Moska

Por: Solange Castro

Músico, compositor, poeta, ator, intérprete, fotógrafo… Moska é o tipo de artista que encanta em cada gesto, com simplicidade, inteligência, cultura e distribuindo arte por todos os lados…
Em entrevista exclusiva ao Alô Música, ele conta um pouco da sua trajetória artística e fala sobre seu momento atual..

Solange Castro

 

 

Solange Castro – Alô, Moska – você começou a estudar violão ainda bem jovem – como foram teus primeiros contatos com a música?

Moska – Sou de uma família numerosa, pai, mãe e quatro filhos. Sou o caçula. Meu irmão mais velho tocava um violãozinho e vivia cercado de meninas por isso. Sinceramente, acho que foi o que me atraiu pro violão…a sedução. Além disso, meu pai escutava clássico, minha mãe Roberto Carlos, e os irmãos se dividiam em Rock, Mpb e jazz… Fora a empregada que escutava os bregas…

Solange Castro – E quais eram as tuas preferências na época?

Moska – Gostava da mistura, conseguia me divertir com tudo. Cada um dos personagens lá de casa se fazia expressar por esses estilos… Por isso acho que gosto um pouco de tudo. Sempre fui assim. É claro que temos fases de preferências, mas estou sempre de olho em qualidade, independente do estilo.

Solange Castro – Você é auto-didata ou estudou violão?

Moska – Auto-didata… Meu irmão me ensinou as duas primeiras, um amigo da rua mais duas, o primo outra e assim por diante. Depois comecei a comprar aquelas revistas de cifras com canções de sucesso. A diferença é que nos anos 70 e 80 essas revistas traziam cifras de MPB, que fazia um grande sucesso nas rádios. Hoje…

Solange Castro – rs… Quando você começou a compor?

Moska – Aos 13 anos fui pra um acampamento em Campos do Jordão e conheci Andre Abujamra, artista paulista que é meu amigo até hoje. Ele também me ensinou alguns acordes… Quando voltei desse acampamento fiz minha primeira canção: “Kid Pena”. A saga de um cowboy brasileiro sem pé nem cabeça. E aí não parei mais. Eu tinha uma grande atração pelo humor.

Solange Castro – Você iniciou sua carreira como músico no Garganta Profunda – foi no início, em 1984?

Moska – Entrei no Garganta em 85, depois de assistir uma apresentação deles na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), onde me formei em teatro. Foi uma experiência fantástica, porque o repertório era muito variado. De Beatles à bossa nova, do erudito às marchinhas de carnaval… Era como uma continuação de casa… A variedade.

Solange Castro – Sim, o trabalho do Marcos Leite era fantástico…

Moska – Marcos era de uma doçura singular. Um mestre. Me ensinou música com amor nos olhos. Nunca me esquecerei dessa ligação entre melodias e doçura que conheci em seu olhar e delicadeza.

Solange Castro – Realmente – deixou seu marco na música brasileira e muita saudade…
Em 87 vocês fundaram o Inimigos do Rei – um trabalho irreverente, mas bastante profissional – como foi essa experiência?

Moska – O Inimigos era um projeto do Garganta, mas acabou ficando maior que ele, no sentido de espaço, não de categoria. Viajei por todo País por conta do sucesso de rádio que tivemos. Pude conhecer os “brasis” que não imaginava que existiam. Além de ter sido uma loucura conviver com aqueles 13 homens na equipe barbarizando a turnê. Uma diversão inigualável.

Solange Castro – Quais os momentos mais curiosos da tua carreira como músico?

Moska – Toquei no Rock in Rio 2 com Inimigos para 40000 pessoas. Me apresentei em Tokio com meu quarteto Mobile. E agora também estou vivendo algo interessante: uma canção minha entrou para uma novela Argentina e acho que vou dar uma “bombadinha” por lá.

Solange Castro – Hummm…. Argentina tem um público ótimo…

Moska – Toquei em Buenos Aires em Novembro e adorei… Realmente um público muito especial.

Solange Castro – Quantas músicas você já compôs?

Moska – Ao todo? Nossa… Difícil dizer… Nunca parei pra contar. Tem muita coisa pela metade, faltando partes. Gravei sete discos com aproximadamente dez músicas minhas em cada, e devo ter mais umas 50 inéditas no baú. Dessas 50 gosto de 3 ou 4. O resto ainda está no laboratório.

Solange Castro – Fale um pouco das suas parcerias – como é a viagem de compor com um ou mais parceiros?

Moska – Tenho poucas parcerias porque acho que a parceria numa canção tem que ser consequência de um encontro, tem que ser a expressão desse encontro. Nunca compus com quem eu não conhecesse ou admirasse muito.

Solange Castro – O que te inspira pra compor?

Moska – Primeiramente, a vida. Como tema, a busca do EU. As sensações diante da multiplicidade do acaso, a imprevisibilidade da poesia e do tempo, os amores e desamores. A composição e a decomposição dos dias e noites.

Solange Castro – Quais são os artistas e compositores são tuas referências?

Moska – Estou sempre procurando novidades, mas posso afirmar que escutei e acompanhei as carreiras de Caetano, Gil, Chico Buarque, Djavan, Milton… E também Police, Beatles, Bjork, Elvis Costelo… São muitos e sempre. Isso não pára… Tem sempre alguém que nos mostra como ser singular e único de uma maneira nova.

Solange Castro – Você fez cinema – como foi essa experiência?

Moska – Quando estudava teatro, fui chamado pra fazer um teste e passei. Era o filme “A cor do seu destino”, de Jorge Duran. Depois participei de mais oito filmes, entre longas e curtas. Quando o Collor aboliu a Embrafilme, fiquei sem trabalho e aí pintou o Inimigos. O cinema é uma maravilha… Une todas as artes: teatro, fotografia, pintura, música… Não tem nada mais completo.

Solange Castro – O Collor tirou muita gente da arte… Você pensa em voltar para o cinema?

Moska – Tirou muita arte da gente.

Solange Castro – Isso!…

Moska – Trabalhei em um filme no ano passado. O homem do ano, de Jose Henrique Fonseca. Adoro cinema. Gostaria de ser convidado mais.

Solange Castro – Os universos de produção de cinema e música são muito diferentes – para falar a verdade, admiro todos os tipos de produção artística, pois se o público soubesse a maratona que é veria nosso trabalho com mais carinho…
Qual das duas você acha mais curiosa – e qual a mais complicada?

Moska – Isso também é parte da mágica: “como vocês fizeram isso?” O segredo da criação é que faz essa prática interessante. O cinema é o mais complicado, é claro, porque inclui a música. Mas agora estamos também vivendo um momento em que a música já não é mais só som. Ela está se ligando profundamente à imagem, num caminho em direção ao cinema.

Solange Castro – O que você está achando do momento musical brasileiro?

Moska – Acho muito interessante o fato de não termos um movimento unificador. Os artistas da minha geração não levantam nenhuma bandeira, não fazem uma música comum à todos, como na bossa nova, ou na jovem guarda. O que nos une é a diferença, a admiração pela diferença.

Solange Castro – Também acho isso ótimo… Sem contar que somos um “Continente”, cercado de ritmos, culturas e poesias por todos os lados…

Moska – E temos que explodir com essa diversidade, porque assim também é o resto do mundo.

Solange Castro – Nossa música é reconhecida nos quatro cantos do Planeta – aqui no Alô temos contatos com produtores na Europa e Estados Unidos sempre pedindo informações… Acho que o que precisamos é conhecer melhor nossa cultura musical, mas, além de ser difícil pelas distâncias, temos o problema do jabá, que não deixa nosso povo ouvir o que há de melhor por aí…
Por falar nisso, o que você está achando do Gil como nosso Ministro da Cultura?

Moska – A questão do jabá é complicada, porque o país inteiro é um grande jabá, com propinas pra tudo quanto é lado. A rádio é uma pequena parte desse monstro esfomeado. Tem uma coisa no Gil que eu adoro, que é sua popularidade. É muito bom, no sentido popular, que o Ministro da Cultura seja um rosto querido e amado pelo seu país.

Solange Castro – Quais os maiores problemas que você percebe nas profissões de músico, artista e produtor musical?

Moska – Espaços disponíveis. Essa é a grande falta, o grande problema. São muitos artistas “disputando” os poucos espaços.

Solange Castro – Agora nos fale um pouco do teu momento atual…

 

Moska – Gravei meu DVD em Brasília, em dezembro último, mas, como agora sou um artista independente, as coisas andam mais devagar. Estou começando a mixar e editar o material e pretendo lançá-lo ainda este ano, mas não tenho mais a “segurança” de uma multinacional. Estou fotografando também e quero fazer uma exposição e um livro com meus auto-retratos. Uma parte desse trabalho pode ser vista no endereço http://paulinhomoska.multiply.com.

Solange Castro – As multinacionais também já não são as mesmas… Claro que ainda temos grandes artistas contratados pelas majors, mas a ‘massa’ da música brasileira de alto nível está toda independente…

Moska – Crise em grego quer dizer “oportunidade”. Talvez estejamos entrando numa nova era da comercialização da música.

Solange Castro – Sem dúvidas – há dois anos atrás conversei sobre isso com um amigo meu que é Editor – falei com ele para esquecer o formato da produção e comercialização da nossa música, que não era crise e sim uma transformação…
Hoje em dia vejo que tinha razão… Mudou tudo – a produção, a comercialização, os conceitos, tudo… E está mudando aos poucos a ética…

Moska – Claro, mas somos nós que devemos trabalhar para essa transformação.

Solange Castro – Sim… Mas hoje temos a Web como aliada – se levarmos em consideração que o público que tem condições de ‘adquirir’ música está na Web, temos nela um grande instrumento de divulgação… E ‘livres’…

Moska – Eu não saio do computador…(rs)

Solange Castro – Bom, eu também não – rs…
A tecnologia hoje permite que se faça desde as gravações até capa, impressões, artes finais, enfim, tudo em casa… Mas claro que com profissionalismo…

Moska – A tecnologia está permitindo que os “não especialistas” expressem seus olhares.

Solange Castro – Sim… E divulgação e execução – e venda..
Me fala um pouco do seu último disco…

Moska – “Tudo Novo de Novo” tem uma história interessante. As canções foram inspiradas em títulos de auto-retratos que fiz durante a turnê do disco anterior. São fotos do meu rosto refletidas nos objetos de metal dos banheiros dos hotéis em que me hospedei.
Acabei tirando mais de 3000 fotos do mesmo tema. As melhores eu dava nomes. Depois escrevi poemas para os nomes e, finalmente, as canções pros poemas. “Tudo novo de novo”.

Solange Castro – Interessante…

Moska – É um disco de canções simples, com meus jogos de palavras. Uma busca eterna minha de liberar novos sentidos através das palavras. Coisa de poeta vagabundo…

Solange Castro – Vagabundo nada – talentoso, que é bem diferente… Tuas músicas são lindas…
Quando você começou a fotografar?

Moska – Estava em Nova York na semana anterior aos atentados. Voltei pro Brasil no dia 8 de setembro. No último dia de viagem comprei uma câmera digital e, para testá-la, cliquei o quarto do hotel de todas as formas. No fatídico dia 11 fui até o computador para checá-las. E encontrei uma foto de uma torneira em que meu rosto se refletia distorcido. Achei que era uma imagem emblemática, que de alguma maneira expressava um pouco da violência e brutalidade do fato. Depois, durante a turnê, não consegui parar de buscar novas imagens nos objetos de cada hotel em que me hospedasse. Tornou-se uma obsessão que se transformou em inspiração para novas canções cujo tema era de “começar tudo de novo”. Novo de novo. A guerra não saía da TV e dos jornais, e das bocas. E eu comecei a “refletir sobre o refletir”, ou seja, a pensar sobre a luz. Fotografia é luz. E luz é vida.

Solange Castro – Que viagem, Moska… Você não é nada supérfluo com a vida… Gosto disso…

Moska – Eu sou super-fluido.

Solange Castro – Sim… E um artista muito admirado – inclusive por mim…
E turnê – anda fazendo muito show.

Moska – Estou tocando todas as quartas feiras de Março no CCC (Centro Cultural Carioca) na Praça Tiradentes-RJ. Estreou dia 2. É um show de voz e violão que mistura canções do disco novo com sambas que gosto, alguns meus, outros não. Tenho convidados a cada dia. Na estréia foi o bandolinista Hamilton de Hollanda, dia 9 é o percussionista Marcos Suzano, depois tem Mart’nalia, Zé Renato, Murilo O’rreily.

Gostaria de agradecer os “elogios”, sempre deliciosos para a alma.

Solange Castro – Nada de elogios – pura verdade…
Ator, músico, cantor, compositor, fotógrafo – em que mais Moska vai nos surpreender? Algum plano para o futuro (além do lançamento do DVD ainda esse ano)?

Moska – Quero me transformar numa brisa.

Solange Castro – Você é uma brisa, poeta…
Meu doce, muito obrigada por ter nos cedido essa entrevista – foi muito agradável estar contigo…

Moska – Não resisto à uma despedida… Obrigado pelo interesse. Estarei na sua janela quando o vento soprar.

Solange Castro – Vixi… A alma sorriu…

Moska – Gracias, querida.