Paulo Rego

 

Uma das mais gostosas surpresas do Rio de Janeiro é encontrar o grupo
“No olho da rua” em Ipanema… Quantas vezes tive o privilégio de, a caminho da praia, ouvir a deliciosa música dos rapazes.
Há pouco tempo tive oportunidade de conhecer pessoalmente Paulo Rego, saxofonista do grupo, na RSMB – Rede Solidária da Música Brasileira (grupo de bate-papo virtual) e também pessoalmente, quando fui presenteada com os dos discos do grupo… São ótimos… Fui convidada para ir vê-los tocar num quiosque na Lagoa Rodrigo de Freitas – noite de Lua, clima ameno, pessoas bonitas e música, muita música boa…
Com muita honra, Paulo Rego nos concedeu essa entrevista exclusiva… Conheçam de perto esse músico maravilhoso e a história do grupo
“No olho da rua”…

Solange Castro

Solange Castro – Alô, Paulo… Você é saxofonista – quando você começou a viver a música?

Paulo Rego – Comecei muito cedo. Aos 10 anos com um velho violão do meu pai. Com ele iniciei minha experiência musical

Solange Castro – Você estudou ou é autodidata?

Paulo Rego – Sô! Eu comecei tocando violão de ouvido e meu grande estímulo era compor pequenas coisinhas. Peças curtas e instrumentais. Aí apareceram outras crianças na escola. Gostavam de escrever. Pintaram algumas letras e venci um primeiro festival aos 11 anos (Colégio Rio de Janeiro). Só fui estudar música aos 25 anos de idade, quando comecei a tocar saxofone e flauta.

Solange Castro – Nossa Paulo, começastes tão cedo… E quando começou a trabalhar com música?

Paulo Rego – Ah! Não me lembro bem. Só sei que precisei de uma emancipação do meu pai. Fui tocar em um barzinho. Violão e voz. Devia ter uns 16 anos. Fiquei até uns 23 compondo e cantando coisas minhas e de compositores que admirava (e ainda admiro). Passei por diversos Festivais e coisas do tipo, mas os bares eram a fonte de grana e conhecimento

Solange Castro – Quais são seus “mitos” na música? De quem tens mais influência?

Paulo Rego – São muitas as minhas influências. Muitíssimas. Desde pessoas desconhecidas até os grandes nomes. No início não tinha influência alguma. Não conhecia praticamente nada de música aos 10 anos. Gostava do violão e ele era meu amigo. Com quem passava meu tempo brincando. Era isso. A música era o meu brinquedo.
Depois fui percebendo o que havia em torno e comecei a perceber e gostar de alguns músicos. Os primeiros que aprendi a gostar foram o Mão-de-Vaca, violonista maravilhoso e o Jacob do Bandolin. Cresci, passei por diversas outras influências. Toquei com grupos vocais, conheci o Carlinhos Malta, ouvi os nordestinos, ouvi Rock, ouvi jazz, etc… Hoje posso dizer que desse caldo todo, percebo fortemente em mim a presença de Tom Jobim e Idriss Boudrioua (saxofonista francês com quem estudei e grande pessoa humana). Acho que é isso.
Talvez eu seja mais compositor do que saxofonista. Gosto muito do Tom e da forma como ele viveu. Da forma como ele via e interagia com o mundo.

Solange Castro – Realmente Tom além de um senhor maestro era um ser maravilhoso… E que sorriso tinha o mestre…

Paulo Rego – Era um exemplo de dedicação à arte. Sob todos os prismas. Principalmente à arte de viver. Como não fazer belas composições vendo o mundo como ele. Tinha um canal direto com o divino. E trazia mensagens do alto para todos nós que sintonizávamos a mesma freqüência. É óbvio que não era (e não é) o único com esse maravilhoso dom, mas talvez seja o que esteve mais próximo de nós cariocas.
Voltando à pergunta anterior não podia deixar de citar uma outra grande influência, principalmente na minha acentuação ao saxofone e nas minhas composições recentes: o baterista Theomar Ferreira.
Solange Castro – E você sempre trabalhou com música?

Paulo Rego – Sempre.
Não há como largar esse vício né!

Solange Castro – Rs… E quantas músicas tens compostas?

Paulo Rego – Não tenho uma produção muito grande não.
A necessidade de tirar a graninha do mês com certeza impede que a gente se dedique mais ao prazer de compor. São aulas, festas, e um monte de outros compromissos não tão “lúdicos” que ocupam muito o nosso tempo né?! Além de tudo temos que estar sempre correndo atrás. A gente é um pouco músico, um pouco empresário, um pouco professor, um pouco administrador e, quando sobra um tempinho para respirar, um pouco compositor.
Bom, respondendo à sua pergunta. Tenho umas quinze músicas gravadas, cinco que serão gravadas, umas vinte esquecidas e umas quarenta esperando oportunidade. Somando tudo deve dar umas 80 né?

Solange Castro – Um belo número para quem não tem “tempo” – rs…
Agora nos conte – como começou a idéia do “No olho da rua”?

Paulo Rego – Esse negócio de músico é assim: a gente se amarra em fazer um som. É como quem gosta de papear. O som é o nosso melhor papo. Pois é! Éramos quatro caras que estávamos sempre juntos. Unidos pelo mesmo gosto musical. Cada um trabalhava com pessoas diferentes e em Escolas de Música diferentes, no entanto sempre nos encontrávamos em determinados shows e, enfim, percebemos ter algo mais em comum, além de sermos músicos. Em nossos papos aprendemos mais uns com os outros e, num determinado momento eu e o Roberto fomos convidados para tocar juntos, acompanhando a Andréa Montezzuma (que você conhece bem). Daí ela precisou de um baterista e nós chamamos o Theomar. Já éramos três. Pela primeira vez tocávamos juntos. Após algum tempo de amizade.
O negócio foi bom!
Alguns dias depois fomos pra casa do Theomar. Eu o Roberto e o Xandy (que tocava com Xequerê). Conversa vai conversa vem. Som na vitrola. Mais conversa. Teclado do Roberto ligado. Bateria já montada. Peguei o sax no carro… e não sei que horas paramos de tocar. Uma felicidade tremenda. Saiu fácil igual choro de alegria!
Daí veio a pergunta: “Por que não procurarmos um lugar pra gente tocar juntos?” Aí eu perguntei: “Por que não tocar na rua?” e aí o grande mestre Theomar responde a inesquecível frase: “Isso tem que ser feito!”. Depois dessa frase o silêncio abençoou a iniciativa e fomos pra praia…

Solange Castro – E lá se vão seis anos… Fantástica essa identidade…
E me diga – vocês faziam isso por puro prazer ou havia algum patrocínio?

Paulo Rego – Lá se vão seis anos de puro prazer mesmo!
Nunca recebemos nada de ninguém pra tocar na rua. Em nenhum lugar dos tantos que já fomos. Acho bom que seja assim. A independência permite que toquemos exclusivamente o que queremos e da forma como queremos. Hoje a gente ganha um cascalhinho de vendagem dos CD’s além de uma graninha que cai na caixa do saxofone. Mas o prazer é impagável. O prazer é inigualável!

Solange Castro – É muito bom – me lembro de vocês tocando na praia…
Mas o grupo também está tocando na noite, certo?

Paulo Rego – Que nada!
A gente faz uns biquinhos de vez em quando pela Lapa e pela Lagoa, mas nada fixo. Tô aceitando propostas. Ah! Pintou uma agora de Petrópolis! Vamos pras ruas Imperiais!

Solange Castro – É mesmo? Algum projeto da Cidade?

Paulo Rego – Não. Foi um dono de bar que passou na rua e viu a gente. Chamou e nós vai!

Solange Castro – Que bom!…
E quem é o empresário de vocês?

Paulo Rego – A gente está trabalhando com duas pessoas que têm uma firma chamada Mercado Cultural. São boas pessoas. Eles viabilizam nossas participações em Projetos da Prefeitura. Tipo “Aula-Espetáculo” e “RioArte”.

Solange Castro – Fale um pouco do repertório de vocês…

Paulo Rego – O repertório é todo de música brasileira e, como você sabe, a formação (piano, bateria, baixo e sax) é ótima para música instrumental, principalmente no estilo samba-jazz, tão famoso na década de 60.
Tocamos um pouco de Ary Barroso, Baden Powell, Luiz Eça, Johnny Alf, João Donato, Tom Jobim, e NO OLHO DA RUA.

Solange Castro – Gosto muito do trabalho, realmente vocês tocam muito…
E discos? Vocês têm dois – quando sai o terceiro?

Paulo Rego – Você continua gentil! Obrigado pelas suas palavras! Partindo da sua boca (ou melhor, dos seus dedos) é um grande elogio. Lisonja!
O primeiro CD foi completamente independente. Gravamos ao vivo em 2 dias. Todos tocando juntos no estúdio. Achei o primeiro bom trabalho que fiz. Curioso né. Nada escrito. Só alegria! Sem preocupação com nada e sem medo de ser feliz. Deu certo!
No segundo CD contamos com a parceria do Flávio Goulart e de seu selo Ethos Brasil. Corajosamente investiu, tempo e dinheiro, em nós e o resultado foi muito bom. Ficou um trabalho mais de estúdio do que o primeiro e talvez seja o que tenha as melhores composições do grupo.
O terceiro começa a ser gravado agora em abril e planejamos estar com ele pronto em outubro. Novamente com a Ethos Brasil e com o apoio ($$) da Mercado Cultural e da Musimundi (uma das escolas que dou aula). Dessa vez vamos gravar três canções do Tom e, só por isso, acredito demais!

Solange Castro – Ora, Paulo… Não fale assim que o povo acredita – estou nesse instante escutando teu segundo disco e é maravilhoso…
Tive oportunidade de ver vocês tocando juntos na Lagoa e foi um espetáculo a céu aberto – um show imperdível (aliás, qualquer hora dessas volto lá…)… Tenho certeza que composições de Tom Jobim somam em qualquer trabalho, mas, por favor, vocês são bárbaros…
E como conseguimos entrar em contato com vocês?

Paulo Rego – Sim, no Mercado Cultural – 9743-5684 (Iris) ou 9887-6386 (Ambrósio)

Solange Castro – E teus discos, são encontrados aonde?

Paulo Rego – Os CD’s estão à disposição na Modern Sound, Saraiva Mega Store, FNAC, Toca do Vinícius e pelos sites da Ethos Brasil e do No Olho da Rua

Solange Castro – E quais são teus próximos planos além da gravação do CD?

Paulo Rego – A gente preparou umas apresentações nas Escolas Municipais do Rio de Janeiro. Serão 20 apresentações em pontos diferentes, em um Projeto chamado “Aula-Espetáculo” em que tocamos para crianças e adolescentes do 1º Grau da Rede Municipal. No ano passado tocamos e contamos histórias num projeto que batizamos de “Tom Jobim – O maestro do Povo”. Esse ano vai ser “100 anos de Ary Barroso”. É maravilhoso e muito gratificante. Almas lavadas!
Além disso, temos um projeto sobre o mesmo Ary Barroso para ser apresentado em todas as seis Lonas Culturais e despontando, no dia 6 de novembro, data de seu nascimento, em um show na Sala Baden Powell.
Tem o lançamento do CD, em local ainda não determinado, mas que vai ser gravado e, provavelmente gerará material para um Ao Vivo. Legal por reduz bastante os custos e pega toda a energia das pessoas e nossa, na presença do nosso público. Aliás, acho que é essa coisa que é o barato do OLHO.

Solange Castro – Sim, vocês têm um contato ótimo com o público…
O que mais gostarias de falar para o povo do Alô?

Paulo Rego – Queria mandar um Alô pro povo do Alô e, se não for pedir demais, pedir pra que todos nos achem pelas ruas e, principalmente, Praia de Ipanema. Que apareçam e que levem pra rua a alegria e o sorriso que todos nós temos. Que esse prazer de viver e de estar juntos uns dos outros seja eterna e que nada possa abatê-la. Que a luz que brilha em nossas almas seja a chama viva de amor que o nosso mundo precisa. Queria dizer essas coisas todas pra que a esperança seja a grande vitoriosa da nossa caminhada por esse mundo, fazendo com que deixemos, todos, as nossas assinaturas nesse grande livro divino. Queria dizer isso tudo, mas talvez não seja a pessoa ideal pra falar essas coisas, portanto digo só MUITO OBRIGADO pela atenção de quem me leu.
Dêem graças à Sô pela existência dessa mídia e desse serviço maravilhoso. Só possível pelo tanto de amor pela arte e pelas pessoas, que ela, Sô, faz questão de doar. Gratuitamente. Como tudo que é feito com verdade e honestidade. Generosamente. Como tudo que se faz com amor.
Muita paz pra todos.
Muito sucesso Sô.
Obrigado!

Solange Castro – Nossa, Paulinho, muito obrigada… Nós é que precisamos te agradecer… Estamos vivendo numa cidade que está em guerra e vocês levando música e esperança para nós, nas ruas… Obrigada de verdade…

Paulo Rego – Valeu! Fico eu com o último obrigado!
Obrigado por me ensinar a mexer nessa geringonça…

Solange Castro – Por favor, nos envie sempre suas agendas – não deixe de fazer isso, pois será uma honra poder avisar aos nossos usuários todos as apresentações de vocês…