Gerli Goldfarb e Haroldo Goldfarb

 

Por: Heloisa Tapajós

 

A cantora Gerli Goldfarb e Haroldo Goldfarb  falam para os leitores do “Alô Música” sobre suas trajetórias individuais e sobre o CD “O lirismo de Paulinho Tapajós”, que gravaram em homenagem ao compositor, em entrevista concedida a Heloisa Tapajós.

 

Heloisa Tapajós: Gerli, você atuou bastante no cenário musical de Londrina até mudar-se para o Rio de Janeiro em 1980, após a gravação de um compacto simples com músicas de sua autoria. Aqui você trabalhou bastante em estúdio e palco. Como foi esse período profissional?

Gerli Goldfarb: Após fazer muito palco e TV em Londrina com meus irmãos, num conjunto vocal, vim ao Rio, a convite do produtor Adelzon Alves, para gravar esse compacto pela CBS e escolhi o Rio para viver somente do que eu mais gostava: a música. Por isso, fui buscar a sobrevivência naquilo que que eu já tinha prática: jingles. Comecei pelo estúdio Verbo, depois Moinhos, DC Vox, Multimix, Blue Light, Full Time, etc numa época em que a produção de comerciais no Rio era muito concorrida e de grande qualidade. Paralelamente, participava de coro nos LPs de artistas famosos, como Beth Carvalho, Gonzagão (Luiz Gonzaga), Lobão, Tim Maia, Carlos Lyra, Xuxa e vários outros. Nesses coros eu atuava ao lado dos Golden Boys, Os Fevers, Roupa Nova e As Gatas. Foi uma época muito feliz e eu gostava muito de estar em estúdio. Esse tipo de trabalho foi escasseando com os planos econômicos, de infeliz memória… Cantei em alguns bares e fiz percussão em shows com Carlos Lyra e uma temporada com Paulo Diniz na Funarte. Até que um dia, no final de 1993, eu estava fazendo parte de um vocal para o lançamento de um LP no Asa Branca e o pianista era o Haroldo Goldfarb. Foi amor ao primeiro som. Não paramos mais de cantar juntos. No palco e na vida.

Heloisa Tapajós: Muita identidade na vida e na arte, né? Haroldo, você também tem sua trajetória individual como pianista profissional desde o início dos anos 1980. Quais são os artistas com quem você vem atuando desde então?

Haroldo Goldfarb: Na verdade, a noite foi a minha maior escola. Desde que voltei ao Brasil comecei a tocar em bares, hotéis, gafieiras festas particulares e eventos em geral. Queria beber na fonte. Após algum tempo ,já me sentindo mais preparado, as coisas foram acontecendo de forma natural. Dentre os artistas com quem trabalhei, posso citar Billy Blanco, Paulinho Tapajós, Alaíde Costa, D Ivone Lara, Claudia, Perla, Jerry Adriani, As Cantoras do Rádio, Claudia Telles, Leny Andrade, Ithamara Koorax e Tito Madi, esta grande personalidade da nossa música com quem venho me apresentando nos últimos tempos. Enfim,sou muito grato a todos esses grandes artistas pelo convívio, que para mim foi muito enriquecedor.

Heloisa Tapajós: O primeiro projeto musical de vocês foi o show “Mel e Espinho”, com um belíssimo repertório, né?

Haroldo Goldfarb: Esse tema foi tirado de uma canção hebraica que também fazia parte do show. Era um número que cantávamos juntos. O show era dividido em três partes. A primeira, abordava o amor, com canções de Chico Buarque, Claudio Nucci, Djavan… Na segunda parte, já vínhamos com uma mensagem social, latino-americana, e aí cantávamos Mercedes Sosa e, novamente, Chico. Por fim, finalizávamos falando da vida, com canções de Ivan Lins, “Mãos”, e agradecendo, com “Gracias a la vida”.

Heloisa Tapajós: Vocês vêm atuando em palco com o Paulinho (Tapajós) desde o final dos anos 1990. Foi dessa convivência musical que nasceu a idéia de gravar um CD exclusivamente com canções dele?

Haroldo Goldfarb: O convite nos foi feito pela Marcia Salomon, artista da Dabliú, que na época era diretora artística da gravadora. Ela já conhecia a Gerli desde a época dos festivais de Londrina, onde Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé iniciaram suas carreiras. Começamos então a escolher o repertório e de repente veio o estalo. Nós dois éramos apaixonados pelas músicas do Paulinho, vínhamos a algum tempo participando de seus shows além de termos consolidado uma linda amizade. Logo fomos para o estúdio, gravamos uma demo e enviamos para a Dabliú, onde a receptividade foi imediata. Seu presidente José Carlos Costa Neto, compositor renomado e advogado de direitos autorais, figura das mais importantes da nossa música, nos deu total liberdade para o nosso processo de criação. Então, fomos em frente. A Gerli já cantava “Cantiga por Luciana” (parceria com Edmunto Souto). Por ter sido colega de coros de estúdio do Trio Esperança e dos Golden Boys, seria uma grande oportunidade de homenagear a Evinha (Evinha foi a intérprete que classificou “Cantiga por Luciana” em primeiro lugar no IV Festival Internacional da Canção, em 1969). “Sapato velho” sempre foi o seu carro chefe, desde quando foi gravada pela primeira vez, pelo Quarteto em Cy. Ainda tivemos o privilégio de ganhar de presente três canções inéditas. “Escrava” (c/ Edmundo Souto e Bororó Felipe), “Coração vadio” (c/ Claudio Nucci) e “Sol e chuva”, melodia enviada por D. Zica após o falecimento de Cartola. Um belo prelúdio onde Paulinho mais uma vez foi genial. Por fim, precisávamos encontrar o fio condutor que costuraria todo o CD. Procuramos então dar uma espécie de releitura, mais compatível com a forma da Gerli cantar, mais suave. Os arranjos foram elaborados visando acompanhar esse perfil. Levamos quase dois anos nesse projeto. A primeira fase foi feita no Estúdio 43 pelos técnicos e músicos Júlio Brau {viola caipira e violão} e Anderson Rocha {contrabaixo}. Contamos também com o grande Dino Da Costa {percussão} e com a participação especial do nosso querido Paulinho Tapajós em “Coisas do coração”.

Heloisa Tapajós: E o CD “O Lirismo de Paulinho Tapajós”, lançado aqui no Brasil em julho de 2003, já conta com uma edição japonesa que ganhou duas faixas-bônus. Como foi isso?

Haroldo Goldfarb: Pois é, são presentes que chegam… E só nos resta agradecer. A Tatiana Librerato, atualmente diretora da Dabliú, com larga experiência na parte internacional, licenciou o CD para a Wardrecords do Japão. Eles ficaram encantados com o trabalho e pediram para que incluíssemos mais duas faixas. Só nos restou buscar uma forma de reler o já consagrado hino “Andança”, parceria do Paulinho com Edmundo Souto e Danilo Caymmi. Por fim “A árvore”, com Claudio Nucci.

Heloisa Tapajós: Essa canção, até então inédita, ganhou uma leitura piano e voz que, na minha opinião, já é definitiva! Vocês traduziram lindamente os versos do Paulinho sobre uma vivência tão pessoal nossa – a árvore chegando finalmente à nossa janela…

Gerli Goldfarb: É, a letra nos conta sobre uma árvore que foi crescendo, vencendo os andares e acabou por entrar pela janela, querendo participar das coisas da casa, assistir à novela, tocar a mão das pessoas, pedindo um pouco de atenção. Que letra! Que música!

Heloisa Tapajós: Muito linda, né? Bom, o disco já foi contemplado com um prêmio…

Haroldo Goldfarb: Outro presente. O “Jornal das Gravadoras” elegeu os Melhores CDs de 2003 nas mais diversas categorias. Nós recebemos o Troféu Destaque na categoria Melhor CD Tributo, ao lado de grandes nomes da nossa música. Ficamos muito felizes com esse reconhecimento.

Heloisa Tapajós: Quais são os planos daqui pra frente, em termos de shows?

Gerli Goldfarb: Bom, nós pretendemos fazer um show de peso, com uma produção bonita, com direção de palco, uma boa divulgação, e para isso estamos batalhando por um pequeno apoio, o suficiente para darmos a largada. Já estamos a caminho.

Heloisa Tapajós: Estamos aqui na torcida!! Nunca é demais dizer o quanto esse trabalho é para o Paulinho, e para mim também, motivo de muito orgulho. Amigos queridos, super obrigada pela entrevista, em nome do “Alô Música”!