Pablo Lapidusas

 

 

Por: Cezanne

Em Junho recebi da Delira Música o disco “Ouriço”, de Pablo Lapidusas, e ao ouvir fiquei fascinada… Além de inovar no formato das composições e apresentar um repertório alucinante, ele mostra um outro foco do “piano”, apresentando uma obra conceitual imperdível para os amantes da boa música instrumental. Participações especiais? Só Carlos Malta e Hermeto Pascoal…
Bem, não me senti muito à vontade para fazer qualquer comentário sobre o disco (seria impossível…) e deixei a encargo de Cezanne, nosso novo colaborador, a função de entrevistá-lo… Obrigada, parceiro.., E obrigada, Pablo – parabéns pela sua obra maravilhosa e bem vindo ao Alô Música…

Solange Castro

 

Cezanne – Pablo, conte-me sobre sua vinda ao Brasil. Você era muito novo ainda, certo?

Lapdusas –
Eu tinha oito anos, meu pai era gerente de uma empresa multinacional, viajava muito. Veio ao Brasil em 1983 e ficamos por aqui desde então.

Cezanne – Antes de sua vinda ao Brasil, quando criança, qual foi seu contato com a música?

Lapdusas –
Meu início foi com uma escaletinha, mas era coisinha à toa. Comecei mesmo a estudar música foi no Brasil.

Cezanne – Pela sua biografia você começou em Poços de Calda?

Lapdusas –
Basicamente eu morei em três lugares: Poços de Caldas (da minha infância até os oito anos), depois fui para Campinas estudar música na Unicamp, onde morei por oito anos. Desde 2001 pra cá estou no Rio de Janeiro.

Cezanne – Você trouxe alguma influência da música argentina, ou foi só aqui você desenvolveu esse interesse?

Lapdusas –
Foi uma questão de cordão umbilical… Anos depois em Campinas fui fazer um espetáculo e o diretor me deu para ouvir umas fitas cassetes de tangos antigos, bem coisa de Piazzola – uma unanimidade entre os músicos e pelo público – e aí comecei a ter contato com tangos antigos. Mas no primeiro disco a influência da música brasileira é muito grande.

Cezanne – Já que você falou em tango, o interesse pela música Argentina começou quando você estava na Unicamp?

Lapdusas –
Foi em 97. Estava me formando, e fui convidado para escrever uma apresentação, uma suíte, chamada “Suíte Portenha”,com outras coisas como o tango da “velha guarda” dos anos 20, 30. Daí eu disse “opa”! Nos meus shows eu toco tango, mas nos shows do disco eu toco coisas do disco, pois muitas coisas não funcionam ao vivo, coisas que você simplesmente gravou, registrou e talvez não seja o momento de tocar, talvez mais pra frente.

Cezanne – O que lhe trouxe ao Rio de Janeiro?
Eduardo Dussek

Cezanne – Como assim?

Lapdusas –
Eu tocava num espetáculo em Campinas que era dirigido por ele, e ele falava: “cara, vem pro Rio, vem tocar comigo”. Já tinha me formado em Campinas e estava na hora de sair, buscar novas metas. Então pensei Rio ou São Paulo. Surgiu, assim, a oportunidade do Dussek. Em Campinas mesmo, comecei a trabalhar com Dussek, conheci os músicos da banda, e assim uma coisa leva a outra. Apareceu uma vaga pra tocar na banda do filho do Edu Lobo, o Berna Lobo, que estava lançando seu disco, mas o Continentino não podia fazer porque estava acompanhando Milton. “Quer tocar ?”, disse Berna. Respondi: “claro!”. Peguei vários projetos, e trabalho com ele até hoje. Dois anos depois que comecei a tocar com o Dussek me mudei para o Rio.

Cezanne – E a família?

Lapdusas –
Todos estão em Minas, Poços de Caldas, uai! (rs)

Cezanne – Como se deu essa parceria com Marcelo D2? Foi uma experiência um tanto eclética, não?

Lapdusas –
Trabalhar no meio artístico é circunstancial. Geralmente você conhece alguém que trabalha com fulano que pinta uma vaga em outros projetos, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, que são as “auditions” publicadas no jornal, um dia de prova com um monte de candidatos, pra fazer o teste tocando.

Cezanne – Ainda existe isso mesmo com as facilidades de transmitir arquivos pela Internet?

Lapdusas –
Existe, é uma cultura de alugar um estúdio e rolar um “auditions”. Eu cheguei a fazer um com a Sandra de Sá. Com o Marcelo foi assim: como sou muito amigo do Felipe Basenes, sempre dividíamos trabalho. Ele tocava com o D2 e gravou o aquilo disco acústico. Como estou fazendo agora com o meu disco, ele gravou o trabalho dele e, por ser francês, achou mais interessante iniciar uma carreira solo na Europa. Antes de ir, ele fazia uma ponte Rio/Paris e me colocava como substituto na banda do Marcelo.

Cezanne – Mas como foi a união das notas do seu piano, com a sua formação, com o Rap que é bastante eletrônico?

Lapdusas –
Por exemplo: você já ouviu show que eu fiz com o Marcelo e ainda faço até hoje, apesar de ter feito dois discos depois desse, a base que eu fiz é do show do acústico, e show do acústico tem piano, então na banda do Marcelo eu toco piano, e eu sempre ouvi pop, o Marcelo é um cara eclético, é uma cara que vem do samba, do mpb, do pop é um cara do morro, e isso dá uma química absurda pro trabalho, e os maiores festivais de jazz, eu acabei passando todos esses festivais que eu sonhava em tocar, tocando com o Marcelo, hoje em dia os festivais de jazz pegam coisas muitas variadas e a música do Marcelo tem essa improvisação e a música dela é muito bem vinda lá fora.

Cezanne – Você já começou alguma coisa na carreira internacional pra você tocar nesses festivais novamente, mas solo?

Lapdusas –
Bom, entendo entrar num circuito você teria que ter um disco, e o disco saiu esse ano, você tem um repertório, tem um trabalho, tem uma idéia interessante, e um disco não só um cartão de visita, sem ele você não existe como um artista. Antes do disco estar gravado, eu fiz com o Marcelo uma turnê em 2006 de quase 80 pela Europa, e já sabia dos dias que eu ia tocar e os dias que ia ficar de bobeira, e tentei fechar algumas coisas, então eu toquei em Lisboa num show bem armado, toquei num quarteto, por que o que é caro para um contratante te lavar para Lisboa? A passagem, mas eu já tinha tido isso. Então consegui fazer isso na Europa e na África, eu fui convidado para gravar um disco com uma artista sul-africano, Jimy Blublu, um cara muito conhecido, e pintou uma oportunidade de fazer dois concertos solos, isso antes do disco ficar pronto, agora com o disco é muito melhor, principalmente na Internet, o cd é um proliferador do seu trabalhado no mundo a fora, a carreira internacional com certeza está nos meus planos e o meu cd vai ser lançado em Moçambique. A música instrumental, não tem idiomas, o mundo é muito grande, a quantidade de festivais que tem lá fora, se você entra no circuito e vai bem, você trabalha pra sempre.

Cezanne – Você acha que vai ajudar na sua carreira o fato do Rio de Janeiro ser uma imagem bastante importante no cenário erudita?

Lapdusas –
Eu acho que estou cavando uma carreira digital num lugar que posso muito bem desovar a minha música, a crítica no Rio, tanto no Globo quanto do JB, como de comunicação falaram de música erudita popular, mas é um piano solo com música trabalhada, então acho que isso levou a crítica a falar em música erudita, mas eu acho bacana.

Cezanne – Seu disco tem 10 faixas, uma faixa apenas que não é de sua autoria, a participação é de Ernesto Pascal e Carlos Malta, na ‘Piripiri’ e a “Choro número 1’.

Lapdusas –
O “Choro número 1” tem duas versões no disco, a minha na faixa três e a bônus track, que é só o Malta tocando, que é uma idéia que eu tive do disco do Guinle chamada “Cheia de dedos”, e a última música é o Carlos Malta tocando a mesma música, mas com o arranjo dele e já de cara eu que procurei foi o Malta e eu coloquei versão coreto, porque onze sopros e todos os instrumentos foram gravados por ele, e o Ernesto, antes mesmo de morar no Rio eu conheci ele e bati na casa dele, e ele me recebeu super bem e falei “quero gravar eu vou pagar o senhor”, e ele disse: “mas meu cahê é muito caro, você não vai conseguir pagar, para os amigos eu não cobro”, e foi super generoso, estou bem servido de participação especial, ele chegou com a escaletinha dele no estúdio, quando ele ouviu a música e viu onde tinha que tocar, e no primeiro type que era só pra testar, mas nós gravamos já valeu, aí eu falei: “já foi”
Fiquei até emocionado, ele fez como se fosse um disco dele ou como se estivesse sendo pago, foi uma lição de vida.

Cezanne – Você pode até pensar num futuro disco de autoria das interpretações de Ernesto Pascal?

Lapdusas –
É uma musical complicada funciona muito bem com grupos, em 1986 ele lançou o calendário do som e durante um ano ele fez uma música por dia. Mas eu não sei se eu pensaria em fazer um trabalho.

Cezanne – Você gravou seu disco em dois dias?

Lapdusas –
Gravei em dois dias úteis, no terceiro dia eu fiz uma viagem em turnê com o Marcelo D2 para Buenos Aires, mas quando fui mixar no terceiro dia encontreium improviso e acabei gravando esse improviso, a única parte que não é minha e vale a pena falar é uma música do Edu, e eu toquei isso pra ele, fiz trabalho com ele um DVD de blue, fui ensaiar na casa dele, mostrei “O Canto Triste”, ele gostou bastante e foi generoso, liberou todos os direitos.

Cezanne – Eu ouvi o disco todo e realmente mostra que você é muito eclético e trabalha com notas que não precisa de notas rápidas passeia bem pelos estilos, agora me diga quais os seu ídolos?

Lapdusas –
Um dos meus ídolos foi ouvindo o disco desse cara, que eu bati o martelo em gravar um solo e que muita gente me falava: não grava esse pequeno solo de estréia, porque é complicado, você se expõe muito, grava com trio. Ainda bem que eu não ouvi essas pessoas, ouvi as pessoas certas, e um dos meu ídolos é Brad Nowdown, um pianista americano fantástico. Outro pianista é o cubano, Gonçalo Bucolcaba, sou realmente fã dele, pelo jeito como ele toca piano. Meu tio tinha um hotwailler chamado Bucolcaba. Eu conheci Gonçalo num ensaio dele na Escola Cecília Meirelles. E aqui no Brasil tem muita gente: Tom Jobim, Edu, Chico, Egberto Gismonte, na onda da composição eu sou muito fã do Egberto.
O disco tinha 32 minutos, mas a Luciana, disse: “Olha, adoramos o seu disco, mas ele é curto, grava mais oito minutos”, mas pra mim foi um parto gravar oito minutos e já tava com o projeto fechado, aí eu até perguntei pra algumas pessoas e quem bateu o martelo com isso foi o Marcelo D2, ele disse: “meu irmão, meu disco de maior sucesso é “A Procura da Batida Perfeita” e tem vinte e oito minutos e meio, então você acha que o seu disco é um processo que começou e terminou?”, e eu respondi: “Eu acho, pra mim ele tem começo, meio e fim”, ele disse: “então meu irmão lança assim”. Então eu liguei pra ela de novo, ouve de novo, aí ela disse: “você tem razão, não é um disco longo, não é chato.”

Cezanne – Você falou na questão disco curto, há um conceito das gravadoras que os discos curtos não são vendáveis, na década de 70 e de 80 não havia essa concorrência de Internet…

Lapdusas –
Bem , eu acho uma bobagem porque o que determina o tempo da música é a tecnologia, e hoje eu acho meu na contra mão você querer um disco longo, porque as pessoas querem coisas rápidas, baixar música, as vezes não ouve tudo. E o disco hoje é uma coisa física da tua essência como artista, para você tocar em um festival.