projeto “Tese no Palco” é interessantíssimo. Minha amiga Fabra Morata, poeta, medica, fotógrafa, atriz, no seu processo de doutoramento estudou a rota do lixo reciclável, acabou se envolvendo com a comunidade que ela estava estudando e no final fez um sensibilíssimo trabalho sobre gravidez nessas adolescentes da favela. Terminado o doutorado fez um projeto, que foi aprovado pela Lei Rouanet, belíssimo pra devolver esses dados pra população que ela estudou através do teatro… E eu vou trabalhar junto com ela nesse roteiro. E é linda a maneira como ela aborda esse trabalho, o tanto que ela leva a sério a devolução desses dados pra essas meninas…

Alô Música – Eu já observei esse problema – é delicadíssimo lidar com essas meninas..
E onde é a Ilha do Mel?

Etel –
A Ilha do Mel é aqui pertinho, no litoral do Paraná…

Alô Música – Deve ser lindo – essa geografia é muito especial…

Etel –
A Ilha é uma maravilha, como na canção do Chico com o Francis Hime… Mas essa história sobre a qual quero escrever não tem nada de bonita… É um pesódio relacionado ao tráfico negreiro, 1850, barra muito pesada…

Etel – Falta falar sobre Artigo oitavo, o CD…

Alô Música – Pois diga…

Etel –
O projeto era, desde o começo, um livro + cd por essa minha ligação com música – sou uma apaixonada devota da canção popular – na verdade, letra de canção foi a minha “formação literária”… Uma porção dos meus poemas já tinham sido musicados e eu pensava em encartar no livro um cd com os poemas que viraram canções…
No começo de 2001, quando decidi que iria concentrar toda a minha energia de “produtora” pra fazer andar o meu projeto (embora ele ainda não tivesse sido aprovado…). Fui atrás do Rodolfo Stroeter pra ele produzir meu disco e ele, de cara, ao ler os originais do livro me disse: “-isto não é tudo cantado, como você imaginou. Isto é pra ser falado, e falado por você…” Quase desisti, eu não imaginava que pudesse dar conta disto…Mas ele sabia (intuitivamente) onde queria chegar… e era por isso, afinal de contas, que eu o tinha escolhido como produtor. Achava que o Rodolfo era a pessoa que poderia enxergar dentro do meu trabalho a cara que ele tem, e traduzir isto em som. Mas eu, no começo, não tinha a menor idéia dos caminhos que ele tomaria pra fazer isto. Confiei e me entreguei. Não me arrependi… rs.
Fomos nos conhecendo, fomos formatando o roteiro, e foi feito assim: gravamos em tempo real, eu, Cacá Carvalho e os músicos: André Mehmari, Caíto Marcondes, o Rodolfo, Teco Cardoso, Webster Santos… assim, no estúdio, uma jam session palavra & música, a partitura dos músicos eram os poemas, você pode imaginar isto?
Assim construimos toda a parte falada do disco. Depois, gravamos as canções. São 5 canções, 5 vozes, 5 mulheres: Suzie Franco, Cristina Lemos, Liane Guariente, Nice Luz, Mônica Salmaso
Durante todo este tempo, a Paola Faoro, que ia fazeria o projeto gráfico, estava por ali fotografando, assuntando… pra no final de tudo, bicho, me aparecer com ESSE projeto gráfico – absolutamente A MAIS PERFEITA TRADUÇÃO de tudo o que entre nós tinha rolado… Foi uma eucaristia! Quando terminamos a masterização, sentamos os três pra ouvir o disco… Quando terminou, a gente só conseguia se abraçar e chorar. Desde o começo a gente sabia onde queria chegar. M, mas não tínhamos noção dos percursos de emoção que a gente tiínhamos feito… Foi deslumbrante….

Alô Música –Que coisa rica, Etel… Parabéns…

Etel –
Obrigada, querida.

Alô Música – E para o pessoal que se interessar em comprar a obra, como faz? Quando sai a segunda edição?

Etel –
No Rio, em São Paulo e em Curitiba, tem em várias livrarias. Pela internet, é www.livrariascuritiba.com.br.
A segunda edição não sei quando sai, mas nas livrarias ainda tem muito livro. O meu estoque é que está acabando.

Alô Música – Que bom conversar contigo, Etel… Qual recado gostaria de deixar no Alô???

Etel –
Ah, eu gostaria de dizer aos seus amigos e correligionários do Alô Música pra que visitem a página do Artigo Oitavo – www.m-musica.com/artigooitavo…
Poxa, faltou falar da m-musica, né?

Alô Música – Pois fale…

Etel –
A M-Música – (onde, aliás, nos conhecemos, né, Soalnge… rs…), no inçio, era mais uma lista de discussão sobre música na Internet. Um grupo maravilhoso de compositores, produtores, jornalistas, intérpretes, instrumentistas e apaixonados pela música que está tomando ares de um movimento musical, já saindo da virtualidade. É o celeiro de todas as novas parcerias. Todo mundo fazendo fazendo música com todo mundo, é a internet, e o usa que a gente tem feito dela… compartilhamos a sensação de q2ue tem uma coisa muito nova, muito bela boa pintando por aí.. nas ondas da web

Alô Música – Obrigada, Etel… Espero em breve te ter novamente por aqui… Muita luz pra você e parabéns…

Etel –
Obrigada, So – um beijo…