Claudia Telles

 

Voz de deusa (muitas vezes de anjo), extremamente feminina, inteligente, alto astral, politicamente correta, um ser maravilhoso… Claudia Telles é uma das maiores intérpretes da música brasileira, além de compositora, amiga, mãe, mulher…
Em entrevista exclusiva ela fala de sua carreira, parcerias, realizações, enfim, nos deu oportunidade de conhece-la um tanto melhor…

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Claudia – em primeiro lugar, é um imenso prazer estar contigo…
Mas conte – como foram os teus primeiros contatos com a música?

Claudia Telles – O prazer é todo meu Sol.
Os primeiros contatos foram com Mamãe, cantando com ela, indo a shows, fazendo televisão, ela me ensinando violão e me colocando pra estudar balé e piano.
Depois que ela faleceu, fiquei bastante tempo afastada de tudo, mas já compunha, tocava violão, minhas amigas viviam me cutucando para que eu cantasse, sempre me enfiavam nas peças de colégio, até que fui estudar no Colégio Anglo Americano e lá conheci a Marizinha do Trio Esperança. No começo a gente não se gostava, fomos apresentadas por uma reitora do colégio, mas com o tempo fomos nos afinando, e acabei por começar a trabalhar em estúdio com ela e os irmãos…

Solange Castro – Isso foi em que ano?

Claudia Telles – Foi em 72. Em 73 já estava firme trabalhando com eles…

Solange Castro – Mas como foi essa trajetória? Assim, como foram teus contatos com a música na infância? Teu pai também era músico, certo?

Claudia Telles – Meu pai também era músico, mas tinha pouca aproximação com ele. Lembro muito de minha mãe, das festas que íamos, que ficávamos a madrugada toda farreando e cantando, dos shows, como os do Zumzum, Skindô e Teatro Santa Rosa que assisti. Das pessoas em si lembro pouco, lembro do Aloysio de Oliveira que era meu padrinho, Herval Rossano que foi namorado de mamãe, lembro muito de Carminha Mascarenha. Minhas lembranças são bem fragmentadas, isso me incomoda muito.

Solange Castro – Quem foram os seus ídolos musicais na tua infância?

Claudia Telles – Engraçado, talvez por ter mamãe tão perto, e tão importante dentro da música, nunca tive um ídolo nacional, eram todos internacionais, e nem sei se posso chamar de ídolos, mas ra o que me chamava a atenção e me tocava muito. Mas sempre fui apaixonada por Barbra Streisand, Ray Charles, Johnny Mathis, Carole Kin, James taylor… Tudo nessa praia, e a black music.

Solange Castro – Artistas bastante expressivos, principalmente na harmonia – interessante…

Claudia Telles – Tanto é que até hoje tudo o que eu canto eu levo pro soul..

Solange Castro – Hummm… Agora entendo… rs…

Claudia Telles – rs…

Solange Castro – Como foi o trabalho com o Trio Esperança? Você fazia back?

Claudia Telles – Eu fazia vocal nas gravações de outros cantores com eles, eles sempre foram um dos melhores grupos vocais pra mim, e fiz parte do Trio durante um ano, quando Regina esteve grávida, e fazia coro nos LPs deles também. Cheguei também a fazer algumas Tvs com eles.

Solange Castro – Isso começou em 72 – em 1976 você gravou teu primeiro compacto que foi um verdadeiro sucesso – como foi esse caminhar?

Claudia Telles – Eu sempre participei de LPs de sucessos, como Os Motocas da Continental, Som Bateau da Polygram, e as Super Quentes da CBS. Um dia O Guti, produtor da Polugram, me chamou pra gravar lá, eu estava com uns 16 anos. Fiquei com um conntrato lá um ano e nada fiz, e nessa época o Jairo Pires estava lá. Ele voltou pra CBS e me carregou, e lá gravei “Fim de tarde”, que estourou.

Solange Castro – Esse disco teve uma super vendagem… Houve turnê, tocava nas rádios, como foi?

Claudia Telles – Bom, por incrível que pareça, viajei muito, mais fazendo rádio e shows de rádio do que outra coisa. Naquela época, era difícil se fazer show com uma música só, mas mesmo assim, fiz bastante interior de Sampa e alguns estados. Pra você ter uma idéia, eu tive que juntar “Fim de tarde” no LP que lancei em 77, pois eu não recebia nenhum tostão daquilo tudo que vocês ouviram, pois na época só se recebia com 12 obras gravadas, e como era um compcato, até hoje estou querendo saber pra onde foi esse dinheiro!

Solange Castro – Contando ninguém acredita…
E como foi o “Claudia Telles” de 1977?

Claudia Telles – Bom, gravaram comigo a título de experiência, e derrepente eu estourei. Logo quizeram fazer um LP comigo. Lembro que a prova do compacto chegou no dia do meu aniversário, 26 de agosto de 76. Quando entrei em estúdio no ano seguinte, estava pra ser lançada a novela “Locomotivas” e eles foram buscar a música dentro do estúdio. Tive que fazer tudo nela primeiro, pra depois terminar o LP. Na época eu era a única artista brasileira a ter duas músicas nos primeiros lugares das paradas de sucesso, pois “Eu preciso te esquecer” também foi a primeiro lugar e ficou um bom tempo.
Do mesmo LP ainda estourou “Aprenda amar”, veio pelo sul e chegou Rio e São Paulo, também chegou ao primeiro lugar, e nesse LP ainda tem “Dindi” e uma regravação que fiz de “And I lover her”.

Solange Castro – Você tocou muito, foi um grande sucesso… Como era fazer shows nessa época? Muitas solicitações?

Claudia Telles – Muito, e as pessoas me agarravam, e eu não entendia direito aquele frisson, achava um exagero… Quando fazia feiras, o povo quase virava o carro em que estávamos. Faz pouco tempo que entendi direito o sucesso que eu fiz.

Solange Castro – Não é difícil de entender – rs…

Solange Castro – Fale sobre os outros discos…

Claudia Telles – Quando mudou a diretoria da CBS, e eles vieram com a idéia de elitizar a gravadora e o diretor artístico veio me perguntar o que fazia comigo… Eu na hora respondi: “- me dá a recissão”, e saí deixando para trás 3 LPs, e nem me toquei que podia pedir indenização. Eu tinha 23 para 24 anos. Do LP de “Eu preciso te esquecer”, saiu um compacto com “Eu preciso te esquecer”, outro com “Aprenda a amar”, outro com “Dindi” e um compacto duplo com essas 4 canções. No LP seguinte, que foi “Miragem”, que também saíram alguns compactos desse LP. Na época aconteceu uma coisa engraçada – A Polygram queria me levar pra lá, tinha um produtor na CBS que não largava do meu pé, achava que era meu dono… O MAuro Motta foi pra Plygram, mas só levavam ele se ele me levasse, e a tonta aqui, nem sabia que não podia quebrar o contrato, foi embora pra Polygram pra fugir do problema, pois na minha cabeça, eu era nova na casa, ele antigo, e como diz o ditado, os incomodados que se mudem né?
Aí foi o inferno. Toda TV e Rádio que eu ia tinha divulgador as duas gravadoras atrás de mim, até que Otto Russo resolveu me esconder num hotelzinho, em Resende, foi uma piada, até eles resoverem juridicamente a situação.

Solange Castro – E como foi o fim da pendenga?

Claudia Telles – Eles resolveram entre eles, disseram que fui usada, porque não tinha ninguém por mim, mandaram o produtor embora e pronto…. rs. E fizeram um contrato comigo de mais quatro anos, me deram uma grana pra me segurar lá… Reformei minha cozinha.

Solange Castro – Rs…

Claudia Telles – No LP de “Miragem”, eu estava mudando de voz, penei pra cantar, até porque, os produtores achavam que eles é que sabiam qual o tom melhor pra mim, e acabava eu me esgoelando.

Solange Castro – Interessante isso – como foi para você essa ‘troca de tons’? Quem era teu diretor musical?

Claudia Telles – Foi acontecendo gradualmente. No primeiro disco foi o Mauro Motta e o tal produtor… rs… No segundo o MAuro por baixo dos panos e o Linconl Olivetti, e no terceiro Eduardo Lajes. Minha vida artística era complicada, sempre fui muito quieta e recatada, e as pessoas da gravadora enchiam minha paciência por causa das minhas roupas muito sérias, e a minha resposta é de que eu cantava com a boca.

Solange Castro – Ulalá…

Claudia Telles – Sempre tive apoio dos divulgadores, até hoje são amigos queridos, do Seu Otto, Seu Emídio… No meu aniversário fazia questão de ter um jantar com a divulgação do Rio e de SAmpa, e sempre tinha. Uma vez pedi pro seu Otto uma boneca da Pepa, e ele me deu…rs
Eu era uma menina grande, morava sozinha, mas era menina. Lidava com pessoas esquisitas, que viviam me dando cantadas, cheias de más intenções, e eu não era nem um pouco política.
Na época rolava uns papos de que algumas cantoras saíam com radilistas e tal e coisa… Pra você ver como eu era tosca…rs… Fui fazer um programa de Rádio na Globo, radialista famoso. Ele começo a brincar comigo: “- Claudinha…casa comigo?” E eu me fazendo de lesa: “_ Que isso fulano, você já é casado…” E ria… E ele: “- Poxa Claudinha, um dia só!” Aquilo bateu meio torto, aí é que fiz cara de paisagem mesmo. No outro comercial ele se virou pra mim e disse: “- Claudinha, se vc sair comigo um dia? Te ponho no primeiro lugar da parada de sucesso que vc quiser!” Pronto… voltou a música… sorrisos pra lá, sorrisos pra cá e veio o outro comercial e eu: “- Fulano, pega sua parada, dobra e enfia no c*!”

Solange Castro – G.A.R.G.A.L.H.A.D.A.!!!

Claudia Telles – Ele se virou pra mim e disse: “- Sabe porque eu gosto de você?” Falei: “- A partir de hoje não tenho a mínima idéia. Ele: “- PORQUE VOCÊ é sincera!” Eu respondi: “- Olha, VOCÊ tem direito de perguntar o que quiser, e eu de te dar a resposta que você merece! rsrsrsrsrs… E acabamos ficando amigos pacas.

Solange Castro – Maravilha…
Mas agora estamos falando do início dos anos 80 (correto)?

Claudia Telles – Correto. Aí o LP de “Miragem” não foi muito legal, birras pra lá e pra cá, artistas apadrinhados novos entrando, e eu fiquei meio relegada a segundo plano. Esse LP mostra bem a época soul do momento, gravei músicas muito legais, mas só trabalhavam meu lado romântico. Aí partimos para mais um LP, o do “Eu quero ser igual a todo mundo”. A música título, foi dada a Roberto carlos, que não gravou porque havia a palavra “complascente”, e segundo me contaram tinha cara de hímem, ele não quis. Foi dada para Márcio Greick, que também não gravou, e quando a ouvi, ela me vestiu, era tudo que eu queria dizer naquele momento.
Gravei compositores fantásticos, como Mariozinho Rocha, Eduado Souto Neto, Guilherme Arantes, entre outros, e sempre gravando canções minnhas. Estava bem mais amadurecida em meu caminho musical. Nesse discos (sempre regravei bossa nova), resolveram fazer a propaganda do disco assim: “Claudia telles mais madura”, “Claudia telles mais mulher”, e eu com cara de moleca, e todos me viam como Claudinha, como me vêem até hoje. O disco foi direitinho, mas não foi o sucesso que eles imaginavam. Mas também eu estava partindo mais para MPB mesmo do que POP, e fizeram o trabalho errado. Em 80 engravidei, e fizeram o compacto com “Eu voltei”, que também foi tema de novela, novela que não deu muito certo, e olha que o par romântico da minha canção era o Fábio Júnior e a Míriam Rios. Aí veio aquele papo que já te falei e saí da CBS.
Me lembro pouco dos shows que fiz nessa época, era uma dificuldade músicos, viajens, cachê, e logo depois começaram os shows de palybcak.

Solange Castro – O que é uma pena, pois sua presança em palco é pura poesia…

Claudia Telles – Fiz muito show de playback, embora fossem em bibocas estranhas, o público era maravilhoso, cantava junto, muito carinhoso, foi uma época muito legal, embora cansativa e de muitos canos também.
Aí fiquei um tempo sem gravar, e soube que o José Vitor tinha ido pra Warnner, e fui lá conversar com ele, que me contratou na hora, só que 15 dias depois, ele foi mandado embora, e eu quis sair junto, e saí.
Ele pediu que eu esperasse um pouco, pois ele estava com uma idéia, e assim que pusesse em prática me falaria. E abriu a gravadora Lança, e eu estava lá desde o primeiro dia. Lá gravei “Pra sempre”, que tocou muito aqui no Rio, e chegou a entrar nas paradas, mas a gravadora era pequena, e o gasto de gravadora grande, distribuída por uma gravadora major, não deu certo infelizmente.
Aí fiquei 6 anos sem gravar, até que o MArcos Silva da RGE, através do Moni, divulgador antigo da CBS e que estava lá, levou um material meu. Eles custaram a ouvir a fita demo, e quando ouviram, a mesma música que estava na minha fita, estava estourada com a Jane Duboc, os compositores tinham dado a ela também, mas enfim, resolveram fazer um LP comigo.
Ia chamar o Alceu Maia pra me produzir, éramos parceiros na época, mas o Marcos Silva, da RGE na época, me convenceu que eles tinham um esquema com um tal produtor, que tinha entrada nas FMs de Sampa e coisa e tal e conversei com Alceu, ele me deu passe livre, sabia que eu precisava gravar, somos amigos acima de tudo. Gravei metade do disco no Rio e metade em Sampa, naquela época o bambambam era o Lincoln Olivette com os eletrônicos dele, então resolvi que as músicas dos outros eu gravaria lá, e as minhas em Sampa, com o Placa luminosa, e amei trabalhar com eles. Nesse LP, metade do disco são composições minhas, era muito importante pra mim isso. Gravei uma música de Gilson e Joram, que tocou muito nas rádios, mas antes disso acontecer, Marcos Silva morreu de infarto, sem ouvir o meu disco, pois ele só queia ouvi-lo pronto, e não em fita, era supertição. Entrou lá o antigo diretor da Continental, e me disse que iria trabalhar meu disco… Três meses depois estava recebendo a recissão por telegrama!

Solange Castro – Ulalá…

Claudia Telles – Aí fiquei 8 anos sem gravar, poucos shows, gravação rareando, fui fazendo outras coisas pra ajudar no orçamento, e acabei ficando 8 anos sem gravar, porque pra eu gravar por gravar prefiria ficar na minha. É o outro lado do pra semrpe..rs
Em 90, a EMI começou a relançar os discos da mamãe em CD, Leila Pinheiro estourando com a Bossa Nova e pouco se falava da minha mãe, começou a me dar muita tristeza, pois várias vezes havia falado com o Menescal, para fazer esse projeto comigo, e ele nada, aí um amigo, produtor José Reynaldo, me perguntou se eu não queria montar um show sobre a mamãe, e topei na hora. Estreiamos no Boteco-teco, três dias de show, nunca mais vou esquecer, foi na época que o collor bloqueou a poupança de todo mundo, sorte que o povo não entendeu direito e encheu o show os três dias!!!!!
Levei 3 convidados para falarem sobre mamãe, Tito Madi, Lucio Alves e meu Tio Mário Telles, que voltou ao palco pelas minhas mãos nesse show. foi um show lindo, que teria inclusive uma abertura gravada pelo Tom, mas a fita ficou baixinha e não pude aproveitar. Eu ia pro Plataforma e ficava massageando as mãos e antebraços dele enquanto conversávamos bebíamos e ele comia alho cozido! Tenho boas lembranças desse show.
Entrei de cabeça para reavivar o nome da mamãe na lembrança das pessoas, para que ninguém tomasse seu lugar, era um questão de honra pra mim, já que a mídia não falava nela, eu falava. Com esse show tive a oportunidade de me reaproximar de seus amigos, como Alíde, Tito, Mariza, Johnny, Durval, Chico Feitosa e outros.

Solange Castro – Que privilégio, Claudinha… Deve ter sido lindo…

Claudia Telles – Foi sim, um bálsamo pra mim, diminuiu um pouco a saudade…
Continuei fazendo programas de rádio, de amigos como Dayse Lucidi e Messias.
Até que José Messias completou 40 anos de carreira, no rádio, na tv e na música. E me chamou para participar do seu CD cantando três canções. Uma com Sílvio Cesar, uma com Peri Ribeiro, e outra com Menescal, só voz e violão, linda demais.
Eu estava grávida do meu terceiro filho nessa época, foi lá que minha amizade com Marcello Lessa se estreitou. Quando fomos fazer o show, no antigo Teatro do Ibam, Menescal me chamou para participar de um projeto que ele estava fazendo, regrando os grandes compositores da MPB, e perguntou se eu queria cantar Cartola e Nelson, e aceitei na hora.
Foi a gravação mais engraçada da minha vida. Primeiro iríamos sentar pra ver as canções, separariam 40 para que eu ouvisse. Depois separaram 24, quando eu vi tinham 12 escolhidas. Aí pensei, bom agora vamos tirar o tom pra ir pro estúdio, me liga o Raimundo Byttancourt pedindo para passar os tons pra ele por fax, tirei o tom e mandei. Pensei: bom, agora vamos pro estúdio fazer as bases. Ele me liga chamando para por voz. Coloquei as vozes sem um produtor no estúdio, o que achei ótimo, só eu e Marcinho Menescal, mas não tinha gostado do playbcak, e falei que daquele jeito eu não queria, e eles complementaram.
O cd do Cartola foi muito bem, a mídia escrita teceu muitos elogios, e até descobriram que eu cantava bem!!!! E por isso, a Cid me chamou para gravar outro disco, perguntou se eu tinha um projeto. Eu tinha dois, ou fazer um CD relembrando meus sucessos e coisas da década de 70, minha década, ou finalmente fazer o tão sonhado projeto de cantar coisas da mamãe.
Eles preferiram o da mamãe, esperei 21 anos pra fazer este CD, e graças a Deus, o produtor foi o Esdras, e fiz exatamente o que quis fazer, inclusive a capa foi do jeito que eu quis e tem uma história interessante…

Solange Castro – Conta…

Claudia Telles – Eu queria na capa uma foto da mamãe da forma que eu me lembrava, e não achava nenhuma. Saí catando uns jornais antigos e achei a foto, levei pra Cid, o cara, que agora não me recordo o nome, desenhou, feito fotografia, ficou maravilhoso. Depois que me devolveram a foto, fui ler a matéria, era uma matéria de jornal, e descobri que a foto havia sido feita do Zicartola, onde ela estava junto com Menescal, assistindo ao show, e foi justamente o disco do Cartola, produzido pelo Menescal, que havia me dado a oportunidade de fazer a homenagem a ela em disco, coisas de Deus!

Solange Castro – Sim… As energias da Natureza se apresentam sempre que existe amor e poesia…

Claudia Telles – Esse CD a Cid bancou, vendeu bem e também foi muito elogiado pela mídia escrita, mas tv e rádio já era naquela basa né? E a Cid não tem divulgação. A Cid não quis bancar outro CD, mas disse que se tivessemos outro trabalho lançaria. como você sabe, todo ano fazia três temporadas no Vinícus, e uma delas, o dono me chamou para fazer na semana de morte do Vinicius, eu pensei: poxa, niver de morte do Vinícius, no Vinícius na Rua Vinícius, não poderia cantar outra coisa a não ser Vinícius. O músico que fazia comigo na época não poderia fazer, e me deu o telefone do Marcello Lessa, e nos reencontramos. Para minha falta de sorte, uns 20 dias antes do show, tive uma convulsão por estresse, e não conseguia decorar letra de música, então eu e Marcelo montamos um repertório baseado na época da Bossa, que eu conhecia bem, e que leria poucas letras. Montamos o show, eu levei um ano pra decorar certas canções, mas o show foi um sucesso, e acabamos por levá-lo para o disco. A grana era curta, e como fiz no show violão e voz, resolvemos fazer voz e piano. Um dia gravamos a base, no outro dia fizemos as vozes e mixamos. Disco lançado pela Cid, começaram os shows, Raimundo Niciole, que havia tocado no disco e era o músico que trabalhava comigo na época, não podia tocar nos shows, pois estava no projeto do Banco do Brasil fazendo o show em homenagem á Nara, e Marcelo teve que fazer comigo, e está até hoje.
Por causa disso o Raimundo queria me processar, andou falando mal de mim, mas poxa, Marcelo roendo osso comigo, ele trabalhando com outros artistas, na hora do filé ia mandar o Marcelo embora?
Fiz muito show com esse CD do Vinícius e está no meu repertório até hoje, regravei nele arrastão, uma música que adoro, e que cantei com mamãe e Edu Lobo no último dia do show Reencontro.
Partimos pro “Sambas e Bossas”. Queríamos fazaer um CD de inéditas, eu já estava com músicas da Fátima Guedes. Lucina e Zélia Duncam, Lenine, Fred Martins… Mas cadê que eles queriam lançar? Aí resolvi fazer o “Sambas e Bossas”, regravando canções que fizeram parte da minha vida, e colocando duas inéditas, uma do Jonnhy e uma do Tito. Como eu estava para completar 25 anos de carreira, resolvi colocar “Fim de tarde” e “Eu preciso te esquecer”, pois meus fãs viviam me cobrando, já que a CBS/Sony não relançou em CD esse LP.

Solange Castro – O disco é uma obra-prima, Claudinha, sem dúvidas…

Claudia Telles – Foi um disco prazeroso demais pra mim, estava com amigos, músicos e cantores que me deram uma mão imensa, pois não tínahmos grana pra pagar. Johnny veio de Sampa para participar comigo, e tocar, e fazer parte do show onde começou esse CD, coisa que raramente ele faz. Tito me mostrou muitas canções, e ficou super feliz por eu gravar, fazia tempo que ninguém gravava uma música inédita dele. Chamei Rosa Maria para cantar “Bonita” comigo, pois achei que a voz dela ficaria sobre medida nessa canção. Queria gravar mais samba, e convidei um amigo queridíssimo, um cavalheiro, que nunca diz não aos amigos, Nelson Sargento, e chamei também meu parceiro Alceu Maia para participar. Amei fazer esse CD, sentamos eu e Marcelo, eu não quis ouvir as canções, cantava a melodia pra ele, ele dizia se estava certa, e eu começava a cantar e íamos envolvendo minha forma de canatr com os futuros arranjos.
Wilson das Neves, Chacal e Ricardo, deram um toque especial em cada batida, em cada tempo, João Faria com seu baixo carinhoso, Haroldo Gosfarb com sua delicadeza, Chico Costa com sua sensibilidade e Marcelo com seu companheirismo musical… Enfim, foi bom demais gravar esse CD, tenho um carinho grande por ele.

Solange Castro – É, indiscutivelmente, uma belíssima obra…
Me fale um pouco dos “isntrumentistas” – temos grandes gênios no Brasil, mais reconhecidos lá fora do que aqui… Sobre os que trabalharam contigo, por exemplo, quais os grandes destaques?

Claudia Telles – Cada um tem uma peculiaridade, difícil falar assim, amo cada um deles em seu momento comigo, como Bani, Chacal, agora Cesar Machado que tem feito algumas coisas comigo. Curto o músico que curte como eu estar no palco.
Raimundo Nicioli é um músico muito bom, dono de uma memória fantástica, toca tão bem violão como piano. Marcelo nem se fala, trabalhei também com Hamleto Stamato, quando ainda era um garoto. Enfim, são momentos. Vivências e convivências que marcam muito a gente.

Solange Castro – Trabalhei alguns anos com Marcello Lessa, e posso te dizer que sempre o achei um profissional impecável, sem contar, claro, sua poesia interna – é um grande instrumentista… E pelo que conheço da tua obra, você sempre teve excelentes companheiros…

Claudia Telles – Graças a Deus gravei com os melhores do Brasil…

Solange Castro – Mas vamos falar um pouco de ‘poesia’ – você compõe – e muito – rs… Quais ou critérios (ou fórmulas mágicas) para garimpar teus repertórios?

Claudia Telles – Emoção. Se tocou eu gravo, não gosto de gravar coisas que não sinto.

Solange Castro – E o que mais te inspira para compor?

Claudia Telles – Lembranças, paisagens, momentos, saudades, semrpe por aí.

Solange Castro – Parcerias – quem foram teus grandes parceiros nas tuas composições?

Claudia Telles – Tive poucos parceiros, componho muito sozinha, mas tive Alceu Maia, Mauro Motta, Walter D’Ávila Filho, Casinho Tera, Peninha, Prêntice e Paulo Cesar Barros.

Solange Castro – Claudia, Gal Costa anda procurando “compositores” – tenho observado as ‘novelas da Globo’ repetirem músicas de anos e anos atrás… Mas aqui no Alô tenho oportunidade de receber inúmeras obras belíssimas – vêm de antigos e novos “poetas do cotidiano” que estão afinados com nossa realidade, mas não chegam ao nosso povo…
Você e eu fazemos parte da ‘comunidade’ M-Música, que, pelas minhas contas, já deve acumular cerca de 500 composições. E sabemos que existem coisas simplesmente geniais, como também sabemos que jamais vão chegar ao público… O que você acha disso?

Claudia Telles – Acho que as gravadoras não estão muito afim de investir no novo, toda vez é o mesmo papo. No meu caso, se chego com músicas inéditas, não querem lançar, porque o CD não tem apelo comercial, que não sei o que, e acredito que no caso, mesmo de grandes nomes, aconteça o mesmo.
Pode reparar que a quantidade de relançamentos é imensa, e de regravações é o mesmo, querem tudo mastigado. Mudam o nome pra acuústico, e continuam regravando, e por aí vai. Eles criaram um monstro com o tal de jabá, que agora não conseguem alimentar mais e vão falindo.

Solange Castro – E isso afasta a real música brasileira dos seus grandes ‘proprietários’, o próprio povo… É um patrimônio da Nação que está sendo enterrado sem ser conhecido…

Claudia Telles – Exato, é mais fácil dizer que não tem coisa nova boa…

Solange Castro – Pois eu acho que o que falta é “competência” – se levarmos em consideração que o grande crescimento financeiro dos Estados Unidos no pós-guerra foi justo por causa do investimento no “novo”, justifica a falência das majors… Temos um Brasil hoje com inúmeros jovens, com menos de 30 anos responsáveis por setores vitais nas grandes empresas, e logo na música temos os principais cargos ocupados por um monte de incompetentes… Isso dentro das gravadoras e dos veículos de comunicação também, pois se parassem para ouvir o “Brasil de hoje”, que pulsa, é alegre, criativo, inteligente e mais um monte de excelentes predicados não estariam com tanto medo de arriscar… O jabá, por exemplo, além de ser eticamente, socialmente, politicamente, … é também burro… Por quanto tempo essa gente pensa que pode ditar as regras? O Brasil está mudando, o brasileiro cada dia mais crítico e criativo… Se eles tivessem dois dedos de testa parariam para ouvir o povo…

Solange Castro – Você comentou sobre jabá – por mais que seja um “problema” dos Ministos da Comunicação e da Justiça, você acha que Gil poderia tomar alguma providência?

Claudia Telles – Sinceramente não sei, pois agora pelo que sei, já foi institucionalizado, é pago direto as rádios e a quem de direito, então, naõ sei como poderia ser feito isso. Virou um inserção de comercial como outro comercial qualquer.

Solange Castro – Mas existe uma Lei de Radiodifusão que delibera somente 25% do tempo de execussão para ‘comerciais’. Sendo assim, mesmo com notas fiscais, os veículos estão indo contra tal Lei…

Claudia Telles – Vai ter que ser muito macho pra meter a mão nesse vespeiro…rs

Solange Castro – Rs… Contamos com o sangue africano de Gil para tanto….
Você tem vários fonogramas lançados, eis uma artista respeitadíssima no meio musical – e isso tudo vindo de TALENTO, não de ‘ser filha’… Tua obra é realmente um ícone no acervo da MPB dos nossos tempos… Como é teu espaço para shows?

Claudia Telles – É difícil , porque como não apareço nos grandes programas de tv, complica um pouco. Aí tudo fica difícil, firmar o cache que se pede, levar os músicos que ser quer, víra tudo uma guerra de preços, não querem dar passagens, barganham tudo. Uma coisa que acho que nosso Ministro poderia tentar para nós, é que as passagens fosse mais baratas quando temos shows, porque está inviável o artista mostrar sua arte pelo Brasil.

Solange Castro – Sim, e além das passagens, que cada Estado e Prefeitura (Secretarias Estaduais/Municiais de Cultura, Turismo, Educação e Desenvolvimento) cedessem hospedagem, alimentação e translado… Talvez até façam, mas produtores famintos colocam tudo no bolso..

Claudia Telles – Pois é, muito complicado isso.

Solange Castro – Por falar nisso – o que você acha da categoria “Produtor Musical” (em termos de shows e eventos) no Brasil?

Claudia Telles – Como em toda profissão tem bons e ruins. Uns acham que tem que ganhar mais que o artista, e se acham na verdade “o artista”. Estão preocupados em ganhar, e ganhar e ganhar, e ‘as vezes o show é tão atravessado, que se o artista ganha 1.000,00 é muito num show vendido por 10.000,00. Isso em se falando de um artista sem muita mídia. Mas os produtores também não se furtam de atender a vontades bem idiotas e egoístas de alguns que PODEM pedir. Pra pagar altos custos em frescuras o dinheiro aparece, para se pagar um cachê decente nunca aparece.

Solange Castro – Como está teu momento profissional:?

Claudia Telles – Estou com CD novo, um tributo a Tom Jobim, sempre gravei as canções do Tom, interpretadas por mamãe, desde de 76, mas nunca havia feito um sobre Tom, como fiz com Vinícius, Cartola e Nelson Cavaquinho. Estamos começando o ano agora, pois tudo para pra Natal, Ano Novo, Carnaval – o CD foi lançado no Rio dias 3 e 4 no Bar do Tom e exatamente no dia da morte de Tom em Bauru, então estamos na fase de divulgação do CD.

Solange Castro – O que tem de previsão de shows pelo Brasil?

Claudia Telles – Já estivemos no Piauí, Brasília, agora estamos fechando pro Norte e Nordeste, e interior de Sampa.

Solange Castro – Próximos planos…

Claudia Telles – Já estou pensando em um novo CD, meio apavorada, mas quero fazer outro disco com composições minhas e coisas inéditas de amigos que adoro e que são ótimos compositores. Quero muito lançar esse disco, fico com medo da possibilidade que não conseguir lançar, já que as gravadoras se pegam mais na venda certa de regravações, mas sempre gravei coisas inéditas, e sinto falta disso. No CD do “Sambas e Bossas” consegui lançar uma do Tito Madi e uma do Johnny Alf, que já me deu um carinho no coração cantante, mas gostaria de fazer mais, ainda estando dentro da M-Música que é um celeiro de novas canções, tenho na mão coisas belíssimas que gostaria muito de gravar. Já estou ouvindo bastante coisa, separando umas três músicas minhas, afinal gravo coisas minhas desde o meu primeiro LP, em 76, e no LP de “Solidão pra quê”, metade do LP era de composições minhas, seis canções, só duas com parceria, uma de Alceu Maia e outra com prêntice e Paulo Cesar Barros.

Solange Castro – Bom, como já havíamos comentado, vai depender do “cérebro” dos homens das gravadoras – rs… Por aqui você pode contar com total apoio… E conheço a bala do povo da M-Música – realmente têm composições belíssimas… E acho que o mercado está precisando ouvir os “clássicos da MPB” que têm sido compostos…
Para quando você prevê esse disco?

Claudia Telles – Creio que pro ano que vem, esse ano vamos trabalhar o CD do Tom que praticamente acabou de sair. Pode parecer piegas, mas tenho pedido muito a Deus que ilumine a cabeça das pessoas que trabalham com a música, que permitem ou não que as músicas se façam chegar ao público, que eles voltem a ser mais sensíveis, coerentes, responsáveis, que respeitem mais a sensibilidade do artista, disse sensibilidade, e não frescuras, porque se gasta muita grana com frescuras dentro de um CD, que poderia ser gasta com cantores e compositores novos e antigos.

Solange Castro – Sem dúvidas… E principalmente que respeitem o público, pois quem está perdendo é o povo brasileiro…

Claudia Telles – Com certeza, tenho feito shows através da carreta da cultura, em lugares que você imagina que teu show não vai agradar porque é Bossa nova, e as pessoas suspiram de prazer e saudade de ouvir tais canções, então não venham dizer que o público não gosta, né? Ele simplesmente está sem opção.
Agora o que mais me espanta, é você ver seu estado gastar fortunas pra trazer um artista estrangeiro, sem desmerecer o artista, e quando um artista carioca vai fazer um show, não sendo top de linha, eles pagam um cachê miserável, ainda te obrigam a ter tantos músicos no palco pra justificar o cachê e nem se dão ao trabalho de olhar na tabela do Sindicato quanto é um cachê de músico. Ali é pagar e não ganhar tá?

Solange Castro – Ontem tivemos aqui no Leme os “Escravos da Mauá” – o contraste com o show do Lenny foi absurdo – aqui o povo cantava, dançava e aplaudia todas as músicas (nossas maravilhas de Paulinho da Viola, Chico, Tom, Vina, Candeia, João, Blanc, Gonzaguinha, Ary, …), enquanto no show do Lenny eu só vi duas músicas mexerem com a platéia – certamente aquelas que a gravadora pagou para tocar nas rádios…
Claudia, que falta faz a “nossa música”… Tomara a Deus você lançar esse disco com as novas maravilhas que despontam por aí…

Claudia Telles – Claro, da mesma forma que estão enchendo o nosso ouvido com essa música do ap, uma letra baixa, que põe a criançada pra cantar um monte de besteira que elas nem sabem o que quer dizer. Um cara que rima ap, com bumdalelê e amanhecê, é de matar mamãe….rs

Solange Castro – Rs… Epensar que vi o povo vibrar, suar, sorrir com “Pelas tabelas” e outras maravilhas poética do samba carioca… E desnecessário – hoje em dia os analfabetos que ordenam o que será gravado fica com medo de colocar coisas interessantes porque acha que nosso povo é burro…

Claudia Telles – Pois é, ainda bem que ainda existem rádios que não se corrompem e tocam o que tem de bom na nossa música.

Solange Castro – Sim – temos uma relação delas aqui no Alô… São poucas, mas existem…
Claudia, próximo show, quando será?

Claudia Telles – Dia quatro vou cantar com Orquestra no Festival de Tatuí, em Sampa.

Solange Castro – Hummmm…

Claudia Telles – Depois ou antes não sei direito a gente faz Santos.

Solange Castro – Nos deixe sempre informados…

Claudia Telles – Ok, assim que eu tiver o serviço direitinho te passo.

Solange Castro – Claudia, muito obrigada pela entrevista – foi uma delícia estar contigo…

Claudia Telles – Ok – idem idem Sol….

Março de 2005