Cris Aflalo

 

Por: Eliane Verbena

 

Ela está com CD novo, cujo título, ‘Quase Tudo Dá’, é uma brincadeira com as inúmeras possibilidades que a vida nos dá. Quase tudo é possível, desde que haja força e coragem para buscar as conquistas. Ela tem. Cris Aflalo começou como a maioria dos cantores, informalmente; depois vieram os bares, a noite, os primeiros shows, a aproximação com artistas importantes – ela tem aquele magnetismo para atrair pessoas – e se fez, indiscutivelmente, presente ao apresentar a imortal obra de seu avô no primeiro álbum, ‘Só Xerêm’. Um presente para quem conhecia Xerém, compositor popular das décadas de 30 a 70, e uma feliz descoberta para os mais desavisados. Agora, com o novo disco ela se reafirma como intérprete de personalidade única. Gravou outros autores e ainda revelou a sua face de compositora. Cris Aflalo conversa com o Alô Música para contar a sua história e falar de seu novo e belíssimo trabalho.

Eliane Verbena

Eliane – Cris Aflalo seja bem vinda ao Alô Música. Tenho certeza que este papo será ótimo e que os internautas vão adorar saber um pouco mais desta pessoa talentosa e carismática que você é.

Cris Aflalo – Estou contente por esta oportunidade.

Eliane – Cris, qual foi o primeiro momento de sua vida em que “a música” te emocionou, indicando que seria parte de sua vida?

Cris Aflalo – Desde sempre. A minha casa era muito musical, quase o tempo todo: fim de noite, almoços e jantares, finais de semana inteiros. Minha mãe conta que com dois, três aninhos, eu saia dançando e cantando O Bale, O bale…. Lembra do vinil com a mulher e o papagaio? Meu tio, Armando Aflalo, crítico de jazz, ia à nossa casa, quase todo final de semana, para se reunir com meu pai e ficavam horas ouvindo música, de tudo, e eu em meio a eles. Acho que, desde os sete anos já dizia: “mamãe, quando eu crescer serei atriz, cantora ou bailarina”.

Eliane – Música na raiz é para a vida toda. Tio crítico de jazz, avô compositor… E, por falar nisto, você conviveu com seu avô, Xerêm? O que lembra dele?

Cris Aflalo – Lembro-me do vovô Pedro (Xerêm) tocando gaita no quarto do meu irmão e também, da gente no quintal de casa brincando, mas foi pouca convivência. Ele faleceu quando eu tinha quatro anos. O que mais me traz recordações é minha mãe tocando violão e cantando um pot-pourri de Xerêm.

Eliane – Como começou sua carreira de cantora? Você gravou o primeiro CD só com músicas de Xerêm, mas, antes disto, como era sua relação profissional com a música?

Cris Aflalo – Eu cantava muito quando criança, ouvindo Gal, Elis, Tom Jobim, Sarah Vaughan. Cantava sempre nos encontros de amigos, nas festas, na escola, em eventos de final de ano, enfim, com 15 anos fui pra Fortaleza, (viagem da escola) e lá, num restaurante de beira de estrada, levantei-me da mesa e cantei “Garota de Ipanema” com dois repentistas.

Eliane – Foi o sinal?

Cris Aflalo – Foi, totalmente, um sinal. Ainda mais que era na terra do meu avô. Coincidência surreal.

Eliane – E profissionalmente, como começou?

Cris Aflalo – Depois disto, de volta a São Paulo, eu tive a certeza de que seria cantora. Comecei a ter aulas de canto e cantava sem ganhar dinheiro nos bares de Ilhabela, litoral paulista. Aos 17 anos comecei a ensaiar um repertório com um violonista, Miguel, e com meu irmão, Marcos, que é percussionista. Comecei em barres da Vila Madalena, fingindo ter 18 anos.

Eliane – O começo… Puro prazer e aventura.

Cris Aflalo – Então eu já começava a receber cachê e espaços onde cantava. Adquiri muita experiência com a noite. Aos 20 anos, o Américo, dono do extinto Supremo Musical, me disse: “vamos marcar uma data para sua estreia em carreira solo”. Nesta época, meu repertório tinha apenas três ou quatro músicas de Xerêm.

Eliane – Eu estava lá, no show, sabia? Quando foi que começou a pesquisar, mesmo, a obra de Xerêm? Muito depois disto?

Cris Aflalo – Sim!!!! Antes desta estreia no Supremo Musical, fui visitar a irmã de Xerêm, minha tia Nadir (Tapuya), que fez a primeira dupla caipira com ele, Xerêm e Tapuya, na década de 30. Ela me mostrou alguns “guardados”, como ela dizia: discos, fotos etc. Trouxe tudo para São Paulo e, para minha surpresa, minha mãe disse: “você acha que isso é bastante coisa do meu pai?!”. E ela abriu um maleiro com o triplo de histórias, partituras, enfim, tudo sobre Xerêm. Foi uma grande descoberta. Marquei, então, um encontro com o baixista Paulo Bira, com quem me apresentava na noite, para falar sobre o meu show e mostrar o Xerêm. Ele topou o trabalho na hora e me apresentou o violonista Luiz Waack, com que trabalho até hoje. Montamos o primeiro show.

Eliane – Porque você resolveu gravar o primeiro álbum só com músicas dele? Sei que já era compositora bem antes da gravação. Não pensou em juntar as coisas?

Cris Aflalo – Eu não era compositora ainda, só brincava de ser.

Eliane – Mas o que mais te moveu a fazer este disco?

Cris Aflalo – Muitas coincidências divinas aconteceram: o Benedito Ruy Barbosa me ligou para eu gravar “Mamãe Baiana”, de Xerêm, para a trilha da novela Terra Nostra da Rede Globo. Fui a muitos programas da Inezita Barroso na TV Cultura, rendendo um convite do Teatro José de Alencar para fazer um show só com músicas de meu avô na festa de 90 anos do teatro, em 2000. Fechamos um show no Parque da Aclimação e, quando dei por mim, era exatamente no dia do aniversário de Xerêm. Só podia mesmo cantá-lo. Luiz Waack e eu já estávamos na pré-produção do disco; tinha “Matutu”, música minha que gravei só agora, e tinha “Tudo que Respira Quer Comer”, do Carlos Careqa, mas ficou claro que devíamos começar por Xerêm. Pensamos muito, discutimos, conversamos bastante até ter a certeza.

Eliane – O que esse disco, ‘Só Xerêm’, lhe trouxe de bom e de que forma preparou o terreno para o segundo, ‘Quase Tudo Dá’, que está sendo lançado agora?

Cris Aflalo – ‘Quase Tudo Dá’ não existiria se eu não tivesse feito o ‘Só Xerêm’. Refiro-me ao aprendizado de estúdio, produção, arranjos e concepção artística. Sobre o repertório, digo que, antes do primeiro CD, o caminho já era por ai. ‘Só Xerêm’ foi um disco independente. Acho que foi lançado no começo ou meio da era independente, pois hoje em dia todo mundo é independente, até os artistas consagrados o são. ‘Só Xerêm’ foi muito bem sucedido. Tenho muito a agradecer: muitas matérias na mídia impressa, shows pelo Brasil, encontro com artistas…

Eliane – Você diria que foi a semente para o seu amadurecimento como intérprete?

Cris Aflalo – Esse trabalho me ensinou muito e eu aprendi a cantar mais rápido, as emboladas, brincar mais com as palavras e, principalmente, a esquecer busca pela perfeição. Xerêm me ensinou muito. Para mim, ‘Quase Tudo Dá’ é a mistura das minhas influencias, é a Cris no seu tempo. Nasci em 1976, então pode imaginar a quantidade bacana de informações musicais que recebi nas décadas seguintes?

Eliane – Como você definiria seu novo CD para quem ainda não o escutou?

Cris Aflalo – Ele é uma mensagem de alegria: olhar a vida de maneira fluida, um olhar positivo, mas não de “Poliana”; coisas ruins acontecem, mas o bacana é fazer disto o seu crescimento e, assim, tudo fica mais leve. Tudo é possível na vida quando se pensa positivo.

Eliane – A raiz, tão presente em ‘Só Xerêm’, seria esta maneira leve de ver a vida?

Cris Aflalo – Absolutamente, sim. Queria ter convivido mais com ele, que sabia levar a vida, tinha muita sabedoria, inclusive espiritual.

Eliane – Além de estrear como compositora neste novo CD, o que mais gravou? E quais ritmos o embalam?

Cris Aflalo – A MPB está presente e o pop diluído também, já que ouvi tanto Pink Floyd, U2, The Police, jazz… quanto música clássica. Eu acho tudo isto no Quase Tudo Dá, mas isso é muito pessoal, só o Luiz e eu sentimos. Em relação as minhas composições, digo que sou mais Xerêm. A música “Finzinho de Chuva” é um baião, “Aroeira” também, mas as melodias não são características do baião. “Imaculada”, pra mim, é uma homenagem ao Xerêm. É uma embolada. “Matutu” já bem antiga, eu a compus, em 1997, falando da minha ligação com a terra, com a natureza.

Eliane – Fale um pouco sobre a sua relação com o Luiz Waack, parceiro na produção de seus dois CDs…

Cris Aflalo – O Luiz Waack é um parceiro único. Tenho muita sorte de tê-lo presente em minha vida, não só ele, também toda a sua família.

Eliane – Como é a relação de vocês quando estão trabalhando? Vocês brigam ou é só alegria?

Cris Aflalo – A nossa relação musical é pura intuição, coração mesmo, por mais que a gente pense, bole o arranjo, quando menos esperamos já está pronto. Claro que nos debruçamos sobre a música, mas é uma relação muito simbiótica. Agora, me cite uma dupla que seja só alegria… E acho até que algumas tensões humanas têm seu propósito. Temos nossas diferenças, o que acho ótimo, mas confesso que, graças a Deus, temos o gosto musical muito parecido. E vale ressaltar que a gente tem formação distinta. A escola dele é uma e a minha outra. E é isso o bacana.

Eliane – No palco, a sintonia de vocês é contagiante!

Cris Aflalo – Nossa magia no palco, assim como qualquer magia entre as pessoas, não se explica; só se sente. E outra cosa: são 12 anos tocando, produzindo e criando juntos.

Eliane – É um privilégio seu esta parceria!

Cris Aflalo – Com certeza, um privilégio indescritível. Sabe que outro dia eu disse sem perceber: “o meu violão é a voz dele”.

Eliane – Quais compositores você escolheu para gravar desta vez?

Cris Aflalo – Arnaldo Antunes é novo na minha vida e, daqui pra frente, quero sempre gravá-lo. Escolhi uma dele com o Péricles Cavalcante (do qual hoje sou fã por ter me aproximado e conhecido melhor a sua música) e outra com o Paulo Tatit. O legal do Tatit é que conheço a maravilha de compositor que ele é pelo grupo Palavra Cantada, mas quando me deparei com a melodia de “Um Som” junto à árida e profunda letra do Arnaldo, amei. Tatto Ferraz é um amigo querido e compositor impar; gravei uma música dele, “Sinto Seco”, em parceria com a Julli Pop…

Eliane – Quem mais?

Cris Aflalo – Lula Queiroga é fantástico e a prece que ele consegue com em “Conceição dos Coqueiros” é maravilhosa (parceria com Lulu Oliveira e Alexandre Bicudo). Gil e Caetano, nada a declarar, apenas saudar sempre! Carlos Careqa, pois canto há tempos e sempre cantarei. E a novidade de ter o Luiz Waack em uma parceria nossa e a Rita Rameh, poetisa e amiga em “Finzinho de Chuva”.

Eliane – Falando de você, sua alma é urbana ou sertaneja? Como isto se mistura, pois sei que mistura?

Cris Aflalo – Sinto que ninguém é uma coisa só. Somos um enorme aglomerado de sensações, sentimentos, pensamentos… Por isso, no título do meu disco, Quase Tudo Dá, a entonação não é pejorativa, é leve e positiva. A gente pode quase tudo que quiser é só trabalhar pra isso, direcionar. É foco.

Eliane – Cris, quais são os seus ídolos na música, atualmente? E da nova geração, quais os cantores que você admira?

Cris Aflalo – Eu gosto de tanta coisa hoje, mas o que me faz bem mesmo, emociona, arrepia e até me faz chorar são os antigos: Tom Jobim, Egberto Gismonti, Joyce, MPB em geral, jazz, muita música instrumental… E dos novos eu destaco Verônica Ferriani, Giana Viscardi, Rogério Rochlitz, pra citar apenas três. Também adoro Lenine, Chico César, Lula Queiroga, Zélia Duncan… É muita gente boa neste nosso Brasil talentosíssimo.

Eliane – Você é uma intérprete de raro carisma. Você encanta a plateia. Mas também é ótima compositora. As duas coisas se equivalem ou cantar é seu maior talento, sua maior paixão?

Cris Aflalo – Obrigada. Os dois lados sempre estarão presentes e me contentam da mesma maneira. Não imagino um disco meu só com composições minhas, já que o nosso cancioneiro é tão rico. Eu gosto do palco, da troca com os músicos e com a plateia, não é racional. Quando percebo, estou cantando da mesma maneira que compondo. Mas o lado de intérprete vem de mais tempo. Sou musicista, produtora e arranjadora. Sou cantora de profissão e artista que no palco brinca, festeja a vida e saúda o elo único com o público.

Eliane – Aonde você espera que a música te leve ou que ela lhe traga?

Cris Aflalo – Para o mundo. Cantar pelo mundo. Continuar desenvolvendo, evoluindo e descobrindo a minha linguagem como cantora, como performance diferenciada e consciente do que quero e faço. Conquistar uma sólida e respeitada carreira. Ter a voz reconhecida no primeiro acorde. E também continuar trabalhando com o Luiz e com estes grandes músicos que estão me acompanhando agora: Adriano Busko, Meno Del Picchia e Agenor de Lorenzi.

Eliane – E como você vê o mercado para a música independente? Como vê os artistas fora das grandes gravadoras?

Cris Aflalo – Acho natural que, cada vez mais, os artistas se tornem independentes, mas isso não altera a busca por parcerias, projetos e afins. Em relação ao Só Xerêm, percebo que o espaço, por mais que hoje haja maior número de veículos, também há menos espaço que quatro anos atrás. Acho que o poder não mudou é que agora há poder em muitas mãos. E mesmo com muita gente independente, infelizmente o mercado continua muito segmentado, sem democratização, ainda, mas está mudando, acredito.

Eliane – Você acha que a internet tem colaborado para a divulgação dos artistas mais que os outros veículos?

Cris Aflalo – Completamente. Sinto que, a cada dia, novas oportunidades surgem, novos sites, revistas eletrônicas e venda em MP3.

Eliane – No palco você é divertida, meiga, brincalhona e passa uma alegria incrível. Isto é transparência? Você é assim no dia-a-dia?

Cris Aflalo – Sou mais moleca no palco do que no dia a dia, mas sou o que sou. Não penso muito nisso. Palco é energia pura, magia; e o cotidiano é correria.

Eliane – Você é uma cantora que deixou sua marca em eventos importantes, Fale deles.

Cris Aflalo – Cantar ao lado de Carlos Lyra e Roberto Menescal foi uma realização. Ouço-os desde muito pequena. Todas as trocas foram oportunidades únicas. Cantei com o Oswaldinho do Acordeon, Dominguinhos, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Alaíde Costa, Claudete Soares, Altamiro Carrilho, Claudete Soares, Pena Branca, Carlos Lyra, Marcos Valle e outros. Sem falar que cantar Chico Buarque ao lado de Fernanda Porto e Luciana Mello foi uma descoberta bacanérrima.

Eliane – E o Prêmio Tim?

Cris Aflalo – Foi uma surpresa e honra tamanha, pois ser indicada como melhor cantora ao lado de Elba Ramalho e Margareth Menezes, com o primeiro CD, foi no mínimo surreal.

Eliane – Sei que você também foi longe no Prêmio Visa, chegando à final. Parabéns. Agora nos conte como foi seu encontro com o Oswaldinho do Acordeon? Sei que ele participou de alguns shows seus e também lhe apadrinhou.

Cris Aflalo – Obrigada. Oswaldinho e Inezita Barroso são os meus padrinhos de coração, desde o começo. Mesmo antes de gravar o primeiro disco, sempre me apoiaram. Participo do Programa Viola Minha Viola desde 1999 e é sempre estimulante conviver com Inezita. Cantei com o Oswaldinho, em 1998. Foi lindo! Depois, cantamos juntos em um show do CD Só Xerêm, que tinha também o Altamiro Carrilho, outro grande mestre.

Eliane – Outra coisa que é importante de lembramos: a gravação do programa Ensaio, do Fernando Faro na TV Cultura. Espaço na TV para poucos…

Cris Aflalo – Realmente, gravar o Ensaio foi uma realização. O Baixo é uma lenda viva!

Eliane – E, para fechar nossa entrevista, como se sente hoje com este novo trabalho, que já começa a bater asas. Sabemos o quanto é trabalhosa a divulgação de um CD. Existe ansiedade ou você deixa o vento sobrar e saboreia a brisa?

Cris Aflalo – As duas coisas. Tem a ansiedade, coisa muito natural, e também o deixar a vida nos levar, pois a música chega aonde tem que chegar. Estou muito feliz com as críticas, equipe de produção, músicos e, principalmente, com o CD que ficou exatamente como eu o queria.

Eliane – Quem quiser ter um primeiro contato com este trabalho da Cris Aflalo pode acessar o www.myspace.com/crisaflalo e, Cris, para quem quiser comprar o CD, já está nas lojas?

Cris Aflalo – Sim, já está nas lojas, lembrando que Quase Tudo Dá é distribuído pela Tratore, entrem lá: www.tratore.com.br.

Eliane – Espero que seu novo álbum a leve a belos caminhos como é sua arte, bela! O Alô Música lhe deseja sucesso e que tudo seja regado com terra e amor! Obrigada pela entrevista.

Cris Aflalo – Amém! Obrigada a você e ao Alô Música pela parceria de sempre. Abraço a todos.