Cristina Saraiva

 

Por: Solange Castro

Conheci Cristina há mais de treze anos, e sempre admirei sua atenção para nossa “literatura musical” – sensível aos extremos, culta e apaixonada pela música brasileira, foi muito interessante vê-la iniciar (de forma já brilhante) a letrar melodias que lhe eram entregues.
Não acompanhei seu cotidiano nos últimos três anos, mas venho observando sua trajetória e fico feliz por ver seu nome brilhar em nosso meio musical, sendo reverenciado por críticos, autores e intérpretes.
Em entrevista exclusiva para o Alô Música, Cristina conta um pouco sua história…

Solange Castro

 

Solange Castro – Alô, Cristina. Como a música entrou na tua vida?

Cristina Saraiva – Oi Solange.
Vamos lá: Na verdade a música entrou há muito tempo, desde que eu era criança. Sempre tive uma ligação muito grande com a música, mas sempre como ouvinte. Profissionalmente, não havia ninguém da minha família no meio musical, mas pelo lado paterno, além da minha avó ter sido pianista (mas ter largado ao casar), meu pai tocava gaita e acordeon muito bem e era super afinado. Acho que vem daí o meu gosto pela música…

Solange Castro – E quais foram as tuas influências, o que você ouvia nessa época?

Cristina Saraiva – Bem, acontece que meu pai que era extremamente musical se separou muito cedo da minha mãe (eu tinha 3 anos), e foi-se, levando seus discos e gosto pela música. Em casa, minha mãe nunca ouvia música e nunca comprou um disco que eu soubesse. Então eu precisava me virar com o que tinha: um disco do Dorival Caymmi, um do Chico Buarque, um da Elis, alguma coisa de música clássica – Bach e Bethoven – e logo na seqüência, o maior tesouro da minha infância: os dois discos do Sidney Miller, presentes de um namorado que minha mãe arrumou. No início, basicamente isso.

Solange Castro – E como foi na tua adolescência?

Cristina Saraiva – Bem, curiosamente meu gosto musical nunca foi modificado. Não passei pela fase de gostar de rock – aliás, tinha Beatles também, que principalmente meu pai gostava muito e ouvíamos nos fins de semana quando eu ía pra casa dele. Mas na adolescência continuei gostando das mesmas coisas e acrescentei umas poucas: comecei a ouvir tudo do Chico (o meu preferido era o Chico e Bethânia ao vivo), Sá, Rodrix e Guarabyra, Milton Nascimento, Edu Lobo, enfim … MPB. Além, naturalmente, de continuar com meus Sidney Millers na cabeceira…
Ah, e ainda outro que foi bem importante pra mim: o Ruy Maurity (e seu letrista Jose Jorge). Sempre tive muito forte um lado meio rural, e aquelas músicas do Ruy me apaixonavam (Serafim e seus filhos era uma das minhas prediletas). Tive ainda na adolescência uma outra influência muito forte – mas que já não era de música brasileira. Trata-se do cantor/compositor francês (aliás, egípcio) Georges Moustaki. Curioso é que sempre fui muito ligada às letras das músicas, e graças ao Georges Moustaki terminei aprendendo bastante bem o francês. Aos 18 anos já tinha terminado a Aliança Francesa.

Solange Castro – Você tem se destacado como letrista – quando você começou a escrever?

Cristina Saraiva – Não tem muito tempo não. Uns 10 anos talvez. Na verdade sempre li muito, mas nunca poesia. Talvez por influência familiar, a leitura sempre foi muito valorizada em casa, mas estranhamente, nunca entrou lá um único livro de poesia. Então cresci na literatura – meu tio é professor de literatura da UFRJ, minha irmã também se formou por lá em literatura, é contista, e, aliás, minha avó era sobrinha-neta (acho, sei lá, algum parentesco assim) do Monteiro Lobato… Já viu, né? Enfim, tanto a parte paterna quanto materna da família era muito ligada à literatura.

Solange Castro – E quais são teus “mitos” na literatura musical brasileira? Quem mais te influencia?

Cristina Saraiva – Chico Buarque de Hollanda e Sidney Miller. E os letristas, maravilhosos que temos (mas esses eu só conheci bem depois): Paulo César Pinheiro, Fernando Brant, esses todos.

Solange Castro – Nossos letristas sempre retrataram nosso cotidiano com muita sabedoria – como você está vendo a nova geração? Quem você destaca nesse momento?

Cristina Saraiva – Isso é uma pergunta difícil responder. Há poucos, muito poucos ( pelo menos que eu conheça, naturalmente) , mas a questão é muito complexa.. Na minha geração (que acho que dá pra ser entendida como “nova”, não?), só letrista, eu destacaria a Rita Alterio e o Mauro Aguiar . Agora nova mesmo, novíssima, não sei.
Há uma infinidade de grandes músicos jovens, (como o Andre Mehmari por exemplo, que aos 21 anos ganhou o prêmio visa instrumental), há, inclusive, alguns grandes compositores melodistas (conheci há pouco um de 21 anos, excepcional, o Breno Ruiz), mas exclusivamente letristas, confesso que não conheço. Isso eu acho que é um problema sério, muito grave, que anda rondando a música brasileira e colocando em risco inclusive a sua continuidade com a qualidade que conhecemos. É uma questão que está ligada a uma série de fatores – políticos, culturais, educacionais, sociais, etc, etc, e talvez ficaríamos até amanhã se fôssemos entrar nessa seara…

Solange Castro – Aqui no Alô recebo obras belíssimas que nunca vão chegar aos ouvidos do público em geral – não acho que estamos com falta de bons compositores e letristas, mas sim de meios de apresentar essas obras…

Cristina Saraiva – No caso de compositores, concordo plenamente. No caso de letristas tenho minhas dúvidas. Está claro que como todo mundo, não tenho acesso a nem 10% do que se produz no Brasil e não posso afirmar portanto que não há bons letristas. Mas circulo muito, conheço muita gente do meio artístico que não está na mídia, e no entanto, confesso que desconheço novos letristas. Posso citar uns 15 compositores maravilhosos. Sei lá, Dante Ozzetti, Chico Saraiva, Chico Pinheiro, Felipe Radicetti, Rafael Alterio, Edu Santana, Simone Guimarães (que aliás, às vezes também faz letra, e bem) Renato Motha, enfim são vários. Mas letrista, sinceramente, desconheço. Acho isso muito grave. O Prêmio Visa edição compositores, por exemplo, foi ganho em sua primeira edição pelo Dante Ozzetti, e na segunda, pelo Chico Saraiva. Ora, nos dois casos, as letras das músicas basicamente eram do Luiz Tatit (que eu sempre brinco dizendo que esse sim é o grande vencedor do Visa). Então o que posso te afirmar, é que se há bons letristas, esses estão ainda num estágio anterior, pois ainda não conseguiram se fazer conhecer nem do meio musical …

Solange Castro – Temos hoje no Ministério da Cultura um “músico e compositor” – você acha que o Gil está fazendo um trabalho bom nesse sentido pela nossa cultura musical (a mais rica do Planeta)?

Cristina Saraiva – Não, em absoluto. O Ministério da Cultura, no que diz respeito à música pelo menos, até agora, não tem feito praticamente nada. Ou ao menos nada que se possa definir como uma política pública federal para a música. O Ministério parece ainda estar em fase de discussões e elaborações, contatos com a classe artística, etc, mas de concreto, rigorosamente nada.
Há mais de um ano fomos convocados (o Fórum Carioca da Música, do qual sou – ou fui – coordenadora ) para apresentar uma pauta de propostas para o MinC. Elaboramos depois de um tempo de estudo e trabalho, um documento em 10 pontos, abordando itens super importantes: educação, formação de platéia, formação profissional, difusão (questão do jabá e outros) , espaços de apresentação, direito autoral, enfim, não estou com o documento aqui mas ele era bem amplo e contemplava carências que estavam muito além da questão do financiamento via Lei Rouanet ( embora isso também estivesse presente). Depois de um ano o MinC nos chama novamente pra apresentar propostas de mudanças na Lei Rouanet, e não dá nenhum passo em direção ao resto, ao que é fundamental. Dizem que estão estudando, estão formando grupos de trabalho pra analisar todas essas questões, e há pessoas em alguns cargos em quem tenho muita confiança, como a Ana de Hollanda e o Sergio Sá Leitão. Mas parece que simplesmente não se consegue, que a questão é por demais complexa, que falta estrutura, etc. Então, sinceramente, não sei o que esperar. Apesar de todo empenho da Ana, por exemplo, a sala Funarte Sidney Miller (o único espaço federal para música que temos aqui) está desativada, com cupim, desde o início do Governo. E não se consegue sequer botar a Sala pra funcionar!!!!
Quando se fala na atuação da Funarte, por exemplo, nos são apresentadas, na melhor das hipóteses, possibilidades de projetos , como o Pixinguinha, que acaba de ser re-implantado. Ora, o Pixinguinha é maravilhoso e é uma excelente notícia que ele tenha voltado. E, aliás, gostaria de parabenizar a Ana de Hollanda publicamente por isso, pois se o Pixinguinha está de volta, isso se deve muito ao seu empenho e trabalho nesse sentido. Mas uma política pública nacional não se resume na realização de um ou outro projeto. É necessário que haja acima de tudo uma coordenação das atividades . Coordenação entre os Ministérios (MinC / Ministério das Comunicações / Ministério da Educação, Ministério das Relações Exteriores, Secom ) .Mas parece que não há diálogo possível. A questão das Rádios e Tvs públicas, por exemplo é seríssima e no entanto, não é da alçada do MinC e parece que ele não pode fazer nada… então, o que esperar? Parece que o Ministério que cuida da cultura do País é um pequeno escritório, sem recurso humano nem técnico – ah, e pior: sem verba.

Solange Castro – Realmente… Mas não creio que tudo seja questão de falta de verbas ou de recursos humanos – no Fórum foi colocada a questão do jabá que é seríssima, afinal é “crime”, fere as Leis da Radiodifusão – isso já poderia ser resolvido, como outras questões também de igual importância – não precisa de verba para isso…

Cristina Saraiva – Aí entram duas coisas: uma é a falta de agilidade da máquina toda, pois isso não depende do MinC (que por incrível que pareça não tem nada a ver com Rádio). Há problemas para caracterizar o jabá (houve várias propostas, e entre elas a de limitação da possibilidade de veiculação de uma mesma música), e mesmo para criminalizá-lo. E problemas, repito, que não são da alçada do MinC.
Mas há outros problemas também, e o principal é: até onde vai a vontade política do Ministério de resolver essa questão. O Gilberto Gil (pra voltar a sua primeira pergunta) é um artista de ponta da música brasileira, surgido no final dos anos 60, e me parece que não está absolutamente por dentro da problemática da MPB atual. Seus amigos e conhecidos são de um grupo que não tem contato com o problema, por exemplo, da música independente, e ele, provavelmente, é ou foi inclusive beneficiário (ainda que involuntário) desse sistema do jabá . Outro dia, aliás, há muito tempo, ele deu uma entrevista dizendo que precisaria cuidar de outras áreas mais carentes porque a Música Popular Brasileira ía muito bem, obrigado. Claro que cumpre perguntar: de que música popular brasileira ele está falando. Daquela que é definida pelos departamentos de marketing das grandes gravadoras?? Deve ser, porque não é daquela que briga bravamente, há décadas, por um espaço nas Rádios, nas TVs, espaço pra apresentação, espaço na mídia em geral. E trata-se de um grupo talentosíssimo, gerações e gerações de artistas maravilhosos, que o Brasil está jogando no lixo, e condenando ao anonimato absoluto…

Solange Castro – Sem dúvidas…

Cristina Saraiva – Fora isso, há pressões, coisas que a gente não compreende (como o caso do Emirados Árabes), enfim…

Solange Castro – Como bem disse Chico, “…futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber, com o amor que eu um dia, deixei pra você”…

Cristina Saraiva – Ah, ainda uma coisa sobre o MinC: me parece incompreensível o pouco caso em que o próprio MinC parece ter em relação à Funarte (sempre falando no que diz respeito à música).

Solange Castro – É… Lastimável…
Você está encabeçando um movimento para pedir ao Governo Municipal do Rio de Janeiro maior espaço para a música popular – fale-nos sobre isso…

Cristina Saraiva – Ai, vamos lá… Fizemos há uns dois meses uma matéria para o Tambores (pequeno jornal de música que edito com o Juca Novaes e Nana Soutinho) sobre espaços pra apresentação em São Paulo e Rio de Janeiro. Claro, já sabíamos da carência de nossa cidade nesse ponto, mas fiquei surpresa com algumas constatações. A situação sé evidentemente caótica, quase surreal em se tratando de uma cidade que se pretende capital cultural do País. Temos uns quatro ou cinco espaços (tipo Mistura Fina), onde o artista não consagrado pra se apresentar, precisa locar a casa e ponto final. O resto, são bares sem nenhuma condição de áudio pra realização de um show musical. Bem, quando fomos ver a situação nos espaços públicos, a surpresa maior. Está escrito no site da Prefeitura que o Rio tem a maior rede de teatros da América Latina. São onze teatros e seis lonas culturais. Bem, dos teatros, hoje, nenhum está voltado para a música. A situação chega a ser escandalosa. Os teatros (à exceção do Espaço Sergio Porto, administrado diretamente pelo Rioarte) ficam sob a responsabilidade de um gestor, o Miguel Falabella, que designa para cada um, um intendente. E a programação é definida exclusivamente da cabeça desse intendente. E o que é pior: em muitos casos, a ocupação se dá com peças teatrais das companhias dos próprios intendentes ?!?!?!?!?!?!??
Isso, qualquer criança pode perceber que nem de longe se assemelha a uma política pública séria para a área da cultura (nem mesmo do teatro). Estamos então fazendo um movimento pra pedir que a Prefeitura trate os diversos ramos da atividade artística de forma equiparada, e não disponibilize seus aparelhos apenas para uma delas. Aliás, isso faz lembrar uma outra distorção: a de que música pode ser executada em bares barulhentos com garçons passando com garrafas de cerveja. Ora, há um enorme segmento dentro da música – inclusive dentro da música popular – cujo palco privilegiado é exatamente o teatro. Perguntamos, e queremos a resposta: por que tamanha desigualdade no tratamento?

Solange Castro – Bom, isso vai contra o Gil dizer que a MPB vai muito bem – rs… Você acha que consegue alguma coisa com o Prefeito?

Cristina Saraiva – Não sei, a briga é grande e envolve interesses diferentes. Acho que vai depender muito do nível da adesão que tivermos por partes dos músicos.

Solange Castro – Existem espaços, como o Parque Garota de Ipanema e o da Catacumba, por exemplo, que tinham projetos musicais fantásticos, ao ar livre, que foram completamente esquecidos – eles preferem alugar palcos enormes ao invés de usar infra-estrutura que já havia sido consagrada pela Cidade – você não acha que vale brigar pela volta desses espaços?

Cristina Saraiva – Claro, eram projetos super bacanas e precisam voltar. A prefeitura – os governos em geral – tem a tendência a querer desenvolver mega projetos, de grande visibilidade, e que na maioria das vezes é exatamente o inverso do que se necessita para fomento de atividade cultural. O mega show se encaixa como uma oferta (válida, naturalmente, e bem vinda) de lazer à população do Município. Isso não tem nenhuma relação com política cultural para a área de música. São coisas bem diversas e é preciso que isso fique bem claro. Não se pode citar como exemplo de atuação na área cultural um show ao ar livre de um grande artista.

Solange Castro – Mas na época havia espaços para instrumentais, por exemplo, que não tinham tanta visibilidade assim – enfim, artistas de todos os portes tinham seus espaços…
Em Niterói, está havendo um movimento fantástico – tem dias de serem apresentados dois shows em pontos distintos da Cidade, com nomes nem tanto conhecidos e em pleno céu aberto… Acho o máximo esses projetos que levam a arte para o povo… Gratuitamente! Acho que o Rio poderia ter esse tipo de movimento também…

Cristina Saraiva – Você me compreendeu mal. Não estava me referindo a esses shows como os megas. Estou falando desses que às vezes se realizam na praia e outros mega projetos. Aqueles, do Garota de Ipanema, Catacumba, etc, acho que eram maravilhosos e precisam voltar sim, com urgência. Até onde eu sei, o Marcos Gomes, Secretário de Cultura de Niterói, está fazendo um excelente trabalho . Não moro lá e não estou muito por dentro, mas tenho recebido também notícias desses shows – sem contar a recuperação do Theatro Municipal, hoje, um espaço lindo, com ótimas condições, e super democrático de apresentação em Niterói.

Solange Castro – Com certeza…
Vamos voltar a falar do teu trabalho – como é teu relacionamento com teus parceiros?

Cristina Saraiva – Do pesadelo ao sonho… Oba, falar dos meus parceiros …
O que se pode dizer? Que são maravilhosos, todos.

Solange Castro – rs…

Cristina Saraiva – Na verdade, considero todos excelentes compositores, e muito mais do que isso, amigos muito queridos, pessoas completamente especiais pra mim… Aliás, só entendo parceria desse modo. Normalmente, meus parceiros são pessoas com quem eu tenho uma relação acima de tudo, afetiva, e quase sempre uma relação afetiva muito forte.

Solange Castro – E de onde vêm as tuas inspirações?

Cristina Saraiva – Acima de tudo, da música. Por isso não consigo fazer (e quase nunca faço) letra antes da música. Não escrevo poema, faço letra de música. Claro, há sempre uma relação com meu momento emocional, as paixões, as tristezas. Mas acima de tudo, é a música que vai me dizer o que devo escrever. Algumas são tão claras que parece que a letra já está ali, eu só preciso escrevê-la…

Solange Castro – Isso deve ser delicioso – quantas músicas você tem compostas?

Cristina Saraiva – Não sei exatamente. Mas não escrevo muito. Quer dizer, às vezes demoro pra fazer uma letra muito tempo . Isso acontece em geral quando não estou conseguindo escutar o que a música está me pedindo e sobre o que devo falar. Depois que eu descubro, em geral levo uns três ou quatro dias pra fazer a letra. Mas posso levar meses ou até anos pra descobrir o que aquela música quer de mim.
Depois, é preciso que eu possa estar com meu tempo e minha emoção voltada pra isso. Às vezes é difícil, na correria dos problemas diários – filhos, família, casa, dinheiro, questões profissinais, participação política, etc, encontrar a calma e o tempo necessário pra compor. Além do que, às vezes o estado emocional não ajuda e não é raro eu ficar meses sem compor, o que, diga-se de passagem, me faz muito mal.
Com relação a quantas músicas, talvez umas 30 ou 35 gravadas e umas 20 inéditas.

Solange Castro – Ulalá…
Quais os teus principais (ou mais freqüentes) parceiros?

Cristina Saraiva – É muito pouco, perto do Paulo César Pinheiro … ( rsssssss)
Houve uma época em que foi a Simone Guimarães. E ainda é em termos de quantidade. Mas de um tempo pra cá, depois que parei de trabalhar diretamente com a Simone, diversifiquei mais meus parceiros. Fora ela, hoje, seriam o Theo de Barros e o Felipe Radicetti. Estou começando a compor direto também com o Breno Ruiz, um compositor e cantor extraordinário, que estou desde já – e agora publicamente – empenhada na produção de seu primeiro CD. É um artista maravilhoso, de apenas 21 anos, e que mora no interior de SP. Está terminando sua formação em piano clássico, e é um rapaz que me impressiona profundamente. Tem um estilo de composição meio fora de seu tempo – compõe muita valsa (lindíssimas) além de choros belíssimos.

Solange Castro – Como produtora, quantos discos você fez?
Cristina Saraiva – Três – os dois discos da Simone Guimarães (Aguapé e Cirandeiro) e o da Giselle (Diamantes) . E ainda a produção de uma faixa (Angélica) e a masterização do CD do Miltinho, do MPB4 – “Por quem merece amor” – que também saiu pelo meu Selo, a Tiê. Fora isso, os dois meus, naturalmente, e o próximo, o do Breno. Recebi também uma proposta essa semana de fazer o disco de uma cantora de SP, mas seria somente a produção executiva.

Solange Castro – Fale dos teus discos…

Cristina Saraiva – Ufa! O Primeiro, “Primeiro Olhar”, foi feito em 2001 e eu não tinha na época a intenção de fazer uma carreira discográfica. Era apenas uma forma de dar vazão a uma série de músicas, que de outra forma, ficariam na gaveta. Foi feito assim com retalhos quase, porque peguei 4 fonogramas que já estavam prontos e eram meus (ou de parceiros que liberaram, que foi o caso da faixa do Kico Zamarian). Quando ele ficou pronto, gostei do resultado e da perspectiva que se abria.
Vários artistas vivem reclamando da escassez de música, falta de criatividade, etc, para justificar seus intermináveis discos de regravações , mas a verdade é que nós, compositores, não conseguimos – ou costumamos ter muita dificuldade – em fazer chegar as músicas aos intérpretes. E quando chegam, raramente são incluídas em seus cds. No meu caso, excluindo os discos de parceiros, tenho uma música gravada por um cantor de Belo Horizonte, e parece, agora o Boca Livre irá incluir uma música minha no seu repertório. Mas é muito difícil, e eu não gostaria de ver as minhas músicas pra sempre na gaveta. Então, como costumo dizer, essa “carreira discográfica” representa muito mais uma falta de opção do que uma opção propriamente dita.

Solange Castro – Você chamou vários intérpretes – quem foram eles?

Cristina Saraiva – A maior parte as músicas é interpretada pelo próprio parceiro. Eu tenho sorte, porque além de grandes compositores, meus parceiros são excelentes cantores. Com relação aos outros, bem vamos por partes, por discos…
No Primeiro Olhar, conforme te falei, 4 fonogramas já estavam prontos, com interpretação dos parceiros. Nos outros, três foram interpretadas pelos parceiros – Edu Santana, Renato Motha e Sergio Santos – e os outros, por intérpretes. Foram eles: a Marcia Tauil, Giselle Martine e o Mauricio Maestro. No caso do “Só Canção”, temos sete faixas com intérpretes convidados contra cinco de parceiros (Simone Guimarães (2) , Edu Santana, Dante Ozzetti e Clarisse Grova). Os convidados foram: Chico Buarque, Ná Ozzetti, Renato Braz, Paula Santoro e Leila Pinheiro – além da Clarisse, que cantou também em uma parceria minha com o Felipe Radicetti.

Solange Castro – Um time e tanto…

Cristina Saraiva – Fiquei muito feliz com o resultado, e considero, sinceramente, que meu disco reúne muito do que temos de melhor em nossa música (sejam consagrados ou não)… e isso sem contar no time de parceiros e no timaço de músicos. Se é verdade que se pode avaliar um trabalho pelas pessoas que o compõe, estou muito bem parada… rssssss… Os arranjos ficaram por conta do Mauricio Maestro (à exceção de “Só Canção”, com arranjo de Dante Ozzetti) e meus parceiros nesse novo disco: Felipe Radicetti, Theo de Barros, Rafael Alterio, Simone Guimarães, Dante Ozzetti, Edu Santana e Clarisse Grova. E os músicos: Leandro Braga, Jorge Helder, Fernando Gama, Dante Ozzetti, Ricardo Amado, Marcio Mallard, Franklin da Flauta, Jurim Moreira, Beto Cazes, Mauricio Maetro, João Carlos Coutinho, Zé Nogueira e Claudio Guimarães.

Solange Castro – Vixi – só fera… Não podemos reclamar – nossa “música” pode até não chegar, por puros interesses comerciais, ao nosso povo, mas que temos um time de primeiríssima, sem dúvidas…
Bom, você tem feito shows para o lançamento do disco – tem algum agendado?

Cristina Saraiva – Sim. Estou até assustada de como vou fazer pra dar conta de todas essas produções ( porque sou eu mesma que faço as produções)
Terei dias 14 e 15 de junho no Mistura Fina. Depois, dias 09, 10 e 11 de julho, na Sala Funarte Guiomar Novaes de São Paulo ( essa notícia é novíssima, pois acabaram de me ligar pra me dizer que eu havia sido selecionada pelo edital pra ocupação da sala) . E depois, dia 11 de agosto , em Brasília, no Sesc 504 . O curioso é que cada apresentação será com uma formação diferente. Para o Mistura, farei com a Clarisse Grova, o Leandro Braga e possivelmente um violonista que ainda não está definido. Para São Paulo, a mesma Clarisse Grova será acompanhada pelo pianista André Mehmari. Este show será realizado em conjunto com meu parceiro , artista maravilhoso, Rafael Alterio. Já em Brasília, farei com uma cantora do nordeste, a cearense Aparecida Silvino ( com quem fiz o lançamento em Fortaleza) e o pianista Marcos Vinnie. Por aí você faz idéia do trabalho que vou ter na produção …

Solange Castro – Maravilha – mande as agendas que publicamos aqui…
Onde podemos encontrar teus discos?

Cristina Saraiva – Na pagina www.cristinasaraiva.com

Solange Castro – Em mais algum lugar onde podemos encontrar os discos?

Cristina Saraiva – Ah, em algumas lojas espalhadas por aí, mas como o Alô é nacional, não sei se seria o caso de citar todas elas, em cada cidade, né? No Rio, basicamente na Modern Sound e em todas as Travessas. Fora isso, algumas lojas espalhadas. Na realidade, estou acrescentando essa informação no meu site .

Solange Castro – O Alô é internacional – temos público nos quatro cantos do Planeta – mas se alguém de fora quiser o disco você envia, correto?

Cristina Saraiva – O Alfredo da Tangará (Espanha) tem o CD e pode cuidar dessa parte internacional.

Solange Castro – Tem o site dele?

Cristina Saraiva – Ele ainda não tem site, está terminando, mas o endereço de e-mail é info@tangara.net.

Solange Castro – E Festivais – você vai participar de algum?

Cristina Saraiva – Não, acho que não vou mais participar não. Mas devo ir em alguns, ainda que não esteja concorrendo…

Solange Castro – Por que? Você não acha válido?

Cristina Saraiva – Pra mim, não mais. Aliás, nunca fui uma “festivaleira”. Participei seis vezes em toda a vida, aí considerando a Globo e o Visa. Mas acho super bacana. Na verdade, não tenho mais intenção de participar porque acho que o que eu poderia ter dos festivais, acho que já obtive. A maior parte dos meus parceiros eu conheci neles. Agora, é deixar o caminho para outros. Há muita gente talentosa por aí. Agora, se algum parceiro (como o Breno, que é muito novinho ainda) quiser concorrer com uma parceria nossa, tudo bem (o Paulo Cesar Pinheiro até hoje entra com parcerias, né??). Agora, eu mesma, inscrição minha, acho que não. A não ser talvez um especial, o próximo Visa Compositores , quem sabe…

Solange Castro – Acho justa tua posição – também acho que os Festivais deveriam privilegiar os novos talentos…
Cris, foi um prazer enorme conversar contigo – espero que você continue com essa veia poética, enchendo de doçura nossa música…
Muito obrigada

Cristina Saraiva -Valeu, e obrigada a você pelo espaço…