João Bani

 

Por: Solange Castro

João Bani é um ser com carisma ímpar: baiano, excelente pai, “maridão”, cozinheiro de mão cheia, “amigo do peito”, politicamente correto, caráter incontestável e musicalmente cheio de ginga… É “percussionista”. Ele coloca toda essa “luz” do cotidiano no set repleto de “baticuns” e faz diferença em qualquer espetáculo…
Como sou fã há desde sempre, não posso falar muito… Leia a entrevista exclusiva que ele (como sempre super gentil) nos cedeu…

Solange Castro

 

Solange Castro – João Bani – percussionista… Em primeiro lugar, obrigada por ter aceito nosso convite…

João Bani – É com prazer que estou no Alô Música, que acompanho há algum tempo no seu trabalho de divulgação do músico brasileiro. É uma honra estar ao lado de músicos que admiro e de vocês.

Solange Castro – Obrigada, Bani – o prazer é todo nosso…
Conte para nós – como você descobriu esse “dom” da percussão?

João Bani – Eu sempre gostei muito de música. Outro dia mesmo estava tentando voltar no tempo e localizar o momento exato na minha vida em que a música passou a ser um elemento do meu interesse. Acho que foi na Jovem Guarda, eu devia ter menos de 10 anos de idade e meus irmãos ouviam muito “IêIêIê” em Salvador. Batucava rock e samba de roda nas paredes, meu irmão Toinho, já falecido, tocava violão. Depois vieram os festivais estudantis em Brasília, eu sempre gostei de escrever e participava com algum êxito. Foi quando num festival do “Colégio Objetivo” ,defendendo um reggae que compus com um colega inspirado no livro “Raizes”, do Alex Haley notei que havia um setup de percussão montado no palco. Não participava da banda, só como compositor (letrista), mas subi e , digamos, “toquei”, ou melhor, tentei tocar congas no reggae que compus. Quando eu vi , na coxia, o Baixinho, percussionista do Moraes Moreira , que faria o show de encerramento, me dando a maior força, apoiando. Resolvi estudar mais o instrumento. Outro elemento importante para isso foi o fato de na época estar fazendo capoeira e ficar mais tocando atabaque do que jogando, na roda.

Solange Castro – Olha – mas assim, de prima? Interessante… Como foram os estudos, quais os percussionistas que te inspiravam, enfim…

João Bani – Na verdade meu primeiro instrumento foi o violão, cheguei a ter aulas. Eu sempre gostei de guitarra, mas nunca tive uma. Ouvia muito Santana, talvez isso tenha me mostrado mais coisas da percussão. Os estudos eram à base de disco na vitrola e bongôs, atabaques, chocalhos e tamborins espalhados pela sala. Eu estudava muito sobre o que fora gravado em vários discos de MPB e Pop e Rock que ouvia nos anos 70/80 por Ari Dias, da Cor do Som, Don Chacal, Sidinho Moreira, Ariovaldo e Hermes Contesini , Peninha, Naná , Raul Rekow, Armando Perazza, que tocavam com Santana, o próprio Baixinho(que tocava com Moraes, Pepeu e Baby), etc, Esses todos foram meus “professores de vinil” .Isso tudo ainda em Brasília.
Em 82, voltei para Salvador, onde passei um ano revivendo a minha terra, Foi muito bom. Lá eu tive boas dicas de percussionistas baianos, como Bira Reis, Tony Mola ( grande músico, tio do Gustavo di Dalva). e Ivan Huol (baterista do grupo Garage). Mas prevaleceu a auto-didática.

Solange Castro – Um luxo, Bani – você toca muito, é uma delícia ouvir teu trabalho…

João Bani – Obrigado.

Solange Castro – Quando começou a fazer da percussão seu trabalho?

João Bani – Em Brasília. Meu primeiro trabalho mesmo foi o primeiro trio elétrico de Brasília, o “Massa Real”, que , mesmo com esse nome de padaria inspirado no frevo do Caetano Veloso que Gal Costa gravou, chegou a fazer um relativo sucesso nos carnavais brasilienses. Junto com Reco do Bandolim( bandolinista, hoje presidente do Clube do Choro de Brasília e um dos maiores nomes do mundo no gênero, Paulinho Moreno, Ivan Sérgio dentre outros. Um ano depois de criado, o Massa Real, até então instrumental, promoveu concurso para admissão de uma cantora, que viria a ser uma das maiores da história da música brasileira: Cássia Eller, que se chamava lá Cássia Rejane.

Solange Castro – Gente eu não sabia disso – rs… Cássia em um trio elétrico, devia ser super divertido e alto astral… E depois?

João Bani – Não esqueço a impressão maravilhosa que tive quando conheci o talento daquela menina de macacão Lee e trancinhas cantando “Debaixo do Barro do Chão” (Gilberto Gil),nos ensaios do Massa Real. Depois, a convite do baterista Roberto Magalhães, que junto com Zéquinha Galvão (irmão do Lula) era “o cara” da batera instrumental na cidade, participei de um show maravilhoso chamado “Afinidades”, do Instrumental e Tal, com a participação da Odette Ernest Dias. O Instrumental e Tal era a junção de duas famílias musicais: Ernest Dias e Vasconcellos. Andréa e Beth Ernest Dias nas flautas, Jaime Ernest Dias no violão. Renato Vasconcellos nos teclados, Ricardo Vasconcellos no baixo. Mais o Roberto na batera, Evaldo no sax. Foi um presente, uma sinalização positiva ser convidado a participar de um show daquele, junto com a campeã Odette Ernest Dias. Hoje, a Deda Ernest-Dias é flauta imprescindível em gravações no Rio. E o André Vasconcellos, filho do Ricardo, se destaca como um dos mais atuantes baixistas em atividade desde os 17 anos… O show com o Instrumental e Tal me abriu portas para novos trabalhos instrumentais e no acompanhamento cantores que faziam shows e bares na cidade. Foi uma geração maravilhosa que conheci.

Solange Castro – Sim, e estou curiosíssima – sei que sua carreira é riquíssima, conte tudo.

João Bani – Bom. Brasília, nessa época, início dos anos 80, tinha uma cena conhecida por todos, que é a do Rock feito por bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial, etc. Cheguei a participar de uma das bandas que se multiplicavam em vertentes de estilo diferente, a Banda 69, que não fez muito sucesso. Paralelamente a isso, a cena instrumental se desenvolvia, com o já citado Instrumental e Tal, e a Banda Artimanha. Havia uma carência de percussionistas na cidade, eu procurei ocupar esse espaço. Fui convidado a tocar na Artimanha, onde aprendi muito do que sei com os demais integrantes Ademir Boka (bateria), Toninho Maya(guitarra), Renio Quintas(teclados) e Jorge Helder (baixo). Esses grandes músicos atuavam no cenário brasiliense naquela época, como também Lula, Sérgio e Zequinha Galvão, Roberto Magalhães, Marcos Teixeira, Toninho Maya, Boka, Widor Santiago, os já citados das famílias Vasconcellos e Ernest Dias, nas noites e na vigorosa Sala Funarte de então fazendo instrumental ou acompanhando cantoras como Zélia (Cristina) Duncan, Rosa Passos, Glória Maria… Eu me arrumava nessa turma e seguia aprendendo… Como faço até hoje. A Sala FUNARTE (hoje Sala Cássia Eller) era um verdadeiro templo, naqueles bons tempos. Recentemente se revitalizou, depois dos tempos cinzentos que viveu na era Collor e na tibieza cultural dos governos seguintes, , mas nos anos 80 havia uma produção contínua de espetáculos, onde artistas locais e de fora se encontravam no palco. Eu participei de muitos. Tinha meses que estava lá em todo fim de semana. Acabava um show, começava a ensaiar outro na segunda feira.

Solange Castro – Bons tempos – depois da gestão da Ana de Hollanda deu uma bela levantada, mas realmente precisamos de mais movimentos culturais para conhecer nossos talentos que estão por aí e não chega ao público…

João Bani – Acho que hoje há muito mais acesso das pessoas às possibilidades de fazer música. Isso tem um aspecto positivo, na medida em que o esforço criativo encontra canais para se manifestar. A música na noite, os bailes, as escolas de música, a educação musical, tudo isso tem que ser estimulado. Os governos mudam a sociedade é que tem que se mexer, pois ela permanece com seus problemas e necessidades. A gestão da Ana foi bem positiva, no que pude acompanhar. Acho que ela fez o máximo que esteve ao seu alcance. Trabalhava diuturnamente para isso, posso testemunhar que procurava ter diálogo com os músicos.

Solange Castro – Sem dúvidas, o trabalho da Ana foi muito sério e importante – levantou a música na FUNARTE de uma forma soberana…
Por falar nisso, você também é um belo ativista político cultural, certo? Vejo sempre você em movimentos importantes, eis um batalhador… Nos fale como você vê a cultura no Brasil hoje…

João Bani – A cultura primeiramente precisa ser entendida na sua abrangência além do que se refere a “arte”. Acho que a cultura precisa ser assimilada como se nosso país fosse uma família, e a cultura fosse a educação familiar. A educação normativa, escolar e os aspectos culturais do nosso povo precisam andar juntos. Eu não separaria a Educação da Cultura. É nosso autoconhecimento como povo, algo mais forte do que somente as manifestações artísticas ou literárias. Bom, assim eu penso, posso estar errado… Mas me atendo aos aspectos de atuação política de artistas na cultura, confesso que acompanho mais o que se refere à música. Participei desde o início de projetos como o CulturaPrev, no grupo de trabalho que o instituiu no Ministério da Cultura junto com a Rosemary e o Dalmo Motta, mas nas Câmaras Setoriais de Música é que tive mais tempo e dedicação em reuniões, projetos e gestões por modificações na questão trabalhista dos músicos, junto a parlamentares, ao lado de craques como o Antonio Adolfo, Roberto Frejat, Giselle Martine, André Novaes, Camenietzki, Claudio Guimarães, Renio Quintas, Guilherme Bricio… Esses eram integrantes do GT Trabalho e Regulamentação que coordenei, e com todos eles aprendi muito. Muitas idéias, um mosaico de coisas boas, mas não houve uma determinação efetiva do governo para que os resultados daquele grande debate fossem adiante. Busquei sempre o ponto positivo da iniciativa das Câmaras, no sentido de que a mobilização que ela gerava, pelo menos fazia diversos músicos interagirem, Brasil afora. Mas foi minguando, sumindo, sumiu…

Solange Castro – O que é lastimável – foi um movimento que mobilizou músicos pelo Brasil afora e Gil sequer deu uma explicação para o esvaziar do movimento… Por falar nisso, qual sua opinião sobre a gestão do Gil?

João Bani – Concordo que foi frustrante, se olharmos o quadro de mobilização de tanta gente no início das Câmaras, ver elas se extinguirem sem um esclarecimento ou uma resposta mais efetiva e respeitosa do Ministério às pessoas que atenderam ao aceno das CS, e dedicaram seu tempo, esforço, parte da sua carreira, a formular políticas públicas às próprias custas, trabalhando na base do altruísmo. Por outro lado, penso que o entusiasmo na área cultural, no primeiro mandato se justificava pela expectativa de então diante do novo governo. A visibilidade que o Gil gerou à sua pasta é inquestionável, e penso positivamente que Gil tentou estimular outro ponto do eixo cultural, buscando equilibrar mais a presença das demais regiões do país com o Sudeste no cenário das políticas culturais. Mas percebo que foi faltando gás. Mesmo assim, foi a gestão que pôde mostrar seus erros. Porque existiu. Já tô falando no passado…Porque notei mais vitalidade na primeira gestão.

Solange Castro – Pois é, percebi… Você já detonou o Ministro – rs…

bani.joaobani@gmail.com diz: Não detonei. Penso que está na hora de mudar. E sair da área de influencia dele, que tem a carreira de grande artista que é, para acrescentar mais ainda à nossa música, e para que o MinC apresente um novo gás. Dentro de um governo com 8 anos de gestão a Cultura é um setor com um dinamismo que comporta esse tipo de mudança sem se constituir em descontinuidade, mas em evolução.

Solange Castro – Bem, mas existe uma legião de músicos empenhados na estruturação da categoria, e você faz parte desse movimento. O que anda sendo feito em paralelo pela música brasileira?

João Bani – Esse movimento passa por debates que se fragmentam em várias iniciativas. Movimentos na internet, abaixo assinados, moções, etc. Algumas repetidas e inócuas. Muita coisa se perdeu ou estacionou na falta de organização dos músicos em torno de suas necessidades coletivas. Na área trabalhista na música, como falei acima, o Fórum de Música pôde fazer nas Câmaras Setoriais um belo trabalho com propostas para uma nova regulamentação para a profissão. Para a profissão, não para o exercício. Porque a OMB, na sua incapacidade de evoluir, de representar a categoria, e que poderia ser exatamente a entidade que nos defenderia e representaria nas nossas questões, simplesmente se constitui numa cabine de pedágio para que o músico pague, e tenha “permissão” para tocar. Inclusive essa questão da “permissão”, sua constitucionalidade, nessas propostas tem um enfoque bastante realista e coerente, que foi estudado exaustivamente pelos fóruns de música. Essas propostas existem, mas a mobilização em torno delas não existe mais. Os sindicatos também estão muito aquém do que poderiam fazer para valorizar a profissão. Há questões sérias no repasse de direitos conexos de músicos acompanhantes, toda uma discussão a nos trazer respostas diante das novas mídias e do direito de propriedade intelectual e o músico precisa se engajar nesse debate para não ficar apenas no final, descobrindo que não sobrou bife pra ele, só um ovinho frito e com a gema furada. Os sindicatos precisam atuar mais na música da noite. O músico é o único profissional que se irrita quando seu conselho de classe chega. Porque a OMB vai a show conferir se o músico tem carteirinha, se está paga em dia, mas o sindicato não vai para ver se os direitos do músico, inclusive nas questões de punições arbitrárias da própria OMB, estão sendo aviltados ou respeitados, nem se as condições constantes em contrato estão sendo cumpridas. Mas nas ações atuais, eu destaco a luta do Felipe Radicetti (com apoio inquestionável do próprio SinMusi, de dezenas de entidades e centenas de músicos dos mais representativos) junto à Frente Parlamentar Pro Musica por incentivos para fabricação e importação de instrumentos musicais, buscando dar acesso aos estudantes e profissionais a instrumentos mais baratos e de qualidade, numa saudável disputa entre a industria brasileira de instrumentos musicais e a importação. Aliás, a indústria de instrumentos musicais brasileiros deu um salto de qualidade depois das importações, do início dos anos 90 para cá, isso é inquestionável.
Mas, pessoalmente estou no momento me dedicando mais à minha carreira. Foram quatro anos entre CulturaPrev, GT Trabalho nas Câmaras Setoriais de Música.. E pouca ousadia musical, um tanto quanto acomodado artisticamente, por ter de dedicar muito tempo ao movimento. Próximo!! A fila anda.. rsss

Solange Castro – Perfeito! Mas estávamos falando da sua carreira e paramos lá em Brasília – como foi sua vinda para o Rio? Ainda temos muita história para ler…

João Bani – Pois então, paramos exatamente na sala FUNARTE, onde participei de diversos shows, num deles com a cantora e compositora Rosa Passos, uma baiana internacional que mora na Asa Norte, em Brasília, com sua bela família. Pelos idos de 95, Rosa resolveu investir na divulgação do seu disco “Festa” aqui no Rio e veio passar uns tempos por aqui, para fazer shows e divulgação.
Junto com ela viemos eu e o baterista Erivelton Silva, integrantes da banda que a acompanhava. Nesse período aqui no Rio, reencontrei um grande amigo com quem já tocara na Bahia, uma referência no meu instrumento, o Marco Lobo, que, tocando com a Marisa Monte, fôra convidado para trabalhar com a Simone, e não podendo atender ao convite, me indicou. Trabalhei com a Simone de 95 até o final de 99. Vários shows pelo Brasil e exterior e um disco gravado ao vivo: “Brasil”. Aqui no Rio, além da Simone acompanhei Marcos Valle, Marília Pêra, Ana Carolina, Tânia Alves, Milton Nascimento, Claudio Dauelsberg e muitos outros artistas, às vezes como sub, outras como titular. Tive muita ajuda de três grandes colegas nas indicações para novos trabalhos: O já citado Marco Lobo, o percussionista Firmino e o mestre Don Chacal. Com Chacal, aliás, integrei o duo de percussão da banda que fez o primeiro show dos “500 anos”, promovido pela Globo.

Solange Castro – Só “feras”… Aliás, acabei de receber o disco do Marco Lobo – liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo!!!
Há quantos anos você está no Rio?

João Bani – Cheguei aqui em 95, trabalhando. Trouxe a família em 97, direto de Sobradinho (DF) para a Tijuca… rsss… Aliás, a Tijuca, com sua “MPBares” foi fundamental na etapa seguinte da minha carreira.
Nenhum músico pode prescindir de buscar diversificar um pouco sua área de atuação, para enfrentar os períodos de “vacas magras”. Assim, eu sempre busquei me entrosar aqui, ainda que acompanhando uma artista consagrada, como a Simone, à época, queria ter minhas alternativas de tocar na noite. Um dos meus irmãos, o Raimundo, que é produtor do Clube do Choro de Brasília, me falara de um cantor que conhecera em São João Nepomuceno, cidade mineira perto de Juiz de Fora, e que morava no Rio. Seu nome era Jorge Vercilo e tocava na noite, etc, a quem eu podia procurar para de repente fazer um som, tocar, me deu o telefone. Liguei para o Jorge e combinamos que eu ia dar uma canja no bar Azul, na Tijuca, onde ele ia tocar no fim de semana. Levei meu Djembé e tocamos diversos ijexás, salsas, coisas que ele curtia, e eu também. Então vieram várias apresentações em casas noturnas. Ele já tinha uma turma com quem trabalhava em shows, o baixista Alexandre Cavallo e o baterista Christiano Galvão. Na noite, eu e o Paulo Renato (tecladista), tocávamos. Da junção de todos, mais o Zeppa e o Sérgio Galvão, que tocavam também com a Simone, surgiu a banda que o acompanha desde 98. Jorge, muito determinado, depois de dois discos na Continental resolveu investir num CD independente, e com essa turma foi gravado o CD “Leve”. Daí em diante ele assinou com gravadora e vieram outros discos, dos quais participamos, e diversos shows Brasil afora. O ciclo dessa banda, aliás, junto com o Jorge, está chegando ao fim, pois a partir de 2008 ele vai estar com uma banda diferente.

Solange Castro – Gente, tantos anos depois… E você, o que está almejando daqui para frente?

João Bani – Estou disponível para novos trabalhos, novos projetos ainda que acompanhando outros artistas. Estou compondo, inclusive com o próprio Jorge, e organizando coisas que escrevi , das poucas composições que tenho, sozinho e em parcerias com o Zeppa, Zé Rodrix, Renato Mattos… Quero gravar e interpretar minhas coisas. Não digo “gravar um cd”, porque de repente posso gravar umas 6 músicas e colocar na internet, enfim. Também quero aprimorar meu workshop de “Percuteria”, através de um vídeo . Sou meio devagar para dar aula, criar uma rotina de ensino, mas gostei muito da experiência dos workshops.
Também há o show do Vercilo com a Leila Pinheiro, que tem uma banda própria e da qual faço parte, que deve ter mais edições nesse ano que se inicia. Como sub do Marco Lobo, faço eventualmente shows com Milton Nascimento, Virginia Rodrigues…
Enfim, a gente vai se movimentando como pode

Solange Castro – O que, convenhamos, é nada pouco – rs…
Olha, gostei muito de saber que você vai gravar composições suas inéditas… Não deixe de avisar para nós, sei que nosso público vai adorar… E gostei muito também da idéia do vídeo-aula. Perfeito!
Bani você deixou de falar do principal: quando vejo um “set” de percussão em cima do palco fico fascinada – fale pra nós sobre esse universo de agogôs e paticuns…

João Bani – A percussão é um universo muito rico na música. Etimológicamente, percutir nos remete ao ato de bater, fazer um contato brusco. Mas nem sempre com destinação de marcar o ritmo. Ela marca o ritmo nos bongôs, pandeiros, tambores de bateria, mas também acentua sons, preenche espaços, ou conduz a melodia, como no caso do vibrafone, marimba..
Eu tenho como instrumentos principais no meu uso atual o djembé, que é um tambor do Senegal e da Guiné, o cajón , de origem peruana, congas, pandeiro, timbaus…Diversos efeitos…Minha assinatura está no uso das vassourinhas com o djembé, o cajón e o timbau, imprimindo novos sons aos muitos que esses versáteis instrumentos já nos apresentam.
Para isso, tenho contado com o suporte do Alejandro Gonzales,que fabrica os cajons que uso. Essa formação instrumental, que consiste num cajón, onde faço os sons mais graves, de marcação do tempo, simulando um bumbo, um djembé ou um timbal, onde , com vassourinha metálica eu faço os tempos de caixa, timbales, e conduzo numa sonoridade entre um hi-hat e um ganzá. Além disso, pratos, blocos, cincerros, pandeirola no pedal, etc… Já em outra formação, que uso quando a banda tem baterista, eu trabalho com congas, timbales, o próprio djembé, moringas, efeitos diversos, enfim.. Não dá pra falar muito não, só tocando pra mostrar… rsssssssss

Solange Castro – E o que mais me impressiona é que vocês percussionistas fazem tudo isso “ao mesmo tempo” – rs…
Maravilhoso, Bani – quando teu vídeo-aula estiver pronto me avise, já tens um compradora… Acho o universo da percussão fascinante…

João Bani – É.. A coordenação é importantíssima. E temos que saber localizar o silêncio, trabalhar as freqüências certas. Num solo de baixo, por exemplo, devemos fugir das freqüências graves, usar instrumentos mais agudos para que o som do instrumento do colega possa soar livre. Percussão tem que temperar com “sabor” e solidariedade. Temos que desenvolver o ouvido, a afinação, o sentido estético naturalmente. O silêncio tá alí para aquele sino. O cincerro, ou cowbell, como queiram tá ali pra agregar convicção, marcar as semínimas se for grave, ou para subdividir tudo, se agudo. O pandeiro pode entrar num reggae só pra ser malandro… A linguagem da percussão é uma coisa muito particular. É um universo especial.
Na verdade não se trata de uma vídeo- aula, ainda. Mas um vídeo onde apresento meu trabalho, para vender meu peixe, tanto para acompanhamento, quanto para gravações e para WorkShops. Mas vídeo aula não deixa de ser uma boa idéia. Vou contar com o “Alô” para isso também!

Solange Castro – Com certeza – seu trabalho é sempre notícia, Bani…
Olha, muito gostoso esse nosso papo – muito obrigada pelo tempo que nos dedicou, foi ótimo…

João Bani – Quero agradecer a oportunidade de falar ao Alô Música, desejar muito sucesso ao site na sua nova etapa. E um abraço aos visitantes do Alô e a todos os colegas músicos. Nossa vida de músico é difícil, mas é feliz. Precisamos de mais união para crescer, agregarmos valor à nossa profissão e importância verdadeira à nossa arte: A música.