Ana de Hollanda

 

 

 

Ana de Hollanda é compositora, cantora, atriz. Trabalhou no Centro Cultural São Paulo, da Secretaria Municipal de São Paulo (82, 83, 84, 85), primeiro como responsável pelo setor eletro acústico, realizando sonorização de audiovisuais temáticos e vários espaços de apresentações e exposições e, chefiando o setor de música, foi responsável por vários projetos para vários estilos, para músicos novos e consagrados e também coordenou e dirigiu vários grandes projetos que englobaram todas as áreas do Centro Cultura.
Foi também Secretária de Cultura do Município de Osasco por dois anos e meio (86, 87, 88), fazendo acontecer uma infinidade de projetos.
Hoje Ana de Hollanda é Diretora de Música da Funarte e em entrevista exclusiva ao Alô Música relata como está vivendo esse momento…

 

Solange Castro – Ana, como foi sua nomeação para a Funarte?

Ana de Hollanda – Eu não sei direito como meu nome chegou ao Antônio Grassi, mas um dia, pouco depois de assumir a Presidência da Funarte, ele me ligou querendo conversar comigo sobre a possibilidade de eu trabalhar lá, na área de música. Antes de podermos nos encontrar (eu morava em São Paulo e estava com uma viagem ao Rio prevista para a semana seguinte), saiu um furo num jornal, o que precipitou nosso diálogo. Mas o que definiu mesmo, foi a conversa em que ficou claro que tínhamos visões semelhantes em relação à finalidade da Funarte, o trabalho que poderia ser desenvolvido lá e, principalmente o apoio que eu contaria para poder me aventurar…

Solange Castro – Como você a encontrou?

Ana de Hollanda – Eu sabia que a Funarte estava quase desmontada depois de anos de quase total abandono. Logo de início, o que me impressionou foi o estado de desânimo e ceticismo de grande parte dos funcionários, em relação ao discurso de “vamos mudar”, “queremos escutar e trabalhar com vocês”, “não temos dinheiro, mas vamos tocando que ele virá” etc, etc…Eu fui escutando e fiquei estarrecida com alguns depoimentos sobre como o trabalho e a competência deles foram desconsiderados, ao ponto deles se desmoralizarem pessoalmente junto à classe artística. Isso é muito sério se pensarmos nos quadros que já passaram pela Funarte em outros tempos, que acabaram se afastando e que hoje dirigem as principais instituições privadas do país.
Outro problema é público e notório: falta de verba. Mas eu não esperava que, durante meses, não teria dinheiro sequer para comprar cartucho para impressora, que não poderia acompanhar encontros importantíssimos que acontecem pelo país afora por não ter como pagar passagens, que não teria como contratar pessoas que a casa necessitava e que não teria verba para realizar algumas atividades urgentes. Foi difícil lidar com isso no início.

Solange Castro – Quais as providências que já foram tomadas?

Ana de Hollanda – Naquele momento, e isso foi geral, a pedido do próprio Grassi, o melhor que poderíamos fazer era o balanço e a arrumação da casa: ver o que tinha de positivo e negativo em seu patrimônio, na sua história, nos programas, nos projetos desenvolvidos e abandonados e avaliarmos a curto, médio e longo prazo, o que poderíamos fazer.
Logo em seguida comecei a me virar, procurando possíveis parceiros para viabilizar o que não estava garantido de contarmos em nosso orçamento. Como uma produtora (que nunca fui pra valer) e com a ajuda preciosa de muita gente que foi passando dicas e informações, fui desenvolvendo projetos, orçando e tentando vender por aí. Apesar da decadência em que se encontrava, a Funarte nunca deixou de ser um patrimônio querido e defendido pela classe artística. No mundo musical, muita gente se projetou nacionalmente através dela. Conversando com pessoas do mundo empresarial e político mais esclarecido, sinto uma simpatia e uma torcida forte para que a Funarte volte a cumprir sua função de difusora da arte, dissociada das metas do mercado.
Aos poucos, alguma verba do orçamento foi sendo liberada e prevemos mais um pouco também do Fundo Nacional de Cultura. Com isso terminaremos o primeiro ano com um saldo bastante positivo em relação ao que encontramos.

Solange Castro – E a Sala Funarte – Sidney Miller, quando reabre?

Ana de Hollanda – Olha, vou ter que relatar tudo. A Funarte tem três teatros destinados à música: o Sidney Miller no Rio de Janeiro, o Guiomar Novaes em São Paulo e o Cássia Eller em Brasília. É pouco, mas estão situados em três pólos fundamentais em termos de projeção. O primeiro é a grande vitrine cultural do país, o segundo é o grande centro econômico e o terceiro, o centro político. Ser notícia nesses centros significa ser notícia no resto do Brasil. Acontece que, quando chegamos, os três estavam sem condições mínimas de apresentar shows, pois faltavam funcionários que, até o ano passado foram contratados temporariamente e também equipamentos que, no Rio e em Brasília eram alugados (em São Paulo, inexplicavelmente, há muito tempo não tinham dinheiro para alugar, então nada acontecia regularmente). A Funarte não contava, no início do ano, com nenhuma verba para alugar som e luz e, se repassássemos essas despesas para os artistas, nem com a casa lotada o espetáculo se pagava. Completando o quadro, descobrimos que a estrutura de madeira debaixo da platéia e do palco do Sidney Miller estava totalmente abalada por uma infestação de cupins.
Estamos conseguindo comprar ou alugar equipamento mínimo para abrir as salas de São Paulo e Brasília, mas a do Rio depende de uma ampla reforma para refazer toda estrutura de sustentação, só que dessa vez em concreto. Foi feito um edital de ocupação da sala no ano passado, os artistas selecionados, mas só poderão ser programados quando reabrirmos a casa em condições seguras. Acredito que isso só será possível no próximo ano. Desenvolvi um amplo projeto para as três salas, prevendo reformas, compra de equipamentos, verba para manutenção desses equipamentos, contratação de funcionários, ampla divulgação da programação com impressos e anúncios pagos, ajuda de custo para os artistas e preços mais populares. Mas isso depende ainda de apoio externo, não é certo.

Solange Castro – Como está sendo organizada a nova Diretoria?

Ana de Hollanda – Como já foi divulgado pela imprensa, o MinC extinguiu as secretarias temáticas que estavam sombreando outros setores do próprio Ministério. Com isso ficaram sob responsabilidade da Funarte áreas finalísticas como Música, Artes Cênicas e Artes Visuais. Dentro do Centro de Música, temos duas Coordenações, a de Música Erudita e a de Música Popular. Vários programas são e serão desenvolvidos através dessas coordenações, separadamente ou integrando as duas áreas, já que muitas vezes não se pode estabelecer limite entre os dois estilos.

Solange Castro – Quais os Projetos que já estão sendo realizados?

Ana de Hollanda – Estamos em plena produção da XV Bienal de Música Brasileira Contemporânea, que acontece em novembro; está no prelo a reedição do livro Recordações de Ary Barroso (depoimentos feitos por ele ao jornalista Mário Moraes nos últimos meses de vida), que vai ser lançado também em novembro, por ocasião de seu centenário; estamos organizando um painel com oito cursos para bandas no Ceará, atendendo a bandas de toda a região próxima; em parceria com a Prefeitura de Macaé, vamos organizar um painel semelhante também para bandas; vamos reeditar partituras para bandas e, num volume só, dois livros fundamentais para consulta do Jota Efegê que estão esgotados: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira e Meninos eu Vi.

Solange Castro – Quais os que estão sendo preparados?

Ana de Hollanda – A Funarte tem claramente, como prioridade, desenvolver uma política cultural que atenda o país todo. Nesse sentido, estamos pensando em edições de livros de pesquisa, partituras, discos; cursos e oficinas para corais e bandas; circuitos de shows pelas capitais e principais cidades do país, isto é, a volta do Projeto Pixinguinha, com algumas adaptações, e um projeto semelhante, voltado para música erudita, além da já citada reativação das três Salas Funarte.
Queremos por outro lado, organizar encontros nas diversas regiões do país para escutar os artistas e produtores culturais. É importante o contato direto com as diversas realidades brasileiras, conhecer de perto, fazer um mapeamento para depois pensar numa política cultural que atenda realmente às expectativas e necessidades culturais do país.

Solange Castro – E como fica a cantora Ana de Hollanda nesse esquema?

Ana de Hollanda – Diretamente não fica. Como responsável pela Funarte na área de música, estou impossibilitada até de participar do Pixinguinha, para o qual já estava programada quando o projeto foi suspenso em 97. Eu tenho material de divulgação que a Funarte soltou na ocasião com a programação dos meses seguintes, onde constava meu nome. Quando reativar o projeto, quero começar fazendo justiça aos artistas que foram prejudicados pela suspensão abrupta, só que nessa, eu tou fora. Mas eu já sabia disso e de outras restrições quando aceitei o cargo. De qualquer forma, estou me dedicando quase que exclusivamente à Funarte porque nesse momento, se não fosse assim, a situação não mudaria. Não estou bancando a heroína não, mesmo porque tem muita gente lá que acreditou nesse projeto político e entendeu que se não dedicasse um esforço um pouco além do comum para reconstruir esse esqueleto em que a Funarte estava se transformando, ela não se reergueria.
Mas posso trabalhar em outros espaços, estou com pouco tempo, mas tenho feito shows, estou com músicas para letrar, e, logo logo, vou começar a pensar no próximo CD. A hora está chegando.

Solange Castro – Obrigada, Ana – parabéns pelo teu trabalho…

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