João Araújo

 

Por: Solange Castro

 

Temos grandes “mestres” da música de raiz no Brasil – Almir Sater, Renato Teixeira, Carlos Malta e seus pífanos, e muitos outros, que primam pela preservação de nossa cultura. E assim é João Araújo: mineiro inteligente, batalhador, daqueles que compõe, faz o arranjo, toca, dirige a banda, produz, empresaria, enfim, faz tudo. E com maestria, generosidade e muito talento.
Recebemos o “Viola Urbana” e logo em seguida o chamei para uma entrevista, pois fiquei encantada com a beleza do trabalho. Há pouco recebi o
“Violando Fronteiras”, outra obra imperdível,
daquelas que arrepia e faz sorrir/chorar…
Não vou falar muito, ele se falou. Com vocês, João Araújo.

Solange Castro


Solange Castro –
Alô, João – que bom você aqui no Alô Música…
Recebi há algum tempo o “Viola Urbana”, disco lindo, obra imperdível na coleção de quem “gosta” de música brasileira. Parabéns!
Nos conte como começou essa “obra”?

João Araújo – O “Viola Urbana” nasceu em junho de 2004, a partir de um show onde eu comemorava 25 anos de aprendizado na MPB. Desde a gravação de meu primeiro CD, autoral, chamado “Festival”, em 1999, eu tocava profissionalmente na noite de Belo Horizonte e arredores, incluindo festas em empresas também. Uma dessas empresas, a CEMIG S/A (Cia Energética de Minas Gerais), que já havia me contratado algumas vezes, me encomendou um show de música regional, e que eu fosse acompanhado por mais músicos. Não tive dúvida: o melhor acompanhamento para um show assim seria uma viola. Procurei a pessoa que primeiro tinha me mostrado as coisas da viola, Zé Antônio, e o encontrei casado com uma cantora, Marisa Minas, cujo timbre de voz “bateu” imediatamente com o meu. Escolhido o repertório desse show, que eram as músicas que nós mais gostávamos, vi que ali tinha uma história de viola que até então ninguém tinha contado. Imediatamente após o show, a CEMIG se mostrou interessada no trabalho, caso eu conseguisse passar um projeto na Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Encaminhei o projeto, teve aprovação com méritos pelo ineditismo, a CEMIG honrou a promessa, e fui gravar o CD e embasar a pesquisa, pois isso sempre foi o mais importante desse trabalho: a informação cultural que acompanha as músicas, que na verdade são só ilustrações da pesquisa…

Solange Castro – Hummmm… Então nos fale como foi sua formação musical antes disso tudo…

João Araújo – Sou músico prático, comecei em 1979 a aprender violão, por influência de meu irmão Geraldo Araújo, que tocava viola também. Confesso que nos primeiros anos (eu tinha apenas 12 de idade…) não levei muito a sério, porém sempre tive muita facilidade para decorar músicas inteiras, de CDs inteiros também… E até hoje não me esqueço delas, basta começar a lembrar. Isso, e mais um músico tocando sempre em casa foram fazendo a ambientação necessária para que eu fosse me interessando mais e mais, até o ponto que resolvi descobrir as diferenças entre os instrumentos que meu irmão tinha em casa: violão, viola e cavaquinho. Aí, por causa de minha personalidade mais “matemática”, tomei gosto pela música, e não parei mais.

Solange Castro – Interessante – e o que vocês ouviam em casa nessa época? De onde veio essa ‘cultura’ musical?

João Araújo – Nós ouvíamos (e tentávamos aprender) mais ou menos o repertório que hoje se constitui a pesquisa Viola Urbana. Verdade, essa coisa é autêntica: é o que eu sempre gostei mais, e onde mais aprendi com a música. A saber: Elomar, Sá e Guarabyra, Ednardo e os outros do Nordeste, e muita – mais muita mesmo – Banda de Pau e Corda e Quinteto Violado!!!

Solange Castro – Gente, “Quinteto Violado” – que luxo… há quanto tempo não ouço…

João Araújo – Completando, sobre a “cultura”: meu irmão tinha um hábito muito saudável: quando gostava de um músico, comprava o LP, e depois os outros dele que se seguiam, se continuasse gostando. Então, eu quase sempre tinha contato com a obra inteira, e (obsessivo desde criança… rssss) lia todos os encartes, incluindo fichas técnicas, letras, reportagens que saíssem, etc… Eu sempre fui de ler bastante, este hábito “saudável” era meu… rssss…
Luxo? Luxo é o que me aconteceu recentemente: estive hospedado em Recife, na casa do líder da Banda de Pau e Corda, Sérgio Andrade, e passamos dois dias proseando e… tocando! É verdade! Eu, um grande fã dos “caras”, toquei com eles a noite inteira! Isso foi luxo!!!rsss

Solange Castro – Sorte sua – eles são o máximo… Lembro de ainda muito menina ter tido a oportunidade de ouvi-los em Salvador… São de arrepiar, um show inesquecível…
Seguindo – concordo com você: muito do que sei devo às minhas irmãs mais velhas, que me trouxeram a Bossa Nova, The Beathes, Stones, etc. para meu cotidiano..
Foi assim que aprendi a ouvir Tom, Vina, Chico, Gonzaga, enfim, “música”…

João Araújo – São de arrepiar, estão fazendo 35 anos de carreira… E tem uma mensagem de simplicidade que deveria ser obrigatória em todo grande artista… Mas, afinal, só é “grande” de verdade quem é simples, sem estrelismos. Eu acho, e tenho visto muito isso hoje em dia: grande artista, mesmo, só as grandes pessoas. O resto, são os famosos…

Solange Castro – Bingo!!!

João Araújo – Influência e ambientação são primordiais. Ninguém progride na música (e na vida…) se não tiver a humildade de reconhecer que, se alguém não tivesse dado força, no início, a gente não teria conhecido nada, não teria tomado conhecimento das coisas. O “Viola Urbana” tem esse aspecto, mostrar às novas gerações que, apesar de não estarem tão presentes na “grande mídia”, o Brasil tem grandes artistas, grandes trabalhos que mereciam ser mais conhecidos. Pra gente poder amar mais nossa terra, principalmente!

Solange Castro – Então nos fale sobre o repertório e a produção do “Viola Urbana” – quais foram os critérios para a escolha, arranjos, produção, tudo…

João Araújo – A escolha do repertório veio da escolha das músicas que eu mais gostava de tocar – aliás: eu, Zé Antônio e Marisa. Agrupando as canções “preferidas” por afinidade, pra montar o show, percebi que ali tinha uma história de viola, todas tinham a ver com o instrumento, quer seja nos arranjos, quer seja nas letras, ou na temática. E não era a viola “caipira”, de Tião Carreiro e seguidores, mas a viola de 10 cordas sendo usada em vários outros tipos de composições, mais arranjada, mas misturada com tipos de vozes (outra coisa que eu sempre adorei…). Ali mesmo, na organização do repertório daquele primeiro show, eu passei uma noite em claro escrevendo o texto que é a 14ª faixa do CD, a “Saudação de um caipira”. Pensei: como será que um caipira, autêntico, receberia esse trabalho? E comecei a escrever, lembrando das pessoas da terra de meu avô, o “João Pança”, contemporâneo e conterrâneo de Guimarães Rosa (eles são de Cordisburgo, MG, terra onde eu, “Menino da Cidade” ia sempre nas férias). A partir do texto, resolvi pesquisar e procurar dados pra escrever a pesquisa, pois era tanta música boa que eu tinha que ter algum critério. Surgiram daí, e continuam surgindo, os segmentos por onde o nós, o povo das cidades, tomamos contato com as coisas da viola (sempre ela!). Lembrar da influência explícita da Banda de Pau e Corda (BPC) e do Quinteto Violado (QV) rssss … que são os maiores exemplos de que esse instrumento pode ser usado de maneiras maravilhosas.
Voltando ao tema: os arranjos, eu decidi que deveriam ser os nossos mesmo, de anos tocando e interpertando os originais. Com o dinheiro do patrocínio, tive a sorte de conhecer o grande (grande mesmo!) Geraldo Vianna, que topou dirigir respeitando essas minhas convicções: instrumentais simples, arranjos idem, jogo vocal masculino e feminino, CD gravado de maneira que fosse possível tocar da mesma forma, ao vivo, nos shows. Ele só impôs a condição de que fosse eu a produzir executivamente todas as coisas, e que eu estivesse sempre presente a todas as gravações, para que esclarecesse passo a passo o que eu queria, mantendo o foco. (Adorei isso !!! rsssss). Claro, ele deu um nível excelente ao trabalho, não deixando nada ser menos do que merece um trabalho com o nome dele envolvido. E tirou de nós todos muito mais do que imaginávamos que poderíamos ter…
Geraldo é grande. É enorme. Nunca vi ninguém tão doce como pessoa, tão talentoso como músico e diretor, e tão simples. Foi a primeira grande sorte minha.
Continuando, eu disse a primeira sorte, mas minto: a primeira foi a CEMIG, que se interessou, apoiou, manteve a promessa patrocinando e até hoje é grande parceira, dentro das limitações que uma grande empresa tem. Lá, principalmente, eu conheci a hoje minha grande amiga Cecília Bhering, pessoa de grande sensibilidade artística e total apoio aos artistas, que sempre foi a maior aliada nossa. Tem mais uma história interessante, também: na primeira reunião, após o primeiro show (éramos só três: viola, violões e vozes…), a CEMIG quis saber se eu tinha projeto na Lei Rouanet. Eu respondi, sem nem pestanejar, que não tinha ,mas que a partir daquele momento eu teria…rsss Bom, mas eles riram da minha audácia, e disseram que não era assim tão fácil, que eu teria que provar pro MINC (Ministério da Cultura) que ali naquele trabalho tinha algo de valor cultural. Eu respondi que o que eles me pediam era como uma monografia de fim de curso de graduação, e que se fosse possível eu estaria pronto pra defender uma tese de doutorado sobre o assunto… E fui falando, falando, contando as histórias que eu sabia sobre as músicas, as coisas que eu vinha colecionando da memória desde a infância… Só que eles me mandaram ler um livro (“Da Roça ao Rodeio”, de Rosa Nepomuceno)
Bom, no livro a Rosa (que hoje é amiga aqui da internet) dizia que a música regional (ou “sertaneja”) tinha se desenvolvido da roça e chegado aos rodeios. Eu afirmava que não, então me deram o livro e mandaram eu dizer onde ela havia “errado”, na minha opinião… (jogaram o sapo na água, né?). Eu afirmo que, no momento que os “sertanejos” deixaram a viola de lado, pra colocar guitarra, baixo e bateria nas canções pra amplificar sons e contas correntes, aquilo deixou de ser música brasileira, pois no mesmo livro está colocado que a viola foi o primeiro instrumento de acompanhamento a chegar no Brasil – e que continua até hoje, e – acho – continuará pra sempre. Atrás da trilha da viola está a verdadeira cultura brasileira, e não no modelo country americano – que é perfeito, na minha opinião, mas lá na terra deles, com autenticidade, não uma cópia de outras culturas, de outros países. A nossa verdade está aqui, e é tão bela e rica quanto a de qualquer outro país. A Cemig me desafiou, e isso me orientou muito no caminho a seguir na pesquisa. Também uma afirmação – que não sei se é verdade, não consegui contato com o Sater pra confirmar – de que Almir Sater haveria dito que ele, Sater, não é caipira – não ara terra, não cria gado, nada disso – mas que se quisessem chamá-lo de caipira, tudo bem, pra ele seria uma honra. Pensei: se o mais famoso tocador de viola não é caipira, ele então é…URBANO, ora!!! Daí nasceu o nome “Viola URBANA” – a influência da viola caipira na Música Popular Brasileira – aquela que os urbanos, como eu, conhecem…

Solange Castro – Uai – mas Sater é fazendeiro, tem um trabalho incrível com o meio onde vive, sua esposa toca uma escola de primeira para o povo da terra…

João Araújo – Defendo a tese de que Sater não coloca “a mão na massa”, não foi criado na roça, nem pode fazê-lo mais até porquê seus dedos valem muito para o Brasil, para ele se arriscar em algum acidente; Sater, além de tudo, toca uma viola de maneira muito mais esmerada, incluindo aí até toques de blues, jazz, e algumas escalas dos clássicos. Apesar de ser “aluno” e “seguidor” de Tião Carreiro, seguiu seu próprio jeito de tocar, inovou, cresceu (e apareceu nas novelas, mostrou a cara bonita… rsssss) . Fez o que todo artista tem mesmo que fazer, criou seu diferencial, e aproveitou as oportunidades que teve. Só critico o fato dele ser muito reservado, principalmente quanto aos outros artistas, e quanto à música e culturas brasileiras como um todo. Ele fica na dele, tem direito. Mas lembra daquela história de ser grande? Quem chega lá, ao se lembrar da luta que é pra conseguir espaços, e é grande, normalmente procura dar força aos outros, procura fazer algo pelas instituições a que pertence – no caso, a música – e pelos que estão começando. E chega, não quero me complicar com o cara, afinal sou fã dele, e a música dele merece muito ser divulgada às novas gerações também!

Solange Castro – O trabalho do Almir é lindo, de grande importância no acervo musical da nossa época, certamente também sou fã… Mas voltando à concepção do “Viola Urbana” – a formação do Grupo, como aconteceu?

João Araújo – Então… Começamos com o Zé Antônio, que me ensinou a tocar as primeiras coisas, lá atrás. Quando nos encontramos, pra fazer aquele tal show, vimos que isso tinha 25 anos, já, e resolvemos fazer o show como comemoração. Por isso o repertório era (e ainda é) das nossas preferências. Ensaiando na casa dele, ouvi a Marisa Minas cantando, vi que nossas vozes batiam, e convidei pra fazermos juntos, nós 3 – assim eu poderia brincar mais com as vozes, e não só ficar cantando tudo em primeira voz – isso eu já fazia nos bares e afins, estava cansado. Achei que era necessário colocar percussão, e tinha um ex-aluno de violão que me acompanhava em algumas festas tocando percussão (pra você ver que péssimo professor de violão eu sou… rsssss). Era o Ronan Peres. Achei que essa história de três gerações de aprendizado juntas daria boa mídia… rssss… Ledo engano… Essa foi a formação inicial, e com a qual gravamos o CD…

Solange Castro – Pulamos um abismo nessa sua história – você é “professor” – qual sua formação musical?

João Araújo – Criei um método de acompanhamento e orientação ao ensino de música popular, com o qual fiz duas oficinas numa escola particular aqui de Belo Horizonte. Conteúdo extra-curricular, para o segundo grau. Sou músico prático, como eu disse, a idéia era aplicar meus conhecimentos de praticamente auto-didatismo para direcionar aprendizes, mostrando alguns atalhos no aprendizado, tudo baseado na minha experiência. Dessas oficinas, entre outros, saiu o Ronan, que seguiu em frente e foi aprender na escola de música do Palácio das Artes – instituição renomada aqui de Minas – chegando a tocar em orquestras. Mas ele, como eu, é popular, só se arrepia mesmo é com as coisas da música popular; os clássicos são ótimos e lindos, mas a emoção está no popular. E o desafio também, pois a beleza contida na simplicidade é algo que os eruditos não conseguem aprender nas partituras… rsssss… Lá vou eu, me complicando de novo… rssss

Solange Castro – Você não está se complicando, apenas falando da sua experiência com o povo do seu habitat natural… Prá lá de compreensível e aplaudível – você está falando da NOSSA cultura popular… Bingo!

João Araújo – Eu sei, só estou sendo engracadinho. Perco a matéria, mas não perco a piada…rsss Essas polêmicas são históricas: Eruditos e populares, Caipira raiz e sertanejos…

Solange Castro – Pois aqui não perdes nem a matéria nem a piada… A casa é sua!
E você, o que “se” diz?

João Araújo – Tem 28 anos que estou tentando aprender, e com isso aprendo todo dia. Músico popular, de formação “semi auto-didata”. (Ou seria melhor dizer “cara-de-pau?”.rssss). A Ordem dos Músicos diz que sou músico, o ECAD diz que sou compositor e produtor fonográfico, mas a gente não pode acreditar em tudo que eles falam, né ? (rrrssssss, definitivamente, rssssss !!!!)
Sou um artista. Desde que nasci. Nasci pra sê-lo.

Solange Castro – Isso! E podemos vivenciar esse seu “dom” ouvindo “Viola Urbana” – belíssima obra…
Agora você está trabalhando o próximo disco, certo?

João Araújo – Certo, estou entusiasmado e louco pra falar disso. Lançamos no dia 06/07/07, aqui no Palácio das Artes (BH/MG) um CD de coletânea de trabalhos de 4 grupos de música com propostas semelhantes: Viola Urbana (MG), Viola Quebrada (PR), Violeiros Matutos (SP) e Moxuara (ES). É uma idéia inovadora, de somarmos as forças para distribuição e multiplicação de públicos; estamos bancando a produção, que é independente (ou melhor, “dependente” de tudo, principalmente da grana, que ninguém tem o suficiente… rssss). Neste trabalho, três faixas de cada grupo retiradas de trabalhos já prontos, e uma que é jóia rara: compusemos uma faixa com a participação de todos, desde a letra (feita via Internet, simultaneamente) às participações de vozes e instrumentação de cada grupo, que foram gravadas em separado, nos respectivos estados, e daí eu peguei tudo e compilei aqui em Minas, ficou uma coisa linda !!! E forte, com a soma das energias de todos. O movimento, o CD e a faixa se chamam “Violando Fronteiras”, que pode ser conferida na íntegra no nosso site, o www.violaurbana.com. Ah, e temos a participação muito especial de uma faixa cedida por uma banda de Recife, adivinha quem? “Banda de Pau e Corda!”.

Solange Castro – O Disco é “IMPERDÍVEL”! Lindo! E como sou brasileira de carregar bandeira, arrepiei e chorei… É muita beleza. Parabéns e obrigada…
E o Quinteto Violado?

João Araújo – O Quinteto Violado nunca me deu retorno. Explico: Quanto o CD “Viola Urbana” ficou pronto, enviei – pelos contatos que consegui – um exemplar para cada homenageado e citado na pesquisa, como agradecimento à influência e ao legado deles à música brasileira. Alguns deram resposta automática (30 dias depois do CD ficar pronto, estávamos gravando o programa Sr Brasil, de Rolando Boldrin, lá em Sampa, com passagens aéreas e hospedagem em hotel de luxo!). De outros, até hoje aguardo resposta…
O Sérgio Andrade, da Banda de Pau e Corda, eu não tinha contato nenhum, achava que eles tinham parado de tocar. Até o Boldrin, no dia em que gravamos, me perguntou sobre eles (veja que gravamos duas músicas da Banda de Pau e Cordas no CD Viola Urbana, e eu disse a Boldrin que não sabia deles, que tinha gravado exatamente pra não deixar trabalho assim tão bom ser esquecido…) Pois não é que um dia me chega um e-mail do próprio Sérgio, agradecendo a homenagem feita e elogiando o CD? A partir de então, começamos a trocar e-mails (viva a net!!!) até que veio o convite para eu ir até Recife, conhecer a BPC de perto. Ja´que eu estava lá mesmo, “passei um verniz na cara de pau” e pedi pra eles uma faixa, pra constar desse projeto Violando Fronteiras, pois somos todos fãs deles, e eles, com tantos anos de carreira, são nossos maiores modelos a seguir. Em tempo: O Quinteto ainda está ativo, tem site e fundação, mas lamento muito em informar: tiraram a viola de 10 ccordas da formação, e estão usando um teclado eletrônico… triste, não ? Virou “Quinteto IN-violado” rssssss… Ou melhor, talvez : virou Quinteto DES-violado…

Solange Castro – Vixi, é uma perda e tanto…
O “Violando Fronteiras” terá turnê pelo Brasil?

João Araújo – Músico “in-dependente” não marca turnê! Vai aonde é convidado, com um mínimo de pagamento. Não dá pra marcar shows “no risco”, ainda mais com quatro grupos, mais de 20 artistas envolvidos. A logística é complicada, e cara, não dá pra sair arriscando. Estamos tentando patrocínios, cada um está “na luta” em seus estados.

Solange Castro – João, você além de músico, diretor, pesquisador, etc. pega pesado na produção – como é a vida do músico realmente independente no Brasil?

João Araújo – A vida do músico independente: eu diria que é loucura, ou amor demais à arte. Os espaços são mínimos, e já bastante “ocupados” pela música comercial. É preciso ter muita garra, muita coragem e muito senso de administração, pra não embarcar numa canoa furada. E muita criatividade também, para continuar lutando. É preciso projetar a carreira para semear agora, e começar a colher a partir de cinco anos depois, ou mais. O momento está mais propício, o “esquemão” comercial está cada vez mais falido, mas ainda há muito o que lutar pelos espaços.

Solange Castro – É muito difícil mesmo… Vocês em Minas Gerais conseguem algum tipo de divulgação espontânea para os shows na imprensa convencional?

João Araújo – Eu não posso reclamar da nossa mídia. No show de lançamento do Viola Urbana, ano passado, tive mídia espontânea dos maiores jornais, dos programas de TV afins (música regional) e até alguns programas de jornalismo, como o Globo Horizonte, abriram espaço. Mas eu tive como pagar, na época, uma ótima assessora de imprensa (Márcia Francisco), e era o lançamento de um CD que Boldrin já tinha “dado a benção” no programa dele alguns meses antes. Mas esse não é o caso da maioria, me sinto um privilegiado. Por isso falei sobre senso de administração: é praxe ter espaço nos lançamentos de CD, e é preciso saber o que a mídia gosta de mostrar. No lançamento do Violando Fronteiras, agora, também foi legal; mas tínhamos para divulgar uma coisa inédita no Brasil, a união dos grupos, e isso sendo comandado daqui, editado aqui, lançado aqui… A nossa mídia tinha mesmo é que apoiar, não é certo? Fora esses casos, é muito difícil, os artistas têm que ficar insistindo, sugerindo pauta.

Solange Castro – Olha, João, creio que você fez a coisa certa, que é contratar um assessor de imprensa – a divulgação de qualquer produto tem que ser feita por profissionais especializados e isso tem que estar embutido no investimento final… É muito delicado recebermos materiais de forma extremamente amadora, é muito desagradável…

João Araújo – Pois é, isso é bacana, é o que eu falei sobre criatividade e sobre administrar bem. Só que é preciso ter o que administrar. Eu me considero privilegiado porquê o Viola Urbana vende bem, então eu redireciono o lucro nos investimentos para o trabalho. E ele vende bem (pros moldes dos independentes) porquê foi feito com esse propósito também, além de divulgar nossa cultura. Se não vender, não chega até o povo, aí não adianta nada ser sonhador, idealista.

Solange Castro – Bingo! Coca-cola só vende mais que guaraná porque anuncia mais… E guaraná é muito mais gostoso do que a coca, isso dito por 90% das pessoas que pergunto…
Parabéns! Vocês estão no caminho certo…

João Araújo – Eu estava entre os 10%, preferia o sabor da Coca-Cola. Mas já parei de beber, faz mal e vicia. Obrigado pelos parabéns, mas é preciso colocar que não “estamos”, na verdade “eu estou” (acho que estou). O Viola Urbana não deu certo como eu sonhava, que seria uma soma dos esforços dos quatro. E isso é bom comentar porquê serve como alerta aos artistas: quem não se organiza, não projeta a carreira, não guarda do pouco que ganha para investir, e não aprende a “dançar conforme a música”, com criatividade, não consegue sobreviver com dignidade, mesmo que tenha muito talento.
Explico mais: Hoje, o Viola Urbana é um trabalho meu, onde “convido” (na verdade, contrato) bons músicos para me acompanhar. Quando acho que vale a pena, pago a eles e não ganho nada, fica como investimento. No futuro, se esse investimento der certo, eu colherei os frutos. Acho que assim é mais justo, inclusive porquê sempre fui eu quem acreditou e investiu maios, e a pesquisa é minha.

Solange Castro – É isso, João – admiro sua lucidez, apesar de nitidamente você ser um homem super emotivo… Que bom você…
Agora vamos a algumas curiosidades: quem você tem ouvido ultimamente?

João Araújo – Nossa, tanta coisa… Tenho pesquisado novos tipos de sons de viola, para a continuidade da pesquisa. Consegui alguns trabalhos de um carioca “arretado”, Roque Ferreira, que usa viola de 10 cordas no samba – um item a ser incluído na pesquisa Viola Urbana, desde que o “calangueiro” Martinho da Vila passou a fazer samba – e também – pasme!- viola de 10 cordas tocada lá no Rio Grande do Sul, pelo meu amigo da Internet Valdir Verona, professor de viola e violão, que acabou de gravar uma maravilha com viola e acordeon, com seu parceiro Rafael de Boni. Enquanto descanso, vou carregando umas pedrinhas… E tem um monte de coisa bacana aqui pra ouvir ainda, que me chega por causa da nossa querida Internet!

Solange Castro – Sim, mas nessas suas pesquisas nem adianta você citar porque raramente nosso público terá acesso… Mas encontráveis nas prateleiras (virtuais ou não), o que você recomenda?

João Araújo – Uai, esses caras estão aí, na luta. Roque Ferreira e Martinho da Vila são bem comerciais (Roque é um dos mais solicitados compositores das músicas de Zeca Pagodinho). Seu público é esperto, e basta um cliquezinho no Google para achar os caras. Aliás, todo mundo já está lá: Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Almir Sater (este está com o site inativo, mas está nas prateleiras…), Banda de Pau e Corda, Quinteto Violado, etc. E no site do Viola Urbana tem um monte de violeiros mineiros que eu ajudo a divulgar, aqueles que tem trabalhos gravados mas não tem ainda distribuidora, nem gravadora. Muita coisa boa, difícil de achar nas lojas, mas que com um pouquinho de busca a gente encontra. Pra sair do que a mídia comprada quer impor, é preciso garimpar um pouco… Mas eu garanto que vale a pena!

Solange Castro – Está certo – é como disse o Dôdo: disco bom se compra em livraria – rs…
E show, qual que você recomenda?

João Araújo – Show? o do Viola Urbana, uai! Claro! Rssss
Falando sério, tem gente que se esmera para apresentar um show ao público (é nesses que eu me espelho). Claro que, quando se fala em entretenimento, é lógico que o gosto individual prevalece. Quem ainda não viu, e tiver chance, vá pelo menos a um do Elomar, por exemplo, que cada dia está fazendo menos shows, infelizmente. Ele é a voz do sertão (um Guimarães Rosa ao violão, como eu sempre digo) e é um Brasil diferente que o Brasil precisa conhecer. Não sei qual o perfil do seu público, mas aconselho a todos que, de vez em quando, tente acrescentar um pouco de cultura também ao entretenimento, procurar conhecer um pouco mais o Brasil através da música. Temos muita coisa boa pra ser vista, e artistas de primeira, que não ficam devendo nada a ninguém de nenhum lugar do mundo.

Solange Castro – Bem, por partes: show de Elomar é imperdível e o público do Alô, tenha certeza, é de ponta… Quem está por aqui quer cultura, Brasil, “música”, arte, você.

João Araújo – “Bão”, já falei demais, né ? Abusei. O principal está aí, o Viola Urbana continua na luta, levando música e cultura até onde conseguirmos. Estamos buscando os meios que existem, principalmente das Leis de Incentivo, e os meios de divulgação que nos abrem espaço. Procuro patrocínio para o segundo CD (projeto pronto, aprovado) que terá mais ou menos a mesma cara do primeiro, só que pretendo gravar ao vivo, que é um desafio legal de ser cumprido por todo mundo que se propõe a fazer música. Pro futuro, tem mais uma série de segmentos da pesquisa a explorar, estou fazendo isso com muito carinho e esmero. E, paralelamente, estou escrevendo um livro sobre meu avô, que viveu e morreu em Cordisburgo / MG, terra de Guimarães Rosa – um monte de histórias muito divertidas do velho, que era cachaceiro, violeiro, contador de piadas e “falador” de muitos palavrões (não necessariamente nessa ordem… rssss…).Falecido em 1979, até hoje se fala dele lá na cidade. Depois, termino de contar as minhas histórias de músico da noite, que comecei com as crônicas que estão no meu site, www.joaoaraujo.mus.br … Depois ? Um dia quero escrever a saga do Viola Urbana, completa, até onde eu chegar. Só que tenho que chegar lá primeiro, né ? Senão não tem graça contar.
Mas que é uma história e tanto, isso é!

Solange Castro – Ela começou a ser “digitada” aqui – quanta honra – rs…

João Araújo – Como eu disse, é bem raro termos um espaço assim tão bacana, que nos deixa tão a vontade. Parabéns, só posso agradecer. A honra é minha!

Solange Castro – Eu ia perguntar do futuro, mas você já está lá em 2050…

João Araújo – Teve alguns momentos nas últimas respostas em que achei que você ia dizer de novo : “Bingo!”…Mas não aconteceu…rsss É verdade, eu estou lá na frente, e minha ansiedade você pode imaginar! Mais uma história interessante: quando eu estava com a primeira turma, eu alertava: “olha, não vão desperdiçar sonho: não coloquem como meta tocar no Palácio das Artes, pois é muito pouco pra sonhar, está muito perto”. Se forem sonhar, sonhem em tocar no Carnegie Hall, a maior casa de espetáculo do mundo, assim demora mais a chegar, mas é uma meta maior. E dito e feito: hoje, depois de dois anos apenas, já tocamos no Palácio das Artes. Se fosse essa a minha meta, o que eu faria agora? Encerraria a carreira?

Solange Castro – Nem pense nisso…
João, planos até o final do ano…

João Araújo – Conseguir patrocínio para o segundo CD, via Lei Rouanet, que nos beneficia com descontos no imposto de renda para as empresas interessadas em patrocinar cultura, que recebem, além do incentivo fiscal, 30% dos produtos criados pelo projeto e a divulgação da logomarca em todo o material envolvido, quer sejam as capas dos CDs ou os materiais de divulgação, como cartazes, banners, matérias de jornal, tv e rádio, etc. Além da minha eterna gratidão e testemunho, que são autênticos – vide a citação da CEMIG em todas as minhas entrevistas – pois acho justo e é espontâneo de minha parte.
Também quero dar uma investida nos estados dos parceiros do Violando Fronteiras (Paraná, São Paulo e Espírito Santo). Com o apoio deles lá, (e o meu aqui, em Minas) estamos tramando esse intercâmbio, pretendendo visitar-nos mutuamente pelo menos uma vez por ano. Acredito que, a partir do terceiro ano, já teremos um público comum bem legal nesses estados. Mas é preciso investir primeiro, claro.

Solange Castro – João, em primeiro lugar, obrigada pelo teu trabalho – você é muito talentoso, super esforçado, inteligente, bem humorado, tudo de bom. Mesmo!

João Araújo – Ok, por mim está certo. Muito obrigado mesmo pelo espaço, e pela excelente conversa. Foi um grande prazer, e uma honra ter participado. Sempre que quiser, estou às ordens. E parabéns e muito obrigado mesmo pela defesa das nossa coisas, com ética, profissionalismo e bom humor !

Solange Castro – Não deixe de nos informar pelas suas andanças pelos palcos da vida, nosso público agradece…
Parabéns Você…

Agosto de 2007