Vasco Debritto

Por: Solange Castro

Vasco Debritto é paulista, com jeito de carioca, e creio que um dos maiores compositores da música brasileira. Com um toque “Jobiniano”, suas obras são daquelas que chegam fácil às nossas artérias, nos fazendo pulsar com delicadeza.
Além de compositor e músico, é dono da Koala Records, Selo bi-nacional (Japão-Brasil), além de ter um papo delicioso…
Com vocês, Vasco Debritto.

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Vasco, que bom você aqui no Alô…
Vamos lá, nos conte sobre sua carreira…

Vasco Debritto – Solange, eu é que acho muito bom estar por aqui e aproveito para agradecer a oportunidade.
Bom, comecei a fazer música, quero dizer, compor, com 15 ou 16 anos.
Comecei a aprender música com 13 anos, aprendi um pouco sobre teoria e harmonia e iniciei com violão clássico, dai descambei para o popular, sob influência de Beatles e outras bandas daquela época, passei a tocar guitarra.
E só pensava em cantar em inglês rs….
Mas aos poucos fui sendo absorvido pela música brasileira, graças ao acervo musical que tínhamos em casa, minha família sempre gostou de música e muitos tios e tias, e minha mãe também, cantavam e tocavam algum instrumento e tínhamos todos os discos de artistas que estavam despontando no cenário nacional , assim como os dos já consagrados…
Isso ia de Vicente Celestino a Tom Jobim, passando por inexploradas galáxias como Jorge Ben , Chico Buarque, Caetano Veloso e milhões de anos luz.
O ponto mais marcante pra mim foram os festivais da Record, onde foi que decidi mesmo que queria fazer aquilo, ou algo similar aquilo. Claro que tive que esperar um bocadinho, pois meu pai queria muito que eu fosse engenheiro, fui lá, fiz o curso na Gama Filho, mas não deu pra mim não…
Depois de um tempo abandonei tudo e fui fazer música

Solange Castro – E como foi sua ida para o Japão?

Vasco Debritto – Como já lhe disse eu vivo de música aqui, vim pra cá a convite do Consulado Geral do Japão em 1984, tocava numa casa de Musica Brasileira chamada Copacabana, na cidade de Kobe. Depois disso fiquei indo e vindo (Brasil-Japão) peregrinando por várias casas de música brasileira por aqui, passei pela Europa no ano de 1991 e depois voltei pra cá, firme no propósito de gravar um novo álbum, já que o último tinha sido em 1986 e nem chegou a ser comercializado por vários motivos, entre eles a posse do “master tape”, mas isso não vem ao caso. Continuei compondo como sempre, mas tendo que sobreviver segui tocando na noite, gravando jingles e tantas outras coisas, mas raramente incluía algum número meu.
Em 1990 cheguei a trazer um banda do Brasil pra cá e naquele ano fizemos muitos shows só com nossas músicas inéditas – claro que não podíamos fechar os ouvidos para “Aquarelas e Garotas”, o que não é demérito algum até honra.
Em 1996 fui convidado para escrever as letras de um Cd de uma brasileira residente no Canadá que seria lançada aqui, acabei escrevendo 10 ou 8 (não me lembro) das 13 do álbum e ainda ajudei na produção (Ai, minhas costas!) No ano anterior já havia gravado fazendo backing vocal em Cds de cantores japoneses, depois disso escrevi, entre letra e música, umas trinta canções para outros interpretes.
Em 1999 lancei o CD “Visions” pelo sêlo Koala Records e em dezembro de 2001 o CD “Praia dos Corais” pela major Polistar. O álbum “Visions” foi indicado para o prêmio “Disco de Ouro da Musica Brasileira” no Japão, concorrendo com os grandes nomes, como Caetano, Milton, Vinícius Cantuária, e ficando em quarto lugar dentre os 20 relacionados.

Solange Castro – Bem, tenho os dois e o prêmio do “Visions” não veio por pouco, o CD é simplesmente perfeito! Bem, continue…

Vasco Debritto – Desde 1995 tenho feito shows com uma banda regular que tem como músicos Australianos, Brasileiros, Americanos e Japoneses. No lançamento de “Praia dos Corais” coloquei no palco 11 músicos, incluindo eu.
Durante esse período, desde que cheguei até agora, fiz de tudo um pouco. No principio, quero dizer, pelos fins dos 80, o Japão viveu uma euforia econômica chamada de “Buble”; bolha, tudo era muito farto, muito trabalho, foi uma loucura. Nesse tempo tinha muitos shows de samba com mulatas, baianas e tudo mais que você possa imaginar e como a matéria prima “músico” era escassa, cheguei a tocar tamborim, surdo, agogô, tudo que é percussão. Houve um período também, quando a “bolha” começou a murchar, que a barra pesou, pois começaram a cortar todos os gastos; o governo suspendeu o incentivo à cultura, ao lazer e entretenimento, e ai não tinha mais shows, as casas noturnas reduziram as pagas, assim como o número de músicos na banda que era contratada, foi um caos, mas passou.
Sobrevivi. Mas devo confessar. Foram dias difíceis, e tem uma passagem muito pitoresca. Meu amigo, pianista australiano Peter SaintLedger, grande músico por sinal, amante e grande conhecedor da música brasileira, me chegou um dia e disse assim: “- Consegui um bico pra sobreviver, estás a fim?” Eu disse: “- Oba! Pra já , de que se trata?” Ele ficou meio encabulado mas foi logo dizendo: “- A paga é boa, mas não tem nada a ver com música…” Bom, a essa altura tudo que viesse era lucro. “- Diga logo”, eu disse. Ai veio a bomba! “Celebrar casamentos” hehehe… Estava na moda aqui no Japão , entre os japoneses, casar em capelas estilo ocidental, e como não havia padres de verdade por aqui, por um período fui
Doublé de padre casamenteiro. Chegava a celebrar 3 ou 4 casamentos numa manhã, com todos os paramentos e a Biblia na mão.

Solange Castro – Gente, que loucura – rs… Inédito, Vasco – rs…
Nos fale agora sobre “compor” – suas obras são lindas, o que te inspira? Como funciona essa magia poética em você?

Vasco Debritto – Quando a gente se põe a compor, há que se ter uma abstração total, um estado de êxtase um tanto quanto inexplicável… Sinto que se abrem algumas frestas que normalmente são impercebíveis, depois de feito o contato é sentar e aparar as arestas.

Solange Castro – Quantos discos, quantas músicas gravadas, enfim, uma breve estatística da sua obra…

Vasco Debritto – Estatísticas, lá vem as exatas novamente. Bom são 4 álbuns solo e 2 singles. Tenho aproximadamente umas 100 musicas gravadas…

Solange Castro – E a Koala Records, como começou?

Vasco Debritto – Bom, primeiro vou esclarecer o porque do selo se chamar Koala.
Existe uma lenda entre os aborígenes australianos que diz que o Koala é o protetor da alma das crianças desaparecidas, pensando nisso, que aqui não vá nenhuma arrogância, pensei em fazer que a Koala Records pudesse cuidar da alma (música) dos músicos desaparecidos do grande público…

Solange Castro – Em números, o que é a Koala hoje?

Vasco Debritto – Temos aproximadamente 30 álbuns lançados desde 2003, efetivamente.

Solange Castro – O que está por vir? Primeiro sobre a sua carreira como artista, quais os projetos?

Vasco Debritto – Estou com 20 e tantas músicas prontas para serem selecionadas e lançadas ainda esse ano…

Solange Castro – E a Koala, o que promete para 2008?

Vasco Debritto – A Koala vai começar o ano de 2008 com um grande presente de Natal. Lançamos dia 19 de dezembro um DVD inédito de Antonio Carlos Jobim, esse DVD é do show que Tom fez na quadra da Mangueira em novembro de 1991, que foi mostrado em parte pela TV Manchete . Temos também uma série de lançamentos comemorativos aos 50 anos da Bossa Nova e novos artistas. Além do contrato fechado com o iTunes, para lançamento digital em todo o mundo.

Solange Castro – Vasco, muito obrigada… Um luxo poder entrevistá-lo aqui do outro lado do mundo – rs…
Boa sorte, um grande ano pra você e não deixe de mandar as novidades para o Alô… Um grande abraço.

Janeiro de 2008.