Geraldo Carneiro

 

Por: Madan

Literalmente falando, “papo de gênios” – Madan entrevistou com exclusividade Geraldo Carneiro para o Alô Música, e, como vocês devem imaginar, uma deliciosa literatura nos foi oferecida…
Obrigada, Madan – é uma honra te-lo em nossa Equipe.
Obrigada, Geraldinho – inenarrável o prazer de ler cada palavra…

Solange Castro

Madan – Caro Geraldo Carneiro, você é escritor, poeta, ensaísta, cronista, roteirista, tradutor, compositor e letrista de música popular. Como a arte, e especialmente a literatura e a música, entraram na sua vida?

Geraldo Carneiro – Desde a infância. O apartamento de minha família, em Copacabana, era uma espécie de playground lítero-musical do governo JK. Meus irmãos e eu estudamos piano desde a infância. E, como se não bastasse, tínhamos como vizinho de porta o compositor Francisco Mignoni. Tínhamos o privilégio de ouvir através da parede o piano dele, enquanto ele tinha o desprazer de ouvir a nossa batucada de aprendizes.

Madan – Você nasceu em 1952, na cidade de Belo Horizonte, e em 1955 se mudou com a família para o Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Como seu nascimento e por ter vivido só 3 anos em Belo Horizonte, marcaram sua vida e até que ponto influenciou e influência sua obra?

Geraldo Carneiro – Ninguém nasce mineiro impunemente. Se você ler o Drummond, o Pedro Nava e o Paulo Mendes Campos vai ter certeza disso. A propósito, uma das primeiras melodias que compus, aos 15 anos (quando eu ainda era músico), foi sobre um poema que me foi dado por Paulo Mendes Campos, e se chamava Mineiro no Rio, parafraseando um famoso poema de Drummond que se chama (se não me falha a memória, e ela falha muito) “Prece de Mineiro no Rio”. A letra do Paulinho, como ele era chamado por nossa família, era assim:

“Meus olhos mineiros
Devoram sereias
Minha pele triste bebe o sol

Querendo que eu desafine
Passa nas pautas do vento
Um anjo só de biquíni
Só no meu apartamento

No copo de uísque eu mato Isabela
Coitada dela

Sereias de areia, solidões de areia
Nascendo da areia

Volto ou não volto?
Não volto mais, Minas Gerais”

Em suma, eu seria capaz de escrever dez páginas sobre a presença do espírito de Minas, mesmo num neo-carioca anedótico como eu. Mas vou poupá-los de conhecer os mistérios, para o bem e para o mal, de ter nascido lá. Na próxima encadernação, espero voltar carioca ou baiano.

Madan – No final dos anos 50, a casa da sua família era freqüentada por expoentes da cultura e das artes: músicos como Jacob do Bandolim e Sílvio Caldas e escritores como Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Quais são suas lembranças dessa época?

Geraldo Carneiro – As melhores possíveis. Nosso apartamento, embora modesto, era um centro etílico-cultural. Como dizia o Drummond, “a minha casa pobre é rica de quimera.” Desde a infância percebi que a realidade é uma ilusão provocada pela falta de poesia.

Madan – Como você vê essas influências em você e na sua obra?

Geraldo Carneiro – Sempre fui refém dessas influências da infância. Nunca me ocorreu viver outra vida que não fosse a que sonhei nesses primeiros anos. E é assim que tenho vivido nas últimas 56 primaveras. Espero que ainda haja algumas antes de chegar o inverno e eu só viva das reco-recordações. Por ora, minhas memórias ainda estão no forno, ou então no éter do eterno retorno.

Madan – Em 1972, você entrou para o curso de Filosofia na UFRJ e em 1973 entrou no curso de Letras na PUC. Você cursou os dois simultaneamente, ou optou por um só?

Geraldo Carneiro – Não apareciam muitos professores na Filosofia da UFRJ, com exceção de Emanuel Carneiro Leão, aluno de Heidegger, um homem enciclopédico que dava aula de tudo, e do Paulo Alcoforado, professor de Lógica, que enfim confirmou minha suspeita de que análise sintática era uma lógica de araque, de quem não sabia Lógica. Os demais professores, creio que foram cassados por motivos políticos, ou talvez fossem funcionários públicos fantasmas. Em 73, fiz vestibular de novo, para a PUC, e encontrei uma ebulição maravilhosa. Foram fundamentais na minha vida figuras como Cacaso, Ana Cristina César, Luiz Costa Lima, Wilma Areas, Clara Alvim, João Carlos Pádua, Luís Eduardo Soares e Silviano Santiago, extraordinário brasilianista que acabava de regressar dos Estados Unidos. Havia outros professores interessantes, além dos já mencionados, como Affonso Romano de Sant’Anna. Me lembro que, num dos cursos do Affonso, de literatura brasileira, fiz um trabalho final sobre o “Drácula”, de Bram Stocker, um escritor americano de quinta. E ainda assim o Affonso aceitou o trabalho e me deu nota oito. Enfim, tínhamos um clima de grande liberdade.

Madan – Você lançou seu primeiro livro de poesia, “Na Busca do Sete-Estrelo”, em 1974. Fale um pouco sobre ele e também sobre o grupo musical “A Barca do Sol”, do qual você fazia parte. Qual era a sua função no grupo, quantos LPs lançaram e quem eram os seus integrantes?

Geraldo Carneiro – O Cacaso, que era nosso professor na PUC, inventou de fazermos uma coleção de poesia, ele, os poetas João Carlos Pádua e Chico Alvim, o ensaísta Roberto Shwarz e eu. Como eu não tinha poemas suficientes para fazer um livro, escrevi às pressas um poemão épico-burlesco, chamado Na Busca do Sete-Estrelo. O cineasta Zelito Viana, um adorável maluco, resolveu financiar a coleção, à qual dei o nome de Frenesi, título chupado do último filme de Alfred Hitchcock. No final de 74, lançamos os cinco livros, sem pompa, mas com muita circunstância, na livraria Cobra Norato, em Ipanema.
A Barca do Sol era um grupo formado por meu irmão e alguns amigos, como o violoncelista Jacques Morelenbaum, os irmãos Maurício (Muri) e Marcelo Costa, o guitarrista Beto Resende, o flautista Marcelo Bernardes, o baixista Alain Pierre de Magalhães e diversos outros integrantes, entre os quais o flautista e cantor Ritchie. O primeiro disco do grupo foi produzido por Egberto Gismonti, e teve como maior sucesso nas rádios a música “Lady Jane”, com letra minha (mais um título surrupiado, desta vez de Mick Jagger e Keith Richards, que por sua vez o surrupiaram de D.H. Lawrence, no livro O Amante de Lady Chatterley, onde a expressão serve para designar o órgão genital feminino, a popular perereca).
O segundo álbum da Barca do Sol, chamado Durante o Verão, foi produzido por mim. Quase todos os integrantes do grupo são meus parceiros de canções. Em suma, eu era o letrista mais constante da Barca.

Madan – Como sabemos, você chegou a atuar como músico também. Por que você deixou de atuar mais constantemente na música?

Geraldo Carneiro – Costumo dizer que o dia em que nos conhecemos Egberto Gismonti e eu, futuros parceiros de mais de cinqüenta canções, foi um momento importante para a música popular brasileira, não pelo que tenhamos feito, mas pelo que deixamos de fazer. Eu era um compositor de melodias medíocres e ele era um letrista na melhor das hipóteses do mesmo nível. Daí por diante, passamos a fazer somente o que fazíamos melhor. Hoje continuo fazendo canções com o próprio Egberto, com Wagner Tiso e, sobretudo, com Francis Hime. Nos últimos dois anos, fizemos mais de vinte canções, e algumas delas, para minha surpresa, tocaram bastante no rádio.

Madan – Em 1975, a convite de Astor Piazzolla, você passou quatro meses em Roma, escrevendo letras para suas canções. Como foi essa experiência, ao lado de um dos melhores músicos e compositores do mundo, e quantas parcerias vocês têm?

Geraldo Carneiro – Conheci Astor Piazzolla em 1973. Minha amiga Nana Caymmi telefonou dizendo que ele tinha ouvido o disco “Água e Vinho”, do Egberto (Gismonti), tinha gostado das minhas letras e queria fazer canções comigo. Fui imediatamente encontrá-lo, no Hotel Glória, onde ele estava hospedado com sua mulher, Amelita Baltar. Ficamos amicíssimos. Fizemos às pressas uma primeira canção, chamada As Ilhas, para ser gravada pelo Ney Matogrosso em seu primeiro disco solo. Depois fizemos mais uma dúzia de canções, gravadas no Brasil por Olívia Byington e As Frenéticas, e na Argentina pelo próprio Piazzolla, na voz de José Angel Trelles. Em 1974, Piazzolla estava entusiasmado para escrever um musical sobre Evita Perón, e me convidou para passar quatro meses com ele em Roma, onde morava, para escrever o libreto e as canções do musical. Como a barra andava pesada na Argentina e Evita era cultuada, tanto pela direita quanto pela esquerda, chegou a Piazzolla a ameaça de que, se insistisse em escrever sobre Evita, sua filha Diana, ex-integrante dos Montoneros, grupo político de extrema esquerda, seria eliminada. Desistimos imediatamente do musical, que seria escrito e encenado alguns anos mais tarde por autores anglo-americanos. Continuamos amigos fraternos até a morte dele, em Buenos Aires, em 1991.

Madan – Também, gostaríamos de saber da sua relação e parcerias com Egberto Gismonti, um dos maiores expoentes da música mundial.

Geraldo Carneiro – Egberto é uma figura fundamental na minha vida. Quando o conheci, eu era um garoto de 16 anos, parceiro de Eduardo Souto Neto e Piry Reis, e Egberto já era um monstro de 21, compondo e tocando piano e violão. Três anos mais tarde, ele me convidou para ser seu parceiro. Nossa primeira canção se chama Água & Vinho. Ficamos tão ligados musicalmente que ele me convidou para produzir três de seus discos, Água & Vinho, o disco da árvore (que não tem título), e Academia de Danças. E nos tornamos amigos e parceiros para sempre. Hoje, há muitos intérpretes regravando nossas canções, como a Jane Duboc, que este ano lançou um CD com canções nossas. E continuo tendo a sensação de que acabamos de escrevê-las.

Madan – Muita gente conhece a música “Palhaço”, sua com o Egberto Gismonti, mas, creio eu, pouquíssimas pessoas sabem que a música surgiu do seu poema “Mais Clara, Mais Crua”, e não, como muitos pensam, que você “letrou” a melodia do Egberto. Você pode nos falar um pouco mais sobre o processo de criação dessa belíssima canção e quem a gravou?

Geraldo Carneiro – Escrevi a letra movido por uma dessas dores de cotovelo que acometem os poetas, sobretudo no verão. Mostrei-a ao Egberto e, quando ele a musicou e me mostrou o resultado, lembro que ficamos alguns minutos em silêncio (o que era raro) na casa dele, na Rua Artur Araripe, na Gávea, comovidos com a canção. Isso foi no principiozinho de 78, mas creio que a Olívia Byington só gravou “Mais Clara, mais crua” pela primeira vez uns dois anos depois. E, como acontece quase sempre com as grandes músicas, a melodia ganhou autonomia e passou a voar sozinha, sem precisar do auxílio das palavras.

Madan – Quais são seus principais parceiros musicais?

Geraldo Carneiro – São muitos. Comecei com o Eduardo Souto Neto. Éramos dois adolescentes, ele com 17, 18, eu com 16, 17. Fizemos umas trinta canções, gravadas por diversos intérpretes, entre os quais Pery Ribeiro, Evinha, Taiguara, Miltinho, Jorginho Telles. Pra minha surpresa, quase todas as nossas canções tocavam no rádio. (Mais tarde, primeiro o Vinicius, em 75, depois o Tom, em 77, decidiram gravar uma canção que tínhamos feito nesse período, chamada Choro de Nada.) Depois conheci Piry Reis, com o qual fiz outras trinta canções. Com meu irmão, Nando, também fiz mais trinta. Com o maestro John Neschling, compusemos outras tantas, sendo que a primeira foi Rita Baiana, gravada por Zezé Motta, com a qual ganhamos uma bela grana e eu pensei que fosse viver só de música. Doce ilusão. E também houve parceiros esporádicos, como Moraes Moreira, João Donato, Edu Lobo, Elton Medeiros, Luiz Carlos da Vila e até Erasmo Carlos, com quem compus uma única música, meio chupada de “Eu sou terrível”, dele e do Roberto, para um musical infantil. Se eu puxar pela memória, ou procurar no Google, sou capaz de descobrir mais uma meia dúzia.

Madan – Quantas músicas você têm gravadas, registradas em CD, e nas vozes de que artistas?

Geraldo Carneiro – Não sei dizer com certeza. Imagino que mais de duzentas. Dos intérpretes, além dos já mencionados como Egberto, Piazzola e Francis, não sei se me lembrarei de todos. Aqui vão alguns: Tom Jobim e Miúcha, Beth Carvalho, Fafá de Belém, Gal Costa, Vinicius e Toquinho, Olívia Byington, Olívia Hime, Cauby Peixoto, Simone, Jane Duboc, Zezé Motta, Zélia Duncan, Lenine, Zé Renato, Danilo Caymmi, João Donato, Moraes Moreira, Leila Pinheiro. E bota etc. nisso.

Madan – Agora, partindo para a sua área talvez predominante, que é a Literatura: quantos livros você já publicou?

Geraldo Carneiro – Oito livros de poemas, entre 1974 e 2006. Uma biografia de Vinicius de Moraes, encomendada pela Editora Brasiliense logo após a morte dele. Um livro de crônicas sobre o Leblon, encomendado pela Prefeitura do Rio. Uma fotobiografia de Ferreira Gullar, encomendada pelo meu parceiro (mais um!) Moacyr Luz. Um livro de traduções de William Shakespeare, em parceria com o poeta Carlito Azevedo. E a tradução da peça “A Tempestade”, também de Shakespeare, publicada pela Editora Relume-Dumará.

Madan – Quantas peças para Teatro, incluindo musicais, você escreveu?

Geraldo Carneiro – Não muitas. Raramente escrevi por vontade própria. Quase sempre a iniciativa partiu de amigos. Foi assim com o musical Lola Moreno, escrito por Bráulio Pedroso e por mim, e musicado por John Neschling. Mais recentemente, com a peça “Simone e Sartre: Uma História de Amor”, que me foi encomendada ano passado por Fernanda Montenegro. Ou a coletânea “Apenas Bons Amigos”, encomendada por Maria Padilha. Por iniciativa minha, só escrevi a peça “A Bandeira dos Cinco Mil Réis”, encenada pelo Aderbal Freire Filho, com Marco Nanini no papel principal. Em suma, em matéria de dramaturgia teatral, sou quase sempre um pistoleiro de aluguel.

Madan – E para a TV?

Geraldo Carneiro – Para a TV, comecei escrevendo a minissérie “Tudo em Cima”, em parceria com Bráulio Pedroso, para a TV Manchete. Depois, na Globo, escrevi diversos especiais e adaptei, com Walter Negrão, o livro “O Sorriso do Lagarto”, de meu amigo João Ubaldo Ribeiro. Escrevi vários especiais, originais ou adaptações de clássicos literários. Durante seis anos, fui supervisor da série Você Decide, da qual fui o primeiro roteirista. Colaborei com Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, em “JK”. E, ano passado, escrevi a série “Faça Sua História”, em parceria com João Ubaldo.

Madan – E também para o cinema?

Geraldo Carneiro – Para o cinema, escrevi dois roteiros: “Eternamente Pagu”, com Márcia de Almeida, direção de Norma Bengell, e “O Judeu”, em parceria com Millôr Fernandes, dirigido por Jon Tob Azulay.

Madan – Quais são suas principais influências literárias? E quais os autores que mais te marcaram?

Geraldo Carneiro – Todas e todos. Adoro os clássicos óbvios, os canastrões e os underground. De John Donne a Bukovski, de Rimbaud a Olavo Bilac, de Orestes Barbosa a e.e. cummings, de James Joyce a Lupicínio Rodrigues. Sou como Oswald de Andrade: quero a contribuição milionária de todos os erros. E dos acertos também.

Madan – Sua poesia e seus textos podem ser enquadrados em que estilo literário e/ou poético?

Geraldo Carneiro – O finado poeta Jorge Wanderley me considerava pós-moderno. Não sei exatamente o que isso significa, mas talvez seja uma forma de qualificar o caos da contemporaneidade. James Joyce costumava dizer que fazia um work-in-progress; eu, mais modestamente, faço uma desordem-em-progresso.

Madan – Percebemos que o humor e a ironia são características marcantes de seus escritos. Poderia nos falar sobre isso?

Geraldo Carneiro – Esses talvez sejam meus defeitos de fábrica.

Madan – Como tradutor, quantos poemas e peças de teatro você já traduziu?

Geraldo Carneiro – Traduzi uns doze sonetos de Shakespeare, cinco deles publicados na coletânea “Sonhos da Insônia”, e outros publicados aqui e ali, no meu site, por exemplo. Quando eu ficar velho (isto é, daqui a alguns meses), tenho o plano de traduzir mais uma dúzia e reuni-los num volume caprichado, cheio de notas de pé de página. Aqui vai um deles:

Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia,
Tão incapaz de fabricar inventos,
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor: só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas;
E assim vou refazendo o que foi feito,
Reinventando as palavras do poema.
Como o sol, novo e velho a cada dia,
O meu amor rediz o que dizia.

Das peças, perdi a conta. Mas não são muitas. Não chego nem aos pés do meu admirável amigo Millôr Fernandes. De Shakespeare, por exemplo, traduzi “A Tempestade”, “As You Like It” (que adaptei com o título de Uma Peça Como Você Gosta), “Antonio e Cleópatra” e “Trabalhos de Amor Perdidos”, que pretendo rever e publicar ainda este ano. Se as parcas me concederem mais alguns centímetros de existência, tenho o plano de traduzir e publicar mais duas ou três.

Madan – E como foi – e é – a experiência de traduzir Shakespeare?

Geraldo Carneiro – Fascinante e terrível. Fascinante quando você consegue traduzir alguma coisa do perfume original. Em A Tempestade, por exemplo, lembro de um fragmento mais ou menos assim:

“Já amei mulheres de feições diversas,
Por suas mais diversas qualidades,
Mas nunca assim, com toda a minha alma,
Pois sempre alguma sombra de defeito
Pairava sobre a graça mais perfeita
E desfazia o meu encantamento.
Mas você é tão bela e tão perfeita,
Parece feita da pequena parte
De perfeição que há em cada criatura.”

E é uma experiência terrível quando você tem certeza de que o original é muito mais belo e interessante do que a tradução, o que acontece a maior parte das vezes.

Madan – Em 2008 você lançou o livro de fotografias “Ferreira Gullar por Geraldo Carneiro”. Você pode nos falar sobre este livro?
Geraldo Carneiro – É um livro-celebração, que escrevi porque tinha como protagonista um dos meus poetas favoritos do século XX. E do século XIX também. E porque a encomenda me foi feita pelo Moacyr Luz, o bambambam do samba tijucano, meu amigo e parceiro.

Madan – Como você vê a atual situação do livro, onde já se encontram centenas e milhares de livros completos na internet, mesmo não estando em domínio público, para baixar gratuitamente?

Geraldo Carneiro – Acho que todo o saber deveria ser gratuito. Mas deve haver um novo mecenato, para que os artistas não morram de fome. Talvez uma das alternativas para o futuro seja o artista ser remunerado por sua presença, como os atores de teatro. Os escritores, por exemplo, teriam que voltar a ser como os aedos-poetas da antiga Grécia, apresentando-se de cidade em cidade.

Madan – O livro em seu formato tradicional poderá morrer?

Geraldo Carneiro – O livro é igual ao samba: pode até agonizar, mas não morre.

Madan – Qual é o papel e a importância que a poesia tem na literatura, e qual é a sua opinião sobre a literatura como um todo, no Brasil e no mundo, atualmente?

Geraldo Carneiro – A literatura é sempre fundamental. Geralmente, é dela que saem os conceitos do futuro. Segundo Umberto Eco, não haveria fissão nuclear (“abnihilation of the athom”), se James Joyce não tivesse inventado antes a “aniquilação do étimo” (“abnihilation of the ethym”). Mas vamos parar com a falsa erudição, porque eu prefiro a eros-dicção.

Madan – Em seu site oficial ( www.geraldocarneiro.com ) logo na primeira página, há uma série de poemas chamada “Tropicaligramas”, onde as palavras ganham movimento antes de se fixar no poema em sua forma escrita e final. Qual é a intenção desse experimento inovador? É sua idéia e a criação dos Tropicaligramas?

Geraldo Carneiro – Quando fizemos o site, o designer Philippe Leon e eu queríamos criar alguma coisa que explorasse os recursos do vídeo. E me lembrei dos “Caligramas”, do poeta francês Guillaume Appolinaire. São poemas gráficos, em geral manuscritos, que exploram as possibilidades visuais da página em branco. Os Tropicaligramas são uma adaptação do experimento de Appolinaire (que por sua vez tinha se inspirado em Mallarmé) para a internet. Como dizia Salomão, ou seu ghost writer, não há nada de novo debaixo do sol.

Madan – Quantos CDs autorais você já lançou?…e você poderia nos falar, mais detalhadamente, do mais recente CD/Livreto “Gozos da Alma – À Flor da Língua” de 2006“?

Geraldo Carneiro – Por incrível que pareça, já lancei dois CDs. O primeiro, ”Por Mares Nunca Dantes”, foi por culpa de minha amiga Olívia Hime, diretora artística da Biscoito Fino, que me convidou para fazer um dos primeiros discos da gravadora. Eu tinha acabado de escrever um poemão épico-burlesco e nós o transformamos em CD, com atores maravilhosos e música do Lenine. Foi uma farra. O segundo, Gozos da Alma, por culpa dos poetas Sérgio Natureza e Salgado Maranhão, que criaram a série Poetas da Canção, produzida pelo SESC-Rio. O título foi roubado de John Donne e de uma canção que fizemos o Francis Hime e eu. Reuni nele alguns dos meus parceiros e intérpretes mais queridos. Foi outra farra. O Egberto andou gravando aqui em casa alguns poemas lidos por mim para um terceiro CD, mas acho que caiu em si e desistiu da idéia.

Madan – Você, como letrista de música popular, às vezes faz a letra sobre a música de um compositor, e também o inverso, o compositor musica seus poemas e letras. Qual a diferença desses dois processos? Você tem preferência por um ou por outro?

Geraldo Carneiro – Prefiro os dois. Com o Egberto, por exemplo, quase sempre escrevo os versos em cima da melodia. Mas há exceções, como o Palhaço. Já com o Francis, é quase sempre o contrário. Mas há exceções, como o “samba Clara”, que fizemos no dia da morte de Clara Nunes, gravado pelo próprio Francis e, mais tarde, pela Beth Carvalho.

Madan – Sabemos também de sua relação bastante próxima com Tom Jobim. Como isso aconteceu?

Geraldo Carneiro – Conheci o Tom no Antonio’s, o bar da moda do Rio de Janeiro no final dos anos 60 e nos 70. Ele era amigo de meu preceptor José Carlos de Oliveira, o famigerado Carlinhos Oliveira, cronista do Jornal do Brasil, com quem eu ia me encontrar quase todas as tardes para trocar idéias sobre a vida e a literatura. Tornei-me amigo do Tom e, quando ele viu minha mão e a achou apropriada para o piano, propôs que eu fizesse parte de sua incipiente banda. Só que o pianista da banda era ninguém menos que o próprio Antonio Carlos Jobim. Por mais estranho que pareça, embora eu fosse um reles batucador de teclado, meu nome aparece como pianista nos créditos de um curta-metragem cuja música foi escrita e tocada pelo Tom. Nessa época, ele já havia me apresentado ao Paulo Jobim, seu filho, e acabamos fazendo uma banda chamada O Poder Assolador da Lapa, com o Danilo Caymmi e o Piry Reis. O Poder Assolador da Lapa, ou P.A.L., para os íntimos, estava inserido num movimento mais amplo, o C.U. (Compositores Universitários). Danilo e eu chegamos a escrever um manifesto com as premissas do movimento. Só me lembro de dois artigos do nosso código: 1) O C.U. está aberto a todas as tendências (contanto que não seja o nosso, é claro); 2) O C.U. não é apenas um movimento, é uma tomada de posição.
Chegamos a gravar um disco para a gravadora Forma, produzido por Roberto Quartim. Mas logo depois disso abandonei a música, ou vice-versa.
Anos mais tarde, o Tom me comunicou que queria gravar o Choro de Nada, meu e do Eduardo Souto Neto. Me bateu uma súbita mineirice e fiz questão de esclarecer que o Vinicius e o Toquinho já tinham gravado a música. O Tom fez uma cara meio teatral de melancolia e desabafou: “Tudo que eu quero fazer o Vinicius já fez antes!” Mas gravou o chorinho com Miúcha, mesmo assim.

Madan – Em 2009, você estará completando 35 anos de poesia publicada, terá algum evento especial em comemoração?

Geraldo Carneiro – Até agora, não há planos. Acabei de escrever um livro infantil, por encomenda da Editora Lazuli. Talvez eu esteja ficando gagá e só me reste ser um dadaísta da terceira idade. Ou, se os deuses conspirarem a favor, terei um novo surto de poesia e me tornarei um metafísico.

Madan – Você poderia nos adiantar alguns dos seus projetos para 2009 e outros futuros?

Geraldo Carneiro – Tenho escrito muitos poemas. Tomara que prestem. Tenho também projetos para o teatro e a TV. E ainda acalento o sonho secreto de escrever muitas letras de música em 2009.

Madan – Para quem está enveredando pela literatura, especialmente a poesia e a música popular, você tem algumas dicas e sugestões para dar-lhes?

Geraldo Carneiro – Leiam e ouçam tudo o que puderem. Como disse algum pensador latino, talvez Lucrécio, nada provém do nada.

Madan – Caro Geraldo Carneiro, saiba que para nós, do Alô Música, foi uma grande honra entrevistá-lo. Muito obrigado, muita sorte e sucesso.

Geraldo Carneiro – Eu é que agradeço, meu caro Madan. Apareça sempre.

 

Março de 2009

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