Ruy Godinho

 

Por: Solange Castro


O que será que leva um homem a abraçar a causa da música brasileira de forma ‘quixotesca’? Paixão? Ideologia? Cidadania? Cultura? Sabedoria? Auto-estima? Não sei… Sei que entrevistar Ruy Godinho foi um dos momentos mais emocionantes que vivi no Alô Música, desde o primeiro dia que pensei nele… Acho que não preciso dizer nada – ele fala tudo…
Muito obrigada, Dom Quixote – fique certo que tens uma pequena legião de “Panças”, a começar por mim…

Solange Castro – Alô, Ruy – nos fale um pouco de você…

Ruy Godinho – O Ruy que eu conheço é paraense, 48 anos, duas filhas (Aryane e Viviane) de 20 e 19 anos. Produtor multimídia … Minha atividade profissional é produção de vídeo. Temos uma empresa chamada PROMOV (Pró-Movimento), que trabalha somente com temas nobres, comunicação propositiva. E está envolvida até a medula com os movimentos sociais.
Minha maior paixão e meu combustível é a música. Desde 1996 que trabalho produção de shows, divulgação de músicos independentes e produção de programas de rádio, sempre na praia dos fora de mídia.
Em 1996 produzi um programa chamado Música no Ar, na Nacional FM. Eram duas inserções de 5 minutos por dia. E pagava R$2.400,00 mensalmente para que o programa se viabilizasse. Isso porque, dentro de uma rádio pública, que tem a obrigação de tocar música brasileira fora da mídia, tocava só clássicos da bossa nova, hits de jazz, etc. Não havia espaço para gente nova. Uma programação conservadora.
Então, rompi com isso, porém pagava pra tocar música de artistas independentes.
Peguei o gostinho. Quando o programa acabou, por falta de verbas, procurei outras emissoras públicas e produzi o mesmo programa, em versão de 1h semanal.. Depois evolui para o Estação Brasil, 2h semanais, este em parceria com Adriane Lorenzon – que hoje produz o Brasil Plural, na rádio Câmara FM. E, não parei mais.

Solange Castro – E como foi a resposta do público a esse programa?

Ruy Godinho – A resposta era interessante, porque o programa era surpreendente. Tocava coisas novas que o público desconhecia, mas gostava muito. Certa ocasião, um ouvinte me ligou e perguntou: “Que porra é essa que vc acabou de tocar??” Tinha acabado de tocar “Noves Fora”, do Eduardo Rangel. Ele era diretor de uma empresa de informática. Ficou meu amigo e ainda contratou Eduardo para encerrar um show da empresa em que trabalhava.
A Rádio Cultura, que era onde nós desenvolvíamos o Estação Brasil foi tomada pela necessidade de popularidade, falar para o público C,D,E, que é o público do Governador Roriz. Aí deixou de ser a Cultura e passou a tocar só sertanejo romântico, axé, pagodes de baixa qualidade e não tivemos condições de continuar.
Passei então e somente divulgar e produzir, informalmente. Não ganho dinheiro com isso. É o meu voluntariado. Em vez de estar numa creche, num orfanato, estou trabalhando com música. Passei a divulgar a Kuarup, Outros Brasis, Por do Som, Lua Discos e os independentes. Levo os discos nas rádios, converso com programadores, agendo gravação de programas especiais, sem ônus. Passei a ter uma grande credibilidade por conta da qualidade do material que divulgo, que você conhece bem.

Solange Castro – Bem, estás falando da nata da Música Brasileira e isso é um trabalho de garimpo… E o público, se interessa por essa música?

Ruy Godinho – A gente sempre tem público. O que falta é esse trabalho de sensibilização. Se o povo ouve música ruim, se sensibiliza por música ruim. Mas, se você oferece música de qualidade, ele se surpreende, no inicio, depois passa a consumir e apreciar. Você forma um público.
Não vivo sem isso hoje. Tenho o Programa Roda de Choro, na Câmara FM e estou por inaugurar um outro – na Rádio Verde Oliva, do Exército – que é o Talentos Brasileiros, só para música fora de mídia. Esse novo inclui o pessoal da antiga, resgato história da MPB, músicas regionais e curiosidades. Realmente é garimpo. Tenho hoje 1.300 CDs, 80% de independentes. O restante é material de cunho regional, o acervo Funarte e os CDs das coleções do SESC-SP.

Solange Castro – Porque você acha que as rádios não divulgam a música de qualidade?

Ruy Godinho – As rádios não divulgam música de qualidade porque fazem o jogo das grandes gravadoras que precisam vender muito. Como o público tem uma referência pobre de música, eles massificam essas músicas de apelo mais popular, por meio do jabá, para que o público consuma. E o próprio público é quem paga por isso, comprando os discos caros, onde vem embutido o valor dessa despesa de marketing. É a força do poder econômico interferindo na qualidade.

Solange Castro – Estamos nós no Jabá novamente – você acha que Gil poderá fazer algo para acabar com isso, já que é um dos principais agentes que “massacram” nossa cultura musical?

Ruy Godinho – Se houver uma pressão, uma mobilização artística e social, acho que sim. Depende muito de nossa participação no processo. Nos textos dos programas que faço sempre critico o jabá e questiono o porque das música que tocamos não estarem na grande mídia.

Solange Castro – Isso é importantíssimo – 99% do povo brasileiro nunca ouviu falar em jabá…

Ruy Godinho – Fazemos o público compreender direitinho essa questão. Não me canso de incluir a questão do jabá e também de explicar ao público o que é ser um artista independente nos textos dos programas.

Solange Castro – O que é um crime, pois a população tem o direito de saber que está consumindo um produto “imposto” pelo capital…

Ruy Godinho – Sem dúvida. No Talentos Brasileiros n. 0, já trato sobre isso. Falo que é crime, que em outros países essa questão é respeitada.

Solange Castro – Maravilha… Qual o tipo de música, dentro dos independentes, que você sente que tem mais retorno?

Ruy Godinho – Toco de tudo. Desde trabalhos ecléticos até a música regionalista. O retorno que temos, nas ligações que recebemos dos ouvintes, é muito em função da beleza das letras e melodias, sem uma preocupação de gênero. Quando a música é bonita o retorno é garantido.

Solange Castro – Deve ser o máximo, pois a variedade de ritmos e linhas poéticas que temos é imensa… E a música instrumental, é bem aceita?

Ruy Godinho – Considero nossa diversidade impressionante. Tenho material de todo o Brasil. Nos programas que produzo, sempre toco um bloco de 3 músicas instrumentais. Nunca tive a preocupação se o ouvinte aceita ou não. Eu toco para sensibilizá-lo, pra ele conhecer, para ele se surpreender. E temos coisas maravilhosas. No caso do Roda de Choro, é o inverso. Tenho quatro blocos instrumentais, com 3 choros cada e só bloco com choro cantado.

Solange Castro – Aqui no Alô chegam coisas lindíssimas, tanto instrumentais como letradas… A música brasileira, ao meu ver, está com uma produção de ponta… O que você acha?

Ruy Godinho – Concordo e confirmo. Amo a música brasileira. Por isso trabalho de forma apaixonada e comprometida. E trabalho para o público de Brasília, que é uma delícia. Consome choro, música instrumental, música de artistas independentes. Temos em Brasília um público privilegiado, atento, sensível… Atribuo isso a escolas de música de alta qualidade – reconhecidas em todo Brasil – a Escola de Choro Rafael Rabelo, muito concorrida… E seis rádios públicas que sempre incluem em sua programação artistas novos, músicos independentes… Meu foco como divulgador é sensibilizar os programadores dessas rádios quanto a obrigação deles de tocarem o que está fora da mídia, os artistas independentes. Eles não precisam de jabá… Aliás, as rádios públicas não precisam de jabá. São custeadas pelos Governos. Temos tido sucesso. Aqui, em Brasília, só precisamos mudar um pouco a programação musical da Nacional FM, da Radiobrás, para ela se atualizar. O que se ouve hoje na Nacional FM é o que se ouvia há 10 anos atrás. A Cultura FM, enquanto o Governo Roriz não for cassado pelo Ministério Público, a rádio é um caso perdido.

Solange Castro – E tem versão virtual desses programas?

Ruy Godinho – O Roda de Choro pode ser ouvido pela internet no seguinte endereço: www.camara.gov.br Depois é só clicar rádio ao vivo. O Roda de Choro, Rádio Câmara FM, vai ao ar todos os sábados, às 12h.

Solange Castro – E teu próximo programa, qual será o nome?

Ruy Godinho – O meu próximo programa vai se chamar Talentos Brasileiros, e vai ser veiculado na Verde Oliva FM, emissora do Exército. Conquistei esse espaço lá depois de alguns meses de negociação. Nem estava pensando no Roda de Choro, nem na rádio Câmara. Recebi o convite da Câmara FM, fiz o projeto, o piloto e estreei antes mesmo da Verde Oliva responder. Quando veio a resposta, achei importante a conquistas do espaço e topei fazer mais um programa.

Solange Castro – Já tem dia marcado e horário para esse programa? E ele vai será transmitido pela web?

Ruy Godinho – Ainda não tem data para estrear. E a Verde Oliva FM ainda não dispõe de transmissão via Internet, ao vivo. Assim que tiver essas informações eu comunico.
E eu aproveito para me colocar à disposição dos músicos independentes para fazer divulgação de seus trabalhos em Brasília, junto as rádios e programas especiais que temos por aqui, por amor à causa. Como produtor, o meu mais recente trabalho foi o show de Sueli Costa, no Feitiço Mineiro, em Brasília. Mas também já trabalhei com Celso Viáfora, Nilson Chaves, Xangai, Elomar, Dércio Marques, Antônio Vieira, Jean e Paulo Garfunkel e outros amigos.

Solange Castro – Obrigada, Ruy… Que Deus o abençoe… Nossos usuários podem entrar em contato contigo para enviar seus releases, discos, etc?

Ruy Godinho – Você falou em Deus!! Nós estamos aqui à Seu serviço. E música é uma forma de materializar sentimentos, de estar em sintonia com Ele. O meu trabalho nessa encarnação é de bastidores. Nesta vida vim só para me sensibilizar com a música. Quem sabe na próxima eu toque, cante, componha…
Quem desejar pode contar com nosso apoio aqui. Podem mandar seus CDs e releases para Ruy Godinho – CLN 109 Bloco C Lojas 03/65 Brasília-DF 70.753.520 Fones (61) 349-5656 9983-6216. ruygodinho@promovdf.com.br. Receberei e divulgarei com paixão e compromisso.

Solange Castro – Tenho certeza que terás muitas respostas… Principalmente de Deus…
Além dos programas, quais teus projetos para o ano?

Ruy Godinho – Meus projetos para esse ano? Na área da música, está em primeiro lugar, o AWAPÁ (Torip Maracá). Trata-se da gravação de CD Duplo, 2 documentários em vídeo e song book da música das etnias do Alto Xingu. Estão envolvidos nesse projeto o violonista Jaime Ernest Dias, a arte-educadora Lila Rosa Sardinha, a lingüista Jaqueline França. A proposta é resgatar a música das tribos do Parque Nacional do Xingu, sistematizar, gravar e devolver para os índios mais novos. Hoje eles estão curtindo só tecno, axé, pagode… Não têm Cds com suas próprias músicas. Como os mais velhos estão morrendo, eles temem que a música, as festas e a cultura também se vá junto. A idéia do projeto partiu do Aritana e do Ichamã, que são caciques Kamaiurá e Walapiti. Vou como produtor executivo e diretor dos vídeos. Serão feitas 6 viagens para o Alto Xingu, a primeira em 15.02.03.

Solange Castro – Sim, Ruy, um belíssimo trabalho – em que estágio está o projeto?

Ruy Godinho – Estamos na fase inicial. Como não precisaremos de pesquisa (os índios já sabem o que vão gravar) vamos direto para as gravações. Estamos levando um estúdio completo de áudio para gravar com eles. Quando ficarem prontos, vou reservar para você um CD, um book e os dois vídeos, de presente. O lançamento vai ser em Abril 2004.

Solange Castro – Isso já é um bocado de trabalho para o início do ano… Mais adiante volto a te entrevistar então para você nos dar notícias de como as coisas estão indo… Quero acompanhar teu trabalho… Por hora você deixa então um recado para nossos leitores?

Ruy Godinho – Não precisamos ser nenhum estudioso nem nos aprofundarmos muito para reconhecer que a música brasileira é a melhor e mais rica música do mundo.

Solange Castro – Com certeza, Ruy… Muito obrigada por nos ceder teu tempo – é muito importante para nós termos depoimentos como teu no Alô Música… Que Deus te ilumine e te proteja…

Ruy Godinho – Muito obrigado também, Solange. Formamos uma corrente em que o nosso trabalho é intermediário. Essa corrente começa no trabalho solitário de criação das músicas – que ajudamos a divulgar – e que tem como destinatário um público ávido por música. O brasileiro ama música, é musical por natureza.
Obrigado e muita luz e paz pra você e sua equipe.

Solange Castro – Obrigada você, Ruy, por tudo que vem fazendo por nossa cultura… Te aguardo aqui em Março novamente… Parabéns pelo teu trabalho…
Um beijo.