Paulo César Feital

Por: Solange Castro

Paulo César Feital é um dos mais consagrados e atuantes autores da música brasileira dos últimos 30 anos. Poeta de sensibilidade ímpar e amante incondicional de nossa Terra Brasil, nos concedeu esta entrevista com tanta lisura que quase podemos “tocar” em sua alma generosa, apaixonada, feminia…
Alma de “poeta brasileiro”…
E nos apresenta sua nova obra, “ofício: brasileiro”.
Obrigada, Feital, pela “Obra” que estás oferecendo a nosso povo…
Obrigada, Paulinho, por estar conosco…

Solange Castro.

Solange Castro – Paulinho, você começou a compor bem cedo – como foi que a música entrou na tua vida?

Paulo César Feital – Aos 14 anos, tive a minha 1º música gravada por Moreira da Silva. Depois percorri os caminhos comuns a minha geração. Festivais estudantis e universitários. Em 1973 iniciei uma parceria extremamente prolífera com o violonista e compositor Cláudio Cartier. Aí… já estava mordido pela mosca da criação…

Solange Castro – Quais foram teus “mestres” para a poesia?

Paulo César Feital – Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Mário Sá Carneiro. Na música, Orestes Barbosa e a simplicidade de Noel.

Solange Castro – Você tem algo próximo a Vinícius de Morais também – estou enganada?

Paulo César Feital – Claro. Vinícius é espelho para a minha geração. Evitei tocar, na resposta anterior, nos contemporâneos. Chico e Paulinho Pinheiro também são duas referências.
Eu tenho uma música em parceria com o Elton e com o Vergueiro que diz o seguinte: “Francisco não era de Assis mas criava seus sabiás/E o som brasileiro pra mim era Tom pra Jobim cantar/Poeta tinha moral/E o povo tinha MORAES e outros tantos pluraes/Esperança de paz/Tão singular”. O poetinha foi a maior tradução da alma e do espírito da minha geração. Concretizava, com seus versos, as emoções, amores, dores, paixões e, como ninguém, compreendia os labirintos do coração feminino. Chico traduz a alma e Vinicius a pulsação.

Solange Castro – Você faz parte de uma geração de compositores que sempre teve o “cotidiano” bem presente em suas obras, coisa que não percebo muito na nova geração – como você vê a “arte” e o “cotidiano”?

Paulo César Feital – A arte é o retrato do cotidiano. O compositor é um missionário que através de sua ARTE denuncia as mazelas ou se cumplicia, nas sublimações as vezes tão necessárias. São quase 25 anos de amnésia histórica. As gerações que sucederam a minha, foram afogados pelo “mar” de mediocridade que inundou a cultura nas últimas décadas. Como culpa-los?? Melhor culpar-nos.

Solange Castro – Não creio que seja “nossa” a culpa – passamos por um processo ditatorial que impôs um abismo entre os anos 60/70 aos dias de hoje… Nos foi imposto isso…
Como você viveu o regime militar?

Paulo César Feital – Concordo em parte com você. Mas o que fizemos contra a ditadura cultural imposta pelos “generais” das multinacionais? Os Migueis, Pierres, Sulivans e tantos outros que tornaram, por exemplo, a década de oitenta a mais árida do século, não encontraram a menor resistência da turma que se auto denominava “dona” do talento nacional. A omissão grassou e a reação, muitas vezes, tornou-se aliada da mediocridade. Alguns por sobrevivência, outros por ambição.

Solange Castro – É, tens razão… A imposição comercial das majors, com total apoio do governo militar, fez um massacre – e nos anos 80 houve a invasão desenfreada da péssima música… Mas será, Paulinho, que conseguiríamos reagir? Eles tinham o apoio do governo e, naquela época, a “indústria” da música brasileira era a quarta economia do país… Será que teríamos alguma chance?

Paulo César Feital – Se o povo brasileiro medisse o tamanho dos riscos não comungaria com a concretização das suas esperanças. Sempre fomos vitoriosos quando não abandonamos o “front” das nossas convicções. Assim o foi quando da ditadura militar. Morremos no corpo e na alma, choramos muito, enterramos nossos meninos, mas jamais perdemos a certeza do futuro. Na ditadura cultural, parece que alguns entregaram a alma ao diabo mesmo.

Solange Castro – É… Um verdadeiro rolo compressor do capital…
Me diga – quantas músicas mais ou menos tens compostas?

Paulo César Feital – Compostas, acho, por volta de duas mil canções. Gravadas, perto de quinhentas.

Solange Castro – Quem são teus mais freqüentes parceiros?

Paulo César Feital – Rs…Na editora da alma. Sô, meus parceiros são amados. Todos, desde aquele mais freqüente àquele que ficou na única. Jõao Nogueira (que saudade do compadre), Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro, Guinga, Cartier, Jota Maranhão, Nelson Cavaquinho, Altay Veloso, Jorge Simas, Gilson Peranzzetta, Roberto Menescal, Sueli Costa.

Solange Castro – É um time respeitável… Quantos discos, Paulinho?

Paulo César Feital – Sou basicamente um compositor e jamais havia pensado muito nessa coisa de disco. Bastava-me o gozo da criação solitária. Em 1990, após um espetáculo (“A Companhia das Ilusões”) o vírus do estúdio pegou-me e de lá pra cá fiz quatro discos. “A Companhia das Ilusões”, “Cenas Brasileiras” com Peranzzetta, “Carta ao Rei” com Jorge Simas e, no momento estou lançando “Ofício Brasileiro” pelo selo MEC-BR. Está no forno e estou amando.

Solange Castro – Oba – isso é ótimo… Mas vamos falar sobre esse lançamento depois…
Você já compôs para teatro e cinema… Nos fale um pouco sobre isso…

Paulo César Feital – É formidável. O teatro é maravilhoso. Acabo de ter uma das mais fantásticas experiências da minha vida. Ter uma peça dirigida por Bibi Ferreira e compor para a mesma. É delicioso. Em relação ao cinema, tive duas experiências, um curta e um longa, e estou a disposição dos grandes diretores(rsssss…). Estou brincando. O cinema é o copião da própria vida. É maravilhoso.

Solange Castro – E os Festivais, Paulinho?

Paulo César Feital – Foi o tempo dos sonhos. Conheci pelos palcos rápidos dos festivais companheiros que até hoje fazem parte da minha vida e, alguns, chamo de amigos. Devo aos festivais, parte da minha formação. Venci muitos, mas é o que menos importa. Os camarins e os hotéis forjaram uma geração inteira. Espero que continuem pelo país.

Solange Castro – Mas os Festivais continuam pelo Brasil afora – e, vira-mexe, tem música tua concorrendo, o que acho uma covardia…
Por conta disso já tivemos uma discussão sobre “os quatro Paulinhos” na RSMB (Rede Solidária da Música Brasileira) – deveria ser proibido vocês participarem…

Paulo César Feital – Já se vão alguns anos que não mando música para festivais. São intérpretes.

Solange Castro – Eu sei, é brincadeira… rs… Mas, convenhamos, vocês são ‘feras’…
Por falar nos “quatro Paulinhos”, você, Tapajós, Viola e Pinheiro são ícones de uma geração – o que achas dos teus companheiros?

Paulo César Feital – Paulinhos são Paulinhos rssss….. Tapajós, Viola e Pinheiro… com um ataque desses eu sou campeão mundial em qualquer modalidade… vão compor assim lá em casa.

Solange Castro – É um time e tanto… Pinheiro e Tapajós muito MPB – Viola ‘sambista’, mas um samba bem MPB… Você circula bem nesse movimento…

Paulo César Feital – Paulinho Pinheiro eu considero uma das cinco maiores canetas do Brasil. Uma inteligência formidável a serviço do resgate da língua . Tapajós, um compositor sutilíssimo e o poeta das transformações. Um cenário metafórico brilhante, mesmo para as mais duras críticas. Paulinho da Viola-Batista de Farias, a alma responsável pela quebra de fronteiras sociais do samba. Um gênio popular do bem pondo a sua genialidade a serviço do brasil.

Solange Castro – É uma geração de respeito… E como você vê a nova geração de compositores brasileiros?

Paulo César Feital – Não consigo compreender a diferença de MPB e samba. Eu circulo bem entre todos porque tudo é uma coisa só. Rock é que não é. Cartola e Tom Jobim seriam parceiros. Agora , Ratos de Porão e Radamés…Rssss….
Teresa Cristina, Kiko Furtado, Yamandu, Pedro Mariano, Nilze, Cris Delanno e Jorge Vercilo, são dignos representantes das variadas tendências da nova MPB. Acho que os herdeiros são maravilhosos.

Solange Castro – É uma boa safra…
Existem inúmeros grandes compositores e artistas novos no Brasil que o Brasil não conhece – o que você acha da ‘máfia” que dita as normas da nossa música?

Paulo César Feital – Acho que o verbo deve mudar de tempo: ditavam. Hoje a produção independente já é uma realidade. Eu gravo o que o meu coração dita. Durante anos esses caras produziram tanta merda que acabaram afogados por ela. Creio que estamos testemunhando o início de novos tempos. As grandes fábricas estão se retirando e os selos independentes já mordem boa parte do mercado. Graças a Deus.

Solange Castro – Sem dúvidas… E a produção independente está de vento em popa – Dabliú, Lua, Azul Music e tantas e tantas outras dando um banho de qualidade – tenho recebido coisas belíssimas aqui no Alô…
Mas de qualquer forma ainda temos muito o que gramar – temos um problema sério a resolver que é o Jabá… Esse é um entrave, pois impossibilita o povo de conhecer sua verdadeira obra…
Você acha que Gil vai tomar alguma providência a respeito?

Paulo César Feital – Os selos pequenos deveriam se unir e começarem a impor novas regras ao mercado, já que ‘abiscoitam” uma parcela considerável do mercado. A hora é essa. O ministro da cultura é um homem de música e sabe que “jabá” é roubo! Creio no governo Lula e na frase ” a esperança venceu o medo”

Solange Castro – Bom, estamos todos esperando as providências de Gil sobre o Jabá – são inúmeros crimes em um único ato – é degradante…
Paulinho, Saigon é tocada diariamente nos quatro cantos do mundo – fora ela, tens cerca de 500 músicas gravadas… Você recebe os direitos autorais sobre tua obra de forma justa?

Paulo César Feital – Gente, tentar, rapidamente, explicar o direito autoral na sua forma jurídica é penoso e sacal. Prefiro exemplos. Pergunto: Se o pagamento dos direitos no Brasil é justo, como explicar que Dona Zica, herdeira de um dos mais gravados e executados compositores nacionais (Cartola) não tenha tido um final de vida tranquilissimo? Pergunto: Os herdeiros de Nelson Cavaquinho deveriam estar muito bem de vida, não? Subam o Morro do Barbante, na Ilha do Governador e perguntem ao seu filho Nelson se ele passa necessidade? João do Vale se despediu da vida após vários shows de amigos para ajuda-lo. Como, meu Deus? Então, cara amiga Solange, se eu fosse viver simplesmente dos meus direitos, mataria minha família de fome. Acho que as autoridades deveriam voltar os olhos com mais seriedade para o problema de evasão das arrecadações. Pra onde vai esse dinheiro todo? Tem gente ficando com o meu.
A Rosinha de Valença encontra-se em estado vegetativo ha dez anos e jamais soube de uma sociedade arrecadadora ou o ECAD que tenha se comovido com tal situação. Pra eles ela foi simplesmente uma fonte enquanto ativa. É UMA CAMBADA!

Solange Castro – E tantos outros, Paulinho – o Edson Frederico passando pelo que está passando, meu Deus – um homem de tanto valor…

Paulo César Feital – É revoltante. Vergonhoso. Não sabem o que é um DÓ e estão todos ricos. Como?

Solange Castro – Mais um trabalho para nosso Ministro – Gil também conhece esse problema bem de perto… Espero que tome alguma providência…

Paulo César Feital – Sô, gosto muito de vc. Estarei sempre a disposição…

Solange Castro – Obrigada, Irmão – se tivermos que nos mexer e pedir providências ao nosso Ministro certamente vamos precisar de todos…
Agora, Paulinho, eis um poeta apaixonado – quais são (ou qual é….) tua maior inspiração para compor?

Paulo César Feital – A alma, o espírito, as lágrimas e sorrisos do meu povo. O Brasil é o meu grande motivo. Amo essa terra, suas formas, geografia, povo. Sua forma feminina, Vera Cruz, é perfeita, materna, láctea, amante, índia, mulata, enfim, a mulher mais bela. Uso e usarei em todas as minhas camisetas, orgulhosamente: Amo-te, Brasil!

Solange Castro – Vixi, Paulinho, como é bom ler isso… Nosso povo tem esquecido de reverenciar essa Terra tão linda… Tomara que com a dignidade com que Lula nos trata essa ternura pela Terra Mãe volte ao nosso cotidiano…
Mas temos muita coisa para mudar… Espero que nós, que vivemos música, consigamos nos unir para que esse quadro ‘negro’ na nossa arte maior clareie…

Paulo César Feital – Esse é o principal e primeiro trabalho do Lula, Sô. Resgatar o amor do brasileiro pelo Brasil. I Love é o cacete. Eu te amo!

Solange Castro – Isso! Lula consegue…
Paulinho, fale agora sobre esse teu novo disco…

Paulo César Feital – Sô, estou apaixonado pela obra… Recebi o convite do selo MEC e topei. Reuni sambas, jongos, valsas brasileiras e marchas. É um disco orgulhosamente tupiniquim. É Brasil puro. São composições minhas com vários e amados parceiros. Sambas com Elton Medeiros, João Nogueira, Carlinhos Vergueiro; valsas brasileiras com Nelson Cavaquinho e Ivor Lancellootti; um jongo lindíssimo em parceria com o Jota Maranhão; uma canção interiorana com Guinga; dois sambas de exaltação com Cartier e Altay e uma marcha rancho com um compositor paraense da nova geração que é o Marco André. Tem ainda um choro em parceria com a Telma Tavares que eu amo. Conto ainda com as participações especialissimas do MPB 4, Guinga, Elton Medeiros, Carlos Malta, da negra voz maravilhosa de Áurea Martins, Cris Delanno e, na única música escolhida pelo selo que foi Saigon, o Vercillo, para juntamente com a Cris representarem a nova geração. Os arranjos são geniais -sete do Afonso Machado, seis do Paulão 7 cordas e um do Wilson Nunes. O disco é lindo…

Solange Castro – Vindo de ti, Paulinho, tenho certeza…
Quando será o lançamento?

Paulo César Feital – O lançamento será dia 17 de Março, às 19:30, na Rua do Lavradio, 20, no RIO SCENARIUN. É um espaço lindo, cultural e lá estarei esperando todos do ALÔ MÚSICA.

Solange Castro – Rs… Juntar o povo todo não é muito fácil – tem um em Brasília e outro em Curitiba, mas eu e Heloisa Tapajós estaremos lá com certeza…
E você vai fazer temporada com esse trabalho?

Paulo César Feital – Sim. Em abril eu devo estar no Rival e depois Mistura Fina. Em São Paulo devo fazer SESC-POMPÉIA e outros.

Solange Castro – Paulinho, o disco está saindo pelo Selo MEC – a distribuição é Rob Digital…
Eles não pagam jabá (o que acho ótimo…) – como vamos fazer para ouvir tua música?

Paulo César Feital – A ESPERANÇA VENCEU O MEDO. Se eles não me tocarem eu canto no meio da rua. Eles perderam a força. Não preciso deles. Preciso de vocês.

Solange Castro – O Alô é teu, sabes disso… Pequenino, mas está dando seu pequeno ibope…

Paulo César Feital – Vocês não sabem a força que têm. Eu sei que posso contar com você, amiga.

Solange Castro – Claro, sempre…
Paulinho, não tens noção da honra que tenho em te entrevistar – muito obrigada…
Gostarias de deixar um recado para nosso público?

Paulo César Feital – Nunca fiquei tanto tempo diante de um computador. Sou um dinossauro. até hoje escrevo a bico de pena. Estar no ALÔ MÚSICA é uma honra para qualquer artista. Um beijo para todos e, especialmente, um para a Solange Castro e outro para a Losinha. Tchau.

Solange Castro – Um beijo, Paulinho… Muito obrigada por tua atenção e por nos ceder essa entrevista. Boa sorte com teu disco e, por favor, envie sempre tuas agendas para que nosso público possa ir assisti-lo… Estamos aguardando tua nova obra…