Cássia Maria

 

 

Por: Eliane Verbena

Ela é uma percussionista respeitada e admirada no circuito musical paulistano, não só pelo talento, mas também pela intuitividade com que toca os instrumentos. Agora, ela abre suas asas e quer voar mais alto numa exposição que não é para qualquer um: envereda-se pelos caminhos solos da composição e lança o CD “De Cara Pro Sol”, no qual é também intérprete de suas canções. Cássia Maria, que traduz a força e a sensualidade musical da mulher contemporânea, conversa com o Alô Música.

Eliane Verbena

 

Eliane – Cássia Maria, estou muito feliz em entrevistá-la e espero mostrar um pouco mais da mulher e da artista que você é. Para começar, gostaria de saber quando soube que sua profissão estava atrelada à música? Foi complicado decidir por este caminho?

Cássia Maria – Comecei a tocar em festivais de música, tinha um noivo que também tocava em uma banda. Depois de muita ciumeira dele, eu desisti do noivado e optei pela arte. Sofri sem ele e também compus muito nesta época. Tudo vale à pena viver. Desde essa época, lá na juventude, não abro mão da música e agradeço muito à arte por fazer parte desse mundo tão estranho e magnético.

Eliane – Quando nasceu a sua primeira música? Você aprendeu primeiro a tocar um instrumento ou a compor canções?

Cássia Maria – Quando era jovem eu lia muito sobre cultura indiana, ouvia muito som “cabeça”, era meio hippie. Assim, compus de verdade com 17 anos. Aprendi a tocar primeiro e depois a compor. Nas músicas que eu faço, geralmente, nascem juntas a letra e a música. A primeira música que fiz foi “O Meu Anjo” e está no CD “De Cara Pro Sol”.

Eliane – Que instrumento tocava na época?

Cássia Maria – Comecei estudando sanfona aos 10 anos, migrei para flauta doce no Conservatório, passei pelo cavaco, violão e gaita até chegar à percussão. Quando componho me entendo bem com o violão para construir uma linha melódica.

Eliane – O que significa pra você o ato de compor uma canção?

Cássia Maria – Significa uma conexão com emoções e sentimentos reais. Podem ser percepções, sensações ou respostas, que poderiam ferir ou acariciar caso fossem apenas ditas. Envolvidas na canção as palavras podem expressar seu real sentido e atingir muito mais espaços e pessoas com suas várias interpretações. Ao compor me conecto com o mais profundo e o mais simples de mim, com a minha verdade. Não componho quando quero, mas quando sou tomada pela arte e pelo encanto desta conexão.

Eliane – E o ato de tocar percussão?

Cássia Maria – Comecei neste reinado percussivo quando estudei musicoterapia. A percussão é primata, variada e criativa. Você precisa estar plugado com o som para buscar, além do ritmo, timbres, “pegada” e delicadeza. Gosto demais dessa possibilidade de instrumentos variados na percussão. Tudo é aproveitado como som e, então, a mente está sempre buscando, sempre ligada, acesa.

Eliane – Tem algum instrumento que mais lhe seduz? Qual deles gosta mais de tocar?

Cássia Maria: Gosto muito dos timbres do berimbau junto com a moringa de barro. O berimbau por ser mântrico e o vaso pelo som de terra, coração.

Eliane – E como se sente explorando essas possibilidades de som junto a um intérprete no palco?

Cássia Maria – São, exatamente, as possibilidades que eu procuro. Variar sempre. Tudo comunica sonoramente: os instrumentos, o corpo, a voz. É preciso estar inteiro e ser sensível para somar e perceber o momento que cada instrumento deve ser colocado, onde e como; harmonizar, no sentido exato da palavra.

Eliane – Cássia, quem lhe vê no palco percebe esta comunicação. A figura feminina na percussão é uma coisa bastante contemporânea. Você, percussionista, concorda? A percussão é feminina?

Cássia Maria – Inicialmente, lá nos primórdios, no matriarcal, eram as mulheres que tocavam tambores ritualisticamente… bruxas, xamânicas. Tudo mudou. A mulher foi proibida de tocar nos rituais. E agora tudo muda novamente: a mulher pode tocar na capoeira (antes não podia), algumas são ogãs (tocam em terreiro) em algumas manifestações tradicionais do Maranhão só mulheres tocam. A percussão está aí para todos: homens, mulheres… todos podem. Acho melhor acabar com gêneros e produzir a música, o som. O mercado, porém, é bem maior para os homens; ainda há o preconceito. Mas é lindo ver uma mulher tocando percussão quando ela está inteira no seu instrumento, saracoteando e curtindo.

Eliane – Não há como negar que a percussão tem uma sensualidade ímpar. Mas agora você também ocupa uma outra posição no palco e na profissão, a de compositora e intérprete de suas canções. Como é isto? O que muda pra você ao ter que mostrar, em primeiro plano, o seu próprio trabalho. É mais difícil?

Cássia Maria – É uma loucura. Por um lado, é simples demais transmitir o quê penso, mostrar como eu sinto a vida ou as vidas. Por outro lado, a carreira solo requer muita paciência e meditação. Você espera que as coisas andem num ritmo mais acelerado, você quer fazer, mostrar… Mas onde? Os espaços para novos artistas são poucos. Se você não pode oferecer nada além de sua obra, fica difícil conseguir lugares interessantes e com visibilidade.

Eliane – O que você espera – mesmo com todas essas dificuldades para o artista independente e em início de carreia – que aconteça com o seu CD “De Cara Pro Sol”, aonde acredita que ele possa te levar?

Cássia Maria – Só de ele ter nascido já estou muito feliz. Gostaria de chegar às cabeças e aos corações das pessoas e provocar sentimentos, autoconhecimento, movimento para as coisas boas da vida. Em termos de visibilidade, eu gostaria de fazer apresentações e propagar o trabalho em lugares que até eu desconheça.

Eliane – Fale um pouco sobre o disco? Podemos chamá-lo de “pop”?

Cássia Maria – Podemos dizer, sim, que é “pop”. Um pop acústico, limpo e suave. O amor é o mote. Amor pela vida, paixão, gentilezas; todos os sentimentos. É Variado em timbres, tem arranjos livres e conta com a presença de muitos amigos músicos: Ana Eliza Colomar, Gabriel Levy, Alexandre Ribeiro, Maicira Trevisan, Itamar Pereira, Gigi Magno, Cintia Zanco, Priscila Brigante, Leandro Xicó, Ricardo Vignini e Kitty Pereira.

Eliane – Ele tem também participação de três outras cantoras, Consuelo de Paula, Mona Gadelha e Regina Machado. Qual sua relação com elas? Por que as convidou?

Cássia Maria: As três cantoras convidadas são pessoas queridas. A Regina Machado, inclusive, é parceira de uma música do CD, “Santa”. A Consuelo de Paula é também parceira, além de uma cantora que acompanhei no palco por muitos anos. E Mona, que no disco canta e encanta com o blues “Solidão”, é uma pessoa também muito querida.

Eliane – Escolha uma canção do disco para comentar. Qual delas mais te emociona ou te representa e por quê?

Cássia Maria – Na verdade gosto de todas, são momentos impares cada uma delas, mas “Dar Um Tempo” é uma canção que veste qualquer manequim. Precisamos parar um pouco de vez em quando e ajustarmos nossos botões. Acalmar, reciclar, transformar, esquecer e desligar. Aí voltamos bacana. “Meu Anjo” também faz minha cabeça. Gosto da ingenuidade, da simplicidade desta canção.

Eliane – Bom, para dar uma dica do que Cássia está falando, a canção “Dar Um Tempo” diz: “Hoje vou dar um tempo pra mim / me olhar no espelho / vou olhar pra dentro / vou buscar o que esqueci”. E “Meu Anjo”: “Não tenho medo / arrisco, vou fundo, desvendo mistérios”. Belos versos. E como nasceu o seu disco? Você contou com a ajuda de alguém nos arranjos, no acabamento…?

Cássia Maria – Pensei primeiro em escrever as partituras e registrar as músicas e as letras, já que me enveredava para o campo da composição. E tudo foi ficando do meu gosto, bonito. Então resolvi gravar. Junto com Jardel Caetano, fui construindo o trabalho. Os músicos ficaram totalmente livres para criar. O Jardel fez a direção musical; a Kátia Teixeira, uma capa linda; e a Lourdes Casquete cuidou da burocracia. Assim nasceu “De Cara Pro Sol”.

Eliane – A arte e os amigos são os “instrumentos” que temos sempre que manter ao nosso alcance…

Cássia Maria – Arte e amigos: benza-os, Deus!

Eliane – E, mudando o foco da nossa conversa, vamos abordar o seu olhar para a música atual. Quais são seus ídolos, hoje? O que gosta de ouvir?

Cássia Maria – Na percussão sou fã de Naná Vasconcelos. Gosto de ouvir de tudo um pouco: músicas de raiz, violeiros, rock, pop, forró, samba, choro, étnicas. Adoro mantras. No momento, estou “pirando”, ouvindo Luiz Gonzaga e Martinho da Vila.

Eliane – Qual artista você gostaria de ver no palco que ainda não teve oportunidade? E qual foi o show mais incrível que já viu?

Cássia Maria – O grupo Stomp, que combina percussão e movimento, eu só vi em vídeo e gostaria de assisti-lo ao vivo. Eu já fui a shows muito bacanas. É difícil nomear o melhor, mas o último que vi e achei perfeito em som, música, músicos, sintonia e simpatia foi a Mônica Salmaso com o Pau Brasil, na Fecap, em São Paulo. Muito lindo!

Eliane – Cássia, estamos chegando ao final do papo, infelizmente. Deixe aqui as dicas de onde e como compra o seu CD e também como fazer para ouvi-lo pela internet.

Cássia Maria – Para quem estiver interessado em conhecer este trabalho é só visitar o www.myspace.com/cassiamaria1. Lá da para ouvir algumas música e ver vídeos de trabalhos dos quais participo. No Youtube também tem vídeos: www.youtube.com/olhosanto. E o CD já se encontra nas grandes lojas do Brasil com distribuição da Tratore/Fonomatic http://www.tratore.com.br/1.

Eliane – Cássia, o Alô Música lhe deseja muita sorte, sucesso e também um pouco de paciência para esperar pelas coisas boas que, certamente, virão. Obrigada pela entrevista.

Cássia Maria – Já entendi que o tempo é pai e que o vento vai nos trazer o que é bom. Obrigada ao Alô Música e a você. A todos… um grande abraço.