Alberto Rosinblit

 

Por: Heloisa Tapajós

“O que eu venho buscando há muito tempo é a estética da delicadeza”

(Alberto Rosenblit)

Entrevista concedida pelo compositor, instrumentista, arranjador e produtor musical Alberto Rosenblit a Heloisa Tapajós, com a participação de José Roberto Schmmelpfeng.

Heloisa Tapajós: Alberto, fala um pouco da música no seu ambiente familiar…

Alberto Rosenblit: Na minha casa a música era como um utensílio familiar sempre presente porque minha mãe é professora de piano. Ela conta que um dia estava tocando “Tristesse”, de Chopin, mas ligada no barulho dos meus brinquedos. De repente o barulho parou, ela foi ver o que estava acontecendo e me encontrou chorando agarrado na cortina do quarto… A música pegou em mim…

Heloisa Tapajós: Que outras lembranças remotas você tem da sua relação com a música?

Alberto Rosenblit: Tem uma que não me sai da cabeça. Eu chegava da escola, entrava no quarto, onde tinha o piano e uma televisão portátil, desligava o som da televisão e ficava testando texturas no piano olhando pra imagem. Eu nem podia imaginar que um dia viria a trabalhar com esse tipo de coisa.

José Roberto Schmmelpfeng: A sua mãe foi sua primeira professora de piano?

Alberto Rosenblit: Foi. Só que, depois de algum tempo, acabou rolando aquela história do “santo de casa”. Não havia formalidade nas aulas, porque era a minha mãe. Isso acabou fazendo com que ela procurasse outros professores pra eu poder estudar piano fora do ambiente familiar. Mas eles não me instigavam e eu até achava as aulas da minha mãe mais divertidas. Mais adiante, pintou o nome da Wilma Graça. Nessa época, eu já compunha algumas coisas, mas sem saber exatamente o que estava fazendo. Quando fui estudar com a Wilma, eu pensei: “Ah, lá eu vou aprender a tocar música popular como tem que ser”. E não era nada disso. Ela era uma professora de música erudita. Ela ensinava a ler música e a tocar piano. Só que ela tinha um método de teoria musical muito ágil, pra você entrar rapidamente no negócio das tonalidades, dos arpejos, dos ornamentos… Enfim, ela desmistificava um pouco essa parte teórica da música pra prática. A Wilma tinha uma cabeça muito aberta e achava que a gente tinha que ter todas as informações possíveis. Então, ela te apresentava Bela Bartók, Mozart, Beethoven, Tom Jobim… Ao mesmo tempo em que ela dava aquela música formal, ela, informalmente, ia embaralhando as cartas de um jeito que ficava instigante. E ela adotava um método que era muito interessante, chamado “Adestramiento elementar para musicos”, do Paul Hindemith. Com relação à técnica, ela tinha compulsão! Ela dizia: “A técnica vai facilitar a sua vida”. Na primeira vez em que eu mostrei uma música (de minha autoria) pra ela, ela falou: “Sabe o que eu acho? Eu acho que você poderia fazer sua música um pouco mais concisa. A impressão que me dá é que, quando você faz uma música, você quer mostrar nessa música que você conhece todos os acordes, com todas as alterações, nona aumentada, décima terceira…” Com o tempo, eu fui entendendo. Você ter uma idéia, como compositor, é muito difícil. Então, quando você tiver uma idéia, aproveite aquela idéia. Deixe as outras idéias para as próximas músicas. A primeira aula de arranjo que eu fiz foi com o Mário Tavares, em um curso de verão em Teresópolis, na Pró-Arte. Já estava (estudando) com a Wilma há três anos… Mas ainda não escrevia arranjos. Mas voltando à Wilma Graça, em um dado momento ela começou a dar muito valor à minha composição. Quando eu fiz aquele disco com o Mario (“Alberto Rosenblit e Mario Adnet”), teve alguém que escreveu uma crítica dizendo que era mais um disco de arranjos, no qual os compositores não estavam preocupados em aparecer como instrumentistas. Mas neste disco “Trilhas brasileiras”, eu toco bastante. Porque o Vittor (Vittor Santos, produtor musical do disco) disse: “Você é pianista. Você tem que aparecer como pianista.” E me agradou muito o resultado pianístico do disco. Até porque o que eu venho buscando há muito tempo é a estética da delicadeza. O mundo é muito violento. Nós estamos vivendo muita violência em todo campo de atividade, em cada minuto. Então, pra me defender, eu venho procurando a estética da delicadeza.

José Roberto Schmmelpfeng: Seu piano tem nos dois trabalhos essa identidade da delicadeza, sem perder o sentido da força. É marcante.

Alberto Rosenblit: Mas isso é uma coisa que eu venho perseguindo há muito tempo. E eu só me dei conta há pouco tempo atrás.Talvez eu já tivesse fazendo isso sem notar que eu sempre estive procurando a delicadeza na música. Porque tem gente que gosta da coisa mais vigorosa. Mas mesmo quando eu sou mais vigoroso você vê que por trás tem uma coisa delicada…

Heloisa Tapajós: E o que eu acho interessante é que a música que você faz, e do jeito que faz, é pura emoção. “Trilhas brasileiras” desperta diferentes emoções. É impossível não interagir com o disco. Não é um disco linear…

Alberto Rosenblit: Não é. Tem choro, tem valsa, tem maracatu…

Heloisa Tapajós: Mas tem sempre aquela assinatura. E com quem mais você estudou?

Alberto Rosenblit: Quando eu estava cursando Engenharia, concomitante ao estudo com a Wilma, eu entrei na Pró-Arte, onde eu conheci mais duas grandes professoras, dois casos sérios: a Esther Scliar, uma enciclopédia de música, e a Odette (Ernest Dias). Eu estudei com a Odette durante quase três anos e aí ela foi embora pra Brasília. Eu fiquei meio órfão mas veio pra Pró-Arte o Norton Horozowicz, um grande virtuose da flauta e eu estudei um pouco com ele.

Heloisa Tapajós: Você ainda toca flauta?

Alberto Rosenblit: Toco. Só que agora eu toco da seguinte forma: lá em casa, o pianista é o meu filho. Então, pra gente tocar juntos, eu pego a flauta…

José Roberto Schmmelpfeng: Isso te deu uma habilidade especial pra escrever pra flauta, né? Tanto que no disco “trilhas brasileiras” as flautas são impecáveis!

Heloisa Tapajós: E o Ian Guest na sua formação?

Alberto Rosenblit: O Ian Guest foi uma outra sacada da Wilma Graça. Em 1980, a Wilma sugeriu que eu fosse ter aulas com o Ian Guest. E um dos grandes baratos desse contato com o Ian foi que ele formalizou coisas que eu até já sabia. Ele organizou o meu pensamento. Esses são os quatro pilares da minha formação: Wilma, Esther, Odette e Ian.

Heloisa Tapajós: E como foi o início da carreira profissional?1

Alberto Rosenblit: Bom, teve participação em festivais de escola e atuação em grupos. Meu primeiro grupo foi a Banda de Lá, de músicos do Rio e de Niterói, em 1977. Eu fui como flautista e como arranjador, ao lado de Ricardo Rente, Ricardo Conde, Daniel Garcia, Márcio Bahia, Fátima Guedes e Paim, que se revezava com o Conde no piano. Nós tocávamos composições próprias. Quando o Paim se desligou do grupo, eu assumi o piano. Pouco tempo depois, eu ainda estava na faculdade, fui convidado pra integrar o Desbundeto, que depois se transformou no Céu da Boca. Naquela época, o grupo era basicamente vocal. E eu tinha contato com o Jaquinho (Morelenbaum), o Paulinho Pauleira, o Claudio Nucci, o Mario Adnet,… E as músicas do Mario me deixavam louco! E veio a vontade de fazer o meu disco, porque eu continuava compondo. Chamei o Mario pra gravar um disco comigo e convidei André Tandeta, Daniel Garcia, Beto Barroca, Zé Luís, Leo Gandelman, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Céu da Boca, Boca Livre, o Gordo, Tetê…

Heloisa Tapajós: Esse LP foi considerado pelas rádios um dos melhores discos instrumentais da época, né?

Alberto Rosenblit: É. E o LP gerou alguns convites: um arranjo pro primeiro disco do Céu da Boca, dois arranjos pro disco do Juca Filho, a trilha sonora da peça “Os polícias”, em parceria com o Juca Filho… E em 1981, o Menescal me convidou pra assumir a direção musical de shows da Nara Leão. Eu trabalhei com ela até o ano seguinte, quando fui convidado pra fazer a direção musical do primeiro disco solo do Zé Renato, “Fonte da vida”, que tem participação de Toninho Horta, Hugo Fatoruso, Nelson Ângelo, Robertinho Silva, Ricardo Silveira… Esse disco tem um clima de encontro e esse trabalho foi encantador pra mim. Nessa época, o Brasil estava vivendo o final da ditadura e rolava uma efervescência do “big business”, uma grande euforia no mercado. E eu fui convidado pra tocar com a Joanna. Eu nem tinha teclado, era pianista, mas acabei comprando um DX-7. Aí, em 1985, pintou uma oportunidade de viajar a Nova York pra comprar equipamento de gravação de quatro canais. E comecei a gravar umas coisas minhas em casa. Um dia, eu estava trabalhando num tema em casa quando toca o telefone. Era a secretária da Simone me sondando sobre a minha disponibilidade para acompanhar a Simone em uma temporada de um mês de shows no Japão. Eu topei na hora. Aproveitei pra trazer mais equipamentos de lá. O maestro da Simone, nessa época, era o Cristóvão Bastos. Outro privilégio ter convivido com o Cristóvão, que é generoso, te ensina coisas… Eu toquei com a Simone até 1989.

Heloisa Tapajós: E como foi o início do trabalho em televisão?

Alberto Rosenblit: Como eu estava dizendo, eu fazia umas gravações com aquele equipamento de quatro canais e copiava em fitas K7 que eu distribuía por aí. Uma dessas fitas caiu nas mãos do Roger Henri, que me convidou pra trabalhar em composição de vinhetas pra TV Globo. Ainda tocando com a Simone. Trabalhei com o Francis (Hime), o Quarteto em Cy, a Olívia Hime… Depois, na TV Globo, rolaram uns trabalhos pro “Tarcísio e Glória”, “Vale tudo”, “TV Pirata”, “Os trapalhões” … Aí, começa o ciclo de trilhas sonoras. Eu acompanhei cantores até 1990, quando toquei com o Gut e o Sá (Sá e Guarabyra), trabalhei como diretor musical deles… Depois o Wagner Tiso estava fazendo a trilha da minissérie “Meu marido” e me convidou pra ser assistente dele. Ainda trabalhei com ele na minissérie “O sorriso do lagarto” e um tempo depois fui convidado pra fazer, na TV Manchete, “Floradas na serra”, meu primeiro trabalho próprio em trilha sonora de televisão, e depois “O Guarani”. Em 1991, eu fiz um trabalho pra novela “O dono do mundo”, na TV Globo e, no ano seguinte, o Mariozinho (Rocha) me convidou pra integrar a equipe de produtores musicais de trilhas sonoras da TV Globo, como contratado da emissora. Eu comecei trabalhando com o Guilherme Dias Gomes na novela “Perigosas peruas” e com o André Sperling na novela “Vamp”. Em seguida, fui escalado pra ser o produtor musical de “Você decide”, que estava sendo implantado. Trabalhei durante todo o ano de 1992 nesse programa. Em 1993, produzi “Retratos de mulher”, seriado do Del Rangel. Nesse ano, ainda fiz as minisséries “Agosto” e “Madona de cedro”. Aí veio a minissérie “Incidente em Antares”, um trabalho inteiramente autoral. Compus todas as músicas. E quando eu estava sonorizando “Incidente em Antares”, fui chamado pra fazer a novela, “Irmãos Coragem”, com direção do Luiz Fernando Carvalho. Esse foi meu primeiro trabalho em “obra aberta”. Porque a novela tem uma sinopse, mas pode haver alterações ao longo da exibição. Aí a estrutura é bem definida. Tem o disco da novela, que são as músicas cantadas, trilha oficial da novela. Essas músicas geram arranjos porque são temas de personagens. E tem a trilha original. Porque o CD sai com 14 músicas mas existem 50 personagens. Então, eventualmente é necessária uma música para aquele personagem que não tem música no CD. Então você tem que compor uma música incidental que vai tocar para aquele personagem. Então, você faz esse pacote de músicas especiais que formam a trilha sonora original, com essas músicas e com as músicas compostas em cima daquelas que estão no CD da novela. Essa música é incidental e instrumental. E é muito usada porque a novela tem diálogo e o diálogo não pode ser sublinhado por música com letra. E com a música instrumental, o diálogo rende. E só quando eu fui fazer “Irmãos Coragem” é que eu entrei em contato com isso. E logo em seguida, eu fui chamado pra fazer a novela “Explode coração”. Foi aí que eu comecei a entender melhor o esquema de fazer a música especial, mas eu ainda me colava mais na música do CD e fazia uma avaliação do tema. Aí veio o seriado “A justiceira”, muito rock’n’roll, e eu chamei o Victor Biglione. Eu compunha uns riffs e chamava o Victor pra completar comigo as coisas. Resultado: acabei compondo rock’n’roll com o Victor Biglione… (risos) Em seguida, eu fui chamado pra fazer “Por amor”. Nessa novela eu comecei a entender que a música conta a história junto com o autor. E esse é que é o grande barato da trilha sonora. Depois fiz “Torre de Babel” e “Suave veneno”. Ufa! Foram três seguidas! E logo que eu acabei meu trabalho nessa novela, eu comecei a gravar meu CD. E em seguida veio “Laços de família”, cujo parâmetro era Tom Jobim.

Heloisa Tapajós: Esse trabalho tinha uma identificação maior com a sua estética…

Alberto Rosenblit: Pois é. Porque eu ouço Tom Jobim todo dia. Então ali era a minha praia… Deu muito trabalho mas foi um prazer! Eu estava pleno. Termina “Laços de família” e vem a minissérie “Presença de Anita”. E aí eu acho que eu fiz meu melhor trabalho de composição. E teve muita coisa acústica. Foi um momento profissional magnífico. Depois fiz “Coração de estudante”, fui ouvir de novo o disco “Milagre dos peixes”… Compus uns forrós mineiros… Gostei muito desse trabalho, também. E agora eu estou fazendo “Mulheres apaixonadas”.

Heloisa Tapajós: Fala um pouco de “Mulheres apaixonadas”…

Alberto Rosenblit: Eu acho que levei a experiência do meu trabalho em “Trilhas brasileiras” pra “Laços de família”, “Presença de Anita” e, isso pra mim fica muito claro agora, “Mulheres apaixonadas”, no sentido de expressar a linguagem que eu acho mais adequada. Na verdade, o meu CD foi o resultado do trabalho que eu vinha desenvolvendo em trilhas sonoras e, por outro lado, foi o ponto de partida para os trabalhos seguintes na televisão. Quando eu peguei nas mãos o meu disco, eu pensei: “Cheguei no ponto de partida”, no sentido de encontrar uma linguagem concisa nas idéias musicais. Existe um set de temas e arranjos que eu compus pra “Mulheres apaixonadas” que me agrada muito…

Heloisa Tapajós: Com relação ao seu trabalho na TV Globo, você ainda compôs o tema de abertura de “Você decide”, né?

Alberto Rosenblit: É, eu tive a sorte de compor o tema de abertura de “Você decide”, que ficou muito tempo no ar.

Heloisa Tapajós: E o tema de abertura do “Programa do Jô” também é de sua autoria.

Alberto Rosenblit: Também. Esse tema foi gravado com metais em estúdio.

Heloisa Tapajós: E como é o processo, a metodologia de trabalho, nesse caso de novela, que fica tantos meses no ar?

Alberto Rosenblit: Bom, geralmente eu estou concentrado de 13hs às 21hs, ou fazendo a música, ou fazendo o arranjo, ou fazendo a mixagem, ou produzindo alguma coisa. Agora, tem dias que eu vou até mais tarde…

Heloisa Tapajós: E qual é a diferença entre compor pra sua própria carreira e compor pra televisão?

Alberto Rosenblit: Essa é a questão: eu sou mais da música aplicada do que da música teórica. Eu posso até eventualmente fazer uma música em cima de uma escala. Mas o ponto de partida nunca é esse. Sempre é alguma coisa que aconteceu, alguma coisa que eu estou imaginando… Sempre tem alguma coisa cotidiana, um sentimento, um fato, que é a mola propulsora. Ora, quando você está trabalhando com trilha sonora, a imagem já está ali. Eu acho que não tem muita diferença quando eu faço uma música pra minha carreira ou pra trilha sonora de um produto porque eu estou sendo eu do mesmo jeito. É lógico que quando você está fazendo pra trilha sonora, às vezes você faz segundo um certo parâmetro: música pra comédia ou alguma coisa com inspiração jobiniana…

Heloisa Tapajós: Tipo a trilha de “Presença de Anita”, cujo protagonista era apaixonado pela música de Villa-Lobos…

Alberto Rosenblit: É. Eu tentei fazer alguma coisa em cima desse sentimento pra compor o perfil musical adequado. Então é isso. Eu tenho parâmetros a seguir. Trilha sonora é a música certa no momento adequado. A frase do diretor que não existe nesse trabalho é: “Linda aquela música que você fez que não tem nada a ver com a minha imagem”.

Heloisa Tapajós: E a música é decisiva no sentido de despertar determinada emoção em determinado momento, né? Em televisão, cinema, teatro… É uma parceria com a emoção do próprio texto…

Alberto Rosenblit: Mas isso tem uma dosagem. Às vezes você precisa da música pra sublinhar, às vezes você precisa da música pra contrastar.

Heloisa Tapajós: E quem decide isso é o produtor musical?

Alberto Rosenblit: Não, é o diretor.

Heloisa Tapajós: Mas tem uma conversa constante do produtor com o diretor ao longo da novela?

Alberto Rosenblit: Tem que ter. O diretor dá o tom dois meses antes (da estréia). Aí, começa a novela, tem os ajustes, a manutenção, mas o tom já está dado. Uma vez eu vi um documentário sobre o John Williams, no qual ele diz: “A trilha não é do compositor, é do diretor.” O compositor é uma ferramenta pro diretor. Ele é um cara que sabe fazer música, o diretor não sabe. Então, o diretor pede ao compositor pra fazer aquilo que ele está pensando. Se o compositor faz fora do que o diretor está pensando, o compositor está errando. E cai naquele negócio: “Linda aquela música que você fez, que não tem nada a ver com a minha história…” O compositor tem que ajudar a contar a história.

Heloisa Tapajós: E ajuda muito, né? A cena a seco é outra história… Lembra quando a gente estava conversando sobre aquele documentário que passou na televisão, que mostra a cena de…

Alberto Rosenblit: … “Marnie”, do Hitchcock.

Heloisa Tapajós: “Marnie”. Rola a cena da perseguição no carro sem a música e depois com a música. É totalmente diferente! Impressionante!

Alberto Rosenblit: Sem a música, parece que a moça está indo fazer compras no supermercado… (risos) Não tem preocupação alguma…

José Roberto Schmmelpfeng: Se você pensar no cinema mudo sem a música…

Heloisa Tapajós: É estranho que a vida real não tenha trilha sonora, né?

José Roberto Schmmelpfeng: Mas tem. Você pode não atentar pra isso no momento, mas em algum ponto do futuro isso vai voltar aos turbilhões.

Alberto Rosenblit: Tem uma música ali, né? Nem que seja o ruído da rua…

Heloisa Tapajós: Mas eu estou falando da música como um componente a mais da emoção naquele determinado momento…

Alberto Rosenblit: Mas tem. Sabe por que? Porque às vezes você está andando na rua e pensando em uma música…

Heloisa Tapajós: Ah, sim, você elege uma trilha sonora. A vida tem uma trilha sonora, mas que não foi criada…

Alberto Rosenblit: … para aquela cena.

Heloisa Tapajós: Claro. A música é um negócio fantástico. Porque quando você ouve de novo uma música, você volta àquele momento em que essa música estava muito presente no seu cotidiano.

Alberto Rosenblit: Isso que você tá falando me fez lembrar agora de uma coisa que eu vivi com o seu irmão. O Mú uma vez me mostrou um choro que ele fez. E eu acho que eu só relaxei depois que fiz “Domingo”… (risos) Aquele negócio mexeu comigo. Que choro mais moderno!

Heloisa Tapajós: Que choro inspirador terá sido esse? “Espírito infantil”?

Alberto Rosenblit: Pode ser… Ele apresentou uma proposta de choro tão moderna! Era uma estética que eu desconhecia. Tinha uma influência de Yes, Genesis, junto com choro, Ernesto Nazareth. Ele embrulhou tudo e mandou bem às pampas! (risos) Era uma coisa progressiva e ao mesmo tempo muito brasuca! O Mú não é mole, não! Isso que ele fez agora com o “Tico-tico no fubá”, do Zequinha de Abreu… Ficou um caso sério.

Heloisa Tapajós: Alberto, eu ouvi do Marcos Nimrichter que, no processo de criação dele, a concepção do arranjo vem simultaneamente com a composição da música. Como acontece na área erudita.

Alberto Rosenblit: Mas é isso mesmo… Tem músicas que a gente já pensa na vertical.

Heloisa Tapajós: Eu estou te perguntando isso pensando especificamente no seu CD “trilhas brasileiras”. Aqueles arranjos maravilhosos! Fala um pouco desse disco tão lindo…

Alberto Rosenblit: Tem músicas ali que foram compostas em 1982, 1984, 1988, 1990… E outras eu compus especificamente pra esse disco, como “Gershwiniana”, que eu fiz pro meu amigo Vittor Santos, “Os meninos” tem uma parte que eu fiz quando meu filho nasceu, em 1988, e completei depois com a parte da Nina (a filha caçula).

Heloisa Tapajós: Nesse seu disco, a gente vê imagem o tempo todo, né? Essa música bateu em mim de uma forma tão incrível que, mesmo que não tivesse esse nome, seria mesmo “Os meninos”. Os meus meninos. Porque o clima todo que você vê ali, de aventura de crianças, e que termina com o tema de ninar… A imagem está toda na música…

José Roberto Schmmelpfeng: E por que essa distância de 20 anos entre seus dois discos?

Alberto Rosenblit: Bom, lanço um disco em 80, acompanho cantores, parto pra coisa da trilha sonora, que é um barato, que é, talvez, “o barato”, e essa história começa a ficar meio secundária. Mas continuo compondo e algumas coisas vão ficando no balaio… E dá vontade de gravar, só que não tem gravadora. O mercado está fechadinho, ninguém banca, acham que não é música comercial: “É muito bonito o seu trabalho mas…” Mas, mais do que tudo isso, vai dando uma vontade de mostrar seu trabalho, sim. E, em determinado momento, você tem uma disponibilidade financeira e começa a pintar espaço pra pensar nisso. E aí eu pensei: “Eu preciso de um produtor”. Eu pensei no Vittor (Santos) e ele topou no ato. Ele veio até o meu estúdio, eu mostrei algumas coisas… Em “Na rua sol maior” (dedicada a Wilma Graça), ele concebeu a idéia de que eu gravasse a música inteira só como pianista, como se eu estivesse mostrando a composição pra minha professora, e depois de um pequeno especial repetisse a melodia com as clarinetas e as cordas, pra mostrar à professora como a música se transformou com o arranjo… Isso é um produtor! “Comboio Brasil” nasceu naquela época. E eu falei pro Vittor: “As músicas que pedirem Orquestra Sinfônica, é com Orquestra Sinfônica que eu vou fazer!” A idéia do disco foi amadurecendo e agora eu estava me sentindo preparado pra escrever pra grande orquestra.

Heloisa Tapajós: E “Comboio Brasil” está no lugar certo. Fecha o disco, deixando o ouvinte totalmente impactado!

Alberto Rosenblit: E isso é coisa de produtor. E quando eu terminei a gravação dessa música, pintou o sentimento de que, depois dela, nada mais a dizer nessa conversa.

Heloisa Tapajós: É a hora da galera levantar e bater palmas… E foi muito bem sacada, também, a faixa de abertura. Porque “De bem com a vida” te captura e te instiga a continuar ouvindo o disco.

José Roberto Schmmelpfeng: Essa música é o Alberto Rosenblit. Eu tenho duas músicas favoritas no disco: “Blue window” e “Happy end”.

Heloisa Tapajós: “Happy end” é bem Hollywood, né?

Alberto Rosenblit: Eu vinha de uma viagem a Nova York, onde eu assisti a “Fantasma da Ópera”, a “Crazy for you” e a outros espetáculos e a-do-rei!

Heloisa Tapajós: A brazilian in America… (risos)

Alberto Rosenblit: Tudo eu adorava. E cheguei com essa carga de Broadway e aí: pimba! (risos) Bem Gershwin, né?

Heloisa Tapajós: O seu disco tem mesmo esse tripé: Gershwin, Tom Jobim e Villa-Lobos.

José Roberto Schmmelpfeng: E a qualidade de estúdio é altíssima.

Alberto Rosenblit: Quando chegou a fase de estúdio, algumas músicas já existiam e eu estava terminando “Comboio Brasil”. Aí, eu falei pro Vittor: “Não sei tudo o que vou gravar, mas sei que vou gravar agora o que já sei que vou gravar.” O Vittor gostou da idéia. Gravei seis músicas em dez dias, o Guilherme (Dias Gomes) falou que podia mixar em janeiro, e realmente só podia ser em janeiro porque minha filha ia nascer e quando ela nasceu eu dei uma parada pra curtir minha filha. Eu adorei a mixagem do Guilherme. E ouvindo o que já estava gravado, eu pensei: está faltando uma bossa nova. E compus “Vargem Grande”. Gravei “Saudade da Roseira”, “Os meninos”, que já existia mas ganhou uma complementação, e como o Vittor queria uma faixa só de piano, entrou “Blue Window”.

Heloisa Tapajós: O disco tem uma dinâmica perfeita.

Alberto Rosenblit: “Blue Window” tem quase uns sete minutos.

Heloisa Tapajós: Essa música é maravilhosa. E é a assinatura do pianista.

Alberto Rosenblit: É pra dar um descanso, tipo: se prepara que vem chumbo grosso aí… (risos)

Heloisa Tapajós: Eu conheço muita gente que elege essa música como favorita. Porque além da beleza da composição, a interpretação tem uma intensidade…

José Roberto Schmmelpfeng: Esse disco, com certeza, vai ficar marcado como “o seu disco”. Porque a sua história está toda nele. É a trilha sonora da sua vida.

Alberto Rosenblit: Mas é muito isso, mesmo. “Na rua Sol Maior” é pra Wilma (Graça), “Domingo” é pra minha mãe, “Gershwiniana” é pro Vittor (Santos), grande amigo meu, “Os meninos” é pros meus filhos, “Blue Window” é pra minha mulher, “Comboio Brasil” é pro Tom (Jobim) e pro Villa-Lobos…

José Roberto Schmmelpfeng: “De bem com a vida” é a sua cara…

Alberto Rosenblit: Pois é, era isso que eu ia falar. “De bem com a vida” eu fiz pra mim, cara! (risos) Quando eu mostrei essa música pra minha mulher, eu pedi: “Marcia, dá um nome pra essa música…” Ela falou: “De bem com a vida”. Não era outro nome. Ela já nasceu assim: de bem com a vida.

José Roberto Schmmelpfeng: Esse vai ser sempre o seu disco.

Heloisa Tapajós: É, vai ser sempre uma referência. Sempre que você ouvir o trabalho dele, você vai voltar a esse disco.

Alberto Rosenblit: Isso é muito bom…

Heloisa Tapajós: Eu queria lembrar também a sua participação recente no CD “Reencontro”, homenagem ao Luizinho Eça. Apesar de vários arranjadores, existe uma identidade…

Alberto Rosenblit: … via Luizinho.

Heloisa Tapajós: Via Luizinho. Alberto, muito obrigada pela entrevista, em nome do “Alô Música”, e pelas emoções que você desperta em todos nós com a sua estética da delicadeza…