Ricardo Pessanha e Chris Mgowan

 

Por:  Carla Cintia Conteiro

 

Terceira edição do The Brazilian Sound é lançada nos EUA
Confira a entrevista com os autores, concedida a Carla Cintia
com exclusividade ao Alô Música.

Carla Cintia – O que vocês consideram o ponto forte do livro?

Ricardo – É uma obra de leitura agradável, fácil, sem ser monótona.

Carla Cintia – Como vocês vêem a posição do “The Brazilian Sound” no mundo literário, musical e educacional?

Chris – Eu o vejo como um curso introdutório para estrangeiros que explica todos os gêneros básicos e apresenta os principais nomes da música popular brasileira deste século.

Ricardo – O livro proporciona ao leitor uma visão abrangente da riqueza da música popular brasileira e o posiciona num contexto cultural na qual foi criada.

Chris – Ele também dá uma visão detalhada da grande influência da música brasileira na música internacional, principalmente na música pop e no jazz americanos.

Carla Cintia – O que te motivou a escrever um livro sobre musica popular brasileira?

Ricardo – A idéia surgiu em conversas com o Chris, e foi ele quem levou o negócio a sério e o tranformou num projeto.

Chris – Eu vinha pensando nisso há muito tempo. Há 10, 15 anos, simplesmente não havia bons livros disponíveis em inglês sobre música popular brasileira. Havia alguns trabalhos acadêmicos, mas eram muito limitados. E aí numa noite o Ricardo e eu estávamos num bar e decidimos que era o momento certo. A Billboard aceitou a proposta e começamos nossa pesquisa em 1989, com a primeira edição saindo em 1991. A segunda, pela Temple University Press, saiu em 1998. Foi um grande desafio porque o tema é muito vasto. É muito difícil reunir toda a riqueza da música brasileira em um único livro.

Carla Cintia – O quanto vocês tiveram que pesquisar para esta edição?

Ricardo – Muito. Entrevistas, Internet, pesquisas na minha própria coleção de recortes de jornais e revistas… Eu poderia dizer que levamos quase um ano só recolhendo o material que precisávamos.

Chris – Lemos muitos artigos, centenas de releases mais os livros clássicos sobre música brasileira, trabalhos de Zuza Homem de Mello, José Tinhorão e outras autoridades em música.

Carla Cintia – Como o trabalho foi divido entre vocês dois quando vocês escreveram a versão original?

Chris – Cada um escreveu os seus capítulos, e depois nós trocávamos os textos e acrescentávamos material nos capítulos um do outro. Fizemos algumas entrevistas juntos, mas a maioria fizemos separados. Foi uma boa combinação porque temos gostos e perspectivas diferentes em relação à música.

Carla Cintia – Como você se sente quando descobre que alguém plagiou seu trabalho?

Ricardo – Eu realmente não sei. Por um lado, mostra um reconhecimento implícito do valor do nosso trabalho. Por outro lado, não posso deixar de me sentir intectualmente roubado.

Carla Cintia – Como as pessoas têm recebido o livro?

Ricardo – Eu só posso falar sobre a reação dos brasileiros, e esta foi muito positiva. A opinião geral foi que era um livro único no gênero e que merecia uma tradução para o português, com a adaptação necessária para leitores brasileiros, claro.

Carla Cintia – Como vocês se conheceram?

Ricardo – Nós fomos apresentados por uma amiga comum que naquela época trabalhava na CBS (agora Sony-BMG). Chris estava no Rio para trabalhar em um suplemento especial de música brasileira para a Billboard e ela sugeriu que Chris conversasse comigo para trocar idéias sobre quem deveria figurar no suplemento.

Carla Cintia – Você apresentou a música e os músicos brasileiros para muita gente. Como você a conheceu?

Chris – Aconteceu pouco a pouco. Primeiro, eu tinha um amigo brasileiro na escola e na casa dele eu ouvia discos de samba e bossa nova. Não foi nessa época que o negócio bateu, pelo menos não conscientemente. Depois, na faculdade eu ouvia muito fusion e aí eu descobri Flora Purim e Airto Moreira. Mas acho que o mais importante aconteceu quando ouvi pela primeira vez Native Dancer, do Wayne Shorter com o Milton, na casa do meu irmão. Para mim esse disco é seminal, um dos melhores trabalhos conjuntos de artistas brasileiros e americanos. Ele “resetou” meu cérebro em termos de música. Depois que terminei a faculdade, morei em Fortaleza por seis meses e lá meus amigos me apresentaram a João do Vale, Fagner, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Elis Regina, Gal Costa e muitos outros.

Carla Cintia – Vocês vêm observando a cena da música brasileira já há um bom tempo. Que rumos vocês acham que ela está tomando?

Ricardo – Os rumos da diversidade. É para lá que eu acho que a música brasileira está indo. Antigamente as modas vinham em ondas e durante a passagem da onda só se ouvia aquele gênero musical. Por exemplo, depois da onda do rock, veio a onda da lambada, depois o sertanejo, depois o axé, depois o pagode. Agora tem espaço para todo o mundo, principalmente com a democratização dos meios de produção via computadores e a da distribuição via Internet. Também acho que está havendo uma tendência dos novos nomes misturarem as influências dessas raízes com elementos da música pop. Dois exemplos dessa linha são Mart’nália e D2.

Chris – Creio que essa democratização da produção e distribuição musicais de que o Ricardo falou, combinadas com a desintegração da indústria fonográfica, estão forjando um novo modelo para os criadores de música. Nesse exato momento em Belém do Pará, artistas do techno brega e outros músicos locais gravam sua música com computadores pessoais, e depois permitem que DJs independentes e o pessoal da pirataria vendam seus CDs nas ruas a um preço muito baixo. Alguns desses artistas se tornam famosos da noite para o dia e faturam alto com shows. Assim, centenas de CDs independentes são lançados todo ano em Belém, mais do que o somatório de todos os discos lançados pelas gravadoras tradicionais do Rio. Esse novo modelo está tornando possível o surgimento em Belém de uma frenética mistura que combina diversos ritmos da região, como o carimbó e a guitarrada, com outros gêneros do Brasil mesmo e de fora. O resultado às vezes é bom, na maior parte das vezes não é. Mas creio que no futuro, Belém se tornará um outro pólo importante de criação musical, se elevando ao mesmo patamar de Salvador e Recife hoje me dia.

Carla Cintia – Se você tivesse que escolher 10 CDs para levar para uma ilha deserta, quais você levaria?

Ricardo – Essa é difícil. Vou listar os 10 que vieram à minha cabeça nesse momento, sem ordem de preferência: Chico e Caetano – Juntos ao Vivo, Gilberto Gil – Refavela, João Gilberto – Chega de Saudade, Egberto Gismonti – Dança das Cabeças, Titãs – Cabeça Dinossauro, Marisa Monte – Marisa Monte (o primeiro), Martinho da Vila – Memórias de um Sargento de Milícias, Milton Nascimento – Milagre dos Peixes ao Vivo, Novos Baianos – Acabou Chorare, Jorge Ben e Gilberto Gil – Ogum Xangô, Gal Costa – Fatal, Elis Regina – Falso Brilhante, Fernanda Abreu – Da Lata .

Chris – Meus 10 Mais estão sempre mudando, mas agora eu escolheria João Bosco – Gagabirô, Tom Jobim – Urubu, Marisa Monte – A Great Noise, Alceu Valença – Cavalo de Pau, Paralamas – Bora Bora, Jobim & Elis Regina, Elis e Tom, , Carlinhos Brown – Alfagamabetizado, Gilberto Gil – Refavela, , Milton Nascimento – Clube da Esquina 2, e o primeiro disco do Karnak

 

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http://www.thebraziliansound.com/the.htm
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Janeiro de 2009