Consuelo de Paula

 

Por: Eliane Verbena

A mineira Consuelo de Paula, radicada em São Paulo, é uma grande admiradora da genuína música brasileira e eu, confesso, sou uma grande admiradora do seu trabalho. Já disse antes que é difícil explicar ou definir seu estilo, mas posso atestar que ela caminha firme na busca pela proximidade com a pureza da música e das canções. Consuelo lança seu terceiro CD, Dança das Rosas, no qual se expõe com naturalidade, maturidade e segurança; finca o pé no chão, lança mão de sua arte própria em letras carregadas de simbolismos que fazem um jogo preciso entre o passado e o presente, entre o novo e o que já foi dito. Vamos conhecer um pouco mais desta artista brasileira.

Eliane Verbena

Eliane Verbena – Vamos começar uma entrevista diferente desta vez, já que eu lhe entrevistei outras vezes com o simples intuito de fazer releases. Pra começar, diga, para quem não lhe conhece ou não lhe conhece bem, quem é Consuelo de Paula?

Consuelo de Paula – Uma admiradora da canção brasileira. Uma mineira que veio pra cidade grande procurar meios para expressar a sua arte. Para comunicar o resultado de sua apaixonada admiração. Uma cantora e compositora que realizou uma trilogia: Samba, Seresta e Baião, Tambor e Flor e Dança das Rosas.

Eliane Verbena – Como a música entrou na sua vida?

Consuelo de Paula – Nossa! Às vezes acho que de forma atávica, ou melhor, desde sempre… Profissionalmente, a música entrou na minha vida pela impossibilidade de exercer qualquer outro ofício, pela necessidade extrema, vida ou morte. E, principalmente por causa do curso do rio.

Eliane Verbena – Explique “vida ou morte”, “curso do rio”…

Consuelo de Paula – Esta profissão ficou tão forte em minha vida, que às vezes acho que se não estiver exercendo este ofício, não consigo ânimo para acordar de manhã. Curso do rio? Vida nos levando, nos indicando. O pedido do coração, a intuição. E sei lá quais mistérios…

Eliane Verbena – Entendi… É a razão para viver, caminhar?! Agora, conte-nos de forma prática como a música tomou sua alma, sua voz, seu destino? Diga-nos quando foi.

Consuelo de Paula – É. O motivo da vida. O ânimo, o estímulo, a paixão. A arte musical sempre esteve nos meus verdadeiros trabalhos: brincadeira de criança, lazer de adolescente. E se tornou a coisa mais séria da minha vida. Depois que me formei em Farmácia (em Ouro Preto), vim pra São Paulo e logo um violonista me chamou para montarmos um show: o Roberto Alves. Fui ao Café Paris e encontrei o Wagner Brandão. Cantei pra ele e ele disse: nossa, o que você quer mais? Fizemos um show. Não parei mais.

Eliane Verbena – Conheço o Wagner Brandão, grande músico, grande amigo. Saudades de você, Wagner. Antes de entrarmos em assuntos mais recentes, dos quais falaremos já, sei que participou ativamente de movimentos populares em Pratápolis (MG), onde nasceu, como carnaval, congada… Fale um pouquinho sobre isto.

Consuelo de Paula – Fui rainha da congada. Fui bailarina de fanfarra. Fundei bloco carnavalesco. Cantei serenatas, cantei em igreja e festivais, toquei repinique, tarol e violão….

Eliane Verbena – Devemos entender que tudo isto foi raiz fincada em sua origem e base para seu vôo?

Consuelo de Paula – Foi e só percebi isso quando fui realizar o primeiro CD.

Eliane Verbena – Sei… Deu-lhe sustentação, sentiu-se amparada, preparada para mostrar sua arte. Você está no terceiro CD, Dança das Rosas, que fecha uma trilogia, iniciada com Samba, Seresta e Baião e, depois Tambor e Flor. Qual é sua expectativa com este novo álbum?

Consuelo de Paula – Minha expectativa é a de caminhar com os três CDs. Gostaria de fazer shows, leva-los por aí, por aqui e pelo mundo. Antes, se me chamassem para ficar mais de três meses trabalhando fora do Brasil, eu não iria. Agora o meu momento é o de ir aonde tiver trabalho, aonde eu puder fazer shows. Tendo condições razoáveis de trabalho, iria até para o meio de uma cidade em guerra. Penso ser a minha função.

Eliane Verbena – O que representa a trilogia? Como se faz um trabalho que precisa fechar um ciclo?

Consuelo de Paula – O fechamento da trilogia, o encerramento de um ciclo de produção de CDs me traz um tempo de esperar. Representa… Isso aconteceu de maneira intuitiva. Quando comecei a pensar o Samba, Seresta e Baião, aos poucos, vi que era uma trilogia. Acho que estou apenas a serviço de tudo o que nos leva a alguma forma de expressão através da canção. Não sei definir bem as inspirações. O trabalho aconteceu assim: me pediu este tempo, eu dei este tempo. É como na vida. É como a vida. Vento, dança e rio…

Eliane Verbena – O resultado foi o que esperava?

Consuelo de Paula – Totalmente. Eu não mudaria nem um suspiro. O que eu tive de melhor, registrei nestes três álbuns da melhor maneira que eu poderia fazer. Aliás, é muito melhor do que eu. Sofro muito, antes e durante, porque busco o meu máximo. Depois eu olho, ouço e me torno admiradora das minhas admirações.

Eliane Verbena – Não acredito muito nisto. Acha mesmo que fazemos algo melhor do que nós? Eu penso que somos o que podemos realizar e sentir.

Consuelo de Paula – É assim que sinto em relação a minha arte. É a maior verdade: é muito melhor do que eu, muito. Ela me ensina, pode acreditar. Talvez por causa das consciências e inconsciências, sei lá…

Eliane Verbena – Bom, você é modesta, mas devemos lembrar que é a “sua arte”, é você fazendo arte. Dança das Rosas é totalmente autoral. O disco é lindo, tem uma unidade sonora impecável e uma delicadeza sublime. As letras são suas e as melodias do Rubens Nogueira, certo? Como foi a parceria? Alguma coisa não deu certo no meio do caminho?

Consuelo de Paula – A parceria foi um presente da vida. Impressionante. Começamos a compor e fizemos exatamente o que gravei em Dança das Rosas. Era o repertório exato. Antes de terminarmos as duas últimas músicas, pensei que colocaria uma de outro autor e uma de Domínio Público. Quando as duas derradeiras chegaram, olhei espantada para o conjunto, admirada e agradecida. Era realmente um CD autoral.

Eliane Verbena – E agora, o que pretende fazer? Fechada a trilogia com este trabalho primoroso, o que podemos esperar de Consuelo de Paula? Além do trabalho de lançamento, claro. Falo da continuidade…

Consuelo de Paula – É a primeira vez que sinto precisar de estímulos para responder quanto à continuidade. Cumpri uma história. Não sei se terei outras a cumprir. Depende muito do que acontecer. Agora dependo do que chamamos de troca. Estou oferecendo essa trilogia. A vontade é de trabalhar, ser cada vez mais profissional, compor, fazer shows. Por enquanto não posso pensar em outro CD, não devo. A não ser que aconteça algo inesperado e mude esta ordem…

Eliane Verbena – Acho isto natural, neste momento. Seu primeiro CD foi independente, mas depois foi relançado pela Dabliu Discos. Os dois mais recentes são totalmente independentes. Você gostaria de ter uma gravadora ou é uma opção? Como você faz a distribuição de seus discos?

Consuelo de Paula – Foi muito importante realizar tudo de forma independente. Fui produtora do meu trabalho, em todos os sentidos. Fiz o que é possível se fazer sozinha. Mas, talvez isso represente a forma realizada até aqui. Existe um cansaço e espero encontrar boas parcerias para trabalhar. Talvez um novo ciclo seja de parcerias. Espero que isso aconteça. Parcerias na criação, na produção, na distribuição. Escolhi algumas importantes lojas com as quais trabalho e que aceitam bem meus discos.

Eliane Verbena – Você faz tudo sozinha?

Consuelo de Paula – Até agora tem sido um trabalho solitário. Mas, sempre um pouco menos solitário conforme o tempo avança. Parceiros vão surgindo, fãs, amigos, lojistas interessados, músicos etc.

Eliane Verbena – Sei que suas músicas são tocadas em muitas rádios do Brasil e em algumas de São Paulo. Tem aquelas que não tocam… Como você vê a questão “institucionalizada” do “jabá” nas rádios brasileiras?

Consuelo de Paula – Será que se alguém quisesse comprar todos os espaços das TVs, rádios, jornais e revistas, ouviríamos só uma música, só um clipe, só uma notícia? Será que assim se evidenciaria o ato criminoso? E a simples informação? O Brasil não sabe que ainda tem uma grande mãe negra cantando (Dona Ivone Lara), não podemos ouvir nossa mãe, nem pai, nem filho e nem espírito santo.

Eliane Verbena – Boa e bela resposta. E sobre o nosso Ministro da Cultura, grande compositor e cantor, Gilberto Gil, o que pode nos dizer?

Consuelo de Paula – Acho que ele está conseguindo aberturas políticas importantes. Ainda tenho expectativas positivas sobre este governo, mas gostaria de estar ouvindo a intenção clara de se criminalizar o “jabá”, de se ter uma TV Cultura e Rádio Cultura fortalecidas. As nossas TVs Culturas e Rádios Culturas, de todo o país deveriam estar recebendo total apoio para um melhor trabalho, poderiam estar cumprindo melhor o papel, o que ainda seria pouco. Parece que a Funarte está preparando um bom trabalho!

Eliane Verbena – Você sente uma diminuição ou um aumento de espaço nas rádios para a música independente?

Consuelo de Paula – Sinto uma diminuição. O único aumento acontece na Internet.

Eliane Verbena – Seu trabalho ganhou muito espaço na Internet?

Consuelo de Paula – Qualquer pessoa que procurar por Consuelo de Paula na Internet, ou que chegar ao meu nome através de outras pesquisas, encontrará o meu site (www.consuelodepaula.com.br) e lá poderá conhecer e adquirir os CDs. Além disso, existe a divulgação feita on line: jornais virtuais, rádios, tvs. Hoje mesmo gravei um programa ótimo na All TV.

Eliane Verbena – Vamos já mudar de assunto, mas conta para os internautas que TV é esta, que programa é este?

Consuelo de Paula – Este programa é o Novos Talentos, apresentado pelo crítico musical André Domingues, aos domingos, ao meio-dia. Pode ser visto no endereço www.alltv.com.br. O Ronald Gimenez também apresenta outro, que é muito interessante, Conexão MPB (sábados, às 16 horas).

Eliane Verbena – Então você não se sente uma artista marginalizada?

Consuelo de Paula – Não, não me sinto. Existe um mundo (aliás, um mundo real) além da grande mídia, além do “mercado globalizado”. É um mundo difícil (o real é sempre difícil), mas é onde quero trabalhar.

Eliane Verbena – Vejo que se sente bem com o que vem acontecendo na sua carreira, com o respeito que seu trabalho alcançou. Como se sente agora, que criou coragem para expor também seu lado de compositora? Você teve que se despir muito para escrever?

Consuelo de Paula – Sim, a exposição agora é maior, dá pra ver o invisível. Ontem mesmo, recebi poemas escritos por Celina Lucas para o grupo de Internet Dançapé, inspirados no CD Dança das Rosas: Treze delírios sobre o Dança das Rosas. Fiquei impressionadíssima. Vi coisas que eu própria ainda não ousava me contar sobre as letras que escrevi. Vi o que eu sempre soube, o que eu no fundo mais soube, vi o que fiz no espelho proporcionado por outra poeta.

Eliane Verbena – Um bom trabalho artístico trazendo boas coisas…

Consuelo de Paula – É, trazendo coisas boas. Inclusive, fiz uma canção em parceria com Etel Frota e Luiz Felipe Gama (novos frutos), cujo tema é o espelho…

Eliane Verbena – Gostaria de saber como se sente um artista, como se sente Consuelo de Paula, quando sobe ao palco?

Consuelo de Paula – Deve ser como uma mãe se sente entregando seu filho ao batizado, como noivos se sentem levantando as alianças na hora do ritual do casamento, como a dor e o prazer da rosa quando se abre. Eu me sinto realizando o trabalho para o qual dou tudo de mim, do qual tenho medo (como sempre temos das coisas mais essenciais). Trabalho que espero sempre realizar com a maior verdade, seriedade, profissionalismo e amor.

Eliane Verbena – Linda comparação. Acho que todos vão entender e bem. Sei que esteve cantando fora do Brasil? Onde foi e como foi a experiência?

Consuelo de Paula – Estava num momento em que surgia uma certa conversa com a América Latina (nas minhas criações, futuras ainda…). Surgiu um convite para cantar na Argentina, em Buenos Aires. Fiquei incrédula com a receptividade do público. Eu que achava que minha música era muito para o Brasil, realizei o show mais aplaudido, mais forte da minha vida lá, na cidade portenha. Parece que retornarei este ano. Tomara! Oxalá!

Eliane Verbena – Parabéns a você e feliz deles em lhe conhecer. Diga-me, quais artistas (cantores e/ou compositores) você mais admira?

Consuelo de Paula – Chico Buarque de Holanda, Clementina de Jesus (gravei Moro na Roça, um samba interpretado por ela, no CD Tambor e Flor), Clara Nunes, Paulinho Pedra Azul, Paulinho da Viola, Herivelto Martins, João Nogueira, Adoniran Barbosa, Cartola, Dona Ivone Lara, Maria Bethânia, Fátima Guedes, Sueli Costa, o choro brasileiro, o cancioneiro popular, os baiões, a canção brasileira…

Eliane Verbena – Nossa música “popular” brasileira…

Consuelo de Paula – Admiro também muita gente da minha geração. Muita gente que está fazendo coisas belíssimas. Teria que citar muitos.

Eliane Verbena – Você precisou de alguém, em algum momento, que lhe negasse algum tipo de ajuda? Quem mais te deu força para seguir a carreira?

Consuelo de Paula – Acho que me defendo e só peço ajuda pra quem sei que está querendo ajudar. Acho. Sou mineira e tímida. Sinto falta de um padrinho, acho que ajudaria…risos… Recebi e recebo força dos amigos, família e admiradores. Sem isso não teria conseguido. É um sonho coletivo!

Eliane Verbena – Um padrinho com poder de penetração, famoso?

Consuelo de Paula – Um padrinho que já tivesse caminhado mais do que eu e pudesse mostrar um pouco do caminho, mas sei que não existe caminho definido. Como diz a poeta Etel Frota: “o caminho é o caminhar”. Às vezes me procuram para pedir alguma dica, para contar como foi minha caminhada até aqui e vejo que não consigo ajudar muito, pois ainda não sei nada. E este meu sonho de padrinho também não sabe nada ainda.

Eliane Verbena – E você sabe… risos… se eu não perguntei alguma coisa que gostaria de falar?

Consuelo de Paula – É pra encerrar?

Eliane Verbena – Talvez…

Consuelo de Paula – Li, recentemente, umas palavras de um cineasta (não me lembro agora quem foi): “Não sei nada e se soubesse não faria”.

Eliane Verbena – Esta é a deixa para que tudo aconteça. Quem sabe tudo vai aprender o quê? Mostrar o quê de novo? Continuando…

Consuelo de Paula – Quero convidar a todos para dançar. Enfim, uma dança de sambas, serestas, baiões, tambores e flores. Uma dança de vento e de rio. Uma dança, um vôo. Pássaros e rosas.

Eliane Verbena – Gente, ela ta falando do seu CD, Dança da Rosas. Gostou da entrevista? Se não, pode falar.

Consuelo de Paula – Adorei… mesmo.

Eliane Verbena – Que bom! Obrigada pelo tempo, pelas respostas maravilhosas e pela oportunidade de estrear no Alô Música com uma personalidade como você.

Consuelo de Paula – Obrigada pelo carinho, pela paciência…risos… Espero que lhe dê muita sorte, muitas alegrias, muitas emoções boas. Que o coração da poeta Eliane agüente firme a jornalista. Continue exercendo a sua profissão com o mesmo carinho e continue escrevendo belas canções.

Eliane Verbena – O coração da poeta faz sofrer muito a jornalista.

Consuelo de Paula – É, imagino que sim, mas salva a jornalista também… Salva no sentido de abençoar.

Eliane Verbena – Obrigada, Consuelo.

Eliane Verbena é poetisa e assessora de imprensa