Jottagá

Por: Solange Castro

 

Jottagá é músico, pesquisador e diretor, e está com o espetáculo “Aquele abraço” pronto para seguir em turnê pelo Brasil. Suas histórias são ótimas, mas desta vez ele preferiu nos falar somente sobre o show, que, claro, está lhe dando muito prazer em realizar…
Com vocês, um pouquinho de Jottagá…

Solange Castro

Solange Castro – Jottagá, que bom você nos ceder esse tempo…
Você está com o projeto “Aquele abraço”, uma releitura super inteligente sobre a Tropicália… Como surgiu essa idéia?

Jottagá – Bem, inicialmente é um grande prazer estar falando com o público do Alô Musica. Este tributo aos Festivais e á Tropicália, surgiu de uma necessidade pessoal. Como tenho um trabalho ligado aos “Musicais” através do grupo Fróide Explica, o qual utiliza a linguagem de teatro musical para levar humor e música ao seu público, senti a necessidade de trabalhar outro tipo de espetáculo. Aproveitando o aniversário da Tropicália, surgiu a idéia de fazer um show, na verdade releituras das grandes músicas daquele período especialmente agitado do Brasil contemporâneo.
A escolha do repertório foi o mais difícil, juntamente com o desafio de apresentar e representar músicas que são verdadeiros ícones da cultura musical brasileira, outrossim, rendemos uma homenagem ao artista plástico Hélio Oiticica o qual acabou contribuindo sobremaneira para o que acabou se chamando de Tropicália.

Solange Castro – Imagino, pois o repertório da Tropicália é riquíssimo…

Solange Castro – Nosso show tem além de uma preocupação de resgate musical, um outro viés que é o da informação. Pesquisamos o período entre anos de 65 a 69, O Ato Institucional nº 5, o livro de Zuenir Ventura: 68 O Ano que não Terminou, várias coletâneas e discos da época… Visitamos Mutantes, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Edu lobo, Caetano Velloso e, fomos aprendendo e apreendendo.
Começou a se revelar um Brasil refém de uma ditadura que começava e sofria a concorrência de fatos externos muito importantes. Alguns dos fatos mais importantes naquele momento foram a revolta da geração estudantil na França, o movimento hippie em oposição a Guerra do Vietnã, a disputa racial nos Estados Unidos, o assassinato de Martim Luther King e de Bob Kennedy (candidato á presidência dos EUA) e muitos outros.
Quando Caetano Velloso, junto com Tom Zé, Os Mutantes, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros, lançaram o Disco Panis ET Circenses, o qual ficou conhecido como “Tropicália”, nome de uma canção de Caetano, o ano de 1968 estava literalmente “fervendo”… A ingenuidade brasileira estava começando a ruir e os “Anos de Chumbo”, logo chegariam na forma do “Ato Institucional N º 5”.
Musicalmente, a irreverência daqueles artistas, levou a música brasileira a gestos verdadeiramente tresloucados, olhando-se hoje para trás. Um dos personagens mais ricos e geniais dessa época foi o Maestro Rogério Duprat, o qual transformou a Tropicália no movimento Beatle nacional… Calma pessoal, é só uma questão de referência. Os arranjos de Duprat, as letras até hoje desconcertantes de Gil, Caetano, a genialidade melódica de Edu Lobo, a força sertaneja do homem da terra sofrendo na cidade grande através de Geraldo Vandré, Tom Zé mandando enfeitar um Brasil “confuso” com bandeirolas cor de anil, enfim, quando Oiticica lança uma exposição com o nome de Tropicália e o Mestre Nelson Motta, chama aqueles jovens cabeludos de Tropicalistas, não se poderia prever que alguns meses depois, Chico Buarque, Juca Chaves, Vinicius de Morais, Gil, Caetano e tantos outros seriam “gentilmente convidados” a se retirar do país. Num momento em que a famosa passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, não discutia apenas melhores condições de ensino, mas tinha entre suas discussões mais apaixonadas a guitarra elétrica na música popular brasileira, juntamente com a trágica morte de um jovem estudante pela PM.
Arrastão em 65, A Banda, Ponteio, Travessia, Lapinha, Alegria Alegria, Canção para Inglês Ver, Só Para não Dizer que não Falei de Flores, Panis et Circenses, Disparada, um repertório instigante, que projeta aquela musica boa e brasileira para o futuro.
Nossa pesquisa nos levou a novos formatos para as músicas, haja visto ser impossível, refazer aquele trabalho e também não vermos razão para imitar o que já havia sido feito com tamanho talento. Uma estrutura simples, em formato acústico é o que utilizamos para levar a nossa contribuição para as Homenagens á Tropicália. Jottagá na Voz e nos comentários, Angélica Rizzi nos vocais, Paulo Dorffman ao piano, Chico Merg ao violão e Dener Zicca na percussão. Uma estrutura enxuta, um cenário psicodélico belíssimo, especialmente criado e pintado pelo artista Ednilson Pissolato, uma receita agradável e muito interessante. Um momento mágico de minha carreira musical que muda, como mutante foram a Tropicália e os Festivais que levaram a música brasileira para o mundo seguindo os passos da Bossa Nova.
Um ano especial, 50 anos da Bossa Nova e 40 anos da Tropicália, um bom momento para lembrarmos, relembrarmos e mostrarmos que a música brasileira já tocou no rádio frases como, “solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedra …” e nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis”…
Precisaríamos de mais quarenta ou cinqüenta anos para poder avaliar a importância do que ocorreu naquele período e hoje é referência e pesquisa musical, para grupos de rock, jazz, e das mais diversas escolas e tendências da música atual.
Não há como não ficar imensamente satisfeito de se poder contribuir, com uma pequena parcela de trabalho, para que possamos oportunizar às novas gerações ao que de melhor se produziu em termos musicas e de idéias naquele momento.
Um período marcado e dos mais emblemáticos que nosso país já passou e, ainda hoje vive social e políticamente os reflexos fácilmente identificáveis daquele momento.
Um passeio no tempo, na vida e na cultura efervescente de nosso país é o que proponho como espetáculo e resgate. Uma verdadeira honra, que podemos compartilhar … Meus agradecimentos aos artistas que nos ofereceram toda essa beleza e, este desafio. Nossa equipe agradece ao Alô Música pela oportunidade e, ficamos a disposição para trocarmos idéias, opiniões, informações e possívelmente, fazermos o show para vocês deste país meio mundão, irreverente e curioso de coisas, boas e criativas. Abraços dos Jottagá.
“Estava á toa na vida e o meu amor me chamou, pra ver a Banda passar…”

Solange Castro – Obrigada, Jottagá – esperamos mais notícias em breve… Até lá, sucesso, rapaz.